Os impasses do "europeísmo" face à crise económica: um regresso à democracia?
por João Carlos Graça
[*]
A tese central desta comunicação é a de que a
pertença à Eurolândia tem sido catastrófica para a
economia e a sociedade portuguesa, devendo continuar a sê-lo de acordo
com tudo aquilo que é previsível e/ou esperável. As
razões para isso são múltiplas, tendo sido expostas de
forma detalhada e no fundamental pertinente e exata por vários autores,
de entre os quais se destacam Jacques Sapir e Lapavitsas et al., mas a respeito
do que merecem também referência os portugueses João
Ferreira do Amaral, Octávio Teixeira, Jorge Bateira e Nuno Teles, entre
outros.
Num outro plano, indaga-se acerca da importância simbólica da
integração na UEM para a auto perceção dos
portugueses enquanto "europeus". Destaque-se, nesta caso, a quase
total ausência de alterações ao longo do período
considerado: ver quadro 2.
Em matéria de dificuldades na utilização das notas de
euro, assinale-se apenas a relativamente recente troca de posição
do "muito fácil" e do "algo fácil", com este
a assumir a vantagem nos últimos anos: ver o quadro 3.
Algo de muito próximo acontece no caso da utilização agora
não das notas, mas das moedas de euro, como se verifica no quadro 4.
Quanto ao tema da utilização predominante do euro e/ou do escudo
como referência, destaque-se o elevado número de pessoas que
continua a "traduzir" mentalmente em escudos, no caso das compras
excecionais. Entretanto, a percentagem dos que assumem não
"traduzir" tem aumentado de forma continuada e muito significativa,
mas fundamentalmente à custa dos indecisos: ver quadro 5.
Evolução análoga ocorre no caso das compras quotidianas,
mas aqui a percentagem dos que continuam a recorrer mentalmente ao escudo
é, aliás por razões facilmente compreensíveis,
decididamente mais reduzida, como se verifica no quadro 6.
As duas últimas questões relativas a perceções
encontram-se algo enviesadas de raiz, tratando-se de indagar se os inquiridos
consideram adequado, ou não, o grau de coordenação das
políticas económicas na Eurolândia. A esmagadora maioria
opina pela conveniência de maior coordenação, o que pode
evidentemente ser interpretado de múltiplas formas: ver quadro 7.
O padrão de respostas à questão anterior pode, na verdade,
ser lido quer enquanto existência duma corrente de opinião
maioritária a favor de maior integração, quer como simples
expressão de aversão pelo presente estado das coisas e lamento
pela aparente "descoordenação" das políticas.
Já não é esse, todavia, o caso com a questão
seguinte, na qual os inquiridos foram interpelados quanto à alegada
vantagem de uma transferência explícita, do nível nacional
para o "europeu", da elaboração das "reformas
económicas". Embora significativamente mais reduzido do que no caso
dos partidários de maior coordenação, é muito
importante a elevada percentagem dos que consistentemente advogam a
transferência, concordando totalmente ou tendendo a concordar: ver infra,
quadro 8.
Deixando agora de lado o plano das perceções e trocando-o pela
análise da factualidade económica, deve começar-se por
destacar, quando se considera a situação europeia desde a
década de 1990 (o período em que os câmbios das diversas
moedas nacionais foram tornados fixos, antecedendo a criação do
Euro), a tendência consistente para o acumular de défices na
balança corrente dos países periféricos, os chamados
PIIGS, que aqui são tomados com a inclusão de Portugal, Espanha,
Itália, Irlanda, Grécia e Chipre, tal como evidenciado infra, no
quadro 9.
A tendência dos PIIGS para o défice nas contas externas foi, no
contexto europeu, o reverso da tendência do centro para registar
balanças excedentárias: ver o quadro 10.
Embora ressalvando discrepâncias deste ou daquele país, neste ou
naquele ano em particular, o quadro geral corresponde a uma
situação de moeda sobrevalorizada face às necessidades dos
países periféricos, com a consequente tendência destes para
terem défice nas contas externas. Nos países do centro,
entretanto (sobretudo a Alemanha e a Holanda, os casos da França e da
Finlândia são mais ambíguos), a tendência consistente
é para acumular excedentes, em função duma moeda que
aparentemente haveria razões para valorizar ainda mais.
O problema fundamental da economia portuguesa deve, portanto, ser diagnosticado
como, antes de mais, uma tendência enorme para o défice externo.
Face à opinião pública, porém, o diagnóstico
aponta recorrentemente para um alegado défice excessivo das contas
públicas, ou défice orçamental. Dada a ortodoxia
maastrichtiana
, na verdade a economia portuguesa registou sucessivos défices
orçamentais acima do limite "sagrado" dos 3 por cento do PIB.
Todavia, esse défice esteve muito longe de poder ser considerado
inequivocamente negativo, e é assumido como insustentável apenas
adentro do quadro conceptual neoliberal subjacente à
"construção europeia". De resto, a
evolução do défice público é bem menos
dramática do que a de vários outros países europeus, tal
como evidenciam os quadros 12 e 13.
