O desrespeito pela entropia
por John Michael Greer
A relação entre a moderna sociedade industrial e as ideias
científicas que supostamente a guiariam é mais complexa do que um
olhar casual possa revelar. A ideologia que uma sociedade acredita
abraçar e as suposições acerca do mundo que estão
realmente subjacentes nas suas acções e
instituições estão habitualmente em conflito uma com a
outra. Muitas vezes é preciso a mais árdua espécie de
desatenção obstinada para deixar de perceber o fosso, mas
esforços em direcção a esta finalidade podem contar com
apoio da opinião pública bem como do apoio mais tangível
proporcionado pelos interesses económicos.
Considere-se o choque entre os valores cristãos e liberais que
alegadamente adoptavam as grandes potências da Europa no século
XIX e a implacável exploração política e
económica imposta pelas mesmas potências dos povos subjugados dos
seus enormes impérios coloniais. O resultado foi uma corrida para
encontrar alguma justificação para os impérios europeus
diferente da que era óbvia, a qual era simplesmente que os europeus
queriam a riqueza e o poder que pudessem obter pela exploração do
resto do planeta. Como Stephen Jay Gould descreveu no seu atraente
The Mismeasure of Man
gerações de cientistas gastaram as suas carreiras a
tentar argumentar que a "raça branca", aquele animal
imaginário e variadamente definido, era biologicamente superior
às outras "raças" sobre o planeta.
Estes esforços entravam em conflito com um pormenor da antropologia.
Acontece que os povos europeus descendem de um ramo médio de um grande
número de índices biológicos; os povos africanos descendem
de um extremo da maior parte destes índices e os povos do Extremo
Oriente tendem a descender do outro. Portanto demonstra-se impossível
argumentar, digamos, que os britânicos eram superiores aos africanos sem
evidenciar que os chineses eram superiores aos britânicos e as
afirmações de que os britânicos eram superiores aos
chineses acabavam efectivamente por provar que os africanos eram superiores aos
britânicos. Ainda assim, estes esforços continuaram na primeira
metade do século XX, porque a alternativa era admitir que a
dominação europeia do planeta era um franco acto de pirataria
apoiado por nada mais edificante do que uma vantagem temporária em
tecnologia militar.
Os países industriais do princípio do século XXI
estão numa situação muito semelhante ou, mais
precisamente, em duas situações muito semelhantes. Por um lado, o
relacionamento entre os países industriais e os seus estados cliente do
Terceiro Mundo é muito pouco mais equitativo do que entre os
britânicos e, digamos, o quarto ou mais da superfície da Terra que
foi ocupada pelas tropas britânicas e explorada pelos interesses
económicos britânicos no século XIX. As
afirmações de superioridade racial caíram fora de moda, os
países industriais dos dias de hoje justificam a sua
posição com a afirmação de que as suas
instituições políticas e económicas são
superiores e que o resto dos países do mundo pode partilhar exactamente
os mesmos estilos de vida de abundância desde que as adoptassem.
As sociedades industriais de hoje tratam esta afirmação como uma
verdade auto-evidente. Naturalmente, a potências coloniais do
século XIX tratavam a afirmação da superioridade racial
europeia como uma verdade auto-evidente, também, e ambas as
afirmações são igualmente falsas. A abundância
desfrutada pelos actuais países industriais exauriu cerca da metade dos
recursos em combustíveis fósseis do planeta, deixando a metade
restante para alimentar a si próprio e ao resto do mundo no futuro.
Acenar com a cenoura da prosperidade industrial junto aos países do
Terceiro Mundo neste ponto do processo histórico é no
mínimo desonesto.
Naturalmente, parece ser verdade que governos representativos e economias
corporativo-capitalistas são mais eficientes do que a concorrência
em transformar combustíveis fósseis abundantes em estilos de vida
suburbanos. Isto não torna os governos representativos e as economias
corporativo-capitalistas a causa da prosperidade dos países industriais
de hoje, assim como a cor da pele do povo da Europa não foi a causa da
ascendência da Europa durante a sua era imperial. Contudo, tal como a
realidades não mencionáveis por trás do imperialismo
europeus tornaram inevitável que houvesse tentativas de
justificá-lo através da má ciência, as realidades
igualmente embaraçosas por trás das ascendência das
potências industriais de hoje fornece o impulso por trás das
tentativas bem significativas de empacotar as instituições do
mundo industrial a fim de exportá-las para o Terceiro Mundo.
