por Miguel Urbano Rodrigues
Ocultar a realidade é objectivo prioritário da campanha de
desinformação mundial montada nos EUA para que a humanidade
não se aperceba plenamente do fracasso da estratégia de poder que
está na origem das guerras de agressão contra os povos do Iraque
e do Afeganistão.
Nunca antes, nem no Reich nazi, um aparelho mediático comparável
difundiu com tal desfaçatez a mentira à escala universal, visando
a defesa e a apologia de um sistema de poder responsável por crimes
abjectos.
Por isso mesmo cabe aos intelectuais progressistas repetir incansavelmente
verdades escondidas ou, para ser mais preciso, factos indesmentíveis,
inseparáveis da guerra, omitidos pela engrenagem da
desinformação.
No Pentágono, os generais mais lúcidos tomaram já
consciência de que a guerra do Iraque está perdida. Num contexto
histórico e geográfico diferente a humilhação do
Vietnam vai repetir-se. O exército de ocupação
estadunidense terá de retirar-se, desmoralizado, sem ter atingido os
ambiciosos objectivos os inconfessados, que abrangiam a
implantação permanente na Ásia Central e o controle
absoluto dos seus recursos energéticos que motivaram a
invasão. Para o prestigio de Washington as consequências do
desastre serão ainda mais graves, porque ele está a produzir-se
num mundo unipolar, comprometendo decisivamente o sonho de
dominação planetária da extrema direita republicana.
Na Casa Branca e no Departamento de Estado a certeza da derrota gerou uma
atmosfera próxima do pânico. A realidade exigiu a
reformulação de projectos megalómanos. O discurso
triunfalista cedeu o lugar a outro menos arrogante, defensivo, exigido pelas
revelações sobre a tortura dos prisioneiros.
Se o governo admitisse a inevitabilidade da retirada do Iraque a
reeleição de Bush, cada vez mais difícil, seria
impossível. Trata-se, portanto, de ganhar tempo, de negar o
óbvio, de mudar de estilo, de forjar novas mentiras, continuando a
enganar o povo dos EUA.
As ultimas sondagens revelam uma queda alarmante da popularidade de Bush. Que
fazer? Os luminares do marketing, os homens do Presidente e os militares
não se entendem. Os consensos são poucos.
Para já temas como as armas de extermínio maciço e o
julgamento de Sadam foram arquivados como assuntos contraproducentes.
O bombardeio mediático opta agora por temas como a transferencia de
poderes a 30 de Junho, o regresso da ONU, a destruição do
presídio de Abu Ghrabi, a ampliação da (mal)chamada
coligação e a saída das tropas de ocupação.
Este é de todos o assunto mais delicado. Paul Bremer, semanas
atrás, afirmou que as forças dos EUA seriam retiradas do
País se o futuro governo formulasse um pedido nesse sentido. O
britânico Tony Blair disse o mesmo relativamente à sua gente. Mas
Colin Powell apressou-se a desmenti-los. Que não. Os marines e os GI,
afinal, ficariam por tempo indeterminado para garantir "a democracia, a
paz e a reconstrução do Pais". A contradição
faz parte de um jogo combinado. De alguma maneira obriga o cidadão
comum, nos EUA, a meditar sobre a retirada militar, em futuro próximo,
convida-o a preparar-se para uma situação incompatível com
o projecto bushiano de dominação imperial perpétua.
Quanto ao executivo iraquiano que substituirá o actual Conselho de
transição, será um governo tão fantoche como o
actual, nomeado e tutelado por Washington. O procônsul Paul Bremer vai
ser substituído por outro, John Negroponte um veterano da CIA
envolvido no escândalo do Iran Gate que sucedeu a Madeleine
Albright como embaixador na ONU.
Mas a poucas semanas do 30 de Junho, as acções armadas da
Resistência multiplicam-se e a única certeza é a de que o
Iraque continuará a ser um país ocupado. O primeiro ministro
indigitado por Washington, Iyad Allawi, é um antigo homem de
confiança de Sadam que trabalha agora com a CIA e com o MI-16, o
serviço de inteligência britânico.
A inesperada campanha contra Chalabi, outro colaborador íntimo da CIA,
foi montada pelos serviços de inteligência. Revistaram-lhe a casa
e criticaram-no para lhe aumentar a credibilidade, levando o povo a crer que se
distanciara dos EUA. Mas a manobra não atingiu o objectivo.
