A banca, a saída do euro e o desenvolvimento do país
A banca é o coração do sistema financeiro, mas o sistema
financeiro não se resume à banca. Inclui as seguradoras, os
fundos de investimento mobiliário e imobiliário, as sociedades
gestoras de fundos de pensões e a as sociedades gestoras de
património (fortunas). Em Portugal, os cinco maiores bancos têm
posições dominantes em cada um dos segmentos do setor financeiro.
Em 2011, os recursos controlados pelo setor financeiro atingiam 345.384
milhões (2 vezes o PIB de 2011), cabendo aos cinco principais
grupos bancários 77,9% deste total. E a banca detinha 58,9% dos recursos
controlados pelo setor financeiro. Com a privatização dos seguros
a Caixa perdeu uma parte de recursos. Devido à sua importância
interessa analisar se a banca tem sido um fator de promoção do
crescimento ou um fator de estrangulamento da economia.
A BANCA TEM CONTRIBUÍDO PARA AGRAVAR A CRISE E AS SUAS PRÓPRIAS
DIFICULDADES
Segundo o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, entre 2010 e
Março de 2014, o crédito bruto concedido pela banca em Portugal
diminuiu em 40.466 milhões (-12.2%, passou de 331.089
milhões para 290.623 milhões ). Neste mesmo
período, as aplicações financeiras da banca em ativos
financeiros disponíveis para venda, que têm como objetivo ganhos
especulativos aumentaram em 18,4% (+10.430 milhões ). Não
existiu dinheiro para a economia mas já existiu para aplicar nos
mercados financeiros.
Se analisarmos o crédito pela dimensão das empresas
concluímos, também segundo o Banco de Portugal, que foram as
microempresas e as PME os setores atingidos pelos cortes de crédito.
Entre 2010 e Julho de 2014, o crédito a 321.000 microempresas diminuiu
8,6%; o crédito a 39.000 pequenas empresas caiu 15,8%; o crédito
a 6.000 medias empresas foi reduzido em 13,8%. Só o crédito
às 1.000 grandes empresas é que aumentou 13,6% (+10.466 M).
A politica de crédito da banca estrangulou financeiramente as micro e as
PME, e apoiou apenas as grandes empresas, o que contribuiu para agravar ainda
mais a crise e falência de milhares de empresas. Se a analise for feita
por setores da atividade económica, conclui-se que os mais afetados pela
politica de corte de crédito da banca, foram as atividades produtivas.
Entre Abril 2011 e Julho de 2014, o crédito à agricultura
diminuiu 1,9%; e à indústria transformadora reduziu-se em 12,5%.
Uma política de crédito que não serviu as atividades
produtivas.
NO CORTE DO CRÉDITO A BANCA FOI PARA ALÉM DA TROIKA
Para além da crise e da situação das empresas, uma outra
causa da diminuição do crédito foram as
imposições da "troika" que obrigou os bancos a fazer
uma "
deslavancagem
", ou seja, reduzir o crédito concedido. A alavancagem é
medida pelo
rácio de transformação,
ou seja, pelo quociente que se obtém dividindo o crédito
liquido pelos depósitos. Em 2010, essa relação era de 137%
(em 2007 era 151%, ou seja, por cada euro que a banca recebia em
depósitos emprestava 1,51.) A "troika" impôs que
este rácio diminuísse para 120%, mas em Julho de 2014 ele era
apenas de 108%. E a nível de grandes bancos a redução
é ainda maior. Na CGD, no fim do 1º sem.2014, era apenas de 104%.
Portanto, a banca, tal como sucedeu com o governo PSD/CDS, foi para além
da "troika" estrangulando ainda mais a economia e aumentando as
dificuldades da própria banca, já que as suas principais receitas
tem como origem o crédito concedido.
