Imperialismo: seus limites e alternativas
por Rui Namorado Rosa
[*]
1- SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL
2- A PRODUÇÃO MUNDIAL
2.1- Os fluxos materiais na economia
2.2- A produção agrícola
2.3- A produção industrial, os transportes e o consumo de energia
3- O CAPITAL INTERNACIONAL
3.1- Investimento directo estrangeiro
3.2- As corporações transnacionais
4- O COMÉRCIO INTERNACIONAL
5- OS LIMITES DO IMPERIALISMO
5.1- Os limites dos recursos energéticos
5.2- Os limites biológicos
5.3- Os limites aos fluxos de recursos
5.4- Limites à Produção, Comércio e Finança
6- A FORÇA DE TRABALHO
7- CONTROLO E INSUBMISSÃO SOCIAL
8- O COMBATE SOCIAL E POLÍTICO
9- ENFRENTANDO O IMPERIALISMO
O que nos ocupa é a formação económica e social
hoje prevalecente sobre a humanidade na maior parte do planeta e que conhecemos
por imperialismo.
Não indo mais atrás, o século XIX foi o do apogeu do
império britânico. Foi o tempo da afirmação pujante
do capitalismo mercantilista, da expansão colonial e da partilha do
mundo pelas potenciais industrializadas, da revolução industrial,
do liberalismo político, etc. É um feixe de fenómenos
interdependentes que podemos individualizar mentalmente mas que eram causas e
efeitos de um mesmo processo histórico.
O século XX foi a era do apogeu do imperialismo, etapa superior do
capitalismo, de conflito devastador entre potências industrializadas, da
emergência de dois campos de organização
político-económica antitéticos, um capitalista e o outro
socialista, da luta anti-colonial e de libertação nacional de
povos colonizados. Foi também uma era de revolução
científica e técnico e de acelerado crescimento
demográfico. Também aqui seria pretensioso simplificar a
descrição e isolar fenómenos.
As questões para que vou chamar a vossa atenção são
algumas das dimensões, creio que as mais essenciais, do imperialismo
contemporâneo. São elas a Produção Material, o
Comércio, a Finança, os Recursos Naturais, a Força de
Trabalho, o Controlo Social. Estas várias dimensões terão
que ser abordadas separadamente embora cada uma delas só faça
sentido quando integrada com as demais.
1 - SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL
O sistema financeiro mundial tem a sua origem no mercado capitais e de
mercadorias de Londres. O padrão internacional de ouro veio a ser
aí adoptado cerca de 1815 e a ele as potencias capitalistas vieram a
aderir progressivamente. Esse padrão, baseado no mercado do ouro,
conduzido pela casa bancária dos Rothschild, vigorou até ao
início da Primeira Guerra Mundial em 1914. Durante esse lapso de um
século o império britânico acumulou capital e fez valer
internacionalmente a libra, apoiada na sua convertibilidade em ouro,
padrão monetário internacional. Após a guerra, o
padrão ouro foi retomado temporariamente, de 1919 até 1933, ano
em que, nos EUA, o ouro em propriedade privada foi confiscado, a sua
exportação proibida e a convertibilidade do dólar
suspensa.
Os bancos centrais são de criação relativamente recente e
detêm poder económico e político substancial mas
aparentemente discreto. Começaram por ser bancos comerciais convertidos
em bancos centrais para efeitos de financiar ou executar
operações por conta dos governos e apoiar os sistemas financeiros
nacionais. A Reserva Federal dos EUA é na realidade um conjunto de doze
bancos para o efeito constituídos em 1913 por um conjunto de banqueiros.
O Banco Central Europeu é um caso distinto, foi constituído
apenas em 1999 por bancos centrais.
Após a fim da Segunda Guerra Mundial, a conferência de Brettton
Woods (1944) entre as 44 potências que sairiam vitoriosas dessa guerra,
ditou uma nova ordem financeira internacional que superasse pela
via financeira a profunda crise económica que antecedera a Segunda
Guerra Mundial. Esta conferência traduziu-se no Acordo de Bretton Woods,
não subscrita pela URSS, que compreendeu a criação, com
sede em Washington, do Banco Mundial (BIRD) e do Fundo Monetário
Internacional. Os EUA foram de facto o principal protagonista dessa nova
arquitectura, e através dela asseguraria a hegemonia do dólar nos
bancos centrais e no comércio internacional. Essa arquitectura foi
reforçada em 1969 com a instituição de direitos
especiais de saque atribuídos pelo FMI, mecanismo equivalentes
à criação puramente artificial de reservas
bancárias em benefício dos bancos centrais incorporados no
sistema.
Ao período de expansão económica sequente ao fim da
Segunda Guerra Mundial seguiu-se um longo período de recessão. A
transição ficou assinalada por vários eventos. Só
em 1973, assinalamos a guerra de Yom Kippur, o embargo de fornecimento de
petróleo pela OPEP e o sequente choque petrolífero e, ainda, o
abandono definitivo do Acordo de Bretton Woods. O fim deste Acordo determinava
a desvinculação do dólar da convertibilidade com o ouro e
o desacoplamento das divisas e flutuação das respectivas taxas de
câmbio. Estava por esta última via facilitado o caminho para a
aplicação de programas de reajustamento estrutural
impostos pelo FMI aos países em desenvolvimento, com o rol de
privatizações, reformas fiscais, disciplina fiscal,
desregulamentação (abolição de barreiras
aduaneiras), redireccionamento da despesa pública,
liberalizações de investimento directo,
liberalização do comercio e a geração de enormes
dívidas externas. O imperialismo iniciara uma nova fase de acrescida
agressividade que perdura até hoje.
Outra componente institucional da nova ordem internacional foi a
criação do GATT (1947) para regular o comércio
internacional. As suas normas foram evoluindo ao longo de rounds de
negociações, passando pela sua conversão em OMC (1995). As
normas internacionais foram sendo ditadas pelas potências capitalistas,
mediante o seu poder diplomático, negocial e a ameaça quanto
necessária. Os valores de mercado das
commodities ou matérias-primas, fixadas nas bolsas de
mercadorias de Londres ou Nova Iorque, foram sendo progressivamente
depreciados, a uma taxa média anual superior a 7% no curso da
última década. No domínio agro-industrial o proteccionismo
nas grandes potencias foi arma de conquista sobre países da periferia
cujas barreiras aduaneiras foram eliminadas sob instrução do FMI.
No domínio da carne e do aço, os EUA e a EU confrontaram-se e
confrontam-se da defesa dos respectivos monopólios.
Esta longa fase de recessão económica mundial, que perdura desde
há três décadas, pode constatar-se no desempenho
económico das potências capitalistas que se agrupam no G7, pois
todas elas exibiram na década 1983-93 taxas de crescimento de produto
inferiores às registadas na década 1964-73 (anterior ao deflagrar
da recessão), tendência que ainda se agravou no período
1993-98 (excepto nos EUA e no Reino Unido mas por curta margem); a
evolução foi particularmente gravosa no Japão. Esta longa
fase de recessão económica mundial, está assinalada por
renovada e mais feroz ofensiva do capitalismo pela expansão e
concentração do capital a nível planetário, no seio
quer dos países do centro quer da periferia. Esta ofensiva sobre
várias formas viria a ser codificada num decálogo com
a designação de Consenso de Washington, não porque
consista num articulado completo e formalmente adoptado em alguma
instância internacional, mas simplesmente por ter sido assim designada
por John Williamson em 1990, para designar o mínimo denominador comum
das orientações políticas impostas pelas
instituições financeiras internacionais baseadas em Washington
para a submissão dos países da América Latina.
2 - A PRODUÇÃO MUNDIAL
No início do século XX, a população mundial era
1.700 milhões de habitantes; de 1950 a 2000 cresceu 2,38 vezes (ou seja
a uma taxa anual próxima de 1,7%) para atingir 6.000 milhões. Foi
uma aceleração dramática de um processo crescimento que se
iniciara em meados do século XVII, quando a população
parecia estabilizada por volta de 500 milhões de habitantes. Foi um
processo simultâneo com a emergência da ciência moderna e a
revolução científica e técnica, com a
consolidação e mundialização da
formação capitalista, bem como com o acelerado crescimento da
produção e comércio mundial. Estes fenómenos
aparentemente distintos, pelas suas grandes repercussões na
organização e no nível da produção e do
consumo humanos, não podem deixar de se ter condicionado reciprocamente.
Fluxos de massa e energia e o uso da terra são as três categorias
de recursos naturais relevantes para a economia. O conceito de pegada
ecológica é um indicador sugestivo que evidencia a
relação metabólica do indivíduo com o ambiente e os
limites da sua sustentabilidade biológica. Não obstante as
discrepâncias sobre o método de cálculo da pegada
ecológica, a conclusão é essencialmente uma: o
planeta terá uma capacidade de alojamento finita. Na
perspectiva de quantificação do seu uso, os dados
estatisticamente disponíveis relativos ao coberto vegetal serão
os mais adequados com vista à sua incorporação na
contabilidade física dos consumos materiais.
2.1 - Os fluxos materiais na economia
O discurso neoliberal procura incutir a ideia da
desmaterialização de economia para assim alimentar a
ilusão de crescimento económico, necessário
à sobrevivência do sistema capitalista,
sustentável. Em particular, a União Europeia enunciou
(Março de 2000) a chamada Estratégia de Lisboa: tornar a UE no
espaço económico mais dinâmico e competitivo do mundo, no
horizonte 2010, baseado no conhecimento e capaz de garantir um
crescimento económico sustentável, com mais e
melhores empregos, e com maior coesão social. A realidade é
completamente diferente.
As actividades económicas vão buscar matérias-primas ao
ambiente doméstico (nacional) e às importações
(estrangeiras); parte dos materiais extraídos é posta de parte
(como os resíduos de mineração); há pois fluxos
materiais escondidos ou invisíveis que têm
impacto sobre o ambiente, podem poluir aquíferos e alteram a paisagem.
As partes úteis dos materiais extraídos são
matérias-primas que entram no circuito económico
(inputs) para serem processados, manufacturados, consumidos. Alguns
desses materiais ou produtos são incorporados e armazenados
em estruturas quase permanentes do sistema económico, isto
é, capital físico (edifícios, maquinaria, etc.). Depois de
utilizados, os produtos são mais cedo ou mais tarde ou reciclados ou
depositados no ambiente como fluxos de resíduos (através de
esgotos, aterros, incineradoras, etc.). Estes fluxos materiais e a sua
acumulação (temporária) no sistema económico pode e
deve ser objecto de contabilização e balanço.
