Temos de saltar do comboio mesmo que esteja em andamento!
A saída de Portugal da zona euro constituirá
simultaneamente um 25 de
Abril, um 10 de Junho, um 5 de Outubro e um 1º de Dezembro
por João Carlos Graça
[*]
|
|
O bobo do imperador Maximiliano organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre, prendeu a um poste um porco muito
gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele que à paulada o matasse. Os cegos
todos
a varapau se esmocaram uns aos outros, sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem. A festa acabou numa sangueira
total:
porém havia muito tempo que o imperador e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago o fabricar as piadas para fazer
rir.
Festa Alegórica, Jorge de Sena
|
Quanto à eventualidade de saída portuguesa do Euro, a qual tem
intermitentemente sido objeto de discussões públicas em que,
entre vários outros, intervieram recentemente (e neste mesmo site)
Octávio Teixeira
,
Manuel Brotas
e
Eugénio Rosa
, creio justificar-se também uma intervenção minha para
fazer notar o que enuncio de seguida.
Eugénio Rosa tem toda a razão em sublinhar que a economia
não é uma ciência exata. De facto, a maior parte dos
raciocínios em que a
economics
opera está assente no modelo da chamada cláusula de
ceteris paribus,
ou seja, trata-se de estimar o que acontecerá mudando os valores duma
certa "variável independente", ou daquilo que no modelo
é tratado como tal, mas assumindo que "tudo o mais permanece
igual". Ora, como é óbvio, "tudo o mais" nunca
permanece igual, dado a realidade económica constituir uma
"totalidade sistémica" adentro da qual as
interações são, em muitos casos, pura e simplesmente
demasiado complexas para poderem ser enunciadas sem tornar os modelos
inoperativos, ou contraproducentes para fins didáticos. Assim, os
exercícios de modelização matemática, e
a fortiori
de quantificação, arriscam-se todos eles a ser sobretudo
exercícios de mistificação, e isto aplica-se quer
às contas de merceeiro, quer aos "cálculos em folha de
Excel", quer aos mais sofisticados modelos de econometria
dernier cri,
XPTO e não sei que mais.
Esta é uma verdade que corta, pelo menos, em dois gumes. Reconhecendo-se
que as tendências econométricas (deveria talvez dizer as
tendências de "fuga para a econometria") são a
patética folha de parra que não chega para esconder o fundo
simplicissimus
que constitui a pobre essência da triste ciência/ignorância
da economia académica, deve todavia acrescentar-se que, ainda assim,
temos sempre de nos "agarrar a qualquer coisa", de construir mapas
mentais que nos forneçam orientações mínimas quanto
ao que ir fazendo ao longo da estrada da vida. O "economistês"
é, sim, em 90 por centro ou mais (e até mesmo esta
quantificação já ilustra bem o que ainda agora acabei de
escrever) produto daquela tendência, denunciada por Nietzsche, quando
escreveu que "os que navegam em águas superficiais têm
geralmente tendência de as turvar, como forma de darem uma falsa
impressão de profundidade". Ainda assim, o que podemos fazer, para
nos expressarmos acerca duma coisa tão intrinsecamente
"incerta" como a saída de Portugal do Euro, senão
alvitrar com base em cálculos e estimativas?
Agora bem, se é verdade (e Eugénio Rosa volta a ter carradas de
razão quanto a esse aspeto) que a economia é coisa demasiado
séria, porque joga diretamente com a qualidade de vida e a saúde
de milhões e milhões de pessoas, para podermos dar-nos ao luxo de
pretender apresentar como exatas estimativas que são apenas isso mesmo
(débeis tentativas para pôr um mínimo de ordem num universo
que de outra forma seria insuportavelmente caótico e multifacetado), por
outro lado convém igualmente acrescentar a essa admissão o
reconhecimento explícito também da velha verdade de que a
omissão ativa e deliberada nos torna tão responsáveis como
a ação. Ora bem, quando a isso convirá reconhecer que
aqueles que já há quatro anos dizem publicamente que
devíamos sair do Euro, tendo por isso sido acusados mais de uma vez de
"aventureirismo" pelos que escolheram a via da
manutenção, merecem da parte destes um pedido público de
desculpas pela tal acusação de "aventureirismo", porque
o facto é que a evolução das coisas, nestes últimos
quatro anos, não foi senão uma evolução de mal a
pior; porque era praticamente inevitável que o fosse, continuando
nós na Eurolândia; porque a saída, comportando
evidentemente riscos e não sendo suficiente só por si, era ainda
assim, e aliás continua a ser, uma parte importante, na verdade uma
parte indispensável, de toda e qualquer possível terapia.