A mesma espécie de lógica, a um nível ainda mais profundo,
governa o relacionamento entre os países do mundo industrial de hoje e os
fundamentos da actual prosperidade daqueles países as
próprias reservas de combustíveis fósseis da Terra. A dura
realidade é que a minoria de nós que aconteceu ter nascido nuns
poucos países poderosos dissipou 500 milhões de ano de
fotosíntese armazenada a fim de nos dar um breve período de
abundância económica espectacular e, ao assim fazer, cortou a
possibilidade de que alguém mais desfrutasse a mesma abundância no
futuro. Combustíveis fósseis não são recursos
renováveis em qualquer escala de tempo acessível às nossas
espécies. Todo barril, tonelada e metro cúbico de
combustível fóssil que utilizamos agora é subtraído
do total disponível para os nossos descendentes. Apesar de uma orgia de
acenos, nenhum outro recurso pode proporcionar qualquer coisa que se aproxime
da fartura de energia barata e abundante sobre a qual repousam nossos estilos
de vida de relativo privilégio.
Mas este ponto de vista é no mínimo tão pouco
mencionável em sociedade polida como o foram as ásperas
realidades do colonialismo europeu no seu tempo, ou os factos igualmente
ásperos que estão na base da ascendência dos países
industriais do mundo sobre o Terceiro Mundo de hoje. Os árduos
esforços para encontrar uma base racial para a supremacia europeia um
século atrás, e os igualmente vigorosos esforços para
apresentar as instituições ocidentais contemporâneas como a
chave para a prosperidade e a paz no Terceiro Mundo de hoje, têm portanto
equivalentes preciso no entusiasmo com o qual todo o imaginável recurso
energético alternativo é tratado por responsáveis
governamentais e sabichões dos média por todo o mundo industrial.
Nenhum destes recursos pode realmente proporcionar a energia barata e abundante
necessária para manter a espécie de sociedade que temos hoje. Sei
que isto é uma declaração controversa neste momento.
Contudo, deve-se notar que todo recursos energético alternativo posto
realmente em produção acabou, na melhor das hipóteses, por
proporcionar um modesto incremento às ofertas energéticas
existentes, e isso só se não se registar o subsídio de
energia que os novo recurso obtém dos combustíveis
fósseis. Naturalmente, tecnologias que não foram postas em
produção parecem mais prometedoras, e quanto mais longe elas
estão da implementação, mais impressionantes elas parecem.
Alardes, muitas vezes engendrados para o objectivo muito prático de
vender acções em Ofertas Públicas Iniciais, são
pelo menos tão abundantes no campo da energia quanto em qualquer outro.
E aqui, caro leitor, é onde o fosso entre o respeito oficial pela
ciência da nossa sociedade e as suas atitudes reais em
relação ao mundo apresenta-se com clareza notável.
Mais uma vez, o papel de vilão de filme B neste drama é
desempenhado pela segunda lei da termodinâmica, mais conhecida por lei da
entropia. Tal como mencionou num post anterior, este é o padrão
ouro da física, a lei que não pode ser rompida sem, como disse
Sir Arthur Eddington
[1]
, afundar na mais profunda humilhação. Toda a gente no mundo
industrial com os rudimentos mínimos de educação
científica sabe disto, ou pelo menos foi apresentado a esta lei, mas
ainda as sim ninguém quer falar acerca de como ela afecta a emergente
crise de energia do nosso tempo.
A implicação crucial da lei da entropia, para as nossas
finalidades, é que não é a energia como tal, mas sim a
diferença em energia potencial, que permite efectuar trabalho. Imagine
duas rochas arredondadas de igual peso, uma delas assente num planalto liso e a
outra assente na inclinação de uma colina abrupta. Se as duas
estão à mesma distância do centro da Terra, a
gravitação dá-lhes exactamente a mesma quantidade de
energia potencial. Mas, se der um empurrão àquela no planalto
não é provável que faça qualquer coisa além
de retesar os seus músculos, ao passo que se der um empurrão
igual àquela à beira da inclinação poderá
pô-la a rolar colina abaixo, esmagando tudo no seu caminho.
A diferença é que toda a parte do planalto tem a mesma energia
potencial devido à gravidade, ao passo que toda a parte do declive
não tem o mesmo potencial, e a rocha a rolar no mesmo pode aproveitar
alguma da diferença de potencial para manter-se em movimento. Quanto
maior a diferença de potencial, maior a compensação em
termos de energia libertada. Perceba, entretanto, o que acontece quando a rocha
à beira do declive finalmente chega a uma paragem no fundo do vale
abaixo: ela para e um outro empurrão não a porá em
movimento outra vez. Ela ainda tem um bocado de energia potencial naquela
potencial ela tem, em teoria, 4500 milhas [7242 km] para cair até
alcançar o centro da terra mas não há forma alguma
de podermos libertar qualquer parte daquela energia. Sem uma diferença
em potencial, quanta energia se obtém é uma estatística
sem significado. (Isto é, incidentalmente, a razão porque a busca
do ponto zero de energia é um exercício de absurdo; por
definição, o ponto zero de energia está no mais baixo
estado potencial possível e portanto não pode fazer de todo
qualquer trabalho.)