As relações comerciais externas da UE-15 em termos
monetários são equilibradas. Porém, em termos
físicos, esses mesmo comércio externo é substancialmente
deficitário, sendo altamente dependente de recursos oriundos sobretudo
da Ásia, Africa e América Latina, em resultado da
importação de combustíveis fósseis, outros recursos
minerais, produtos semi-manufacturados, etc. Na realidade, mesmo na era das
tecnologias da comunicação e informação, as
importações físicas a partir da periferia continuam a ser
imprescindíveis para a competitividade das economias das
regiões do centro do sistema capitalista mundial, sem as quais essa
competitividade não seria sustentável. Por quanto
tempo? A liberalização do comércio internacional serve o
propósito de intensificar os fluxos materiais; a que estão
associadas crescentes pressões ambientais (fluxos materiais directos e
indirectos) agravadas pela extensão adicional de meios e
infra-estruturas de transporte. A questão do comércio
sustentável enunciada pelos economistas burgueses, reduz-se
à harmonização de padrões e à
internalização de custos, mas ocultando a
quantificação de terra e de outros recursos naturais activados
pela procura comercial, assim evitando questionar verdadeiramente a sua
sustentabilidade.
No período 1975-1999 foi muito variável, entre países
industrializados, o nível e a tendência das necessidades
materiais totais per capita (de 40 a 100 toneladas/capita em 1999); a
componente doméstica dessas necessidades materiais geralmente predominou
sobre a componente importada, sendo essa proporção mais elevada
nos EUA, mais moderada na EU-15, mas inversa no Japão (onde a componente
importada predominou). Quer o PIB/capita quer o input material
directo/capita exibiram tendência de crescimento. As
emissões de CO2 representaram a maior parcela do output material
doméstico nos vários países industrializados para
que existem dados, atingindo níveis próximos de 90% (casos do
Japão e Alemanha). Tais emissões atmosféricas exibiram
variabilidade de nível entre países e geral tendência de
crescimento mas, quando aferidas em termos de toneladas/capita, revelaram-se
essencialmente uniformes nesse período. Do ponto de vista de
eficiência global, em todos esses países o processamento e
rejeição de materiais excedeu a acumulação no
sistema económico, numa proporção de 3:1 nos EUA mas de
pouco superior a 1:1 na Áustria, Alemanha, Japão.
Os EUA são a economia que gera os mais intensos fluxos materiais, devido
sobretudo às indústrias mineira e de construção e
à agricultura, sectores que requerem e geram enormes fluxos indirectos
ou invisíveis; o output doméstico total atingia em
1997 quase 90 toneladas/capita/ano, do qual a parte processada apenas
representava apenas cerca de 30%, o restante sendo massivos fluxos indirectos,
dominados por resíduos da mineração de carvão e
quantidade comparável de emissões gasosas para a atmosfera. Por
outro lado, a adição líquida para o stock
económico ou crescimento físico da economia
(capitalização física) foi comparativamente menor, 8
toneladas/capita/ano. Ainda nos EUA, no período 1975-1996, o crescimento
do PIB foi mais rápido do que o dos fluxos materiais, mas também
o crescimento deste foi ligeiramente mais rápido que o
demográfico, não ficando demonstrado o evocado desacoplamento
entre crescimento económico e consumo material
2.2 - A produção agrícola
O capital original que serviu ao lançamento da
dinâmica inicial de acumulação capitalista, antes da
revolução industrial, proveio da remoção dos
agricultores da terra e da extinção de direitos
comunitários que os excluiu do acesso aos meios de
produção tradicionais que tinham à sua
disposição; nesse processo constituíram-se contingentes de
trabalhadores depauperados que se tornariam trabalhadores assalariados, na sua
maioria expulsos do campo para se tornarem proletários industriais nos
subúrbios de cidades; entretanto, a riqueza e os meios de
produção foram concentrados por um número decrescente de
indivíduos.
Assim se alienou a relação do homem com a terra e em geral do
homem com os seus instrumentos, meios e recursos de trabalho; bem como se
criaram as condições e as necessidades para a
industrialização da agricultura e para a
comercialização dos produtos da terra em larga escala e sobre
longas distâncias. No plano das relações coloniais, as
transacções dos frutos de monoculturas agrícolas e de
extracção de produtos florestais e minerais expandiram-se
enormemente nos séculos XVIII e XIX, sob o estímulo da procura de
matérias-primas que alimentassem a revolução industrial, e
viabilizada pelas inovações técnicas de meios de
transporte e pela extensão imperial das respectivas infra-estruturas. O
processo de intensificação agrícola verificou-se no
coração da própria potência
hegemónica, a Grã-Bretanha, levando à exaustão de
solos, privados de seus nutrientes naturais; na ausência de uma
solução doméstica tais nutrientes foram
substituídos pela importação de agentes fertilizantes
naturais.
A síntese dos nitratos e demais fertilizantes sintéticos,
progressivamente utilizados a partir da Segunda Guerra Mundial, requer o
consumo intensivo de combustíveis fósseis (sobretudo derivados do
petróleo e gás natural). O problema de conseguir manter o solo
produtivo não fica pois resolvido, foi sim transferido para outras
matérias-primas, e a um nível quantitativo ainda muito mais
elevado. Contando apenas os principais adubos que fornecem ao solo
azoto, fósforo e potássio nos últimos quarenta
anos, de 1961/62 para 2001/02 o consumo mundial mais que quadruplicou e a
produção mundial excede já 400 milhões de toneladas
anuais. Desse consumo colossal, cerca de dois terços cabe à
Ásia, América Latina e África; os maiores consumidores
mundiais são, por ordem decrescente, a China, os EUA, a UE e a
Índia; a UE atingiu um nível máximo de consumo ao longo da
década de 1980-89, após o que o consumo tem declinado, em
resultado da redução do volume de produção
forçada pela política agrícola comum (PAC). Os
fertilizantes sintéticos, a par de outros factores de
produção agrícola, continuam a ser um poderoso instrumento
de exploração capitalista no plano global.
Todos os factores de produção agrícola (solo, maquinaria,
sementes e fertilizantes) são controlados pela
agro-indústria. Os consumos de fertilizantes por
commodity são indicadores valiosos para documentar a
intensidade e a extensão de cada cultura em cada país e por
aí documentar a sua posição dentro do sistema mundial
agro-industrial; nos EUA, no Japão e em Israel, a
área cultivada é quase totalmente fertilizada e com uma
intensidade elevada, frequentemente com mais de 500 kg/ha (N, P2O5 e K2O); na
União Europeia, no Canadá e na China, as intensidades de
fertilização são marcadamente mais moderadas; na
Índia, Indonésia, na Europa Central e de Leste e na larga maioria
dos países subdesenvolvidos são francamente menores.
Países como a Argentina, o Brasil e o México têm
áreas de grande extensão cativas de algumas culturas com
intensidades de fertilização baixa; são produtores
altamente especializados e com elevada rendibilidade (mas até quando?).
O imperialismo impôs um regime de produção que aprofundou e
aprofunda a divisão antagónica entre cidade e campo, e entre
países desenvolvidos e subdesenvolvidos. «O subdesenvolvimento
é o produto da má utilização dos recursos naturais
e humanos realizada de forma a não conduzir à expansão
económica e a impedir as mudanças sociais indispensáveis
ao processo da integração dos grupos humanos subdesenvolvidos
dentro de um sistema económico integrado. Só através de
uma estratégia global do desenvolvimento, capaz de mobilizar todos os
factores de produção no interesse da colectividade,
poderão ser eliminados o subdesenvolvimento e a fome da
superfície da terra». Os sistemas agro-pecuários e
ecossistemas naturais são sistemática e progressivamente
transformados e apropriados com vista à intensificação da
produção agro-pecuária e florestal (sem esquecer a
papoila, a cannabis, etc. para o narcotráfico). As mercadorias geradas
no campo servem para o enriquecimento de burguesias nacionais e do capital
monopolista das transnacionais agro-industriais. Para sustentar e expandir este
sistema de exploração e acumulação, para
além da alienação da relação do homem com a
natureza, o imperialismo lançou mão de invenções
tecnológicas; primeiro os adubos naturais (nitratos, guano, etc.);
depois os adubos sintéticos derivados do petróleo e pesticidas
(nitratos, fosfatos, etc.); depois os organismos geneticamente modificados.
Neste processo acumulam-se tensões e contradições dentro
da sociedade humana e entre esta e a natureza, um confronto que o homem
não pode vencer mas pode resolver. A presente forma de
produção económica e a correspondente
organização social não são
sustentáveis.
2.3 - A produção industrial, os transportes e o consumo de energia
No cenário de rápido crescimento e complexificação
verificado ao longo do século XX, importa examinar alguns outros
aspectos fundamentais da produção material. Toda a
produção depende da utilização do factor energia.
Assim é para a produção agrícola
(combustíveis para a maquinaria, fabrico de fertilizantes e pesticidas,
transporte de produtos), como também é para as indústrias
extractivas (muito intensivas em energia, incluindo a própria
extracção de combustíveis), as variadíssimas
indústrias transformadoras (fabrico de máquinas,
mobiliário, tecidos e confecções, processamento de
alimentos, embalagens, etc.), para o transporte e a distribuição
de mercadorias que alimentam o comércio, e mesmo para os
serviços (desde aos consumos incorporados nos
edifícios e requeridos pelo seu funcionamento, aos transportes e
até às telecomunicações). O consumo de energia
é de tal maneira omnipresente que passa em geral desapercebido (e
só na sua falta se torna evidente).
No período de meio século, de 1950 a 2000, o consume global de
combustíveis fósseis aumentou 4,6 vezes - ou seja à taxa
de cerca de 3,5% ao ano, dupla da taxa de crescimento da
população mundial - e representa actualmente 77% do
aprovisionamento mundial em energia primária. Mas esse aumento foi bem
diferenciado: 2,1 vezes no caso do carvão, 7,5 vezes do petróleo
e 12,6 do gás natural. O carvão mineral, que foi a fonte de
energia primária predominante até cerca de 1930, foi ultrapassado
no seu crescimento pelo petróleo que, por sua vez, será
aparentemente ultrapassado pelo gás natural em duas ou três
décadas. Actualmente o peso relativo destas três fontes de energia
fóssil é 28%, 45% e 27%.
