A economia termodinâmica
por John Michael Greer
Os últimos doze meses ou pouco mais ou menos de caos económico
ensinaram algumas lições úteis a nós que estamos na
comunidade do pico petrolífero. Talvez a mais valiosa destas
lições seja a extensão em que as ideias económicas
convencionais têm fracassado em dar sentido ao modo como o
crepúsculo dos combustíveis fósseis está a
desenvolver-se na prática.
Não há muito, convém recordar, a maior parte das pessoas
em todos os lados do debate do pico petrolífero crentes,
cépticos e toda a gente entre eles assumiam que a lei da oferta e
da procura necessariamente definiria a resposta do mundo ao fim do
petróleo barato. À medida que as reservas existentes se
esgotassem, quase toda a gente concordava, a intersecção da
diminuição da oferta e crescimento da procura conduziria os
preços para cima. Os cornucopianos comuns insistiam que isto levaria a
mais perfurações, mais extracção secundária
e outras medidas que produziriam mais petróleo e trariam o preço
de volta para baixo; os tecno-cornucopianos insistiam em que isto levaria
à descoberta de novas fontes de energia, as quais produziriam mais
energia e trariam o preço de volta para baixo; os cornucopianos verdes
insistiam em que isto tornaria finalmente as energias renováveis
eficazes em termos de custo, e pelo menos impediriam que o preço subisse
mais; e os pessimistas argumentavam que nada disto aconteceria e o preço
do petróleo ascenderia firmemente até à estratosfera.
Nenhum deles estava certo. Ao invés disso, quando o mundo transpôs
o planalto ondulante em torno do seu pico de produção de 2005, os
preços do petróleo moveram-se para cima e para baixo em ondas de
violência crescente, culminando numa disparada drástica conduzida
em parte pela cobiça especulativa, e seguida por um igualmente
drástico crash conduzido em parte pelo pânico especulativo. As
ondas de choque da disparada e do crash foram não só
responsáveis pelo mergulho económico que se seguiu depois
de uma década de política fiscal irremediavelmente errada,
negligência criminosa nos sectores bancários e dos negócios
e uma psicologia popular de esbanjamento extremo mesmo sob os padrões
dos desastres especulativos passados, todos tiveram o seu papel na peça
mas mesmo um mundo financeiro menos instável do que o castelo de
cartas implodido no ano passado teria tido um momento difícil ao tratar
do golpe infligido pela disparada do petróleo e suas consequências.
Os escombros daquele colapso ainda estão a estremecer, mesmo quando
políticos e sabichões insistem em que o pior está
ultrapassado e que uma recuperação se seguirá dentro em
breve. (Isto não é exactamente confortante; os políticos e
sabichões de outrora disseram exactamente a mesma coisa durante as
"corridas de enganos" de 1930, quando os mercados de
acções e outros indicadores económicos recuperaram grande
parte do terreno perdido em 1929 antes de mergulharem catastroficamente nos
anos que se seguiram.) Uma coisa que já está a se tornar clara
em meio à poeira e aos escombros, contudo, é que modelos do
futuro que assumiam uma ascensão firme nos preços não se
aplicam à muito mais complexa realidade da disparada e do crash que
está a moldar o nosso futuro energético.
Em algum lugar no Meio Oeste, talvez, onde uma fábrica semi-completa de
etanol cuja companhia mãe foi à bancarrota e está a ser
vendida como sucata, e contratações de equipamento para
petróleo comprados por altos preços em Junho último ficam
inutilizados porque o preço actual do petróleo não
justificará o seu desenvolvimento, o sonho de uma
transição suave conduzida pelo mercado para um sistema
energético diferente está afastar-se através de um pasto.
Enquanto isso o preço do petróleo persiste na sua recusa teimosa
a obedecer ás leis da oferta e da procura. A procura caiu pois
consumidores e negócios apanhados na corrente económica
descendente cortam custos e os stocks de matérias-primas são
amplos, mas o preço do petróleo duplicou desde a sua baixa
pós-disparada, seguindo uma lenta, irregular, mas inequívoca
tendência para a alta.
O que torna tudo mais fascinante é que o petróleo tem apresentado
o mesmo hábito de ignorar as regras económicas habituais. Na
década de 1970, um dos maiores desafios enfrentados pela
profissão das ciências económicas era o enigma da
estagflação. Segundo uma das regras mais amplamente aceites da
macroeconomia, a inflação e a deflação as
quais podem ser definidas precisamente como expansão e
contracção, respectivamente, da oferta monetária
formam duas extremidades de um comportamento económico contínuo.