DERROTAS MILITARES EM FALUJA E NAJAF
A situação militar continua a piorar.
A opinião publica norte-americana começa a perceber que a
Resistência infligiu uma grave derrota ao Corpo de Fuzileiros Navais.
Após a morte dos quatro mercenários em Faluja, Washington
anunciou que a cidade seria colectivamente responsabilizada e que a
punição ficaria como exemplo da sorte reservada aos que ousassem
desafiar os EUA. Quase um milhar de civis morreram durante o bombardeamento
selvagem a que Faluja foi submetida. Mas a operação militar
fracassou (ver http://resistir.info
, artigos de
14
e
16
de Abril e
3 de Maio
). As tropas de elite mobilizadas
para o efeito sofreram perdas consideráveis e não conseguiram
retomar a cidade.
Para ocultar a derrota foi desencadeada uma ruidosa campanha de
desinformação. O Pentágono anunciou que havia retirado as
suas forças após um acordo que restabelecera a normalidade na
área. Na realidade o que houve foi quase uma capitulação
humilhante. O comando estadunidense teve de pedir à Resistência
que autorizasse a retirada do material pesado da cidade e a garantia de que as
suas tropas não seriam atacadas durante a retirada.
Transcorridos 14 meses da invasão do Iraque, Faluja é hoje uma
cidade livre.
Em Najaf, cidade sagrada dos xiitas, a US Army sofreu outra derrota que
procura, também, ocultar. Quando o seu povo se levantou, Paul Bremer
trombeteou
urbi et orbi
que Moqtaba Al Sadr, o líder da insurreição xiita, seria
preso (ou abatido) e julgado e o exército Mahdi destruído.
Foi mau profeta. Os marines massacraram muitos civis, mas a ofensiva
fracassou. Inesperadamente o comando norte-americano informou que chegara a
um acordo de cessar fogo. As suas tropas sairiam de Najaf e Al Sadr
também. Não se falou mais de capturar o líder.
Nos dias seguintes os fuzileiros saíram efectivamente da cidade, mas o
tiroteio contra a tropa estadunidense recomeçou após o
santuário do iman Ali ter sido bombardeado com morteiros. Em Najaf quem
manda é a resistência xiita. Os marines foram também
expulsos de Kerbala.
Quanto ao regresso da ONU ao Iraque, não parece iminente. Chirac deixou
claro em Guadalajara que a França não aprovará o projecto
apresentado pelos EUA no Conselho de Segurança sem profundas
alterações. Algumas das suas exigências são
inaceitáveis para Washington, sobretudo a relativa à
fixação de uma data para a saída do pais das tropas
norte-americanas.
PIOR DO QUE A GESTAPO
A divulgação das torturas infligidas a prisioneiros no Iraque
suscitou uma onda de indignação de proporções
mundiais.
Por si só as fotografias desses actos criminosos fizeram ruir, mesmo em
bastiões conservadores dos EUA, a tese oficial sobre a ajuda
humanitária ao povo iraquiano e a democratização da sua
sociedade.
Os mass media passaram a chamar "abusos" à tortura, mas o
artifício não funcionou. De um dia para outro ficou transparente
que a soldadesca dos EUA, nas prisões, recorria a métodos que
somente encontram precedente nos utilizados pela Gestapo e as SS nos campos de
concentração nazis.
As imagens de vexames sexuais divulgadas pela televisão e pela imprensa
são uma amostra suave de outras tive a oportunidade de ver
algumas que abrem uma perspectiva assustadora sobre o universo de
degradação em que actuavam os militares incumbidos pelos
serviços de inteligência de "preparar" os iraquianos
para os interrogatórios.
A reacção da Casa Branca e do Pentágono iluminou a
hipocrisia e o amoralismo de um sistema de poder apodrecido. A decisão
de demolir o presídio de Abu Ghrabi, em Bagdad e de libertar 600
prisioneiros ali encarcerados é expressiva do farisaísmo de
Washington. Bush e a sua gente sabem que a prática da tortura
não foi um fenómeno isolado nesta ou naquela prisão;
inseriu-se numa engrenagem que envolveu toda a cadeia de comando. O
secretário da Defesa, Donald Rumsfeld tinha conhecimento, há
muito da tortura. Aprovou-a. Dos seus arquivos constavam fotos de
prisioneiros submetidos a humilhações sexuais. Mas permaneceu
mudo até que o escândalo rebentou. A sua atitude sorridente e as
suas palavras ao dirigir-se em Bagdad ao pessoal militar de Abu Ghrabi foram,
aliás, esclarecedoras do conceito de ética que perfilha.