O presente nível de consumo de energia é insensato e realmente
insustentável.
Entre os variadíssimos ramos industriais podemos focar, de passagem, a
nossa atenção na indústria automóvel. É um
ramo historicamente importante por dois motivos: porque foi viabilizado na sua
origem pela disponibilidade abundante de combustíveis líquidos
(destilados de petróleo) e porque nele foram introduzidos pela primeira
vez e sistematicamente métodos de organização do trabalho
para a produção industrial em série (taylorismo-fordismo).
O parque automóvel (veículos de passageiros) cresceu rapidamente
neste meio século, a produção anual de veículos
tendo multiplicado 5,1 vezes, atingindo 41 milhões de viaturas, e o
parque automóvel atingindo 531 milhões (2002). De notar:
observa-se persistente excesso de capacidade de produção, da
ordem de 2 milhões/ano; um só país, os EUA possui um
quarto do parque automóvel; a produção actual compreende
cerca de 40% de veículos de elevado consumo (SUV e carros de carga
ligeiros); a intensidade de utilização dos veículos
é muito diversa (nos EUA um automóvel viaja em média 1,5
vezes o que viaja na Alemanha e o triplo que no Japão). O sector dos
transportes, os veículos automóveis em particular, é
grande consumidor de combustíveis líquidos (derivados do
petróleo). Um automóvel consome no seu ciclo de vida completo uma
quantidade de energia que só em dois terços é
combustível; o terço restante é energia consumida na sua
manufactura e em refinação e distribuição da
gasolina que o alimenta.
A invenção e as sucessivas inovações em motores
térmicos permitiram o desenvolvimento do ramo automóvel para os
transportes terrestres; mas permitiu também o incremento da capacidade e
velocidade do transporte marítimo e a emergência
revolucionária do transporte aéreo de grande velocidade e longo
alcance.
No período de 1980 a 2000, a nível mundial, o transporte de carga
marítima aumentou seis vezes e o de carga aérea cinco vezes; na
Europa, o transporte da carga rodoviária duplicou no mesmo
período. Actualmente 98% do comércio de mercadorias
intercontinental é assegurado por via marítima e o seu volume
prevê-se crescer nos próximos anos (até 2010) a uma taxa
anual próxima de 5%. Em 2005, uma nova geração de super
porta-contentores (com capacidade para 12 mil contentores de quase 40 m3)
entrarão ao serviço. O transporte de carga por via aérea
espera-se que cresça a um ritmo comparável no mesmo
período. Em 2008 a Airbus terá operacionais novos super
cargueiros (conversão dos A380) com capacidade para 150 toneladas e
alcance de 10 mil km (o que corresponde a triplicar a carga e duplicar a
distância sobre a actual geração de A300F). O transporte
terrestre é assegurado por via ferroviária, rodoviária e
fluvial; o seu incremento no espaço Europeu estima-se crescerá a
cerca de 3% ao ano, apoiado no crescimento do modo rodoviário.
O sector da logística electrónica, de apoio à
gestão destes enormes fluxos de carga é um sector das tecnologias
da comunicação e informação em rápido
crescimento; estima-se que o respectivo volume de negócios mais que
triplique em apenas 10 anos, para atingir US$ 78 mil milhões em 2012,
sendo que o maior segmento deste sector passará a ser o de software de
gestão logística, atingindo cerca de metade do montante global,
embora o crescimento mais rápido deva ocorrer no segmento de sistemas de
rastreamento de percursos (fornecedor-consumidor).
3 - O CAPITAL INTERNACIONAL
Pela sua plena actualidade para avançar na compreensão do mundo
contemporâneo, recordemos a caracterização do Imperialismo
feita por Lénin em
O Imperialismo, etapa superior do Capitalismo
: «
. convém dar uma definição do imperialismo
que inclua os cinco traços fundamentais seguintes: 1) a
concentração da produção e do capital levada a um
grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os
quais desempenham um papel decisivo na vida económica; 2) a fusão
do capital bancário com o capital industrial e a criação,
baseada nesse capital financeiro da oligarquia financeira; 3) a
exportação de capitais, diferentemente da
exportação de mercadorias, adquire uma importância
particularmente grande; 4) a formação de
associações internacionais monopolistas de capitalistas, que
partilham o mundo entre si, e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre
as potências capitalistas mais importantes. O imperialismo é o
capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a
dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu
marcada importância a exportação de capitais,
começou a partilha do mundo pelos
trusts
internacionais e terminou a partilha de toda a terra entre os países
capitalistas mais importantes.»
As corporações transnacionais são as versões
contemporâneas dos monopólios de há um século
atrás, cujo grau de concentração e extensão
geográfica foram muitas vezes multiplicados. Elas concentram e integram
o capital produtivo (mas não só) e fazem-no frequentemente
mediante investimento directo estrangeiro. O investimento directo estrangeiro,
que pode assumir formas de joint-ventures, aquisição e
fusão de empresas, tem crescido muito rapidamente, mais rapidamente que
o volume de produção e o fluxo comercial. Mas não obstante
este muito rápido crescimento, o investimento em carteira e os
empréstimos bancários internacionais cresceram ainda mais
rapidamente e, na década de 1990, excederam de longe o investimento
directo estrangeiro. Quer dizer que a concentração e crescimento
do capital produtivo (e físico em geral) tem sido largamente
ultrapassado pela concentração e crescimento do capital
financeiro (incluindo o especulativo).
3.1 Investimento directo estrangeiro
Fluxos de investimento directo estrangeiro (IDE) aceleraram a
partir da década de 1970, com o início da nova fase mais
agressiva do imperialismo, crescendo a um ritmo mais que duplo do crescimento
do comércio externo. A nível mundial e em meia década
apenas, de 1985 para 1990, o investimento directo cresceu quatro vezes mais
depressa que a produção e três vezes mais depressa que o
comercio internacional. Esse investimento quadruplicou no curto prazo de uma
década (1990-2000).
Fusões e aquisições multiplicaram-se, sendo a modalidade
actualmente assumida por mais de metade do investimento directo estrangeiro,
processo esse acelerado pela política de privatização
(América Latina) e pelas oportunidades geradas em períodos de
crise financeira (Ásia). Todavia, é ainda relativamente menor a
parte do investimento directo estrangeiro que é canalizado dos
países desenvolvidos para os países em desenvolvimento (35% em
1992-96) e, dentre estes, para apenas alguns (China, México, Singapura,
Malásia e Brasil). O principal destino é a UE com cerca de 1/3 e
os EUA com cerca de 1/5. Porém, o real peso do investimento directo
estrangeiro em países em desenvolvimento pode ser bem maior do que
parece, pois que o poder do investimento directo é aí maior que o
seu peso relativo nos empreendimentos; os activos trazidos pela
empresa-mãe podem ser relativamente menores mas são generosamente
ponderados e são determinantes para a viabilidade do investimento; o
controlo exerce-se através da componente imaterial ou
intangível do investimento como sejam licenciamentos,
contratos de gestão, capitalização de patentes, know-how,
etc.
O investimento directo estrangeiro, apoiado ou não pelas
instituições financeiras internacionais, é o mecanismo
mais poderoso de que as corporações transnacionais dispõem
para fazerem alianças com parceiros de menores capitais e se instalarem
em novos territórios. O investimento estrangeiro tem enorme impacto na
situação económica e social através da
acção das transnacionais em imporem o ritmo de mudança
tecnológica, modo de competição (escala, preço,
inovação) e padrão de distribuição no plano
internacional (localização da produção, fluxos
comerciais, preços).
3.2 - As corporações transnacionais
No início do século XX já se haviam constituído
grandes grupos monopolistas, na sequência de um processo de
concentração produtiva acelerado pelas crises económicas
de 1873 e 1900. Os monopólios concentravam grande capacidade produtiva
em resultado de fusões, aquisições e
participações (bem como sabotagem e dumping) e
constituíram-se a par da a fusão do capital bancário,
industrial e especulativo em capital financeiro. Naturalmente, o
monopólio surge em resultado da livre concorrência que
leva à eliminação de uns por outros
competidores mediante a força económica (ou quaisquer
outros meios com o mesmo fim). O imperialismo, no paradigma de Hobson,
Hilferding e Lénin, é uma entidade objectiva, etapa da
evolução necessária do capitalismo que emerge e contradiz
a etapa anterior de capitalismo mercantilista. Esses monopólios
centravam-se nos países industrializados, mas estendiam-se aos
territórios colonizados ou dependentes. Cada monopólio integrava
verticalmente numerosas empresas que contribuíam para o mesmo ramo
industrial e horizontalmente empresas de ramos afins. Os principais sectores
monopolizados por carteis de algumas poucas poderosas corporações
eram então o carvão e o aço, a electricidade, os
caminhos-de-ferro, a marinha e até já o petróleo (nos
EUA). No vértice do edifício imperialista uma oligarquia de
plutocratas e de directos beneficiários e executantes do poder,
facilmente intermutáveis entre um conselho de
administração de um banco ou de uma grande empresa ou no governo,
constituíam a classe dominante.
Ao longo do século XX, e mais rapidamente após o termo da Segunda
Guerra Mundial e na sequência das crises económicas de 1971, 1987
e 1997, os monopólios cresceram em novos sectores industriais onde a sua
expressão era relativamente menor, alargaram ainda mais a sua
área de influência geográfica, e a sua
integração vertical e horizontal foi levada muito mais longe. As
inovações tecnológicas oferecem a oportunidade de
emergência de novos ramos económicos e contribuem para
reforçar a importância e dinamismo de outros; as agora
populares tecnologias da informação e
comunicação não constituíam ainda base de
monopólios no início do século passado para serem agora
suportes de importantes corporações transnacionais
(CTN) nos ramos da Electrónica e das Telecomunicações; a
biotecnologia que era incipiente então, têm agora papel relevante
nos ramos Farmacêutico e Agro-industrial.
