Sobre o centenário da Primeira Guerra Mundial
Foi há uma centena de anos que irrompeu a Primeira Guerra Mundial, uma
guerra que foi sem precedentes não só em termos de selvajaria e
escala de destruição de vidas humanas como também na sua
abrangência e na sua natureza. Há pelo menos três modos
pelos quais se diferenciou de todas as guerras anteriores.
Primeiro, não foi confinada a uma localização particular
mas cobriu, simultaneamente, uma enorme frente, estendendo-se desde o Noroeste
da Europa até a Mesopotâmia. Também Napoleão,
naturalmente, havia combatido numa guerra em que a frente havia mudado do
Egipto para a Rússia, mas ela mudava; as batalhas moviam-se de uma
localização para outra. Não foi uma enorme frente onde uma
guerra era travada em simultâneo, como na Primeira Guerra Mundial.
Em segundo lugar, foi uma guerra em que os combatentes não eram apenas
de uma ou duas potências europeias e sim de um grande número de
países de todo o globo. Muito embora os países colonizados
não fossem declarados oficialmente como combatentes, grandes
contingentes de pessoas destes países foram recrutados para combaterem a
guerra em prol dos seus mestres coloniais, um facto que Lenine considerou de
grande importância histórica uma vez que proporcionava tanto
treino militar como uma consciencialização do mundo a estas
secções dos povos colonizados.
Em terceiro lugar, foi uma guerra cujos fundamentos económicos eram
bastante palpáveis. Isto relacionava-se não apenas com o motivo,
nomeadamente a aquisição de uma maior fatia do globo como fonte
de matéria-prima real ou potencial e destino real ou potencial para
exportações de capital. Relacionava-se também com os
lucros dos grandes monopólios conluiados com o próprio
esforço de guerra. A relação desta guerra com o
capitalismo portanto era clara e notável, ao contrário do caso
das guerras napoleónicas em que fora uma grande
consideração a conquista
per se
a fim de instalar parentes e amigos do Imperador sobre tronos por toda a
Europa e portanto expandir, à maneira do velho feudalismo, a área
sobre a qual era extraída mais-valia.
Todas estas características e portanto a nova conjuntura que
produziu uma guerra com estas características foram apreendidas
com a máxima precisão por Lenine nos seus escritos
teóricos e, acima de tudo, na sua teoria do imperialismo. Embora a
teoria aproveite muito do trabalho de J.A. Hobson e Rudolph Hilferding, ela
constituiu uma totalidade de entendimento que era não só
sui generis
como também profunda. Na verdade não seria errado afirmar que
nenhum outro esforço teórico alguma vez apreendeu toda uma
conjuntura tão completamente.
A compreensão teórica de uma conjuntura deve também
apontar para a direcção da
praxis.
O desenvolvimento mais completo da teoria, como Lukacs certa vez observou,
é quando a teoria explode na prática. E isto foi exactamente o
que fez a teoria de Lenine. O facto de que o capitalismo, por meio da
operação da sua tendência imanente rumo à
centralização do capital, se tenha movido da "livre
competição" para a etapa do "monopólio"; o
facto de que isto tenha provocado uma mudança na natureza do Estado
capitalista; o facto de que em todo grande país capitalista se tenha
desenvolvido uma "união individual" entre grandes financeiros,
grandes industriais e pessoal de topo do Estado; o facto de que este conluio
glorificava a ideia da "nação" a fim de justificar uma
guerra para a re-partição de um mundo que já fora dividido
entre as potências principais, mas de uma maneira que já não
reflectia as forças que prevaleciam: tudo isto foi posto em
relevo para explicar a guerra e apreender a conjuntura. Mas a conclusão
que se seguia disto era directa e óbvia, assim como foi arrojada e
não
convencional no contexto da Segunda Internacional, nomeadamente de que a guerra
imperialista deve ser transformada numa guerra civil. Ao invés de matar
companheiros trabalhadores nas trincheiras por conta do conluio monopolista do
"seu próprio país", os trabalhadores de cada
país deviam voltar suas armas contra o domínio do seu
"próprio" conluio monopolista.