Expliquemo-nos melhor. Antes de mais, e dado todo um conjunto de aspetos que de
momento é melhor deixar de lado, Portugal nem sequer deveria ter entrado
na criação da UEM, isto é, no "projeto Euro".
Quanto a isso, razão deve publicamente ser reconhecida a quem
então se manifestou contrário àquela opção,
como é o caso de Carlos Carvalhas e em geral do PCP; como é o
caso também de João Ferreira do Amaral. Uma vez tendo entrado,
porém, é compreensível a atitude dos que entretanto
optaram por se calar, ou se ir calando, dado que a eventual saída
também traria (e trará) ela própria inegáveis
custos. Entretanto, é igualmente indesmentível que desde a
criação do Euro a economia portuguesa perdeu sistematicamente
para a média da UE, enquanto antes do Euro estávamos, pelo
contrário, em termos gerais em trajetória de convergência
com a tal "Europa dos ricos". A isto acresce, finalmente, que
desde a crise de 2008 o PIB português habitualmente "anda para
trás", decresce: agora já não só em termos
relativos, mas absolutos, o que constitui só por si uma enorme
tragédia
, tendo esse facto inúmeras implicações em termos
culturais, civilizacionais, todas elas negativas. Para cúmulo, em 2011
entrámos em "regime Memorando", isto é,
transformámo-nos num mero protetorado da UEM e do FMI, sendo adotada em
política económica a linha de rigorosa "austeridade",
procedendo através da chamada "desvalorização
interna":
aos salários e pensões não basta agora deixarem de
crescer, ou crescerem sistematicamente menos do que a produtividade; agora
ordena-se-lhes mesmo que decresçam em sentido estrito; agora têm
de ser cortados e à bruta; agora "
haverá sangue!
"
Sendo assim, colocados os problemas nestes termos, que são os seus
termos verdadeiros e fundamentais, desprovidos do unto/vaselina com que
são habitualmente vendidos pelo marketing politiqueiro típico dos
partidos do "leque da governação" (PSD, PP e PS), a
questão que se coloca aos partidos à esquerda do tal abanico
é: devemos nós próprios recomendar a permanência na
Eurolândia, lutando pela mudança das regras no interior desta, ou
é melhor prepararmo-nos para saltar do comboio, mesmo sabendo que o
comboio está em andamento e isso trará só por si riscos
adicionais? Não adianta, reconheço, iludir o facto de que a
saída implicará perigos. É evidente que sim. Mas acho
também, isso acho mesmo, que "aventureirismo" não
é querer saltar; "aventureirismo" é, isso sim,
continuar a recomendar que se permaneça no comboio em fuga, esperando
que um maquinista milagroso apareça enfim à frente dos comandos
da UEM, benignamente enviado pelos Céus com o objetivo de nos
salvar
É essa, reconheço-o entretanto, a posição oficial
do Bloco de Esquerda, aliás tal como a do SYRIZA. No meu entender,
trata-se pura e simplesmente duma cumplicidade criminosa com a comummente
chamada "Troika", de facto o cartel de credores que nos tem
politicamente manietado. Se à manada, arrastada sem o saber para o
açougue, alguém recomenda que não se revolte e não
escouceie porque seria "aventureirismo" pretender sair da linha, esse
alguém deve ser considerado, em termos práticos, do ponto de
vista objetivo (se não subjetivo), um verdadeiro agente do
Matadouro Inc.