O seu poder económico e político e de conformação
social é enorme. As 200 maiores transnacionais reúnem um volume
de produção estimada em um quarto do PIB mundial; entre as cem
maiores unidades económicas mundiais 51 (em 2000) eram CTN, isto
é, a larga maioria dos países do mundo são economicamente
mais débeis que essas 51 CTN. Encontramos as maiores transnacionais em
diversificados ramos de actividade industrial e de serviços, nos quais
destacamos: Telecomunicações, Energia, Serviços
Públicos, Comercio por Grosso e Distribuição, Militar,
Agro-industrial, Automóvel, Aeroespacial, Comunicação
Social, etc.
As CTN competem mesmo com os Estados, na medida em que, por força dos
mecanismos de liberalização e privatização
incorporados no Consenso de Washington, adquiriram o direito de
prestar serviços públicos desde redes de
distribuição de água e electricidade a cuidados e
serviços de saúde e de educação. E intervêm
activamente na vida pública e politica, na medida em que concentram os
meios de produção e difusão de informação e
áudio-visual.
Como no princípio do século XX, a concentração
prossegue e rapidamente mediante fusões e aquisições e
participações. Como então, uma oligarquia de
milionários directa e indirectamente controla capitais imensamente
maiores do que aqueles de que são proprietários, enquanto uma
camada burguesa de pequenos investidores se arruínam ou enriquecem no
jogo da especulação bolsista.
O estado capitalista entrega os monopólios do estado à
administração directa dos capitalistas. Como dizia Lenin, o
capitalismo, na sua fase imperialista, conduz à
socialização integral da produção nos seus mais
variados aspectos.
Papel especializado na concentração do poder financeiro é
exercido através das empresas de auditoria e consultoria que têm
sucursais por todo o mundo, trabalham em todos os ramos de negócios,
empregam dezenas de milhar de técnicos e facturam anualmente muitos
milhares de milhões de euros cada; empresas que surgiram como auditoras
de contas são hoje verdadeiros conglomerados de serviços.
Também elas prosseguem a via das fusões como a Price Waterhouse
com a Coopers & Lybrand e a Ernst & Young com a KPMG, monopolizando elas mesmas
diversos segmentos altamente rentáveis de serviços, reflectindo a
tendência geral e reforçanado os mecanismos de
concentração e monopolização do capital financeiro.
4 - O COMÉRCIO INTERNACIONAL
De 1950 para 1994, o comércio mundial de mercadorias e serviços
multiplicou-se 14 vezes e, no mesmo período, o produto bruto (PIB)
agregado multiplicou-se 5,5 vezes; ou seja, desde o fim da Segunda Guerra
Mundial e durante 44 anos a taxa anual de crescimento do comércio foi 6%
e a do produto foi 4% a nível mundial. Assim, em meados da década
de 1990-2000, o volume de exportações (e de
importações) de mercadorias estava ligeiramente acima de US$ 5
milhões de milhões e de serviços US$ 1 milhões de
milhões. Ainda em 1950, os EUA e o Reino Unido somavam ligeiramente mais
de metade das exportações mundiais (termos financeiros); em 1987
(passados 37 anos) a parcela daqueles países decaíra para 30%, ao
passo que a parcela agregada da Alemanha e do Japão subira de 7% para
30% também. Havia-se registado um impressionante nivelamento
entre os principais vencedores (no campo capitalista) e os principais
derrotados da Guerra Mundial.
Segundo a OMC, em 2000 o volume mundial do comércio de alimentos atingiu
US$ 442 mil milhões; mais de 60% desse montante foi transaccionado entre
a União Europeia, a América do Norte e o Japão, grosso
modo no seio dos países da OCDE. É flagrante o contraste entre
esse fluxo medido em termos monetários com o mesmo fluxo medido em
termos físicos. Como é patente que a liberalização
aduaneira imposta aos países menos desenvolvidos face ao proteccionismo
praticado nos países mais desenvolvidos já é
objectivamente desnecessária à mera reprodução do
presente sistema uma vez já instaurado, independentemente da sua
profunda desigualdade e injustiça; mas que assim é mantido para
que proporcione mais elevados lucros e o poder político que comanda. A
Cargill/Monsanto, Novartis/ADM, Philip Morris, ConAgra, a selecta
família de transnacionais que controlam 80% do comercio mundial de
sementes, 75% dos agro-químicos e os primeiros lugares nas vendas de
alimentos transformados, têm assim espaço para prosseguir a
respectiva acumulação, integração vertical e
horizontal, a caminho de ilimitada concentração.
Assim o mundo fosse infinito e o povo o permitisse.
Os preços dos produtos agrícolas e minerais básicos
(commodities) tem sido depreciados ao longo dos últimos
vinte anos, atingindo em 2001 preços inferiores a 60% dos níveis
em que se encontravam em 1980. No que toca à agro-indústria, esta
depreciação foi resultado da liberalização do
sector agrícola dos países subdesenvolvidos, a
aceleração da monocultura, a intensificação
agrícola e a liberalização do comércio,
alterações estas introduzidas pela acção combinada
de programas de ajustamento estrutural impostos pelo BM-FMI aos
países em dívida, das regulamentações e da
jurisdição da OMC/WTO e das organizações
económicas regionais (AFTA, ALCA, APEC, etc.) e, necessariamente das
corporações transnacionais operando no terreno, em conluio com as
oligarquias nacionais.
Um dos casos exemplares é o do café. Neste caso, 25
milhões de agricultores vendem o grão mesmo abaixo do custo de
produção, depauperando-se e contribuindo forçadamente para
a perpetuação da dívida, enquanto as
corporações que transaccionam e comercializam o produto de
marca (Nestlé, Procter & Gamble, Sara Lee, Kraft Foods,
etc.) realizam anualmente vendas da ordem das dezenas de milhar de
milhões de euros. Em Janeiro de 2003, em Genebra, foi constituída
por organizações cafeteiras e sociais de vários
países da América Latina e Caribe e da África uma
Aliança Global para a defesa do café; na Declaração
então emitida, essa Aliança reclamava dos poderes
económicos e políticos um plano de resgate que tornasse o mercado
cafeeiro justo e estável e exortava os governos dos países
produtores a garantirem a soberania alimentar nacional. A
situação é agravada pela especulação
bolsista sobre as commodities que, ao manipular os preços,
gera receitas milionárias a favor dos especuladores para agravar a
depauperação dos agricultores e explorar os consumidores.
A alienação da relação homem-terra e a
intensificação da produção de
matérias-primas e o seu comércio assimétrico entre os
centros e as periferias gerou uma dívida ecológica dos
exploradores para com os explorados. Cerca de um quarto da
população mundial consome grosso modo três quartos dos
recursos mundiais; mas esta proporção injusta é ainda
assim idílica face às muito maiores desproporções
mais pronunciadas entre diferentes países e no interior de cada
país entre estratos sociais. É também uma
situação de desequilíbrio que se formou e acumulou ao
longo de alguns séculos, abrangendo muitas gerações. E,
para confirmar a relação injusta e o poder do capital instalado,
a dívida, em termos monetária, é dos países
explorados para com os exploradores, e vai-se agravando sob a
manipulação da fixação de preços das
commodities, as taxas de câmbio, as taxas de juros, a
liberalização dos mercados, a privatização de
património e de serviços, o investimento directo estrangeiro, as
reestruturações ou reajustamentos económicos politicamente
impostos, etc.
5- OS LIMITES DO IMPERIALISMO
5.1 - Os limites dos recursos energéticos
A vida na Terra existe em resultado da disponibilidade de energia livre solar
de que se alimentam os seres autotróficos e, através das cadeias
tróficas, os seres heterotróficos que se alimentam directa ou
indirectamente daqueles, como o homem. Todos os reservatórios de energia
que existem na Terra (como os combustíveis fósseis e a
própria biosfera) provêm desse permanente fluxo de
energia solar. Ora, foi a actividade desses seres autotróficos que
permitiu a fixação de carbono nos solos e em rochas sedimentares
e o enriquecimento da atmosfera em oxigénio; recordemos isso aqui porque
ultimamente muito se fala na acumulação de dióxido de
carbono na atmosfera justamente em resultado da utilização
intensiva de combustíveis fósseis.
A espécie humana é uma espécie heterotrófica mas,
além disso, tem notável capacidade de adaptação que
lhe permitiu inventar instrumentos materiais, organizações
sociais, concepções abstractas traduzidas em linguagens.
Não só descobriu formas engenhosas de utilizar a sua energia
somática, como descobriu formas revolucionárias de
utilizar energia extra-somática, desde o fogo primitivo até
à presente utilização em larga escala de
combustíveis fósseis. Com os combustíveis vegetais
(incluindo o carvão vegetal) cozinhou alimentos (para melhor
digestibilidade e preservação), desenvolveu a indústria
extractiva (que carece de trabalho e de energia para concentrar um
minério ou uma argila), o fabrico de vidro e do barro, e a metalurgia.
Esta evolução no sentido do domínio de fontes de energia
extra-somática permitiu que o homem tenha adquirido acesso a alimentos e
a outros bens naturais em escala inacessível a outras espécies e,
em particular, que exiba um crescimento demográfico sobre tal
vastidão geográfica. Porém, todas as espécies
têm o seu nicho e o substracto de que se
alimentam; do ponto de vista biológico, o rápido crescimento
demográfico da humanidade com que limites se confronta? Primeiro com o
carvão mineral depois com o petróleo, a revolução
industrial dispôs de energia em quantidade e qualidade bastantes para o
desenvolvimento de complexa organização
sócio-económica e o avanço das forças produtivas.
Mas detenhamo-nos neste ponto: o consumo (médio) mundial de energia
corresponde à capacidade de realizar trabalho somático
(metabólico) de 300 mil milhões de homens. Numa
(impossível) sociedade primitiva esclavagista, tal consumo de energia
corresponderia à actual população mundial ter 50 escravos
a trabalhar por cada habitante.