TRÊS PERGUNTAS CANDENTES
Este feito de cortar o fôlego, simples mas arrojado, proporcionava
respostas simultâneas para três perguntas candentes. A primeira
fora formulada por Eduard Bernstein: quando é que o capitalismo,
como
modo de produção tornado historicamente obsoleto, terá o
seu derrube na agenda? A resposta do próprio Bernstein era: quando rumar
para um colapso económico e uma vez que o capitalismo não
apresentava tais sinais e era improvável que viesse a apresentar, o
proletariado ficaria melhor ocupado a "reformar" o sistema
capitalista, dele obtendo mais concessões, do que se ficasse preso no
projecto fora de moda de um derrube revolucionário do sistema.
Muito estranhamente, a premissa de Bernstein de que a obsolescência
histórica do capitalismo precisava manifestar-se através de um
colapso económico foi aceite mesmo pelos seus oponentes no Partido
Social-Democrata alemão, mesmo entre aqueles pertencentes à sua
ala revolucionária como Rosa Luxemburgo que desenvolveu uma teoria da
acumulação de capital para argumentar a inevitabilidade de um
colapso final do sistema. Contra isto, a resposta de Lenine era que o
próprio facto de o capitalismo ter entrado num período de guerras
para a repartição do mundo era uma indicação do seu
carácter "moribundo", de que o capitalismo monopolista trazia
a revolução social para a agenda; de que era a véspera da
revolução social.
A segunda pergunta a que a teoria de Lenine dava uma resposta era: qual
deveria ser a atitude do movimento proletário em relação
à guerra? Dentro da Social-Democracia havia três respostas:
primeiro, havia os "sociais-chauvinistas" que simplesmente se
alinhavam atrás do "seu" respectivo conluio de
monopólios.
A seguir havia aqueles no "centro" como Karl Kautsy, os quais
adoptavam a posição de que conquanto não apoiassem a
agressão do seu próprio país particular, apoiariam a
defesa do seu país contra a agressão de outros países. E
finalmente, havia a Esquerda que era totalmente contrária à
guerra.
Mas mesmo dentro da Esquerda não havia posição comum. Rosa
Luxemburgo, por exemplo, havia proposto um movimento pan-europeu da classe
trabalhadora em favor da paz. A defesa de Lenine, que se tornou a
posição bolchevique, era não uma luta pela paz mas uma
luta contra a dominação do capital monopolista ao invés de
uma luta a favor do domínio do capital monopolista [local], contra
capitais monopolistas de outros países, que é o que a guerra
mundial implicava, portanto rompia em novo terreno e proporcionava a resposta
mais directa e mais prática.
A terceira questão à qual a teoria de Lenine proporcionava uma
resposta era: como é que a espécie humana faz para sair da
triste situação que levou à própria guerra? Isto
não era uma pergunta apenas face ao movimento da classe trabalhadora ou
face aos marxistas. A maior parte das pessoas pensantes, não apenas
marxistas mas mesmo pessoas pertencentes a outros quadrantes
ideológicos, tinha este sentimento de que um desenlace fora atingido,
que as coisas não podiam continuar no antigo modo e que alguma coisa
nova tinha de ocorrer. Mesmo um liberal anti-comunista como John Maynard
Keynes, num artigo em
The Yale Review
escrito em 1933, isto é, muito tempo depois de a Primeira Guerra
Mundial haver terminado, argumentou que, apesar de não concordar com o
caminho bolchevique, via a necessidade de um novo caminho. E Georg Lukacs, o
filósofo marxista, antes de se tornar marxista, havia escrito como se
segue em meio à guerra, antes da Revolução Bolchevique:
"...os dominadores Habsburg e os Hohenzollern derrotariam os Romanovs
nesta guerra, o que seria uma boa coisa; as democracias liberais ocidentais
derrotariam os dominadores Habsburg e os Hohenzollern, o que mais uma vez seria
uma boa coisa; mas então que nos protegeria das democracias liberais
ocidentais"?
