Estados disfuncionais II
|
|
Tudo quanto possa apoiar as pessoas e não os lucros é considerado
irracional em termos técnicos, despesista.
Noam Chomsky, Os Estados Párias Tornamo-nos num tipo de sociedade que nunca imaginamos pudesse vir a ser algo parecido. Paul Krugman |
4 - Disfuncionalidade política
Os Estados tornaram-se politicamente disfuncionais, devido à
desregulação económica e financeira e à
própria justiça em muitos casos enfeudada aos interesses do
grande capital.
O direito de ingerência assumido em nome da democracia e (claro!)
"economia de mercado" tem servido para a expansão e
domínio das transnacionais, para o caos e a disfuncionalidade dos
Estados submetidos a esses interesses.
Campanhas internacionais de calúnia e financiamento de agentes
promotores da instabilidade preparam a opinião pública interna e
externa para toda a espécie de ingerências e
intervenções a coberto da defesa dos direitos humanos. Que
direitos humanos foram levados para a Jugoslávia, Iraque,
Afeganistão, Líbia, Síria, ou para a América Latina
com uma inenarrável lista de crimes à conta do poderoso vizinho
do Norte?
[1]
Nestes processos, criteriosamente descritos por John Perkins
[2]
são promovidos a democratas "personagens totalmente
inescrupulosos, surgem como uma espécie de mafiosos entre primitivos e
pós-modernos, encabeçando politicamente grupos de negócios
cuja norma principal é a de não respeitar nenhuma norma na medida
do possível".
[3]
A UE é um exemplo de Estados politicamente disfuncionais. As suas
instituições usam a ameaça e a chantagem para contrariar
compromissos eleitorais. O poder detido pelos burocratas permite-lhes
pressionar para que apenas uma linha política esteja realmente
disponível para os cidadãos.
Burocratas fazem declarações críticas e ameaças
acerca do que os Estados podem ou não fazer, interferindo em
decisões aprovadas em referendos (França, Irlanda, Grécia)
ou nos Parlamentos. Governos são constrangidos a
orientações alheias às opções dos povos. E
propagandearam isto como a "regra de ouro"
A aplicação de sanções pela UE a Estados membros
não é um sinal da eficácia e justeza das suas
orientações, mas de fraqueza e do fracasso das suas
políticas. Os povos da UE encontram-se sujeitos a um poder
supranacional, que usa o secretismo e uma dogmática artificial. Tenta
proceder como o papado da Idade Média que podia aplicar a
interdição e a excomunhão a um país. Agora a
decisão sobre o incumprimento das regras da UE pode conduzir a multas e
sanções. Para os países do euro, o BCE pode decidir deixar
de fornecer liquidez e obrigar ao encerramento de bancos.
Regras e tratados que não foram referendados, avaliados e discutidos
pela opinião pública, mas apenas propagandeados como a via para o
desenvolvimento, a solidariedade, a convergência; precisamente o
contrário do que significavam e se pretendia impor.
A UE não vai além de um conjunto de estados insolventes,
disfuncionais, em plena decadência económica e social, num rumo de
arbitrariedade em que só é permitido pensar o que a CE e o BCE
determinam. Tudo além disto é considerado apócrifo,
suspeito e ignorado ou condenado junto da opinião pública.
Na sua disfuncionalidade, a UE que necessitaria de paz e desenvolvimento nas
suas fronteiras, envolve-se nas sanções e na agressividade em
relação à Rússia, apoia nazi-fascistas na
Ucrânia, apoia e participa em guerras de agressão em
obediência à geoestratégia dos EUA, totalmente
contrária aos interesses dos povos europeus, ressuscitando complexos
neocoloniais da França, Inglaterra e do Reich alemão. Foi para
isto, que os propagandistas diziam que era necessário "a UE falar a
uma só voz".
Os benefícios fiscais, a livre transferência de capitais, a
"resolução" de bancos fraudulentos, as
consequências das privatizações nunca foram postas em
causa. Pelo contrário faziam parte das "reformas estruturais".
Que o aumento das desigualdades não é compatível com a
democracia, parece ser uma asserção indiscutível, mas para
as elites empresariais está errada. Quando trabalhadores espoliados pela
austeridade reivindicam os seus direitos, melhoria do nível de vida,
contratação coletiva, tais ações são
consideradas "sistemas inaceitáveis numa economia moderna e
desenvolvida" (Lobo Xavier). Pode-se acrescentar: moderna e
desenvolvida
como no Bangladesh graças às transnacionais.