A SITUAÇÃO DA BANCA NÃO É SÓLIDA
Contrariamente ao que afirmam os banqueiros, a banca não está
sólida, porque não é possível uma banca solida
quando a economia e as empresas estão em crise. A banca está-se a
"aguentar" com o auxilio de mais-valias obtidas através da
venda de títulos da divida pública. Para concluir isso basta ter
presente o seguinte: segundo o Banco de Portugal, em 2013 as mais-valias
obtidas pela banca através da venda de "
ativos financeiros disponíveis para venda
" atingiram 910 milhões , enquanto apenas no 1º
Trimestre de 2014 (até Março) somaram 626 milhões .
O agravamento da crise económica fez disparar o incumprimento e as
perdas da banca. Entre 2010 e Março de 2014, as "imparidades"
(perdas prováveis de crédito devido ao não reembolso)
dispararam, tendo aumentado de 12.153 milhões para 20.090
milhões, ou seja, uma subida de 64,7%. Muitas dessas imparidades
resultaram de má gestão de que são exemplos o
crédito concedido por alguns bancos às empresas do grupo Espirito
Santo quando já havia informação disponível sobre a
sua gestão irresponsável.
A FALTA DE CONFIANÇA DOS PORTUGUESES NAS INSTITUIÇÕES
FINANCEIRAS
Esta situação associada à descapitalização
da banca feita pelos acionistas, aos atos de má gestão e mesmo de
gestão fraudulenta, como se verificou no BPN, BPP e agora no BES,
mostraram que a banca sob gestão privada não corresponde
às necessidades de crescimento da economia e de desenvolvimento do
país. A quebra reputacional da banca e a falta de confiança dos
portugueses nas instituições financeiras devido à
gestão privada generalizou-se. É este um dado novo que não
deve ser ignorado. Se a gestão privada da banca não garante
segurança nem aos depositantes, nem aos pequenos investidores, nem serve
o país, a opção que se coloca é a gestão ou
o controlo público.
A NECESSIDADE DO CONTROLO PÚBLICO DA BANCA E ALGUMAS REFLEXÕES
No entanto aqui é importante fazer algumas reflexões para ajudar
a reflexão.
Com exceção da CGD, a banca a operar em Portugal é
já controlada maioritariamente por grandes grupos estrangeiros
(BPI:93% das participações qualificadas; BCP:74%; STotta:100%
). A sua nacionalização, embora possível,
enfrentará uma grande oposição externa e mais se Portugal
continuar na zona do euro. Por outro lado, a banca pode ser do Estado e ter uma
gestão tipicamente capitalista como acontece atualmente com a CGD.
No fim de 2013, de um total de 63.920 milhões de crédito
concedido pela CGD, apenas 0,6% tinha sido concedido à agricultura e
4,8% às industrias transformadoras. 29,1% do crédito total foi
concedido a empresas de construção; 4,7% às de atividades
financeiras, e 12,1% às de atividades imobiliárias. Portanto, a
CGD, apesar de ser do Estado, não tem tido uma politica de
promoção do crescimento económico e do desenvolvimento do
país, mas sim mais de apoio à especulação
imobiliária e financeira. Para que isso não aconteça
é necessário que um governo de esquerda estabeleça que
setores da atividade económica a CGD deve preferencialmente apoiar assim
como a sua política de taxas de juro, embora a sustentabilidade da CGD
deve estar sempre presente.
Em relação às outras instituições de
crédito sem controlo público, o controlo será sempre
difícil. Mas há medidas que podem ser tomadas para tornar a
situação mais segura. (1) A separação da banca
comercial da banca de investimentos, impedindo assim que o dinheiro dos
depositantes seja investido em aplicações de elevado risco; (2)
Uma ação mais interventiva do Banco de Portugal, intervindo antes
das situações acontecerem e não depois como tem
acontecido, e fortes penalizações ao crédito especulativo,
muito deles sem quaisquer garantias reais.