A ascensão de preços, ascensão de salários e
actividade económica acrescida que levam à
superprodução são sempre sinais de inflação,
ao passo que preços e salários baixos ou declinantes e actividade
económica diminuída que levam à recessão são
sempre sinais de deflação. No rastro dos choques
petrolíferos dos anos 70, contudo, o mundo industrial descobriu-se na
situação teoricamente impossível de uma recessão
inflacionária: os preços estavam a subir, mas os salários
lutavam para manter o ritmo e a actividade económica declinava
agudamente.
Aquilo era estagflação. Durante mais de uma década
economistas tentaram perceber o enigma que apresentava, antes finalmente de
desistirem com um certo alívio nos anos Reagan e decidirem que aquilo
era uma anomalia que havia acabado e assim não importava mais. Para
muitos dos economistas que tentaram entender a estagflação, era
bastante claro que as crises petrolíferas tinham algo a ver com ela, mas
isto em si mesmo colocava as suas próprias questões espinhosas. A
teoria económica dos preços das mercadorias fora estudada
exaustivamente desde o tempo de Adam Smith, mas o comportamento da economia
mundial face aos aumentos dos preços do petróleo violava tudo o
que os economistas pensavam saber.
Só uns poucos economistas naquele tempo, e ainda menos desde
então, perceberam que estas perplexidades apontavam para fraquezas nas
suposições mais básicas da própria teoria
económica. E. F. Schumacher foi um deles. Ele destacou que numa moderna
sociedade industrial os recursos energéticos não são
simplesmente um conjunto de mercadorias entre muitas outras. Elas são
mercadorias primais
(ur-commodities),
os recursos fundamentais que tornam a actividade económica
possível e as regras que governam o comportamento das outras commodities
não podem ser aplicadas aos recursos energéticos de um modo
simplista. Schumacher comentou em
Small is Beautiful:
"Já aludi ao problema da energia em alguns dos outros
capítulos. É impossível dele escapar. É
impossível exagerar a sua centralidade. [...] Enquanto houver bastante
energia primária a preços toleráveis
não há razão para acreditar em estrangulamentos em
quaisquer outras matérias-primas que não possam ser rompidos ou
evitados. Por outro lado, uma escassez de energia primária significa que
a procura para a maior parte do outros produtos primários seria
tão restringida que uma questão de escassez em
relação a eles seria improvável que acontecesse" (p.
123).
Se Schumacher está certo e os acontecimentos certamente parecem
apontar nessa direcção pelo menos uma das falhas
básicas do pensamento económico contemporâneo surge
à vista. A tentativa de dar sentido aos recursos energéticos como
commodities primárias erra no ponto crucial de que a energia segue as
suas próprias leis que são diferentes das regras que governam as
actividades económicas. Tentar prever a teoria económica da
energia sem prestar atenção às leis que governam a energia
nos seus próprios termos as leis da termodinâmica
resulta num alto grau de insensatez.
Examine-se o modo como as regras que governam a disponibilidade de outros
recursos descontrolam-se quando aplicadas à energia. Quando reservas da
América do Norte com alto teor de minério de ferro foram
exauridas, por exemplo, a indústria do ferro comutou para
minérios de teor progressivamente mais baixos; estes contêm menos
ferro por tonelada do que minérios de alto grau mas são muito
mais abundantes e a tecnologia melhorada para extrair o ferro ajusta a
diferença. Em teoria, pelo menos, a oferta de minério de ferro
nunca pode acabar, uma vez que a indústria pode simplesmente manter-se a
reequipar-se para utilizar abastecimentos sempre mais abundantes de
minérios com teores mais baixos, ilimitados se se considerar os sais de
ferro dissolvidos no mar.
Tente-se fazer a mesma coisa com a energia, em contraste, e dois factos
incómodos emergem. Primeiro, a única razão porque a
indústria do ferro pode utilizar minérios com teores
progressivamente mais baixos é porque utiliza quantidades cada vez
maiores de energia por tonelada de ferro produzido e a mesma regra aplica-se a
tudo o mais; quanto mais baixa a concentração do recurso na sua
forma natural, mais energia tem de ser utilizada para extraí-la e
transformá-la em formas utilizáveis. Segundo, quando se tenta
aplicar este princípio à energia, muito rapidamente atinge-se o
ponto no qual a energia necessária para extrair e processar o recurso
é maior do que a energia obtida na outra ponta. Uma vez atingido este
ponto, o recurso já não é utilizável em termos de
energia; pode ser preferível manter-se a comprar notas de US$1 por US$2
cada uma.
Esta dificuldade pode ser generalizada: no que concerne à energia, a
concentração representa muito mais do que a quantidade. Isso
é uma função da segunda lei da termodinâmica: a
energia é um sistema total sempre em movimento de
concentrações altas para baixas concentrações.