O comentador CDS acrescenta que o atual governo está sujeito a
pressões de "clientelas inaceitáveis". Não se
trata do capital monopolista e financeiro, nem de ser parasitado pelas
sociedades de advogados e PPPs, mas pelo movimento sindical contra a
austeridade e na defesa das funções públicas. Eis o que
significa para a direita uma "sociedade moderna e desenvolvida": que
os que têm tudo, tenham ainda mais.
O objetivo político da direita é agora induzir na opinião
pública cenários caluniosos de indignação coletiva,
procurando levar o país ao caos para ser imposto o extremismo
neoliberal.
5 - Disfuncionalidade sociológica
O Estado torna-se sociologicamente disfuncional ao não promover o
fortalecimento do coletivo dos cidadãos, unidos em torno de objetivos
comuns, contribuindo para o seu progresso.
O trabalho é uma função primordial dos seres humanos, onde
além da família e da escola, se pode realizar a sua
afirmação pessoal e socialização. O desemprego
é assim uma disfuncionalidade não apenas económica mas
também sociológica. Os sindicatos foram a forma de procurar
estabelecer a socialização de forma positiva, através do
sentimento de unidade e consciência de classe, lutando contra os excessos
e as mais graves consequências do capitalismo.
No capitalismo a contradição entre o carácter social da
produção e a propriedade privada dos meios de
produção, representa também um princípio de
disfuncionalidade sociológica. Assim, o sistema combate a unidade
sindical, promove a precariedade e cria um exército de reserva de
trabalhadores, cujo mínimo se fica pela chamada "taxa natural de
desemprego".
A tese infame de que cada trabalhador presta um serviço, transforma-o
num agente de mercado correspondente a uma oferta em concorrência com
outros trabalhadores em que o capital é a procura e como
cliente
tem sempre razão. Este "mercado" será
tanto mais eficiente quanto menos o Estado intervier. "O liberalismo
é (de facto) o melhor dissolvente das associações"
(Ernest Renan,1823-1892).
A promoção do individualismo, do consumismo alienante e do
neoliberalismo tem sido encargo da comunicação social. O
descontentamento é controlado não só pela repressão
legal e ilegal, mas também pelo silenciamento do que desagrade à
oligarquia. A calúnia, o ataque pessoal, a desinformação,
promovem a histeria coletiva, o caos social arquitetado por profissionais da
desestabilização.
A relação das notícias e comentários com o real tem
principalmente que ver com a forma como podem afetar os interesses dominantes.
A comunicação social foi considerada o quarto poder, na realidade
é apenas mais um poder dos que controlam esses meios. A
promoção mediática consegue fazer de figuras politicamente
medíocres, incapazes e reacionárias, gente supinamente
competente. O caso de Cavaco Silva foi exemplar. Prepara-se agora a
promoção de Paulo Portas.
Os temas trazidos para a discussão pública são os da
agenda mediática da direita e não os problemas económicos
e sociais essenciais e determinantes, como os constrangimentos do euro e dos
tratados da UE, as consequências das privatizações, da
livre transferência de capitais, da fiscalidade regressiva, etc., tudo o
que torna o Estado realmente disfuncional.
O atual governo PS apoiado à esquerda, é objeto de um tratamento
essencialmente crítico e no mínimo céptico. O governo da
direita PSD-CDS apesar do descalabro económico e social a que conduziu o
país foi sistematicamente apoiado por fazedores de opinião como
fazendo o que era necessário e estar no caminho certo. Se criticado
era-o apenas por não ir mais longe na "reforma do Estado".
Procura-se a criação artificial de casos, tentando fomentar um
clima de instabilidade. Foi o caso da reposição das 35 horas para
a função pública, escamoteando a génese da
questão, usando para o efeito os mesmos argumentos que no século
XIX. Outro caso de tratamento emocional, foi o dos contratos públicos de
associação com escolas privadas, em que o governo pretende apenas
fazer cumprir a lei existente. O desemprego de cerca de 30 mil professores e
funcionários, fecho de escolas públicas, cortes no financiamento
a escolas e universidades eram "inevitabilidades" apoiadas pelos
media,
Os mecanismos de alienação levam as pessoas a comportarem-se de
forma estúpida, perversa mesmo, contra os seus interesses como
proletários. São desapossados da consciência de
coletivamente terem uma posição determinante na sociedade. A
noção de pertencerem a uma classe explorada é abafada por
dogmas e ideias anti-humanistas, fomentando a divisão e a hostilidade
entre os da mesma condição.