Se os quadros anteriores mostram bem a falsidade do diagnóstico
sugerindo défices orçamentais excessivos antes de 2008, já
os seguintes, referindo-se à dívida pública, permitem
destacar o quanto a situação portuguesa é de níveis
inferiores ou próximos da média europeia até esta mesma
altura. Só na sequência do desencadear da chamada "crise das
dívidas soberanas", e da intervenção pública
no resgate às instituições financeiras privadas, é
que a dívida pública portuguesa, em percentagem do PIB, se tornou
decididamente superior à média europeia, tal como mostram bem os
quadros seguintes, 14 e 15, em que a situação portuguesa é
cotejada respetivamente com os restantes PIIGS e com o mesmo grupo de
países do centro europeu.
Em resumo, pode dizer-se que até 2008 Portugal não tinha qualquer
problema de dívida pública excessiva. Foram os anos da orgia
furibundamente
austeritária
, não os da alegada orgia
despesista
, que produziram a dramática situação atual.
No caso da FBCF, trata-se de investimento supostamente a rentabilizar num
horizonte temporal relativamente longo, e tendo isso repercussões na
produtividade futura que são, repete-se, muito sérias. De novo, a
terapia
austeritária
tem agravado, e muito, os problemas: Portugal está abaixo da
média europeia desde 2010, quando a sua condição de
país relativamente atrasado faria esperar níveis relativos de
FBCF superiores à média. Considerando a evolução da
FBCF agora em volume, como se faz no quadro 18, a perceção do
problema resulta consideravelmente avivada. Sendo negativas as tendências
evolutivas quer na Europa quer em Portugal, entre nós o ritmo do
declínio é não apenas preocupante, mas verdadeiramente
assustador.
As repercussões de tudo isto nos níveis de crescimento do PIB
são inegáveis. Mais ainda: a pertença ao imaginário
"clube dos ricos" que seria a Eurolândia revela-se marcadamente
negativa, mesmo desastrosa, se considerarmos o facto fundamental de que
até ao Euro a economia portuguesa cresce sistematicamente mais depressa
do que a média europeia, invertendo-se a situação depois
disso. Até ao Euro convergimos com o "pelotão da
frente", desde então atrasamo-nos cada vez mais: ver o quadro 19.
O confronto estabelecido com os países do núcleo europeu confirma
o diagnóstico acima exposto. Se no caso dos PIIGS Portugal aparece
colado sobretudo à Itália, com a Grécia a convergir nos
primeiros anos com a média europeia, para depois, desde 2010, sofrer um
"ajustamento" mais brutal que o nosso, já o cotejar com os
países mais ricos permite sublinhar o dramatismo do crescente atraso
português que a pertença à Eurolândia e a
"austeridade" acarretam: ver, quanto ao grupo composto por Alemanha,
Holanda, França e Finlândia, o quadro 20.
Considerando um horizonte temporal mais dilatado, o diagnóstico é
confirmado. Até ao Euro, o PIB português cresce habitualmente mais
do que a média europeia, embora sofra ciclos mais marcados. Depois do
Euro, e num contexto em que a média europeia evolui ela própria
em declínio, a economia portuguesa afunda-se mais depressa, passando a
registar valores sistematicamente abaixo dos daquela: ver o quadro 21.
Quanto a desigualdades na distribuição do rendimento medidas sob
a forma de "coeficiente de Gini", registe-se: a) Portugal é
por tradição um país mais desigual do que a média
europeia, e mesmo mais do que generalidade dos outros PIIGS (eles
próprios tipicamente mais desiguais do que os europeus do
núcleo); b) o diferencial entre Portugal e a média europeia
estava todavia a sofrer uma lenta redução até 2010; c)
desde a "austeridade" furiosa caraterizadora do período
pós-memorando, até mesmo essa pequena boa notícia é
aniquilada, os valores do coeficiente de Gini voltando a subir: ver os quadros
22 e 23.
Em paralelo com a evolução anteriormente referida, acresce ainda
que os níveis oficiais de desemprego, tradicionalmente baixos em
Portugal, têm crescido de forma vertiginosa e mais depressa que nos
restantes europeus. De facto, desde 2009 são superiores à
média europeia (ver o quadro 24), o que é tão mais grave
em termos sociais quão débeis são os apoios
correspondentes ao nosso frágil "estado social".
Outras inclinações gerais na evolução da economia
portuguesa são assinaláveis. Entre elas, destaque-se a
tendência das exportações e das importações
para convergirem em ritmo de crescimento, e mais recentemente para as
importações sofrerem redução, o que tem atenuado o
nosso problema de défices na balança das contas exteriores.
Todavia, em vez de isso ocorrer via estímulo às
exportações, como seria o caso com uma
desvalorização cambial, acontece via empobrecimento e subsequente
descida das importações, o que também reduz o
défice, sim, mas é obviamente muitíssimo mais
miserável: ver o quadro 25.