Dentro do sistema, pode-se obter energia movendo contra o fluxo da entropia,
mas só ao custo de reduzir uma maior quantidade ou mais alta
concentração de energia em calor desperdiçado. É
assim que os combustíveis fósseis passam a existir na mais alta
posição; a vasta maioria de centenas de milhões de anos de
energia da luz solar caídas sobre plantas pré-históricas
foram degradadas em calor desperdiçado e irradiado para o espaço
exterior, e neste processo uma fracção muito pequena daquela luz
solar foi concentrada na forma de compostos de carbono e enterrada sob o solo.
A mesma regra de concentração explica um grande número de
coisas que as actuais ideias económicas não captam. Considere as
afirmações feitas a cada tantos anos de que podemos dar energia
ao mundo a partir de algumas fontes com energia com concentração
relativamente baixa. O calor latente armazenado nas águas dos oceanos
mundiais, por exemplo, poderia teoricamente proporcionar bastante energia para
a economia mundial manter-se a funcionar por algum período de tempo
absurdamente longo e um certo número de invenções tentou
aproveitar aquela energia. Todas elas fracassaram, porque se gasta mais energia
para concentrar aquele calor numa temperatura utilizável do que aquela
que é devolvida do processo. O mesmo é verdadeiro ainda com mais
razão da "energia ponto zero", a energia potencial que segundo
a física habitual existe na estrutura do próprio
espaço-tempo. Não importa minimamente que haja uma quantidade
infinita dela, ou algo próximo disso; ela está no mais baixo
ponto possível de concentração e portanto absolutamente
inutilizável como fonte de energia para a sociedade humana.
Os mesmos limites aplicam-se, ainda que menos estritamente, a muitas das fontes
de energia renovável de hoje. A energia solar, por exemplo, é
muito abundante, mas também é muito difusa. Tal como qualquer
outro recurso energético, pode-se concentrar alguma dela, mas apenas
permitindo que uma quantidade maior da mesma se transforme em calor
desperdiçado. É muito comum ouvir a afirmação de
que porque a energia do sol é tão abundante, a nossa sociedade
pode facilmente abastecer-se através do sol, mas isto mostra uma
incapacidade de apreender a realidade termodinâmica. As sociedades
industriais de hoje exigem fontes de energia muito altamente concentradas,
nossas redes de transporte, nossas redes eléctricas e a maior parte dos
outros modos como podemos utilizar energia, tudo funciona pela
degradação de concentrações de energia muito altas
de repente em calor desperdiçado. E sem estes recursos altamente
concentrados, aquelas coisas não funcionarão de maneira alguma.
Agora naturalmente há uma pletora de coisas produtivas que podemos fazer
com fontes de energia mais difusas. Mais uma vez, a energia solar proporciona
um bom exemplo. O aquecimento solar passivo para edifícios é uma
tecnologia madura e com muito êxito; tal como o aquecimento solar para a
obtenção de água quente; assim como as muitas outras boas
utilizações especializadas, tais como a utilização
de fornos solares para cozinhar, a purificação da água e
afins. Tudo isto pode contribuir poderosamente para a satisfação
das necessidades e desejos humanos, mas elas pressupõem
disposições sociais e económicas muito diferentes daquelas
da energia centralizada das centrais eléctricas, refinarias, pipelines e
redes de energia que temos hoje. Quando a energia concentrada dos
combustíveis fósseis se tornar escassa, por outras palavras,
quando a energia mais difusa do sol e de outras fontes renováveis tiver
de preencher a lacuna, muitas das regras básicas que moldam as
decisões económicas de hoje não poderão mais ser
aplicadas.
O que isto implica é que a teoria económica não existe num
vácuo. As regras básicas acima mencionadas moldaram-se, afinal de
contas, numa era em que os processos económicos eram dominados
alguém pode mesmo dizer "distorcidos" pelo acesso
temporário da nossa espécie a ofertas extravagantes da energia
barata e altamente concentrada dos combustíveis fósseis. As novas
regras básicas da teoria económica que serão moldadas no
crepúsculo da era da energia barata, por sua vez, serão
conformadas pelo facto de que aquela energia é outra vez escassa,
custosa e difusa. Mais geralmente, é necessário mais uma vez
prestar atenção à miríade de formas em que os
sistemas económicos humanos estão enraizados nos processos mais
vastos do mundo natural um tema que será central no artigo da
próxima semana.
24/Junho/2009
Do mesmo autor:
As tecnologias de retaguarda
Sobre o mesmo tema consultar
La décroissance: Entropie-Ecologie-Economie
, de Nicholas Georgescu-Roegen
O original encontra-se em
http://thearchdruidreport.blogspot.com/2009/06/thermodynamic-economy.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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