A mesma regra aplica-se a todo recurso energético: tem de haver uma
diferença em potencial que permita à energia ser libertada, e
quanto maior a diferença, maior o benefício. Com o
petróleo, a diferença é na energia química. Aquelas
longas cadeias de átomos de carbono e hidrogénio têm um
bocado de energia para libertar quando elas se partem e combinam-se com
oxigénio altamente reactivo. As cadeias curtas que formam o gás
natural têm menos e o carbono no carvão tem ainda menos, embora
ainda seja um bocado pelos padrões das outras fontes de energia. Todas
as coisas extraordinárias que as nossas espécies têm feito
com combustíveis fósseis ao longo das últimas três
centenas de anos são funções, com efeito, da
diferença em energia potencial química entre um barril de
petróleo e uma nuvem de fumo.
Por que estas reflexões são tão bem vindas na
conversação colectiva do nosso tempo quanto um verme numa fresca
salada verde? Porque elas apontam para a natureza de vistas profundamente
curtas das decisões que o mundo toma e no qual todos nós vivemos.
O imenso potencial energético trancado nos combustíveis
fósseis foi ali posto por milhões de anos de fotossíntese.
É como se, para retornar à nossa metáfora, coisas vivas
através dos tempos rolassem as rochas colina acima e as encarrapitassem
acima do fundo do vale. Após uns 500 milhões de anos, as nossas
espécies apareceriam e imaginariam como rolar aquelas rochas colina
abaixo. Enquanto houver abundância de rochas no lugar, podemos continuar
a utilizá-las, mas quando a taxa à qual queremos por rochas a
rolarem colina abaixo ultrapassa a oferta de rocha, é um
desperdício de fôlego insistir em que podemos obter os mesmos
resultados a lançar pequenos calhaus para o fundo do vale.
Isto é basicamente o que estão a dizer os proponentes mais
entusiastas das energias alternativas. Com o tempo que a luz solar demora para
chegar a nós, depois de atravessar 93 milhões de milhas [150
milhões de quilómetros] de espaço vazio, ela simplesmente
não aquela fonte concentrada de energia. Eis porque levou muitos
milhões de anos aos organismos de fotossíntese da Terra para
acumular as reservas de energia que nós agora dissipamos tão
livremente. O vento e a energia hidroeléctrica são ambos luz
solar de segunda mão, o produto de ciclos naturais orientados pelo sol;
o mesmo é verdadeiro para toda espécie de biocombustíveis,
naturalmente. A energia nuclear é um dos recursos de energia não
solar que temos, mas ela tem problemas e limitações severos por
si própria, nem que seja pelo facto de que os inputs de
combustível fóssil que precisamos para construir, operar e
descomissionar um reactor nuclear são tão vastos que há um
problema real de saber se é uma fonte líquida de energia afinal
de contas. (Naturalmente a promoção de uma tecnologia nuclear
está longe da implementação real, por melhor que
pareça, e pode-se perguntar se não serão promessa de um
optimismo inconsequente.)
Será que isto significa que energias alternativas são um
desperdício de tempo? Naturalmente que não. Modestos como sejam
as produções de fontes alternativas, elas são o que temos
para trabalhar quando os combustíveis fósseis se forem. O que
isto significa, ao contrário, é que a espécie de
civilização que construímos nos últimos três
séculos não sobreviverá ao fim dos combustíveis
fósseis baratos e abundantes. Uma sociedade que está habituada a
ter as coisas feitas por enormes rochas a rolarem colina abaixo está em
vias de ter de aprender a contentar-se com os muito menos pródigos
resultados do lançamento de calhaus.
O problema aqui é que muito poucas pessoas querem enfrentar esta
realidade. A grande maioria fará a si própria acreditar no ponto
zero de energia e em más lagartixas do espaço e quaisquer outros
absurdos que se possa nomear, ao invés de engolir em seco, respirar
profundamente e admitir que a prosperidade que desfrutámos durante os
últimos três séculos foi comprada a expensas dos nossos
netos. Por vezes suspeito que uma das razões porque tantas pessoas
gostam de imaginar um fim apocalíptico para a era industrial é
que a extinção súbita é mais fácil de
contemplar do que a experiência de vagarosamente despertar para a plena
extensão da nossa própria estupidez colectiva.
E isto, caro leitor, é a razão porque a entropia se tornou- o
Rodney Dangerfield
[2]
do debate energético contemporâneo. Ela pode ser o padrão
ouro da física, mas na conversação colectiva acerca do
nosso futuro não é respeitada.
[1] Arthur Stanley Eddington (1882-1944), astrofísico britânico,
autor de trabalhos sobre a teoria da
relatividade.
[2] Rodney Dangerfield (1921-2004), comediante e actor norte-americano.
O original encontra-se em
http://thearchdruidreport.blogspot.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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