por J. Martins Pereira Coutinho
[*]
A indústria de transporte aéreo, para ter sucesso comercial,
não pode ser gerida por agentes políticos, nem por pessoas que
não provem ser competentes e que não tenham experiência
profissional nesta estratégica indústria. Em Portugal, não
se tem verificado esse nível de exigências, nomeadamente no
Ministério das Obras Públicas e Transportes.
Isto, apesar de um Decreto-Lei ter aprovado as orientações
estratégicas para o sistema aeroportuário nacional, que
estabelece os seguintes objectivos:
-
Prestar serviços eficientes, competitivos e de qualidade, orientados
para os clientes;
-
Respeitar os requisitos do meio ambiente e os direitos dos passageiros;
-
Desenvolver as infra-estruturas e os serviços aeroportuários
necessários para dar resposta à duplicação de
tráfego prevista a 20 anos e, por último, melhorar a
eficiência e a optimização de custos de todo o sistema.
Como se sabe, legislar é fácil. O que é difícil
é cumprir e respeitar o que está legislado. Mas ainda mais
difícil é executar com eficiência e competência,
quando os responsáveis não possuem os indispensáveis
atributos. Uma das provas desta realidade está cunhada no aeroporto
civil da Base Aérea de Beja, onde o Governo tem esbanjado dezenas de
milhões de euros do erário público e que, hoje, é
um elefante branco aeroportuário onde apenas sobrevoam as moscas do
deserto alentejano
No recente Congresso de Turismo do Alentejo, o presidente da Câmara de
Beja classificou o projecto do aeroporto de "muito ambíguo" e
denunciou as "muitas dificuldades que têm de ser publicamente
assumidas." Além de achar "um pouco estranho", exigiu
saber "por que é que ainda hoje se vem falar da necessidade de
investimentos para se poder certificar a pista."
O representante do Turismo Regional do Alentejo também afirmou que
"só daqui a 20 anos, se tudo correr bem, é que a
região sob influência do aeroporto terá 45 mil camas
turísticas." Outros oradores afirmaram que, no aeroporto civil de
Beja, "a curto prazo, só é possível instalar um
dormitório para aviões." E nós diremos que o
dormitório pode tornar-se um cemitério
Entretanto, o ministro António Mendonça e alguns
responsáveis aeroportuários não sabem o que fazer ao
monstro já construído. As empresas recusam utilizá-lo,
mesmo a preço de saldo. A sua inauguração foi prevista
para 2008, mas tem sido sucessivamente adiada. Em Dezembro de 2009, por
exemplo, a deputada e ex-secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula
Vitorino, anunciou que a sua abertura ao tráfego civil seria em Setembro
de 2010.
No entanto, a ANA-Aeroportos a quem o Governo obrigou a aceitar este
ruinoso projecto político já afirmou: "estamos a
fazer um grande esforço para que seja possível viabilizar uma
operação de voos "charter", no Verão de 2011,
nem que seja uma vez por semana." Isto prova que ninguém se
entende, quanto ao dia de nascimento do nado-morto
Mais grave ainda,
é a concessionária ANA não pode assinar contratos, porque
o Estado ainda não transferiu o aeroporto civil de Beja para a sua
posse.
Nesta barafunda aeroportuária, alguém anda a brincar com coisas
sérias e com o dinheiro dos contribuintes. E o mais grave nesta
situação, é não haver um primeiro-ministro
responsável e capaz de travar o delírio verbal do ministro da
Tutela, que fala muito e não diz nada. Além disso, gosta de ter
palco para exibir a sua vaidade e atraiçoa a sobriedade, que devia ser
apanágio de qualquer governante competente.
Perante o fracasso de convencer algumas empresas a utilizarem as
instalações construídas na Base Aérea de Beja, a
ANA tentou negociar com a Força Aérea a possibilidade de os
aviões que estacionam no Aeroporto da Portela passarem a estacionar
naquela Base Aérea.