Poderá esta situação e seu crescimento continuar assim? A
dificuldade física está na finitude dos recursos que estão
a ser utilizados. A sociedade mundial não subsiste da energia solar
livre e permanente. Alimenta-se (e alimenta os seus
escravos) de fontes de energia finitas e que, no caso do
carvão em vários países e no caso do petróleo
à escala mundial, já estão a escassear. Quanto mais
acessível (mais concentrado ou mais superficial) for o recurso (como o
carvão e o petróleo) mais cedo ele é explorado, pela
simples razão que menos trabalho (ou energia) exige para ser colhido; os
recursos menos acessíveis serão explorados mais tarde (com mais
trabalho e energia, talvez com o auxílio de melhor tecnologia). Os
progressos feitos ao longo de dois séculos nas ciências
geológicas e as prospecções feitas até aos confins
do mundo não deixam espaço de manobra para adivinhar e
surpreender. Já aceitámos com naturalidade que o ouro não
se encontra em grossas pepitas em aluviões (que já foram
largamente devassadas) mas se extrai de filões profundos e de baixo teor
com elevados custos de energia (algumas gramas de ouro por tonelada de rocha
dura); é assim também com o petróleo, cuja
produção é em grande parte assegurada por um certo
número de jazidas gigantes mas já em exploração
há algumas dezenas de anos e, envelhecidas, na sua maioria em
declínio de produção.
5.2- Os limites biológicos
A espécie humana ocupa e explora intensamente o planeta; já
actualmente consome 40% da produção primária do planeta e
induz a rápida extinção de outras espécies ao
ocupar ou degradar os respectivos habitats. Toda a cadeia trófica na
biosfera é alimentada essencialmente pelo fluxo de energia solar. A
agricultura foi uma primeira forma eficaz de o homem captar e armazenar parte
desse manacial de energia. Mas o cultivo intensivo de trigo, ou arroz ou milho
não captam apenas a energia solar, extraem também energia e
nutrientes armazenados no solo. Não parece, mas a maior
fracção da biomassa existente no planeta existe não nas
florestas mas sim como matéria orgânica nos solos. A agricultura
utiliza pois energia solar livre mas também energia solar já
armazenada no solo. Na Mesopotâmia, primeiro os Sumérios, depois
os Caldeus, depois os Assírios, foram três
civilizações da Antiguidade que se sucederam cronologicamente na
bacia do Tigre e do Eufrates, de jusante para montante, à medida que,
dados os regimes hidráulicos e as técnicas da época, os
solos se tornaram sucessivamente estéreis em resultado da sua
exploração. Entre os séculos VI e XVI, na Europa ocorreram
quase periódicas vagas de fome, que o início da
exploração colonial iria atenuar com novas espécies vivas
introduzidas e importações ultramarinas. A partir do
último quarto do século XIX as potências Europeias
iniciaram a importação de fertilizantes naturais da
América do Sul e, a partir da Primeira Guerra Mundial, a
produção de fertilizantes sintéticos em larga escala veio
substituir aqueles. Mas desde meados do século XX, com a
população mundial em franca ascensão, nem mesmo a
produção das melhores terras a nível mundial é
já suficiente. A revolução verde foi
apresentada como solução para vencer a fome no mundo, mediante o
incremento da produção agrícola, em extensão e
intensidade, adicionando novos inputs: sementes seleccionadas,
fertilizantes e pesticidas e água. Foi sobre a
revolução verde que se constituiu o complexo
agro-industrial; uma vez mais o capital financeiro e a produção
monopolista ficaram a ganhar, mas à custa de
intensificação de outros factores de produção:
energia para a produção dos agro-químicos e a
operação das máquinas agrícolas, a água para
a irrigação, e outras matérias-primas. Actualmente, o
conteúdo energético solar incorporado nas matérias-primas
alimentares é inferior à quantidade de energia fóssil
consumida na produção primária; a situação
é depois agravada pelos consumos de energia no processamento dos
alimentos e no seu transporte e distribuição; a
proporção entre conteúdo energético do produto
final e a energia fóssil consumida para a sua obtenção
é da ordem de 1:10. A situação é igualmente
agravada pela utilização da produção
agrícola primária nas rações para a
produção intensiva de carne. Actualmente, 45% do cereal produzido
no México é destinado à alimentação de gado,
31% no Egipto, 26% na China; esses valores eram muito mais baixos antes da
revolução verde e o estabelecimento do complexo
agro-industrial.
Em suma, a alimentação humana deixou de se suportar na fonte de
energia renovável primordial a luz solar para se suportar
(?) em duas fontes de energia não renováveis o
petróleo e a biomassa do solo.
5.3- Os limites aos fluxos de recursos
Os fluxos de recursos, quer factores de produção quer de produtos
intermediários e acabados, de pessoas e de informação,
são necessários para alimentarem a produção e o
comércio sobre que se organiza a actividade económica e acumula o
capital.
Os meios, a eficiência e os custos de transporte de mercadorias,
passageiros e informação, mudaram radicalmente no último
meio século. A eficiência (tempo e ritmo) de
comunicação de informação aumentou
extraordinariamente enquanto o correspondente preço baixou. Porém
matérias-primas, trabalho e informação não
são factores de intermutáveis, tanto na produção
como no consumo, existem evidentes limites à sua
substituição; portanto nem o espaço nem o tempo
desapareceram da economia, ainda que essa possa ser a impressão de um
cibernauta, e o discurso neoliberal advogue essa causa.
A taxa de variação dos custos de transporte é muito
diferente entre as três categorias consideradas: materiais, pessoas,
informação; mas nenhum modalidade de transporte de pessoas ou
mercadorias é comparável às novas tecnologias da
comunicação e informação. Também as taxas de
variação de preços variam grandemente entre diferentes
modalidades de transporte de pessoas e mercadorias. Finalmente, existem e
permanecem barreiras institucionais aos fluxos dessas três categorias de
recursos; assim são evidentementes, quanto à
movimentação de mercadorias, os efeitos de fronteira
que relevam de regulamentações comerciais ou outras. Em
consequência, os serviços logísticos e a gestão
logística procuram reestruturações e
inovações que superem obstáculos e incrementem a sua
eficiência.
Porém, o custo de transporte de informação decresceu muito
mais rapidamente do que o de pessoas e materiais. No período 1960-1998,
nos EUA, o custo de processar e transmitir informação diminuiu
98% e 92% respectivamente; o custo de transporte continental de materiais
decresceu 58% por via-férrea e 42% por via fluvial (rios e canais),
enquanto por via rodoviária não variou sensivelmente (sempre em
termos de preços constantes). A nova economia da
distância diz objectivamente respeito à crescente
importância da gestão logística e dos ajustamentos de
processos visando substituir tipos de recursos e modalidades de os transportar.
Todavia a questão da mobilidade dos fluxos de recursos é mais
ampla e complexa do que fica dito. Quanto a pessoas, os efeitos de
fronteira fazem-se sentir sobre a migração de pessoas por
razões políticas e sobre o acesso ao trabalho por razões
de habilitações académicas ou profissionais
regulamentadas. Quanto à informação, a sua difusão
e o seu acesso encontram-se controlados ou condicionados, impostos ou
proibidos, consoante os casos, por uma multiplicidade de dispositivos; desde a
comunicação social monopolizada, às fórmulas,
desenhos ou simples ideias patenteados.
5.4- Limites à Produção, Comércio e Finança
O crescimento económico é conceito central no
discurso do capital. Porquê? O lucro gera-se na extracção
de mais valia do trabalho. Para incrementar o lucro o capitalista
esforça-se por extrair mais trabalho para além do
necessário ao trabalhador e também por aumentar a produtividade
do capital. A inovação técnica e organizativa permite
elevar esta produtividade (automação, robotização,
tecnologias da informação e comunicação) mas
daí decorre o incremento da composição orgânica do
capital que conduz ao declínio da taxa de lucro. Para incrementar o
lucro a produção deverá então crescer
concomitantemente. A produção é por essa via elevada a
dimensão insensata e materialmente insustentável.
Trata-se de uma verdadeira produção pela
produção, uma ampliação da
produção sem uma ampliação correspondente do
consumo. Mas, esta não é uma contradição
teórica: é uma contradição da vida real; é
precisamente uma contradição que corresponde à
própria natureza do capitalismo e às outras
contradições desse sistema de economia social. É
precisamente essa ampliação da produção sem a
respectiva ampliação do consumo que corresponde a missão
histórica do capitalismo e a sua estrutura social específica: a
primeira consiste em desenvolver as forças produtivas da sociedade e a
segunda exclui a massa da população do usufruto das conquistas
técnicas.
Através de fluxos comerciais progressivamente intensos, da continuada
depreciação dos preços das suas exportações,
do serviço da dívida externa para com as
instituições financeiras internacionais ou a banca comercial, do
investimento directo estrangeiro, a dívida externa dos países
subdesenvolvidos ascende a mais de US$ 2 milhões de milhões.
É um montante descomunal que denota a debilidade e os pesados
obstáculos ao desenvolvimento que o imperialismo instalou pelo mundo
fora. Mas de notar que os EUA, a potência hegemónica no concerto
das potencias capitalistas, acumulou ao longo das duas últimas
décadas um défice comercial que se acelera e que soma já
US$ 3 milhões de milhões, ou seja mais que a dívida do
terceiro mundo. Essa situação aparentemente é
paradoxal é sustentada mediante quer o contínuo afluxo de
dólares norte-americanos aos bancos centrais onde são acumulados
como reservas de divisas quer o seu contínuo refluxo para investimento
nos próprios EUA. Em vista desse desequilíbrio de fluxos
comerciais, os EUA absorvem actualmente 2/3 das poupanças mundiais, o
que contribui para equilibrar a respectiva balança de pagamentos mas
é grave obstáculo ao desenvolvimento de grande número de
países do mundo.
Esta situação é insólita no longo prazo; os EUA
foram uma nação credora desde o tempo da Primeira Guerra Mundial
(quando a banca tirou largo proveito das dívidas públicas);
só muito mais tarde, a partir de 1983, a dívida dos sectores
não financeiros mais que triplicou para mais de US$ 18 milhões de
milhões em 2000. Neste quadro, o surgimento do euro em 1999 como divisa
internacional, consolidada pela circulação no espaço
europeu e pela progressiva percolação para o sistema
bancário e financeiro mundial como divisa de reserva e de
transacção comercial, assinalou uma séria ameaça ao
poderio económico e financeiro hegemónico do dólar.
Na última década, a par do crescimento do gigantesco
défice comercial dos EUA, o mercado financeiro internacional cresceu
ainda mais de pressa. De 1980 para 1990 o mercado mundial de títulos
(bonds) sextuplicou e, de 1990 para 1998, duplicou para atingir US$
25 milhões de milhões. Nesta última data, as
transacções em divisas excedia mais de US$ 1 milhões de
milhões por dia ao passo que as transacções comerciais
eram de apenas US$ 25 mil milhões por dia (portanto 40 vezes inferior).
