Portugal e o Pico de Hubbert
Um fantasma ronda o mundo. É o fantasma do fim da era do
petróleo. O início do seu fim está a dar-se neste
momento, quando a humanidade atinge o Pico Petrolífero. A partir deste
ponto máximo a curva da produção mundial já
não pode aumentar e inicia o seu declínio irreversível.
Nos próximos 40 ou 50 anos a dotação de petróleo
convencional existente no planeta deverá estar praticamente esgotada.
Trata-se de um facto com profundas, graves e pesadas consequências para
toda a humanidade, até mesmo de ordem demográfica.
Nos breves minutos concedidos para esta intervenção é
impossível explicar com mais pormenor a teoria desenvolvida pelo Dr.
King J. Hubbert, o grande geofísico norte-americano. Para os
interessados remeto às investigações contemporâneas
de cientistas como Collin Campbell, Jean Laherrere, Ali Bakhtiari, Kenneth
Deffeyes, Matthew Simmons, Rui Namorado Rosa e tantos outros, que corroboram a
plena validade da descoberta do Dr. Hubbert.
Pode-se perguntar: por que chamámos de fantasma àquilo que
é um facto já estabelecido por numerosíssimas
evidências empíricas e dados quantitativos? Resposta: pela
simples razão de que tal facto está a ser omitido e silenciado.
Trata-se de um conhecimento reservado apenas a "iniciados". Os
governos do mundo que sabem da existência do Pico Petrolífero
escondem-no dos seus cidadãos. As empresas petroleiras preferem
não falar do assunto em público, tentando prolongar ao
máximo uma situação que lhes é vantajosa. E os
media ditos "de referência" vão entretendo o
público com ficções marginais, como essa gigantesca
campanha para instilar o medo de um suposto aquecimento global.
Não precisaremos esperar 50 anos para sentir as consequências do
Pico. Elas já começaram a fazer-se sentir. Basta ver a nova
agressividade do imperialismo pelo domínio dos recursos
petrolíferos remanescentes no planeta, na África, Ásia,
América Latina e obviamente Médio Oriente, onde chega a brutais
invasões armadas e à instalação de bases militares
permanentes. Assistimos a tudo isso, mas entre o grande público
persiste um défice de percepção das suas causas de fundo:
o fim da Era do Petróleo, anunciado pelo Pico (ou actual plateau).
Há uma realidade que deve ser encarada de frente: o petróleo
convencional não pode ser substituído, não existe no mundo
qualquer outra energia primária que substitua a quantidade agora
produzida e consumida de petróleo convencional, da ordem do 84
milhões de barris por dia. Nem os petróleos não
convencionais (
deep offshore,
polar, areias betuminosas, petróleos pesados, processos
coal to liquids
e
gas to liquids,
etc), nem as energias renováveis (como as mixórdias feitas com
biocombustíveis líquidos), nem o metano fóssil ou
não-fóssil podem substituir as quantidades colossais hoje gastas
na grande festa do consumo de petróleo. Simplesmente não existem
meios energéticos alternativos para tais quantidades.
Deste dado factual devem-se tirar as conclusões que se impõem:
1) a humanidade terá necessária e inevitavelmente de reduzir o
seu consumo energético; 2) deveríamos desde já preparar
uma transição tão suave quanto possível, não
traumática, para o mundo pós petróleo. Tal
preparação, estima um investigador norte-americano, levará
pelo menos uns dez anos e exigirá grandes investimentos.
Além disso, há uma terceira conclusão a ser
extraída: a partir de agora deveríamos poupar tanto quanto
possível do petróleo remanescente no planeta em benefício
das gerações vindouras. É o que propõe o
"Protocolo do Esgotamento"
(Depletion Protocol),
um esquema inteligente de racionalização da
produção e consumo de petróleo destinado a congregar os
interesses divergentes dos países produtores e dos países
consumidores. O PCP já deu um passo nesse sentido: muito
lucidamente
apresentou no Parlamento o
Projecto de Resolução Nº 164/X
(Diário da Assembleia da República,
2ª série,
20/Dezembro/2006).
Se no plano mundial já há numerosos estudos acerca das
consequências do início do fim da Era do Petróleo, aqui no
nosso burgo lusitano estamos atrasadíssimos até mesmo quanto
à consciência da própria existência do Pico, e mais
ainda quanto às suas consequências. Continuamos alegremente a
festa do consumo desbragado de petróleo, como se ela pudesse perdurar
para sempre. A ignorância dos governantes portugueses é
aterradora e nem sequer dispõem de uma política energética
digna desse nome.
A dependência portuguesa nas importações de energia
é da ordem dos 84 por cento. Além disso verifica-se um
afunilamento: do total da energia importada, 68 por cento é
constituída por petróleo. Trata-se de uma situação
assustadora mesmo nesta fase incipiente em que as consequências do Pico
ainda são ténues. Considerando que no mundo pós-Pico
haverá uma tendência estrutural para o aumento do preço do
barril, Portugal ficará numa situação de vulnerabilidade
total.