Essa evolução é confirmada pela tendência dos
preços para deixarem de crescer: em vez de inflação,
corremos o risco de entrar em deflação, o que constitui um
importante fator de reforço do afundamento económico geral (ver
quadro 25). Em paralelo, a produção industrial, que já
estava praticamente estagnada desde a adesão ao Euro, sofreu nos
últimos anos, também ela, uma marcada evolução
de mal a pior
, entrando decididamente "no negativo" (ainda quadro 25),
aliás em paralelo que o que já acima registámos quanto
à FBCF e podemos confirmar no quadro infra, 26. O consumo privado e os
gastos públicos, que estiveram na viragem de século muito longe
do pretenso crescimento vertiginoso para que remete a incessante narrativa
sobre o alegado
despesismo
, nos anos mais recentes registaram de facto importantes decréscimos, os
quais, via contração da procura agregada, têm
contribuído (em "causalidade circular cumulativa") para o
colapso económico geral (ver quadro 26).
A verdadeira dimensão deste é, entretanto, percetível
acima de tudo através da representação gráfica da
evolução do próprio PIB, em vez das taxas de crescimento
deste. Partindo de valores-base 100, para o ano de 2000, tem-se que no
espaço europeu três países viram já completamente
destruído, nos últimos anos, o crescimento que tinham acumulado
na primeira parte do período: Grécia, Portugal e a Itália
(ver quadro 24). Há, porém, diferenças de relevo mesmo
adentro deste trio: enquanto a Grécia se portou primeiro aparentemente
muito bem, convergindo com a média europeia, e depois disso sofreu uma
catástrofe de dimensões épicas, Portugal e a Itália
arrastam-se numa apagada e vil tristeza, em boa verdade, já desde o
começo do século. Os outros três PIIGS, pelo seu lado,
até ao
momento parecem ter resistido melhor, caindo também em termos absolutos
nos últimos anos, mas evoluindo apesar de tudo acima da média
europeia (e por isso convergindo com ela), se considerarmos todo o
período desde 2000.
Se confrontarmos agora a evolução portuguesa no horizonte
2000-2013 com a dos países do núcleo europeu, o
diagnóstico antes exposto reforça-se com o importante facto
adicional de que, no conjunto do período de 13 anos, todos os
países do núcleo se comportam melhor do que a média
europeia, isto é, divergem, mas para cima, ou "descolam": ver
o quadro 28. Todavia, sublinhe-se que até à crise a França
e a Alemanha, pelo menos, pareciam estar a perder lentamente ritmo. Só
no período pós-2008 recuperam ímpeto, sobretudo a segunda,
ganhando agora em termos comparativos (e afastando-se portanto dos
retardatários), embora num "campeonato" que é,
repita-se, sem dúvida um campeonato de medíocres.
Amaral, João Ferreira do (2013), Porque Devemos Sair do Euro, O Divórcio Necessário para Tirar Portugal da Crise , Lisboa, Lua de Papel. Amaral, João Ferreira do (2014), Em Defesa da Independência Nacional , Lisboa, Lua de Papel. Estatísticas económicas, Banco de Portugal: www.bportugal.pt/... Estatísticas económicas, OCDE: stats.oecd.org/ Estatísticas económicas, Eurostat, European Commisssion: epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/statistics/search_database Estatísticas do Eurobarómetro, Flash Eurobarometer reports: ec.europa.eu/public_opinion/archives/flash_arch_en.htm Graça, João Carlos, João Carlos Lopes e Rafael Marques (2011), "The European Sovereign Crisis: the Portuguese Case", Economic Sociology Newsletter , Volume12, pp. 38-47: econsoc.mpifg.de/archive/econ_soc_12-3.pdf Krugman, Paul e Mark Weisbrot (2011), roarmag.org/2011/05/weisbrot-krugman-debate-greekcrisis-euro/ Lapavitsas, Costas, et al. (2010a), Eurozone Crisis: Beggar Thy Self and Thy Neighbour : researchonmoneyandfinance.org/media/reports/eurocrisis/fullreport.pdf Lapavitsas, Costas, et al. (2010b), The Eurozone between Austerity and Default: www.researchonmoneyandfinance.org/... Lapavitsas, Costas, et al. (2011), Breaking Up? A Route Out of the Eurozone Crisis: www.researchonmoneyandfinance.org/i... Outros documentos acessíveis em: www.researchonmoneyandfinance.org/ Luna-Arocas, Roberto et al. (2001), The Euro and European Identity: The Spanish and Portuguese Case, In: Journal of Economic Sapir, Jacques (2013), Faut-il sortir de l'Euro? , Paris, Seuil. Sapir, Jacques (2014), Entretien avec Jacques Sapir : la sortie de l'euro nécessaire , www.agoravox.tv/... [*] Economista, SOCIUS - ISEG-UL, jgraca@iseg.ulisboa.pt Esta comunicação encontra-se em http://resistir.info/ . |