Os fundos de investimento expandiram-se fabulosamente; de meados da
década de 1980 para meados da década de 1990 decuplicaram; no
conjunto dos países da OCDE, o incremento anual de activos financeiros
nas mãos de investidores institucionais aumentou anualmente perto de US$
2 milhões de milhões, o equivalente a 10% da receita nacional
agregada.
Portanto, o fluxo mundial de mercadorias em crescimento, fruto da
intensificação da produção material e do seu
direccionamento privilegiado para a exportação, é de longe
ultrapassado pelo crescimento do fluxo mundial da capital financeiro (a
proporção estimada varia mas será superior a 30:1).
Não só as trocas financeiras crescem porque crescem as trocas
comerciais, mas crescem também porque se acentua o investimento de
capitais em novos territórios e em novos negócios e, sobretudo,
porque desarvorou a especulação em carteiras de títulos de
toda a espécie.
Esta rápida expansão do comércio internacional e o
crescimento dos fluxos de investimento e financeiro relativos ao crescimento da
produção, verificados nas últimas três
décadas do século XX, têm alguns paralelos ao observado
aquando do período de declínio do império britânico
em 1870-1913. O comércio crescia então mais rapidamente que o
produto, os fluxos de capital também cresciam, e na maior parte
consistiam em carteiras de títulos (e não investimento em
activos) sobretudo emitidos por governos e investido em infra-estruturas. A
parte que o comércio representava do PIB em 1913 só viria a ser
atingida de novo e excedida na década de 1970.
Comparando o crescimento do capital financeiro com o crescimento
económico na década de 1990-2000, é patente a
divergência entre capital especulativo e capital material. Esse capital
especulativo é fictício, representa uma titularidade sobre lucros
futuros, e pode assegurar rendimentos mediante meras operações
financeiras, enquanto fluxos financeiros adicionais convergirem para o mercado.
Mas em algum momento o capital financeiro quererá apropriar-se de parte
das mais valias extraídas da exploração do trabalho, ou
seja, a economia terá que crescer suficientemente para em algum momento
e em alguma extensão satisfazer os desejos do capital especulativo. As
maiores corporações recorrem cada vez mais a
operações financeira procurando manter os níveis das
respectivas receitas e se mostrarem competitivas; a
contabilidade criativa já deitou por terra o
prestígio (para quem crê no capitalismo) de algumas delas. Assim
também, uma proporção crescente de retornos de
investimentos resulta de ganhos de capital (apreciação do valor
de mercado de títulos respectivos) em prejuízo de receitas
(dividendos ou juros e reinvestimentos), numa proporção que
atinge já 3:1, quando tal proporção andou por 1:1 desde
1900 até 1979.
Claramente a situação económico-financeira está a
degradar-se porquanto o crescimento da economia gera lucros em enorme
desproporção relativamente às exorbitantes
solicitações futuras do capital especulativo. Os gurus da
nova economia anunciam a
desmaterialização da economia; mas o que de facto se
observa é a espectacular desmaterialização da
finança.
6- A FORÇA DE TRABALHO
A população mundial expandiu-se rapidamente e rapidamente cresceu
também a população activa inserida no sistema
económico mundial; actualmente, a maioria da população
mundial, incluindo os povos dos países mais populosos do Sudeste
Asiático, está mais ou menos inserida nesse sistema. A taxa de
actividade cresceu em geral e em particular a feminina. A força de
trabalho acompanhou o crescimento da produção e do
comércio mundial. O crescimento da taxa de actividade não
só terá sido necessária para suportar o crescimento da
produção verificada como terá sido estimulada pelo capital
para incrementar a realização de mais valia. Também,
quanto maior for o exército de trabalhadores, tanto mais
vulneráveis estes serão perante a ganância dos
exploradores. Por isso a taxa de desemprego, o trabalho precário, o
trabalho subcontratado, etc., são dispositivos que são
convenientemente perpetuados para que exerçam permanente
pressão sobre os trabalhadores. Todavia, o crescimento da força
de trabalho tende paulatinamente para a saturação, face às
taxas de crescimento económico de que o imperialismo se tem
alimentado.
Há uma profunda contradição do capitalismo que aqui ocorre
recordar. O sistema produtivo do capital cria "tempo livre" na
sociedade como um todo e numa escala crescente, porém, não
reconhece a legitimidade desse excedente socialmente produzido como
potencialmente criativo, a ser autonomamente utilizado pelos trabalhadores para
satisfação de necessidades e aspirações humanas
agora cruelmente negadas. O capitalista não só procura extrair do
trabalhador o mais tempo de trabalho que consegue, para além do
necessário, para obter a mais valia, como também procura
apropriar-se do tempo livre do trabalhador, por todas as vias as
mais engenhosas. Uma delas é compelindo o trabalhador a adquirir
competências durante o seu tempo livre, de que o capitalista
extrairá proveito durante o tempo de trabalho. Outra é aliciando
o trabalhador a alienar o seu tempo livre como consumidor de
indústrias do lazer.
As grandes transformações verificadas nas últimas
décadas foram conseguidas à custa da manipulação e
exploração da força de trabalho levada até ao
limite concebível. A par da clivagem entre nações e entre
classes sociais, também a clivagem entre qualificações e
remunerações dos trabalhadores se acentuou (ainda que os seus
valores médios tenham crescido sensivelmente), conduzindo a uma mais
estreita nova elite e a um mais amplo exército de novos
proletários. Agora o trabalho para as amplas massas tende a ser
flexibilizado e é precário, e quanto
possível fora do quadro de acordos colectivos de trabalho.
O capitalista procura apropriar-se do tempo livre do trabalhador,
por todas as vias. Uma dessas formas tem sido propagandeada como
auto-aprendizagem, sob a responsabilidade individual dos trabalhadores, em que
estes serão simultaneamente micro-empresários e
aprendizes, movidos para a aquisição de
competências que a qualquer momento sejam necessárias.
Por esta via, instilada através da palavra de ordem aprendizagem
ao longo da vida e materializada em novas e diversificadas ofertas de
aprendizagem, o "tempo livre" de muitos seres humanos, que antes era
capitalisticamente inaplicável, passa a poder ser subtilmente
incorporado como tempo de trabalho necessário, levando ainda
mais longe a sua tirania
O capital pretende, na presente fase, a flexibilização e
rápida rotação da força de trabalho, libertado
portanto da anterior rigidez dos processos de
negociações colectivas, regulamentação dos direitos
laborais e segurança social. Sendo uma questão distinta, a
qualificação e a certificação profissional
são em si mesmos constrangimentos à flexibilização
e desregulamentação que o capital pretende alcançar.
Daí a retórica a justificar a flexibilização nos
percursos escolares, a mobilidade (não só por boas mas por
más razões também), a multiplicação de
modalidades de aprendizagem e a modularização das aprendizagens e
das certificações de competências. Este contexto
será mais favorável à disponibilização e
exploração de uma força de trabalho flexibilizada e em
rápida rotação, como o capital pretende impor.
A dramática ascensão do desemprego e das condições
precárias de emprego nos países capitalistas avançados
não é um fenómeno recente. Surgiu, como uma
manifestação da crise estrutural do sistema capitalista como um
todo, após 25 anos de expansão relativamente tranquila. Desde
então, a assimetria de rendimentos, a taxa de desemprego, a
abrangência dos serviços públicos e da segurança
social, estão em continua deterioração.
Mesmo de acordo com os números oficiais há mais de 40
milhões de desempregados nos países industrialmente mais
desenvolvidos. Deste número, a Europa conta com mais de 20
milhões. Mesmo assim, quem trabalhe 16 horas por semana na
Grã-Bretanha é contado como se desfrutasse de um emprego a tempo
inteiro. E no Japão, exemplo de "capitalismo dinâmico
avançado" quem tenha tido trabalho assalariado por mais de uma hora
na última semana do mês deixa de ser incluído nas
estatísticas como desempregado". Além disso, a
intervenção do FMI, verdadeiro instrumento ao serviço do
imperialismo, nos países "em desenvolvimento", piorou nestes a
condição difícil dos desempregados ao afirmar pretender
melhorar as condições económica. Quanto aos antigos
países socialistas do sistema soviético, os quais no passado
não sofriam de desemprego apesar de administrarem as suas economias com
altos níveis de sub-emprego, tiveram de acomodar-se, sob a
pressão do FMI também, às condições
desumanizantes do desemprego maciço. A China não é
excepção à regra geral do desemprego em ascensão,
apesar do modo muito especial como a sua economia é controlada
politicamente. Um relatório do seu Ministério do Trabalho adverte
que dentro de alguns anos o desemprego poderá atingir o número de
268 milhões. E um país como a Índia tem não menos
de 336 milhões de pessoas nos seus registos de desemprego, e muitos mais
sem trabalho adequado. Mesmo nos EUA o cenário é sombrio:
«
Aproximadamente 50 milhões de americanos - 19 por cento da
população - vive abaixo da linha nacional de pobreza (...) Em
dólares constantes, os rendimentos médios semanais dos
trabalhadores caíram de US$ 315 em 1973 para US$ 210 (...) O
número de americanos sem seguro de saúde mantinha-se em 40,6
milhões em 1995, um aumento de 41 por cento desde meados da
década de setenta.».
Os obstáculos reais com que se confronta o trabalho no presente e no
futuro previsível podem ser resumidos em duas palavras:
"desregulamentação" e "flexibilidade", dois
dos mais queridos slogans das personificações do capital nos
negócios e na política que condensam as mais agressivas
aspirações anti-laborais. Na realidade, a
"flexibilidade" em relação às práticas de
trabalho, facilitada e forçada através de modalidades de
"desregulamentação", aumenta a brutalidade da
precarização da prestação de trabalho e a
arbitrariedade da sua remuneração.