Em 2005 o país efectuou importações líquidas de
15,88 milhões de toneladas de petróleo. A
repartição do consumo final nesse ano, como mostra o
balanço energético da
DGGE
, foi assim:
|
Sector
|
Toneladas
|
%
|
|
Agricultura e pescas
|
278.290
|
2,4
|
|
Indústrias extractivas
|
74.190
|
0,7
|
|
Indústrias transformadoras
|
1.535.808
|
13,5
|
|
Construção e obras públicas
|
849.890
|
7,5
|
Transportes
dos quais: rodoviários
|
6.840.828
6.199.830
|
60,0
54,4
|
|
Doméstico
|
715.656
|
6,3
|
|
Serviços
|
1.100.647
|
9,7
|
|
Consumo final
|
11.395.309
|
100
|
Estes números mostram a desindustrialização do país
(apenas 13,5 por cento para a indústria transformadora). Mas mostram
sobretudo o verdadeiro cancro que corrói a economia portuguesa: o
desbragado consumo energético do sector dos transportes, o qual é
constituído quase exclusivamente por refinados de petróleo.
Qualquer governo decente consideraria tal situação, em si mesma,
como insustentável. Mesmo que não estivéssemos na
primeira fase do mundo pós-pico do petróleo (adoptando o
modelo classificatório das quatro fases
proposto por Bakhtiari) a
situação presente é altamente preocupante e exige medidas
de emergência no imediato.
Tratar com profundidade assuntos secundários e ignorar o que é
realmente importante constitui uma atitude suicida mas parece ser aquela
adoptada pelo governo Sócrates. Por ignorância ou
inconsciência, o governo português não só não
está a tomar a medidas necessárias para minimizar o impacto do
fim da Era do Petróleo como
efectua acções que poderão agravá-lo,
comprometendo gerações futuras de portugueses. Impõe-se
que tal atitude seja revertida, tendo em atenção os prazos, ou
seja, as quatro fases que decorrerão entre o presente e o ano 2020.
É preciso que a actual primeira fase do pós-Pico (a decorrer
até 2009-2010), relativamente benigna, seja aproveitada para preparar as
fases mais gravosas que virão a seguir.
Assim, aponta-se como rumos de actuação o seguinte conjunto de
medidas:
1) Criar, no âmbito do Estado, um grupo nacional de
preparação para o enfrentamento do Pico Petrolífero,
constituído por sábios e personalidades eminentes no
domínio da energia.
2) Reexaminar todos os grandes projectos nacionais à
luz das
consequências do Pico Petrolífero, o que deverá conduzir
à paralisação do desenvolvimento dos projectos mais
absurdos agora em curso (como o
novo aeroporto
, o TGV e a proliferação de termoeléctricas a gás
natural);
3) Relançar o Plano Energético Nacional (PEN),
com base na regra
dos 80/20 e uma atenção muito especial ao sector dos transportes.
O novo PEN deverá abandonar a política demissionista do Estado
no domínio energético, hoje entregue à sanha
predatória do capital monopolista em busca do lucro fácil;
4) Iniciar a consciencialização dos operadores
económicos, do público em geral e dos próprios governantes
quanto à real situação energética do mundo;
5) Ter em atenção aquilo que outros governos
europeus
estão
realmente
a fazer ainda que de forma discreta no
domínio das medidas preparatórias para minimizar o impacto do
Pico Petrolífero (o que nem sempre coincide com as políticas
apregoadas pela União Europeia);
6) No domínio dos transportes rodoviários,
iniciar uma política geral de substituição dos
combustíveis petrolíferos pelo gás natural comprimido
(GNC) e gás natural liquefeito (GNL), com a instalação de
uma rede postos de abastecimento de GNC e GNL;
7) Adjudicar a laboratórios do Estado (como o INETI) a
instalação de protótipos e posterior
generalização de
instalações para a produção de biometano a partir
de Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETARs),
aterros sanitários e biomassa florestal;
8) No domínio da produção de
electricidade: a) esgotar o
potencial hidroeléctrico nacional antes do ano 2020; b)
privilegiar o carvão na instalação de novas centrais
termoeléctricas; c) suspender os licenciamentos de quaisquer novas
termoeléctricas a gás natural; d) preparar a
instalação de uma primeira central nuclear em Portugal.
Caro amigos:
Penso que mal pude aflorar as questões principais. Mas, dentro do
espaço de tempo que me foi concedido, este é o resumo que consigo
transmitir quanto às nossas reflexões acerca do futuro da energia
em Portugal. Muito obrigado pela vossa atenção. Fico à
disposição para quaisquer esclarecimentos.
[*]
Intervenção na sessão sobre Energia, realizada em Lisboa a
22/Maio/2007
no âmbito da Conferência Nacional do PCP sobre Questões Económicas e Sociais.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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