Muito mais ambivalente do que a posição do Bloco é, quanto
a este problema, a posição do PCP, o qual seguiu a
trajetória mencionada de se ter oposto de início à
entrada, passando a um período de quase-silêncio sobre o assunto,
para de momento vir a garantir que temos de nos preparar para a saída,
temos de fazer estudos considerando essa eventualidade, temos de marcar que a
saída é um nosso direito imprescritível e
inalienável enquanto nação soberana, etc. E quanto a tudo
isso, devo dizer, sem embargo de admitir também que a
posição do PCP tem inegáveis "vantagens"
(absolutas e comparativas) relativamente à do BE, ela continua a
afigurar-se-me basicamente um iludir da questão e um lento mas
inegável empastelamento/afundamento num enorme pântano coletivo de
"responsabilidades objetivas". De facto,
o que havia a fazer, pelo menos desde o Memorando, isto é, pelo menos
desde 2011, era defender a imediata saída de Portugal da UEM
: noutros termos, abandonar o Euro, recuperando a soberania monetária,
chame-se à nova moeda "novos escudos", "euros
portugueses" ou o que se quiser.
A razão principal para isso não é bravata patrioteira, nem
mania vã de aparências de soberania, nem nada de aparentado. A
razão principal para isso, no plano mais imediato, é que a
economia portuguesa tinha um problema incontornável de défice de
balança de pagamentos, o qual só poderia ser resolvido ou: a) por
transferências orçamentais maciças no interior da UE, as
quais vão evidentemente acontecer no
Dia-de-São-Nunca-à-tarde; b) ou por saída da
Eurolândia e subsequente desvalorização cambial
competitiva; c) ou ainda por "desvalorização interna",
isto é, fazendo sangue, como se tem abertamente feito ao longo dos
últimos três anos e meio. Não estando a opção
a) ao nosso alcance, ou mesmo admitindo que de início era isso que
ingenuamente se propunha, fácil e rápido se tornaria em todo o
caso concluir que o cardápio estava na verdade limitado às
opções b) e c).
Ora bem, como é óbvio, os partidos à esquerda do abanico
recusaram, todos eles, a tal austeridade furiosa e facinorosa (a
"desvalorização interna") que o Memorando impunha.
Até aí, tudo bem e tudo certinho. O problema está em ser
adulto e consequente na atuação, assumindo-se as escolhas das
opções que se faz. O BE, nessa matéria, continua
serôdia e patologicamente a julgar-se
forever young
: em termos práticos, está infantilizado, no limite da debilidade
mental e com um discurso que tem enormíssimas dificuldades em sair do
alucinogénio, da interminável
fuite en avant
e do correspondente evitamento das responsabilidades práticas. E o PCP?
Bom, o PCP acho que não tem essa posição; mas, para ser
franco, já não tenho bem a certeza
Entretanto, três anos e tal volvidos sobre os massacres do Memorando, que
só não se tornaram mais graves no imediato graças à
emigração em massa (a qual tem todavia efeitos negativos,
muitíssimo perniciosos a mais longo prazo), continua tudo mais ou menos
na mesma
e as sondagens mais recentes até dão sinais,
imagine-se, de recuperação marcada do PS. Em parte à custa
do PSD, o que não é problema. Mas também, e isso é
que já dói, do afundamento do BE e da CDU. Porquê isto?
É muito difícil dizer "toda a verdade", claro,
sobretudo num ambiente de domínio terrorista dos
media
pelas elites sociais, mais concretamente o "grande capital", com
permanentes, incessantes lavagens ao cérebro da populaça. Mas
tenho pelo menos um alvitre a fazer, em matéria de falhanço pelo
lado das oposições de esquerda: a falta duma via relativamente
clara, simples, fácil de compreender e de reter pela generalidade dos
eleitores. Ora, precisamente
a "saída do Euro" podia, quanto a isso, revestir-se de
inegáveis virtudes adicionais, do ponto de vista da sua capacidade para
passar (como mensagem simples e relativamente fácil) em termos
políticos.