Cronogramas de trabalho flexível e concentrado
(Flexible and Compressed Work Schedules) foram há muito
introduzidos nos EUA, sintomaticamente por volta do início do
período de regressão económica. No Japão o governo
introduziu recentemente um projecto de lei "para elevar os limites
superiores do dia de trabalho de 9 para 10 horas, e a semana de trabalho de 48
para 52 horas. Tal permitirá a uma empresa forçar os empregados a
trabalharem mais horas quando estiver ocupada, conquanto o total de horas
trabalhadas anualmente não exceda o limite fixado". Além
disso, esse projecto pretende também generalizar os chamados
"cronogramas de trabalho arbitrários" ("discretionary
work schedules") que permitiriam uma empresa pagar aos seus trabalhadores
de colarinho branco apenas 8 horas de trabalho mesmo que eles excedam esse
limite. E todavia o Japão é um exemplo particularmente
significativo pois que representa a segunda mais poderosa economia do mundo e
é um paradigma do capitalismo avançado. E agora mesmo, nesse
país o desemprego está a crescer e as condições de
trabalho estão a agravar-se, como nunca no anterior período de
expansão do capital no pós-guerra (1945-75). Em Portugal
agrava-se o desemprego também. «
o ritmo de crescimento do
desemprego em Portugal está a aumentar de uma forma intolerável
(
) o número efectivo de desempregados, que inclui o número
oficial de desempregados mais os inactivos disponíveis (desempregados
mas que não procuraram trabalho no período em que foi feito o
inquérito), mais os inactivos desencorajados (aqueles que estão
desempregados mas desistiram de procurar emprego), mais os que se encontram na
situação de sub-emprego invisível (aqueles que fazem
algumas horas por não encontrarem emprego) (
) com o ritmo de
crescimento que se tem verificado, neste momento (Fevereiro/2003), já
ultrapassa certamente o meio milhão de desempregados.»
Em vista do contexto generalizado de crescimento do desemprego e de
precarização, movimentos sindicalistas e socialistas em
vários países europeus têm lutado pelo objectivo de reduzir
o tempo de trabalho para 35 horas semanais, sem redução de
remuneração. Esta importante reivindicação
estratégica enfrenta grande oposição por parte do
patronato, pois que evidencia tanto os prementes problemas do desemprego como
também as contradições do sistema socioeconómico
que, por perversa necessidade, impõe a milhões de humanos os
sofrimentos do desemprego.
O sistema capitalista alcançou a sua maturidade no nosso tempo de uma
forma inextricavelmente ligada à sua crise estrutural, pois que o
avanço produtivo deste modo contraditório de controlar o
metabolismo social lança uma fracção cada vez maior da
humanidade na categoria de mão-de-obra supérflua. Paradoxalmente,
o desenvolvimento do mais dinâmico sistema produtivo da história
culmina por excluir da sua engrenagem um número cada vez maior de seres
humanos, embora, de acordo com o carácter contraditório do
sistema, eles não sejam supérfluos enquanto consumidores. Ora o
capital ou mantém o seu inexorável impulso de
auto-expansão ou deixa de ser capaz de controlar o metabolismo social da
reprodução, neste respeito não pode haver meio-termo ou a
mais ligeira atenção a considerações humanas.
7 - CONTROLO E INSUBMISSÃO SOCIAL
Ainda estamos muito longe de organizar a sociedade com base no imensamente
maior potencial de produção de riqueza do tempo
disponível. A perspectiva estratégica no longo prazo, que
não negligencie também a realização das
exigências imediatas, é inseparável da nossa
consciência da viabilidade e necessidade fundamental de controlarmos a
reprodução social metabólica com base no tempo
disponível. Este objectivo é inseparável do problema do
emprego. Devido aos constrangimentos inultrapassáveis e às
contradições do sistema capitalista, qualquer tentativa de
introduzir o tempo disponível como o regulador dos intercâmbios
sociais e económicos - o que teria de significar colocar à
disposição das pessoas individuais grandes quantidades de tempo
livre, libertadas através da redução do tempo de trabalho
- colocaria na ordem do dia destruir a ordem produtiva estabelecida. Pois o
capital é totalmente incompatível com o tempo livre utilizado de
forma autónoma por indivíduos livremente associados.
Um dos traços característicos da época contemporânea
fortemente condicionante da vida pessoal e colectiva é a
omnipresença de meios de telecomunicações e de
comunicação social. Entre os cem países mais
desenvolvidos a capitação de aparelhos de
rádio é superior a um e de televisão é quase uma; o
consumo de papel impresso é de dezenas de kg/capita. A
diversidade de vias de comunicação social e a sua
omnipresença gera enormes negócios quer em infra-estruturas quer
em conteúdos, que podem assumir-se como informativos, culturais ou
educativos, e que procedem de facto à formatação cultural
das massas. O capital sabe bem que, nos últimos vinte anos, uma
crescente fracção da população e os mais numerosos
consumidores de produtos da comunicação social (com destaque para
a televisão e a crescente importância da Internet) foram
crianças e adolescentes que entretanto se tornaram ou brevemente
tornarão adultos, e constituem gerações que o capital
deseja inteiramente transformadas e submissas consumidora desses produtos e dos
valores e comportamentos que através deles lhes são incutidos.
Desde tenra idade a televisão está preenchida por personagens que
são campeões de tudo excepto trabalho (heróis do risco ou
do desporto, nem empregados nem operários nem mesmo administradores). Os
espectadores são induzidos a conviver com uma sociedade
televisiva virtual em que também deveriam desejar viver, por ser
mais emocionante e menos exigente, e onde cada um obtém o que deseja sem
precisar de muito esforço para ter sucesso. Por outro lado, o consumo
televisivo sendo tão elevado, a realidade do prazer por ela oferecido
deverá ser paralela à que é oferecida pelo mundo real. Por
enquanto as duas coexistem lado a lado mas, para o capital, em breve deveriam
sobrepor-se inteiramente.
O número de utilizadores com acesso à Internet já excede
12% da população mundial, mas com distribuição
muito assimétrica: em apenas 50 países mais de 20% da
população tem acesso, e verifica-se o relativo predomínio
da língua inglesa (40%). A Internet é um poderoso veículo
ou instrumento de informação, telecomunicação,
educação, entretenimento, publicitário,
administração pública e comércio. Ela é um
poderoso instrumento de trabalho quanto é também de lazer.
Importa analisar a diversidade de motivações que animam os
protagonistas em presença nos diversos domínios de
aplicação das tecnologias da comunicação e
informação (TIC), a começar pelas
corporações transnacionais constituídas e em processo de
constituição nos domínios das
telecomunicações, da indústria multimédia, do
comércio electrónico
(eCommerce)
, do ensino electrónico
(eLearning)
e pelos governos e instituições internacionais. Em diversos
sectores de actividade económica e administração
pública são já evidentes reestruturações com
directa repercussão sobre as modalidades e a qualidade dos
serviços prestados e a composição da força de
trabalho.
À Internet tem sido atribuído elevado poder de
inovação para a produtividade. Na realidade, ela facilita a
flexibilização laboral, a prestação de trabalho
à peça e o tele-trabalho, por estas e outras vias oferecendo ao
capital oportunidades de acrescida extracção de mais valia, a que
cinicamente chamará maior produtividade. Mas ela é também
um instrumento de comunicação interpessoal e de difusão
mais livre de controlo directo do capital e com virtualidades de
comunicação de massas (confinada porém ao
ciberespaço).
Inovações tecnológicas recentes, como a Internet e outros
equipamentos digitais, sendo potencialmente libertadoras de tempo de trabalho
necessário, podem conduzir pelo contrário, na economia de mercado
capitalista, ao empobrecimento pessoal e social, à
desumanização do trabalhador. E a uma subtil mas poderosa
dependência funcional e económica do indivíduo face
à máquina, cuja actualidade ou obsolescência é
manipulada pelo grande capital, como os demais bens de consumo. A escolha que
se nos quer oferecer é entre a infor-exclusão, a que
a maioria não escapa, e a infor-dependência, em que os
demais ficam aprisionados.
Uma outra maneira de o capital se apropriar do tempo livre do trabalhador,
é aliciando-o para alienar o seu tempo livre, como consumidor de
indústrias do lazer. O lazer está a
tornar-se num gigantesco sector de negócio. O turismo é já
uma indústria ou serviço com enorme peso económico e
apontado como tendo ainda elevado potencial de crescimento, a uma taxa anual
superior a 5%, em resultado do aumento do tempo social de lazer.
Alguns desportos, sobretudo o futebol, mobilizam fortunas e milhões de
espectadores; patrocínios, direitos de transmissão televisivos,
estádios quase diariamente transformados em salas de estar e
audiência globais, tornaram o futebol no negócio com mais elevada
taxa de retorno por empregado. Concomitantemente, a
profissionalização do desporto e a atracção de
número crescente de indivíduos para os desportos de
competição assinalam também uma alteração no
mercado de trabalho.
8- O COMBATE SOCIAL E POLÍTICO
A propaganda ideológica capitalista veicula conceitos mistificadores e
mistificadores enunciados de políticas, procura apagar a memória
colectiva e encenar realidades virtuais, impor valores indiscutíveis e
padronizar comportamentos universais. O capital transporta para a esfera da sua
acção política as percepções e as
técnicas da organização e promoção do
mercado. Para o capital, o mercado é o terreno em que interactua com a
economia e a sociedade para realizar o seu negócio, enquanto a sociedade
civil é a multidão mais ou menos amorfa de produtores e
consumidores que anima o mercado. Essa imposição conceptual
ameaça a autoconfiança pessoal e a sua dignidade enquanto
trabalhadores - nos locais de trabalho, nos meios de comunicação
social, no debate político, no clima cultural de uma sociedade dominada
pelos valores neoliberais. É nossa missão contrariar esses
valores e quadro mental, recuperar os conceitos de identidade de classe, de
relações de classe, de trabalho produtivo. Porém, estas
noções não podem ser impostas à classe
operária e demais classes exploradas, vindas de fora, têm de ser
elaboradas como parte da e durante a luta social, em todas as suas frentes.
O capital procura manter o seu domínio político e
ideológico e para esse efeito tem que forçosamente iludir e
atrair em seu apoio as massas populares e portanto as classes trabalhadoras
exploradas. Conta com os instrumentos que o estado através de governos
conservadores ou capitulacionistas põe ao seu serviço bem como
com os meios e estratagemas que as corporações detêm e
engendram.
