O crepúsculo do dinheiro
por John Michael Greer
Comentei antes nestes ensaios que um dos hábitos menos construtivos do
pensamento contemporâneo é a sua insistência no
carácter único da experiência moderna. É verdade,
naturalmente, que os combustíveis fósseis permitiram às
sociedades industriais do mundo prosseguirem as suas farras numa escala mais
grandiosa do que as de qualquer império do passado, mas as
próprias farras têm estreitos paralelos com aquelas das sociedades
anteriores e detectar as trajectórias destes exemplos passados é
um dos poucos recursos de orientação utilizáveis se
quisermos saber para onde nos levam as versões actuais.
A metástase do dinheiro em todos os aspectos da vida no mundo
industrial moderno é um bom exemplo. Se bem que nenhuma sociedade do
passado, tanto quanto sabemos, tenha levado este processo tão longe,
a substituição de riqueza pelas suas próprias
representações abstractas não é uma coisa nova.
Como já no século XVIII destacou
Giambattista Vico
, as sociedades complexas movem-se do concreto
para o abstracto ao longo dos seus ciclos de
vida e isto influencia a vida económica mais do que qualquer outra
coisa. Assim como o poder político principia com violência bruta e
evolui progressivamente rumo a meios mais subtis de persuasão, a
actividade económica principia com a troca directa de riqueza real e
evolui através de um processo semelhante de abstracção:
primeiro, uma mercadoria apreciada torna-se a medida padrão para todas
as outras espécies de riqueza; a seguir, recibos que podem ser trocados
por alguma quantia fixa daquela mercadorias tornam-se uma unidade de troca;
finalmente, promessas de pagar alguma quantia destes recibos quando
solicitados, ou num ponto fixado no futuro, entram em circulação
e estas podem em grande medida acabar por substituir os próprios recibos.
Este movimento rumo à abstracção tem vantagens importantes
para sociedades complexas, pois abstracções podem ser
posicionadas com um investimento de recursos muito menor do que com a
mobilização das realidades concretas que lhes estão
subjacentes. Poderíamos ter resolvido o debate do ano passado acerca de
quem deveria governar os Estados Unidos através do método
ultrapassado, fazendo com que McCain e Obama chamassem às armas e os
seus apoiantes, marchassem para a guerra e resolvessem a questão em meio
a uma saraivada de balas e tiros de canhão numa belo dia de Setembro
numa pradaria do Iowa. Contudo, o custo em vidas, dinheiro e danos colaterais
teria sido excessivo em relação a eleições. Da
mesma forma, as complexidades envolvidas em pagar trabalhadores de
escritório em espécie, ou mesmo em cash, fazem uma economia de
abstracções muito menos incómoda para todos os afectados.
A ARMADILHA
Ao mesmo tempo, há uma armadilha oculta no conforto das
abstracções: quanto mais distante você fica das realidades
concretas, maior se torna a probabilidade de que as realidades concretas possam
não estar ali quando necessárias. A história está
pejada de cadáveres de regimes que deixaram o seu poder tornar-se
tão abstracto que já não podiam conter um desafio no
nível fundamental da violência bruta; diz-se da história
chinesa, e poderia ser dito de qualquer outra civilização, que o
seu ritmo básico é a andadura de botas cardadas a subirem
degraus, seguida pelos sussurros de chinelos de seda a descerem. Da mesma
forma, as abstracções económicas mantêm-se a
funcionar só na medida em que existem bens e serviços reais para
serem comprados e vendidos e é apenas nas fantasias de economistas que
as abstracções garantem a presença dos bens e
serviços. Vico argumentou que esta armadilha é uma força
condutora central por trás do declínio e queda de
civilizações; o movimento rumo à abstracção
vai tão longe que as realidades concretas são ignoradas. No fim
as realidades escorrem para longe sem serem percebidas, até que um
choque de alguma espécie sacode a torre das abstracções
construídas em cima de realidades ocas e toda a estrutura desmorona-se.
Estamos desconfortavelmente próximos de tal possibilidade exactamente
agora, especialmente nos nossos assuntos económicos. Ao longo do
último século, com a assistência da hipercomplexidade
económica tornada possível pelos combustíveis
fósseis, os países industriais do mundo levaram o processo de
abstracção económica mais longe do que qualquer
civilização anterior. No topo dos níveis habituais de
abstracção uma mercadoria utilizada para medir valor
(ouro), recibos que podiam ser trocados por aquela mercadoria (papel moeda) e
promessas de pagar os recibos (cheques e outros papeis financeiros) as
sociedades contemporâneas construíram uma pirâmide
extraordinária de abstracções adicionais. Ao
contrário das pirâmides do Egipto, além disso, estas
assentam no terreno sobre uma base estreita, no seu cerne de bens e
serviços reais, e expande-se à medida que sobe.