Ah, mas, replicar-se-á, tal atitude equivaleria a incorrer na demagogia,
porque a saída do Euro não constituiria por si mesma
solução. E quanto a isso, desculpem lá, mas permito-me
discordar frontalmente. A saída do Euro não chegaria? É
verdade. Mas é igualmente verdade que ela se impõe.
Não se trata, como se diz, duma "condição
suficiente", mas é sem dúvida uma
"condição necessária" da terapia.
Mais ainda:
mesmo que levada a cabo por um governo de direita
(formalmente de direita, do PS ou do "bloco central", isso é
irrelevante), essa alteração seria algo que teríamos de
saudar como
ceteris paribus
positivo. Dir-se-ia ouvir a vaga de indignação: "Mas como?
Mas não se reduzem então os salários em 20 por cento se a
nova moeda se desvalorizar 20 por cento? Mas não ficam as pessoas sem 20
por cento do valor dos seus depósitos?"
Quanto a tudo isso, esclareçamos pois que se trata invariavelmente de
falácias e/ou de meras conjeturas, que todavia não são
assumidas enquanto tal. É óbvio, por exemplo, que se eu tiver 10
mil euros depositados, passando a ter 10 mil "novos escudos" e
sofrendo estes uma desvalorização de 20 ou 30 por cento, passo a
ter o equivalente a 8 mil ou 7 mil euros, embora continue a possuir 10 mil em
depósito
mas de "novos escudos". O mesmo ocorre
já realmente, acrescente-se, se eu estiver a comparar euros com
dólares ou outra qualquer moeda: se o euro desvalorizar 20 por cento
face ao dólar, o valor em dólares dos meus depósitos sofre
uma redução instantânea de 20 por cento, isso é
incontornável. Mas será isso assim tão importante? O
leitor sente muito, no valor em dólares dos seus depósitos, a
desvalorização que o euro sofreu nos últimos tempos? Deu
sequer por ela? Mais importante ainda: se eu tiver 10 mil euros em
depósitos, mas dever também ao banco 100 mil por um
empréstimo hipotecário para compra de casa, em caso de
saída e desvalorização de 30 por cento perco na verdade 3
mil euros, ficando com o equivalente a 7 mil euros em depósito; mas
ganho do outro lado 30 mil euros, por redução do
empréstimo contraído, o qual é calculado em moeda
nacional, passando pois automaticamente para 100 mil "novos escudos",
ou seja, 70 mil euros.
Claro está, a história não acaba aqui. Desde logo, esta
coisa da equivalência "1 por 1" de moeda velha e moeda nova
só é "instantânea" e
"automática" dado um determinado grupo de
condições.
Na verdade, tudo isso já vai ter de ser negociado, decidido
politicamente e depois resolvido jurídica e administrativamente. Todo um
quadro "institucional", portanto.
Longe de mim pretender negar isso. Algo de análogo é
válido para o juro, e portanto para as prestações que eu
vou continuar a pagar, as quais irão presumivelmente aumentar se
contadas na nova moeda, mas faltando saber quanto. Se eu pagar habitualmente
500 euros, como é óbvio ganho
ceteris paribus,
porque passo para 500 novos escudos (equivalentes a 350 euros). Mas o juro
irá ser renegociado em alta. Não por causa destes
"automatismos", mas porque deverá vir a existir alguma
inflação; e a taxa de juro tem de subir quando os preços
também sobem mais depressa, de modo a existir um "juro real"
positivo ou pelo menos nulo, a taxa de juro nominal sendo igual ou ligeiramente
superior à taxa de inflação.
E aí adentro-me no terreno das conjeturas. Quanto aumentará
verdadeiramente a inflação? E isso será mau? E para quem?