Segundo o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, no Verão
de 2009, o presidente da ANA abordou-o sobre a possibilidade de a Força
Aérea poder acomodar aviões civis nas suas
instalações militares, para "libertar capacidade de
estacionamento no Aeroporto da Portela."
Depois, devido à diminuição de tráfego neste
aeroporto, as negociações ficaram suspensas. No entanto, o CEMFA
já confirmou que "a ANA está a levantar outra vez a
questão" e que "a Força Aérea tem uma atitude de
total abertura para ajudar quem precisa."
Assim, por desinteresse das companhias de aviação na
utilização do aeroporto de Beja, o espaço
disponível poderá ser utilizado como parque de estacionamento
para os aviões que estão parados na Portela. Estranhamente, o
ministro António Mendonça e alguns responsáveis
aeroportuários têm aproveitado a falta de espaço para
parquear aviões, para anunciar que o Aeroporto da Portela está
saturado de tráfego aéreo, quando sabem que é uma
falsidade.
Apesar disso, o presidente da ANA, Guilhermino Rodrigues, ousou afirmar que
"a partir de uma certa altura, há companhias aéreas que
simplesmente não poderão vir cá." E acrescentou que
esta situação levará à degradação do
serviço e à perda de receita. Depois, não hesitou em
afiançar que "nem a crise, nem o desvio de passageiros para o TGV
evitarão que a Portela entre em ruptura de capacidade para o
processamento de passageiros em 2017."
Ou seja, o principal responsável aeroportuário de Portugal
que devia promover os nossos aeroportos, a nível internacional
está a protagonizar uma campanha difamatória, que afasta
companhias aéreas do Aeroporto da Portela e lesa a economia nacional.
Estranhamente, o director do Aeroporto também participa nesta campanha
anti-Portela, mas não explica porque razão a pista 35 está
encerrada há quase dois anos!
PLANO DE DESTRUIÇÃO DA PORTELA
Para dar seguimento ao plano de destruição da Portela, parece
haver quem seja capaz de tudo, até de ultrajar a verdade sobre os
"slots" aeroportuários, para justificar a
construção do Novo Aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete e
cumprir o guião de S. Bento...
Não é por acaso que o presidente da CML, António Costa,
afirmou que "com a saída do aeroporto não vemos só
diminuir o risco para a segurança, não vemos só diminuir
uma fonte gravíssima de poluição sonora, mas vemos
também a oportunidade que é termos um segundo pulmão verde
nos terrenos libertados."
O senhor António Costa deve pensar que os lisboetas são tolinhos
para acreditarem nas suas patranhas. De facto, todos sabem que a
destruição da Portela é para satisfazer interesses de
projectos imobiliários e não para fazer jardins
Por alguma
razão, em 2011, a Portela vai estar, finalmente, ligada ao Metropolitano
de Lisboa. Por isso, a sua afirmação não deixa de ser uma
das melhores provas da falácia reinante na governação
socialista da CML e do País.
É oportuno lembrar que, antes de 1970, já havia quem propalasse
notícias alarmistas que davam como certa a saturação do
Aeroporto da Portela, para justificar a construção de um novo
aeroporto. Nessa altura, foram feitos estudos e foi aprovado o local para
construir o aeroporto, em Rio Frio.
No entanto, nada se construiu e o Aeroporto da Portela, após 40 anos de
ameaças, continua a não estar saturado e a ter espaço para
se expandir, se a ANA quiser e tiver a colaboração do Governo,
para transferir os militares de Figo Maduro para outra Base Aérea.
Por outro lado, será útil lembrar que, quando o TGV estiver a
funcionar, o Aeroporto da Portela poderá ter uma acentuada quebra de
tráfego a favor de Badajoz, onde opera o TGV e a Ryanair. Actualmente, a
Portela já perde tráfego a favor do Aeroporto do Porto, onde a
Ryanair opera directamente para vários destinos. Além disso, como
acontece noutros países, o TGV vai aumentar a concorrência entre
aeroportos.