A SAÍDA DO EURO E ALGUNS DOS PROBLEMAS QUE SE COLOCARÃO À
BANCA
Uma eventual saída do euro coloca à banca problemas complexos e
imprevisíveis, que é fundamental estudar com profundidade e que,
a meu ver, ainda não foram estudados. Vou colocar apenas três para
reflexão: (1) Como manter o poder de compra das poupanças
que
estão depositadas na banca
(apenas 1,2% dos titulares tem depósitos superiores a 100.000);
(2) Como impedir que as taxas de juro se tornem incomportáveis
para
as famílias (crédito à habitação) e para as
empresas; (3) Como pagar as dívidas da banca ao estrangeiro. E tudo isto
evitando a implosão do sistema financeiro ou que ele se transforme num
fardo insustentável para o Estado e para os contribuintes. E vou
procurar apenas dar uma ideia da dimensão que estes problemas tomam numa
eventual saída do euro.
Admitindo uma desvalorização de 30% que alguns defendem como
mínima, e querendo-se manter o poder de compra das poupanças
depositadas na banca
(por ex., depósitos até 100.000)
indexando-as ao euro, como alguns defendem, isso custaria à banca, ou
melhor ao Estado pois a banca não poderia suportar sem aumentar muito as
taxas de juro, 54.000 milhões de novos escudos (só 1º ano,
31% do PIB atual), admitindo que o novo escudo é igual ao euro. Outras
alternativas seriam indexá-las ao IPC ou terem taxas de juros iguais
à subida dos preços, mas todas elas seriam soluções
caras que exigiram apoio financeiro do Estado.
Se a inflação aumentasse 20%
(alguns falam em 10%, mas quando tivemos de fazer grandes
desvalorizações durante as duas intervenções do FMI
1978 e 1982 e as desvalorizações imediatas foram
sempre muito inferiores a 30%, a inflação atingiu entre 20% e 30%)
e se quisesse repercutir isso nas taxas de juro dos empréstimos,
como a taxa media atual do crédito à habitação
ronda os 2%, isso faria aumentar dez vezes os encargos que as famílias
têm atualmente com o pagamento dos juros
(o que não seria possível).
Em relação ao crédito à habitação,
as famílias pagam agora cerca de 2.222 milhões por ano
só de juros, um aumento de 10 vezes, faria aumentar a despesas para as
famílias para 22.220 milhões /ano, o que seria
incomportável para as famílias. Para evitar isto, e para evitar
também a implosão da banca, o Estado teria de financiar
também a banca, suportando diferença. Em relação ao
capital emprestado pela banca às famílias (crédito
à habitação) se se verificasse uma
desvalorização de 20% desse ativo da banca, devido à
inflação, de duas uma: ou seria suportado pelos
devedores/famílias ou pela banca e esta não teria
condições de absorver, portanto teria de ser o Estado. E isto
não se refere à divida às empresas cujos juros teriam da
aumentar, para evitar a implosão do sistema financeiro, mas
comportável para as empresas, as quais para pagar mais teriam de
aumentar os preços, contribuindo para o aumento da
inflação. A contrapartida seria o Estado financiar a
diferença e não é previsível que isso seja
possível. Tudo isto provocaria o endividamento enorme do Estado que,
apesar de ser em novos escudos e de ser ao Banco de Portugal, teria impacto
interno grande
(ex: nos preços).
A juntar há ainda a divida da banca ao exterior que, em Julho de 2014,
atingia cerca de 98.000 milhões , sendo quase metade ao BCE.
Como pagá-la?
E para isto os novos escudos não servem. O problema da divida da banca
e da divida das Administrações e empresas públicas ao
estrangeiro que, em Julho de 2014, atingia já 226.000 milhões
, a sua negociação/reestruturação, e um corte
grande, colocar-se-ia, pois o país não tem quaisquer
possibilidades de pagar uma divida com tal dimensão que cresce
continuamente. E uma forte reação dos credores seria
inevitável com consequências negativas para o país.