O esforço de encobrimento das responsabilidades impedirá por
muito tempo que o mundo possa tomar conhecimento pormenorizado do que foi a
tortura como prática sistemática nas prisões iraquianas.
Mas a própria suavidade das penas impostas aos primeiros
soldados-torcionários submetidos a julgamento deixa transparecer o
temor de revelações muito comprometedoras para altas patentes do
exército de ocupação.
É significativo que o próprio general Ricardo Sanchez, comandante
chefe das forças dos EUA no país, tenha sido transferido,
após acusações de cumplicidade nos horrores de Abu Ghrabi.
O desmentido não convenceu. Muitos milhares de norte-americanos
descobrem com espanto que uma parcela importante do corpo de oficiais do
Exército dos EUA tem hoje um comportamento neofascista.
Como é da praxe, os grandes jornais dos EUA adoptam uma
posição ambígua. Insistem em apresentar os casos de
tortura como excepcionais, salientando que, ao serem divulgados, suscitaram a
imediata e adequada resposta de um governo e de uma Justiça
democráticos, nomeadamente do Presidente da União.
Ora na realidade crimes similares vinham a ser revelados há muito por
escritores e jornalistas progressistas em diferentes países. Sobre eles
escreveram cientistas sociais com o prestigio do canadiano Michel Chossudovsky,
jornalistas como o australiano John Pilger e o britânico Robert Fisk. Eu
próprio, há mais de dois anos, responsabilizei oficiais
superiores do US Army pela sua cumplicidade em crimes monstruosos cometidos
durante e após a agressão ao povo do Afeganistão. Recordo
a chacina de Mazar-i-Charif e o corte de línguas a prisioneiros em
Seberghan.
Jornais de máscara austera como
The New York Times
desfraldam agora a bandeira do eticismo informativo e fazem acto de
contrição, reconhecendo que lhes cabem culpas por falta de
vigilância na publicação de artigos irresponsáveis
de redactores seus, sobretudo os que davam como certa a posse pelo Iraque de
armas de extermínio maciço. Esse tipo de autocrítica
lembra as do Departamento de Estado quando desclassifica documentos sobre a
falsidade das acusações do Pentágono que serviram para
justificar a agressão ao Vietnam e o envolvimento da
Administração Nixon na preparação do golpe de
Estado de Pinochet, em 1973. Santa hipocrisia!
Não é impossível que o senador Kerry, se eleito, decida,
futuramente , na tentativa de branquear a imagem da democracia americana,
tornar públicos documentos secretos que aprofundem o mar de lama em que
estão hoje atolados a administração Bush e os
falcões que rodeiam Rumsfeld.
Seria, entretanto, uma ingenuidade acreditar que a simples mudança de
Presidente determinaria uma guinada de 180 graus na política externa dos
EUA.
Cabe lembrar que Kerry, sensível às brisas eleitorais, criticou
asperamente o governo de Madrid, quando Zapatero, respeitando um compromisso,
decidiu retirar do Iraque as tropas espanholas. O problema nos EUA não
é fundamentalmente de homens. A raiz do mal está sobretudo no
sistema de poder, na estratégia imperial de dominação que
ameaça a humanidade, inseparável do funcionamento das engrenagens
do capitalismo globalizado, corroído por uma crise estrutural para a
qual não encontra soluções.
As guerras ditas "preventivas", de agressão a povos do
terceiro Mundo e de saque dos seus recursos naturais, expressam o desespero
desse sistema.
É nesse contexto que a luta que tem por cenário a terra
milenária da Mesopotamia, berço de grandes
civilizações, assume os contornos de uma epopeia. O povo do
Iraque, que, por resistir à ocupação da sua pátria
e à barbárie estadunidense, é qualificado pelos invasores
de "rebelde" e "terrorista", aparecerá às
gerações de amanhã como herói colectivo de uma
saga. Bem merece a gratidão e a solidariedade activa de todos os homens
e mulheres do planeta que defendem valores eternos da condição
humana pelos quais ele se bate com coragem espartana.
Lisboa, 30 de Maio de 2004
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.