Já tem sido repetidamente argumentado que a inflação
previsível será uma inflação diretamente importada,
porque importações "rígidas" (como
petróleo, a título de exemplo e acima de tudo) serão
obviamente compradas mais caras em moeda nova, desvalorizada. Não
havendo tensões inflacionistas no plano interno, porém, esse
efeito é relativamente limitado, dependendo do maior ou menor "grau
de abertura" da economia, nomeadamente do peso relativo das tais
importações "rígidas". Autores
respeitáveis, como Jacques Sapir, João Ferreira do Amaral e
Octávio Teixeira, entre outros, percorreram já esse caminho
através dos meios de cálculo ao nosso dispor (nomeadamente, a
chamada "análise input-output") e
as conclusões, embora necessariamente provisórias, parecem ser de
tom geral tranquilizador: ainda não deve ser desta que entramos em
hiperinflação.
Dito isto, porém, deve claramente assumir-se que se trata aqui de
conjeturas, realmente não de certeza categóricas. As
situações históricas nunca se repetem exatamente, embora
possam ter alguma dose de analogia entre si. Aquando das
desvalorizações cambiais, na sequência das
intervenções do FMI em Portugal, em finais dos anos 70 e
princípios do 80, houve inflação importada muito
significativa, tendo os salários nominais e as reformas subido, mas a um
ritmo inferior ao da inflação, pelo que os salários reais
sofreram uma redução de perto de 20 por cento, como o
Eugénio Rosa recorda. É inegável que isso aconteceu. Mas,
entre várias outras alegações, aproveito para dizer que
uma redução dos salários reais via inflação
me parece ainda assim menos danosa, do ponto de vista moral e político,
do que a redução dos salários nominais
em que estamos formalmente desde o tempo do "saudoso" e
"incompreendido" José Sócrates. É que a
redução dos salários reais tem sobretudo evoluído
para um jogo superlativamente perverso, no qual cada grupo de assalariados vota
favoravelmente a redução dos salários dos demais, para em
seguida ser ele próprio apanhado na curva, acabando por morrer do seu
próprio veneno
com o que os outros depois evidentemente se
congratulam, comemorando-o de forma efusiva. E assim vai Portugal sendo
des/governado pelo "
divide et impera
", pelos processos mais abjetamente despótico-ditatoriais e
corrosivos do sentido de civismo e duma elementar decência humana, embora
formalmente em república e em democracia, e mesmo com partidos
"socialistas" e "sociais-democratas". (Quanto a isto, ler
sobretudo a
Festa Alegórica
do Jorge de Sena).
Mas deixemos essas tristezas. A desvalorização cambial é
menos má do que a "desvalorização interna",
entre outras razões, também por evitar este rol de
misérias morais e políticas. Mas não só. Em geral,
um
quantum
de inflação faz bem às economias, entre outras coisas
porque funciona como um lubrificante, ou quanto a outros aspetos uma
cafeína, que permite, ou facilita, toda uma série de pequenos mas
constantes processos de ajustamento. A inflação retira a quem
empresta e/ou arrenda, favorecendo mutuários e inquilinos. A
inflação,
ceteris paribus,
em geral promove o crescimento económico, porque induz uma ligeira
pressa nas ordens de compra e faz assim aumentar a procura efetiva (ao passo
que a deflação induz as tendências para o adiamento e o
atraso, e dessa forma inibe). Tudo isso é bom. O que não é
bom é poder também desfavorecer os salários. Mas esse
facto tem a ver com o tal enquadramento institucional a que tenho estado a
referir-me este tempo todo. Ninguém garante que os salários
terão, numa eventual desvalorização cambial futura, um
crescimento inferior ao da inflação. Isso está por ver e,
mais importante ainda, está intrinsecamente por decidir. Tal como,
aliás, está por decidir o montante da subida do juro, do qual
falei acima. Tudo isso resulta e resultará de negociações
entre diversos grupos, de decisões politicamente motivadas, do peso
relativo das várias classes e grupos sociais, em aliança ou em
conflito, do nível geral de informação e de
participação nos assuntos da coisa pública. Nada
está "escrito nas estrelas" neste complexo jogo
político.