OUTRAS QUESTÕES PARA REFLEXÃO E DEBATE
As questões anteriores são apenas algumas que é importante
refletir e debater, e colocamos apenas para chamar a atenção para
problemas que certamente seremos confrontados se Portugal tiver de sair do
euro. Mas existem muitas outras. Por ex.: Como garantir e melhorar o poder de
compra de pensões e salários?. Recorde-se que nas duas
intervenções anteriores do FMI, em que se teve também de
desvalorizar muito o escudo para aumentar a competitividade das
exportações portuguesas, e assim aumentar as
exportações, foram os períodos em que trabalhadores e
pensionistas perderam mais poder de compra. Entre 1977 e 1979, 1º
período de intervenção do FMI, os preços aumentaram
93%, o salário mínimo subiu 87% e a pensão média da
Segurança Social aumentou apenas 58%. Entre 1982 e 1984, período
de 2ª intervenção do FMI, os preços subiram 98%, o
salario mínimo nacional aumentou 54%, e a pensão média da
Segurança Social subiu 71%. Nestes dois períodos, a perda de
poder de compra acumulada do SMN foi de 27% e da pensão média de
29%. Foi também nestes dois períodos em que a parte dos
salários no PIB mais desceu: 1º período: -13,1% (queda de
6,7 pontos percentuais); 2º período: - 16,9% (redução
de 7,4 pontos percentuais). E tenha-se presente que não se teve de fazer
desvalorizações da moeda de 30%. Uma delas foi uma
desvalorização discreta (imediata) de 12%, seguida de
desvalorizações mensais de 1%.
ALGUMAS CONCLUSÕES FINAIS TAMBÉM PARA REFLEXÃO
Neste contexto muito difícil, em que é fundamental um grande
controlo e um grande financiamento por parte do Estado das
instituições financeiras (e não só), a
nacionalização dos maiores bancos será uma questão
que inevitavelmente se colocará. É preciso também dizer
que neste quadro difícil será necessário um forte poder
político de esquerda não fragmentado, e um amplo apoio popular,
portanto um caminho que é ainda necessário percorrer, mas que
muitas vezes é esquecido no debate público. Isto é
absolutamente indispensável, a meu ver, para que os riscos não
sejam incomportáveis e incontroláveis para o país, e
nomeadamente para os trabalhadores, pensionistas e outras camadas
desfavorecidas da população. Uma coisa é certa:
Portugal não tem possibilidades de suportar por muito tempo o Tratado
Orçamental, que não é mais que um novo
"Memorando" agora permanente e sem fim à vista, a não
ser condenando-se à pobreza e ao atraso.
E não será uma aplicação "inteligente"
ou "flexível" do Tratado que resolverá o problema, pois
o garrote estará sempre presente. A não se abandonar ou alterar
radicalmente o Tratado Orçamental, a saída do euro será
uma questão que se colocará, desejando-se ou não, para que
o país possa crescer e desenvolver-se, mas cujos custos serão
elevados, e não se tenham nem se criem ilusões sobre isso.
É certo que existem aspetos positivos da saída do euro,
não analisados neste estudo, que levam a que tal opção
deva ser também considerada.
Mas o que é importante é preparar o país e os portugueses
atempadamente para que se a saída do euro vier a ser colocada, o
país e os portugueses estejam preparados para ela. E não meter a
cabeça no buraco como a avestruz, como muitos teimam em fazer, esperando
que a realidade se ajuste aos desejos, o que normalmente não acontece.
03/Outubro/2014
[NR] A publicação deste artigo não significa um endosso de
resistir.info às teses e aos temores do seu autor.
Oportunamente resistir.info irá analisá-las. Mas é de recordar, à
partida, que todo o projecto deve ser comparado com a alternativa de nada fazer.
Assim, o projecto de saída da zona Euro deve também ser comparado com o
projecto da permanência na mesma com uma avaliação dos custos de uma e outra
opção.
[*]
Economista,
edr2@netcabo.pt
. Intervenção proferida na Sessão Pública "A
Dívida, o Euro e os interesses nacionais", realizada a
28/setembro/2014.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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