Esta sensação de "alguma coisa em falta" foi
ultrapassada pela Revolução Bolchevique, razão pela qual
Lukacs se tornou-se um apoiante total da Revolução e aderiu
à causa revolucionária. E a teoria de Lenine já havia
formulado a resposta para este problema do "alguma coisa em falta".
Lenine acreditava que havia começado uma conjuntura
revolucionária, da qual a guerra era uma expressão. O tratamento
da Alemanha no pós guerra pelas potências vitoriosas, as quais
impuseram reparações incrivelmente maciças, foi, como ele
enfatizou diante da Internacional Comunista, citando "The Economic
Consequences of the Peace" de John Maynard Keynes, uma
confirmação ainda mais inequívoca do
"apodrecimento" do sistema. Isto não queria dizer que o
capitalismo "não pudesse mudar" a partir daí, mas que
esta questão de como o capitalismo poderia mudar para ultrapassar aquela
conjuntura era ociosa, escolástica: muito antes de o
capitalismo poder mudar para ultrapassar aquela conjuntura a espécie
humana teria derrubado o capitalismo.
Mesmo depois de a Revolução Alemã ter falhado e as
perspectivas de revolução na Europa se terem reduzido, Lenine
considerava uma revolução na Índia e na China e escrevia:
"Em última análise, o resultado da luta será
determinado pelo facto de que a Rússia, Índia, China, etc
representam a esmagadora maioria da população do globo".
A conjuntura de que Lenine falava, a qual era caracterizada acima de tudo por
intensa rivalidade inter-imperialista, perdurou, na forma exacta em que Lenine
a havia descrito, até o fim da Segunda Guerra Mundial, após a
qual houve um amortecimento desta rivalidade. Além disso, o capitalismo
reestruturou-se num certo número de modos para repelir a ameaça
revolucionária imediata à sua existência. Contudo, o
amortecimento desta rivalidade aumentou a ameaça para o campo
socialista, a qual finalmente levou a um colapso do socialismo sobre uma parte
substancial do globo.
AGRESSÃO IMPLACÁVEL CONTRA O CAMPO SOCIALISTA
Ao discutir as razões para este colapso há uma tendência
para colocar a culpa por ele exclusivamente sobre os problemas internos do
socialismo. Estes problemas certamente estavam ali, mas centrar exclusivamente
sobre eles tem o efeito de implicitamente sugerir que o socialismo é
tão pejado de problemas que é impraticável. O que falta
mencionar é a implacável agressão contra o campo
socialista, contra a União Soviética em particular, que foi
executada pelo imperialismo à medida que ele emergia e progressivamente
se fortalecia após a Segunda Guerra Mundial, com a sua rivalidade interna
amortecida. O que falta mencionar é que o bloco socialista sempre lutou
pela paz mundial, pelo espaço vital para desenvolver as economias e
melhorar as condições materiais de vida dos trabalhadores; mas o
imperialismo não lhes permitiu aquele espaço e manteve a
ameaça de guerra e de aniquilação permanentemente sobre
ele, absoluta no programa "guerra das estrelas" de Ronald Reagan.
Muito embora a conjuntura abrangida teoricamente pela análise de Lenine
mudasse, devido entre outras coisas à tendência imanente rumo
à centralização do capital que o próprio Lenine,
seguindo Marx, havia enfatizado (a qual levou à emergência do
capital financeiro internacional e a uma abstenção de rivalidade
inter-imperialista aguda), e muito embora em consequência o socialismo
sofresse um contratempo, as transformações revolucionárias
ensaiadas durante aquele período tiveram um impacto duradouro.
Poder-se-ia mencionar a salvação da espécie humana em
relação ao fascismo e o processo de descolonização
como legados óbvios destas transformações
revolucionárias.
Novas conjunturas favoráveis ao socialismo levantar-se-ão no
futuro. Mas no centenário da I Guerra Mundial vale a pena recordar a
conjuntura por ela inaugurada, a qual mudou a história humana para
sempre.
Do mesmo autor em resistir.info:
O caso da dívida argentina
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[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2014/0817_pd/centenary-first-world-war
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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