Há, entretanto, razões para admitir que a inflação
andará muito longe daquilo a que se assistiu nas décadas de 70 e
80, desde logo porque o ambiente internacional é muito diferente, sendo
as tensões inflacionistas agora muito menores. Aliás, antes pelo
contrário:
vivemos uma época em que a tendência para a
estagnação económica, e mesmo o retrocesso, é
acompanhada de inclinações para a deflação, ou
redução generalizada dos preços, o que é
péssimo, funcionando como fator adicional de estagnação.
Também quanto ao nível do juro, há razões para
admitir que ele, embora subindo, não significará aquela
catástrofe que as pessoas hoje podem sentir-se tentadas a antever,
pensando em juros mais elevados
ceteris paribus
Não, descansem, não é isso. A eventual subida do
juro diz respeito a um montante de dívida que ficou ele próprio
reduzido, reportar-se-á a uma inflação que não
deverá ser tão acrescida como se quer fazer crer, e
referir-se-á a uma envolvente geral em que os salários nominais
deverão rapidamente crescer o suficiente para "encaixarem"
quer a inflação, quer a possível subida nominal das
prestações pagas aos bancos.
A isto acresce ainda que, num eventual cenário destes,
para além de termos de novo soberania monetária, com banco
emissor sob controlo estatal, emitindo moeda de acordo com o interesse
público
tal como ele é determinado pelos órgãos políticos
democraticamente eleitos (e não de acordo com "os mercados"),
defrontaremos muito provavelmente uma banca nacionalizada, a qual poderá
fazer do controle seletivo dos juros, com intervenções muito mais
ativas e discricionárias do que as permitidas por Bruxelas, uma
política e uma questão de princípio, protegendo-se assim o
"cidadão médio" das eventuais tentações
de furor da agiotaria
. Repito: isso está para ver, e mesmo para decidir pela
ação politicamente orientada. Não é algo que um
qualquer cidadão, mesmo reclamando-se da sua supostamente privilegiada
condição de "economista" (ou sobretudo nesse caso),
possa neste momento prever, ou pretender prever.
Dito isto, porém, falta ainda acrescentar, antes de concluir, que
mesmo sem essa tal banca nacionalizada, fruto dum possível ambiente
político produtor do tal "governo patriótico e de
esquerda", a simples saída do euro é, "tudo o mais
permanecendo igual", algo que deve ser apoiado pelo seu valor
intrínseco.
Quer porque a) a desvalorização cambial constitui,
"tudo o
mais permanecendo igual", uma importante forma de evitar a
desvalorização interna; quer porque b) a
recuperação da soberania monetária constitui um bem
político preciosíssimo, que deve ser saudado enquanto
restauração da república e ressurreição da
democracia.
É estranho, no meu entender mesmo muito estranho, que esse outro aspeto
o facto de a saída do euro constituir simultaneamente um 25 de Abril, um
10 de Junho, um 5 de Outubro e um 1 de Dezembro, a sua data devendo pois ser
assinalada por um novo feriado, que se somará à
reposição dos antigos
passe completamente ao lado daquilo que é a visão oficial
da esquerda política: eis aí bem espelhado quão longe
fomos na colonização cultural em profundidade desta
última, por parte da direita. Mas tudo isso é uma história
mais demorada, e este artigo já vai demasiado longo. Hoje ficamos por
aqui.
I rest my case
20/Outubro/2014
Do mesmo autor em resistir.info:
A hipocondria da antipolítica
Os impasses do "europeísmo" face à crise económica: um regresso à democracia?
Denúncia do "Memorando de Entendimento", renegociação da dívida… e depois, o quê?
A necessária saída da zona euro
Os Hamlets portugueses e a saída do Euro
Portugal, o aluno que aprende bem as más lições
[*]
Economista e sociólogo, professor do ISEG e investigador do SOCIUS,
Universidade de Lisboa
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|