A consequência de toda esta construção de pirâmides
é que não há bastantes bens e serviços sobre a
Terra para igualar, aos preços actuais, mais do que uma pequena
percentagem do valor facial das acções, títulos,
derivativos e outros exotismos financeiros agora em circulação. A
vasta maioria da actividade económica no mundo de hoje consiste
puramente de permutas entre estas representações de
representações de representações de riqueza. Esta
é a razão porque a economia real de bens e serviços pode
cair numa queda livre como aquela agora em curso, sem ter até
então mais do que um modesto impacto sobre uma economia cada vez mais
alucinatória de abstracções financeiras.
Mas um impacto haverá, se a queda livre prosseguir suficientemente
longe. Este é o ponto de Vico e é uma possibilidade que tem sido
considerada
de modo demasiado ligeiro tanto pelas classes políticas das sociedades
industriais de hoje como pelos seus críticos em ambos os extremos do
espectro político. Uma economia de riqueza alucinada depende
absolutamente da concordância de todos os participantes em aceitar que
as alucinações têm valor real. Quando esta
concordância afrouxa, a pretensão pode evaporar-se em tempo
recorde. É assim que bolhas financeiras transformam-se em pânicos
financeiros: a fantasia colectiva de valor que cercava bolbos de tulipas, ou
acções, ou lotes de habitação suburbana, ou
qualquer outro veículo especulativo, dissolve-se numa louca corrida para
a saída. Esta corrida tem sido pacífica até à data;
mas pode não ser sempre assim.
Argumentei em posts anteriores que a era industrial é num certo
sentido a bolha especulativa final, uma festa de três séculos de
duração conduzida pela fantasia do crescimento económico
infinito sobre um planeta finito com ainda mais finitos abastecimentos de
energia barata abundante. Mas, chego a pensar que esta mega-bolha gerou uma
segunda bolha aproximadamente da mesma escala. O veiculo para esta bolha
secundária é o dinheiro o que significa aqui os
conteúdos totais da riqueza que domina a nossa vida económica e
quase sufocou a economia real de bens e serviços, para nada dizer da
economia primária de sistemas naturais que nos mantém vivos a
todos.
CARACTERÍSTICAS DAS BOLHAS
Bolhas especulativas são definidas de vários modos, mas exemplos
clássicos a farra das acções de 1929, digamos, ou a
última bolha habitacional têm certos padrões
característicos em comum. Primeiro, o valor de qualquer ítem que
esteja no centro da bolha mostra uma ascensão de preço sustentada
não justificada por mudanças na economia em geral, ou em qualquer
valor concreto que o ítem possa ter. Uma bolha especulativa em dinheiro
funciona de um modo um pouco diferente das outras bolhas, porque o
veículo especulativo é também a medida do valor; ao
invés de um dólar aumentar de valor até que valha dois, um
dólar torna-se dois. Quando acções ou lotes habitacionais
vão aumentando rapidamente de preço à medida que uma bolha
neles se concentra, então, o que ascende numa bolha monetária
é o montante total de riqueza de papel em circulação. Foi
isto
certamente o que aconteceu nas últimas décadas.
Uma segunda característica das bolhas especulativas é que elas
absorvem a maior parte do valor fictício que criam, ao invés de
espalharem-no outra vez pelo resto da economia. Numa bolha de
acções, por exemplo, a maioria do dinheiro que vem de vendas de
acções vai directamente outra vez para dentro do mercado; sem
este
loop
de retroalimentação, uma bolha não pode suster-se por
muito tempo. Numa bolha monetária, esta mesma regra mantém-se
válida; a maior parte dos rendimentos de papel gerados pela bolha acabam
por ser reinvestidos em alguma outra forma de riqueza de papel. Aqui, mais uma
vez, isto certamente aconteceu; a única razão porque não
vimos inflação de milhares por cento em resultado da vasta
fabricação de riqueza de papel nas últimas décadas
é que a maior parte dele foi utilizada unicamente para comprar ainda
mais riqueza de papel recém-fabricada.
Uma terceira característica das bolhas especulativas é que o
número de pessoas nelas envolvida aumenta firmemente quando a bolha
avança. Em 1929, o mercado de acções foi inundado por
investidores amadores que nunca antes haviam comprado uma acção
de qualquer coisa; em 2006, centenas de milhares, talvez milhões, de
pessoas que anteriormente pensavam de casas apenas como algo para viver
chegaram a pensar delas como um bilhete para a riqueza da noite para o dia, e
afundaram o seu valor líquido no imobiliário em
consequência. A metástase da economia do dinheiro discutida em
posts anteriores é outro exemplo do mesmo processo a funcionar.
Finalmente, é claro, as bolhas sempre explodem. Quando isso acontece, o
veículo especulativo do dia vem abaixo com estardalhaço,
perdendo a maior parte do seu valor assumido, e a massa de
investidores amadores, tendo perdido qualquer coisa que tenham ganho e
habitualmente um bocado mais, foge do mercado. Isto ainda
não aconteceu à actual bolha monetária. Pode ser uma boa
ideia começar a pensar acerca do que pode suceder se assim for.