Vemos o surpreendente posicionamento de pessoas que usufruem de direitos
sociais conquistados através de duras lutas sindicais e políticas
de esquerda, voltarem-se contra as greves, contra sindicatos e contra partidos
verdadeiramente de esquerda.
A identidade política, cultural, profissional, das camadas
proletárias era uma forma de integração social e de
resistência à predação capitalista. A perda desta
identidade conduz à desintegração social.
Tudo isto tem um elevado custo sociológico: elevadas taxas de consumo de
drogas, de antidepressivos, de suicídio. Em Portugal o número de
suicídios aumentou 16,1% face a 2013 (INE); a Grécia tornou-se o
país da UE com maior taxa de suicídios; nos EUA entre 1999 e 2014
aumentou 24%. Em França há três vezes mais mortos por
suicídio que por acidentes rodoviários. Regista-se o
suicídio de um agricultor cada dois dias.
[4]
Nos EUA, massacres por tresloucados atiradores furtivos tornaram-se frequentes.
6 - O Estado e suas funções
O Estado não é uma entidade neutra ao serviço do "bem
comum" ou "a bem da Nação" como se expressava o
fascismo. As formas de Estado estão ligadas aos interesses da classe
economicamente dominante. A organização política do Estado
e suas funções dependem da relação de forças
existente entre as diversas classes, o que pode obrigar a oligarquia a
cedências democráticas.
Não entender que estas cedências são apenas
temporárias é não entender rigorosamente nada do processo
social. Os interesses que promovem as políticas de direita procuram
constantemente subverter os fundamentos democráticos antes aceites,
torna-los meramente formais ou anulá-los, se possível. Vejam-se
as sucessivas revisões da Constituição Portuguesa, sempre
beneficiando os interesses do grande capital e as tentativas de atropelos
constitucionais do governo PSD-CDS.
O neoliberalismo representa a democracia oligárquica
[5]
, procurando por todas as formas desestruturar o Estado, absorver as suas
funções económicas, financeiras, sociais, políticas
e sociológicas. Instituições internacionais condicionam e
determinam políticas. O critério adotado é que o capital
financeiro e as transnacionais têm mais direitos que os povos e suas
necessidades.
Nos EUA como saúde, educação, creches,
prestações sociais estão em grande parte privatizadas e os
serviços do Estado apresentam qualidade deficiente, os cidadãos
endividam-se. As dívidas de estudantes ultrapassam 1,2 mil
milhões de dólares.
O grande capital necessita do Estado disfuncional como instrumento de
promoção das desigualdades e para garantir a "ordem",
isto é, a repressão legal e ilegal sobre as camadas trabalhadoras
e ditar as leis da "austeridade" e da "competitividade".
Procura criar o vácuo ideológico propagandeando o poder do Estado
como malévolo e o capital privado como fonte de bem-estar e liberdade. O
desmantelamento do poder do Estado face ao capital é a
desconstrução do poder democrático.
Espinosa, um filósofo muito considerado pelos fundadores do marxismo,
disse no seu Tratado Político que a liberdade existe quando os
cidadãos são guiados pela esperança e não pelo
medo, nem estão constrangidos à lei dos que os dominam.
"Chamo livre a um homem na medida em que vive sob a conduta da
razão, porque é determinado a agir por causas adequadamente
conhecidas através da sua natureza, ainda que essas causas o determinem
necessariamente a agir".
Dizia ainda que os que ambicionam o poder têm interesse que os seus
desígnios sejam tratados o mais secretamente possível.
"Quanto mais se cobrem com o pretexto da utilidade comum, mais
perigosamente tendem a estabelecer a sujeição dos demais".
Temos aqui refletida a forma de agir da burocracia da UE, dos lobbies, das
"negociações" dos tratados de "comércio
livre".
O Estado democrático terá de assumir o controlo
estratégico das variáveis económicas e sociais e
não o mercado, através da fantasiosa hipótese da
autorregulação, eficiência e equilíbrio dos mercados
competitivos dominados por oligopólios.
O Estado democrático terá de defender a soberania nacional contra
o intervencionismo imperialista, contra o domínio económico,
financeiro e cultural que transforma os países em protetorados
conduzidos por poderes burocráticos, arbitrários.
A resistência contra estas situações só pode provir
de uma elevada consciência de classe das camadas populares. Assim foi
sempre no passado, assim será sempre no futuro.