Por isso, é muito estranho que o ministro António Mendonça
e responsáveis aeroportuários continuem a queixarem-se da
saturação da Portela e afirmem, sem pudor, que o Novo Aeroporto
de Lisboa "não é um luxo, mas sim uma necessidade". O
senhor ministro foi mais longe e afirmou: " o novo aeroporto não
é um capricho. Como a alta velocidade, também é um
projecto estruturante para o país."
Ou seja, para o ministro das Obras Públicas e Transportes, um aeroporto
é tão estruturante como um comboio! Este novo conceito
ministerial de estrutura, talvez ajude a perceber o grau de conhecimentos
técnicos do responsável pelos transportes e obras públicas
em Portugal
De qualquer modo, o senhor ministro devia saber que há outros aeroportos
europeus, com áreas semelhantes à Portela, que têm quase o
triplo dos seus movimentos. Por exemplo, Gatwick e Stansted, em Londres, em
2009, movimentaram respectivamente 32 milhões e 20 milhões de
passageiros. Porém, o Aeroporto da Portela apenas movimentou 13
milhões de passageiros, menos 2,6% que em 2008.
Possivelmente, o ministro António Mendonça também
desconhece que existe na Portela um "táxi way", que corre
paralelamente em cerca de 2/3 da sua pista principal e que se cruza de seguida
com ela, para voltar a correr de novo em linha paralela até ao seu
extremo, a norte do aeroporto. Como é possível verificar,
é um cruzamento que reduz a operacionalidade da pista e a
movimentação de aviões.
Na opinião de conceituados técnicos, se houvesse vontade de
aumentar os movimentos de aviões e o tráfego na Portela, bastaria
prolongar o aludido "táxi way", sempre do lado direito da
pista, para suprimir o actual cruzamento, que impede que o Aeroporto da Portela
seja mais eficiente, mais lucrativo e competitivo.
Se isto é possível fazer e não se faz, é um crime
de lesa-Pátria que devia ser investigado, até porque o ministro
das Obras Públicas e Transportes ousou repetir que "o actual
aeroporto está completamente saturado." Se esta mentira não
for desvendada, a campanha anti-Portela vai continuar, para gáudio dos
seus arautos e proveito de quem apostou na destruição do
Aeroporto da Portela e na construção do NAL.
Ao contrário do que é propalado pelos detractores da Portela,
é possível aumentar o tráfego e atrair mais companhias
aéreas tradicionais, se a ANA deixar de apoiar financeiramente as
companhias "low cost" - para utilizarem a Portela - e negociar a sua
transferência para aeroportos secundários e bases aéreas
militares, a começar pelo Montijo.
Se isto não for feito, é porque há interesse em continuar
a denegrir a imagem do Aeroporto da Portela, para construir o NAL no Campo de
Tiro de Alcochete e, assim, satisfazer a ganância e os interesses da
Banca e das grandes empresas construtoras, que actuam como abutres
esfomeados
[*]
Especialista em carga aérea,
coutinho.mp@gmail.com
Ver também:
A produção de jet fuel e a dispensabilidade de novos aeroportos
, de John Busby.
Peak Oil: A crise global que se aproxima e o declínio da aviação
, de Alex Kuhlman.
Esgotamento do petróleo, tráfego aéreo e construção de novos aeroportos
, de John Busby.
O Novo Aeroporto de Lisboa e a escassez de petróleo
, de Demétrio Carlos Alves.
Novo aeroporto: O falso problema e o verdadeiro
, de Jorge Figueiredo.
Portugal e o Pico de Hubbert
, de Jorge Figueiredo
A quem lucram os grandes projectos?
, de Luís Vicente
O "Pico da Aviação": Combustível aeronáutico e cenários da futura produção de petróleo
, de Kjell Aleklett
"Estamos perante a urgente necessidade de reavaliar a decisão sobre a construção de um novo aeroporto"
, de Luís Queirós
O original encontra-se na revista
Cargo
, nº 212, Maio/2010.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.