Os efeitos de um pânico monetário estariam centrados
desconfortavelmente próximos de casa, suspeito, porque o grosso da
hiper-expansão monetária nas últimas décadas
centrou-se numa única divisa, o dólar dos EUA. Aquela bomba podia
ter sido desarmada se o colapso do ano passado da bolha habitacional tivesse
sido permitido seguir o seu curso, porque isto teria eliminado um não
pequeno montante de abstracções denominadas em dólar
geradas pelos excessos dos últimos anos. Infelizmente, o governo
estado-unidense optou ao contrário por tentar re-inflar a bolha da
economia gastando dinheiro que ele não tem através de uma orgia
de concessões de empréstimos e alguns muito dúbios truques
fiscais. Muitos governos estrangeiros estão
consequentemente a ficar relutantes em emprestar mais dinheiro aos EUA e
pelo menos uma potência em ascensão a China tem
estado silenciosamente a substituir as suas reservas de dólares por
commodities
e outras formas de riqueza muito menos abstractas.
Até agora, tem sido do melhor interesse de outros países
industriais apoiar os Estados Unidos com um fluxo firme de crédito, de
modo a que possa entrar em bancarrota ao cumprir o seu auto-imposto papel de
polícia global. Tem sido um arranjo muito confortável, uma vez
que outros países não têm de arcar com mais do que uma
pequena fracção dos custos de tratar com estados perigosos
(rogue),
mantendo o Médio Oriente dividido contra si próprio, ou mantendo
a hegemonia económica sobre um Terceiro Mundo cada vez mais inquieto,
enquanto recebem os benefícios de todas estas políticas. O fim da
era do combustível fóssil barato, contudo, lançou uma
carta devastadora no jogo. Quando a produção mundial de
petróleo vacila, deve ter ocorrido aos líderes dos outros
países que se os Estados Unidos deixassem de consumir cerca de um
quarto da oferta mundial de combustíveis fósseis haveria um
bocado mais para partilhar por todos. A possibilidade de que outros
países possam decidir que este ganho potencial pesa mais do que as
vantagens de manter os Estados Unidos solventes pode tornar interessante a
próxima década, ou pouco mais ou menos, no sentido da famosa
maldição chinesa.
No longo prazo, por outro lado, é seguro assumir que a vasta maioria dos
activos de papel agora em circulação, qualquer que seja a divisa
na qual estão denominados, perderá essencialmente todo o seu
valor. Isto pode acontecer rapidamente, ou pode desdobrar-se ao longo de
décadas, mas a oferta mundial de representações abstractas
de riqueza é tão mais vasta do que a sua oferta de riqueza
concreta que alguma coisa tem de acontecer mais cedo ou mais tarde. O
crescimento económico futuro não fará diferença; o
fim da era do combustível fóssil barato torna o crescimento da
economia real de bens e serviços uma coisa do passado, excepto em
situações raras e auto-limitantes. Quando os limites do
crescimento endurecem e se tornam primeiro barreiras ao crescimento e a seguir
condutores da contracção, o encolhimento na economia real
torna-se a regra, intensificando o descompasso entre dinheiro e riqueza e
aumentando a pressão para depreciar o valor real de activos em papel.
Mais uma vez, seja como for, tudo isto aconteceu antes. Exactamente quando
a crescente abstracção económica é uma
característica comum da história de sociedades complexas, o
descarrilamento daquela abstracção é uma
característica comum do seu declínio e queda. Os expedientes
desesperados agora a serem perseguidos para expandir a oferta monetária
americana numa economia em rápida contracção tem
equivalentes exactos, digamos, nas medidas igualmente desesperadas tomadas
pelo Império Romano nos seus últimos anos para expandir a sua
própria oferta monetária através da
degradação da cunhagem. A economia romana atingira
níveis muito altos de complexidade e o alcance internacional; os seus
prestamistas poderíamos chamá-los hoje de financeiros
era uma grande força económica, o crédito
desempenhava um papel apreciável na vida económica de todos os
dias. No declínio e queda do império, tudo isto acabou. Os
agricultores que pastoreavam o seu rebanho nas ruínas do fórum de
Roma durante a Baixa Idade Média viviam numa economia de permuta e de
corte feudal, na qual moedas eram elementos raros e mais frequentemente
utilizadas como jóias do que como um meio de troca.
Uma trajectória semelhante quase certamente aguarda-nos no futuro do
nosso próprio sistema económico, embora não seja claro que
utilização os pastores darão aos vastos maços de
Títulos do Tesouro quando levarem as suas manadas a um centro comercial
nas futuras ruínas da Washington DC.
Como se desenrolará a trajectória é algo que
ninguém adivinhou, mas a possibilidade de que possamos muito em breve
ver declínios agudos no valor do dólar, e dos activos de papel
denominados em dólar, provavelmente não deveria ser ignorada.
Converter representações abstractas de riqueza por coisas de
valor mais duradouro pode estar no alto da lista de preparações
básicas para o futuro.
14/Outubro/2009
Outros trabalhos do autor em resistir.info:
Pico petrolífero: Fausto e a armadilha do macaco
, 27/Mar/07
As tecnologias de retaguarda
, 06/Ago/08
A economia termodinâmica
, 07/Jul/09
O desrespeito pela entropia
, 01/Set/09
O original encontra-se em
http://thearchdruidreport.blogspot.com/
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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