A construção europeia é um exemplo de grande actualidade
do papel instrumental dos governos nacionais em desenvolverem políticas
atinentes aos interesses do grande capital. A presente proposta de
Constituição Europeia pretende transferir para instâncias
políticas supranacionais domínios e extensões de
decisão importantíssimos que serão subtraídos
às soberanias nacionais. Os estados perdem individualmente o poder de
decidir em matérias tão caras aos interesses dos capitalistas
quanto aos direitos fundamentais dos cidadãos, em política
económica e social, designadamente quanto à
mercantilização de direitos fundamentais e à
privatização de serviços públicos, e quanto
à política externa, designadamente a militarização
e a constituição de um exército europeu para
intervenção fora da Europa. Os serviços públicos
ainda são proporcionados pelo Estado em numerosos estados da
União, mas pressões constantes da Comissão Europeia
através da Política Comercial Comum e dos acordos GATS têm
procurado aniquilá-los. A Constituição iria forçar
essa transição, assim cumprindo a agenda da
globalização neoliberal, ao mesmo tempo que removeria mecanismos
para a responsabilização e o controle democráticos. O
núcleo duro fundador da Comunidade Europeia do Carvão e do
Aço e da Comunidade Económica Europeia iria com tal
Constituição reunir, nos órgãos de governo da
União, poder de voto bastante para controlar uma comunidade de 25
estados europeus. E os cidadãos são afastados para o mais longe
possível dos centros de decisão em questões estruturantes.
O capital é também muito activo através dos grupos de
pressão ou
lobbies
em que se constitui, do nível local até ao nível mundial.
Desde o Global Compact (apadrinhado pelo Secretario Geral da ONU), passando
pela European Round Table of Industrialists (ERT) (da intimidade da
Comissão Europeia), onde dita ou influencia decisivamente as
políticas emanadas de instancias internacionais e intergovernamentais
(agências da ONU, OCDE, Comissão Europeia, etc.) até aos
grupos de capital nacionais, de onde saem e entram ministros e administradores
de bancos ou de grandes empresas, o capital está sempre por
detrás do poder político.
Mas o capital não pode evitar o confronto com o trabalho no plano da
empresa ou do sector económico. Aí procura atrair para o seu lado
os estratos laborais das chefias intermédias, quadros técnicos,
dos operários mais especializados. O diálogo
tornou-se puramente impossível na presente fase imperialista e só
pode conduzir à cedência. Essa acção de
sedução ideológica exerce-se no interior da empresa e
reflecte-se no interior das organizações de classe e
profissionais. A partir daí, todas as alianças
estratégicas ou até formais entre o capital e
organizações sociais serão tentadas, para que sirvam de
blindagem do capital face às mais largas massas de trabalhadores,
sobretudo os menos qualificados e mais depauperados. Assim surgem conluios
explícitos ou implícitos entre grandes empresas e algumas
organizações não governamentais e entre
associações patronais e algumas associações
sindicais. A história contem em si muitos ensinamentos que não
devem ser esquecidos, mas situações novas carecem de
análise detalhada.
O confronto com as corporações transnacionais passa por redes de
alianças entre operários atravessando fronteiras quer nacionais
quer sectoriais. O desenvolvimento da solidariedade internacional baseada na
identidade de classe reunirá a força necessária para
quebrar tendências reformistas para a conciliação entre
capital e trabalho no interior de cada empresa, que supostamente
defende um grupo empresarial ou sector empresarial
contra os demais. Tal conciliação é
anti-natura e procura colocar os trabalhadores na posição de
tropas de choque na defesa do patronato. O fundamental não é a
competição conceito eminentemente capitalista
entre empresas ou entre nações, como querem fazer crer o
patronato e os governos, mas sim a contradição entre trabalho
de todas as nacionalidades e o capital de todas as
nacionalidades também.
Outra confrontação que os trabalhadores enfrentam e em torno da
qual existem exemplos e ainda maiores oportunidades de alianças
sindicais e cívicas nacionais e internacionais é na luta pela
defesa das realizações que foram conseguidas através do
Estado Previdência, contra a privatização e entrega de
património e serviços públicos a empresas quer sejam
(ainda) nacionais quer sejam (já) subsidiárias das rapidamente
crescentes corporações transnacionais especializadas nesse saque.
Essa aquisição de partes substanciais de serviços de
interesse social por capital privado é um indicador significativo de um
grave deslocamento do equilíbrio de forças entre o trabalho e o
capital nas nossas sociedades. Desequilíbrio que importa deter e fazer
reverter em sentido contrário. O desenrolar deste confronto
ideológico e social não está determinado. A luta é
difícil para ambos os lados. Vital também para o lado do capital,
pois que é a sua sobrevivência que está em causa. «A
reforma mais frequentemente necessária e a mais perigosa é a das
empresas públicas, seja em caso de sua reorganização seja
da sua privatização. Esta reforma é muito difícil
porque os assalariados deste sector estão frequentemente bem organizados
e controlam domínios estratégicos. Vão bater-se com todos
os meios possíveis (
) Quanto mais um país tenha
desenvolvido um grande sector público, mais esta reforma será
difícil de concretizar» [Morrisson Christian, 1996].
É necessário compreender que o pacto social nunca foi um
objectivo absoluto do movimento operário, que a política de
parceria social foi o resultado de um desenvolvimento histórico
específico, tornado possível em resultado de um grande
deslocamento no equilíbrio de poder entre trabalho e capital, numa
combinação concreta de factores políticos e
económicos. A revolução soviética, o fortalecimento
do movimento operário e sindical no campo capitalista, os movimentos de
libertação nacional no terceiro mundo, e um longo período
de expansão económica da economia capitalista, foram as
condições específicas em que se desenvolveu um
período relativamente estável de compromisso de classes. Ora a
presente situação mundial é de inversa
relação de forças, pelo que visar um novo pacto social na
presente fase é ilusório e seria desastroso. O capital procura
agora retirar todas as anteriores conquistas do trabalho e recuperar a
exploração a níveis ainda mais elevados que anteriormente
não por perversidade mas pela necessidade e no propósito
de impor a sua própria sobrevivência. O descontentamento popular
perante os actuais desenvolvimentos nos planos das relações
laborais, segurança social, serviços públicos, como
também nos planos das incontroladas injustiça e violência
nacional e internacional, encontrará forma de traduzir-se em
acção. A indignação e o descontentamento populares
precisam de ser canalizados e politizados pelas organizações
sociais actuando autonomamente, designadamente sindicatos e
associações profissionais, e pelos partidos políticos
realmente revolucionários, sem conciliação de classe, nos
esforços de mobilização e de luta, em vista de
recuperação e melhoria das condições de vida e de
trabalho dos povos e da justiça social e da paz no mundo. Essa
mobilização é uma luta de disputa contra o capital que
detém os instrumentos de controlo social, desde os grandes meios de
comunicação social, que utiliza para manipular e formatar a
consciência social, o sistema de ensino, que procura manter sob o seu
domínio ideológico, dos serviços de segurança e
policiais.
9- ENFRENTANDO O IMPERIALISMO
«A globalização não significa a
impotência do Estado escreveu o economista russo Boris Kagarlitsky,
mas a rejeição das suas funções sociais a
favor das funções repressivas, a irresponsabilidade dos governos
e o fim das liberdades democráticas. A ilusão do Estado
enfraquecido é sedutora: na realidade, é a cortina de fumo
lançada pelos autores do moderno poder centralizado. O projecto Europeu
é inteiramente a propósito de estender as fronteiras do Estado. A
China totalitária abraçou o mercado livre enquanto
consolida o seu vasto aparelho de estado. As autocracias de Singapura e da
Malásia fazem o mesmo enquanto se fortalecem.»
É muito perigosa uma visão moderada que recuse ver a
cumplicidade do poder do Estado com a rapacidade do poder do capital, porque
pode ser assimilada pela opinião pública para melhor a controlar.
Também o BM e o FMI, desacreditados e agora mais criticados, encontraram
entretanto uma táctica hábil de sobrevivência neste
contexto. De um dia para o outro o FMI e o BM, os maiores responsáveis
pela dívida pública e pela crise social nos países em
desenvolvimento e em transição, em nome
de hipotética salvação económica, travestiram-se
agora em instituições caridosas cuja principal missão
é supostamente derrotar a pobreza. Conjuntamente com a OMC,
promovem agora o diálogo com ONGs moderadas
ditas anti-globalização, tratando-as como opositores
sérios, em oposição às
associações sindicais de classe e às massas populares que
se manifestam nas ruas.
Devemos examinar a conexão entre o capitalismo e o poder político
e económico dos estados. Para compreendermos essa conexão devemos
examinar e ter presente a sua evolução histórica. A
emergência do capitalismo está intimamente associada com outros
fenómenos mundiais, incluindo a afirmação do
estado-nação. O capitalismo emergiu no contexto da
afirmação de estados-nação europeus, a partir de
bases políticas e económico-sociais diversas e de forma
diferenciada, por exemplo na Inglaterra, na França e na Alemanha. O
desenvolvimento do capitalismo deu-se no interior dessas fronteiras, embora a
sua dinâmica tenha exigido a colonização de
territórios ultramarinos, e tenha estimulado o gradual desenvolvimento
de relações de produção análogas noutros
países europeus, bem como noutros países colonizados ou
não, dentro da esfera das relações capitalistas mundiais.
A internacionalização do capital foi acompanhada pela
replicação da forma politica que o capital inicialmente tomou; de
modo que, quando inicialmente havia apenas alguns estados-nações,
agora temos duas centenas em todo o mundo. E a concomitante
constituição de instituições multinacionais entre
eles, não veio destituir de funções políticas esses
mesmos estados cujo número se multiplicou, veio sim redefinir essas
funções e, em certos casos, conferir-lhes mesmo novos
instrumentos de exercício de poder.
Actualmente, o capitalismo tem presença global, material e
ideológica, com impactos nos planos político, económico,
cultural e ambiental. Ter atravessado fronteiras e ser mundial, ter esse
processo sido intermediado e em parte executado pelas corporações
transnacionais, não significa, porém, que tenha anulado e ainda
menos dispensado as suas origens e as suas bases, históricas e
operacionais, dos estados-nação.
A globalização comporta fenómenos que não seriam
compreensíveis ignorando a competição entre estados
nacionais e a competitividade entre economias nacionais, ignorando as
políticas nacionais que procuram promover o rendimento do capital
nacional e o afluxo de capitais estrangeiros, bem como confinar a força
de trabalho e discipliná-la intra-fronteiras. O processo de
construção da União Europeia ilustra a
tensão imanente entre integração e
competição, a contradição resultante de
desenvolvimentos económicos desencontrados, processo conduzido pelo
capital, através dos governos nacionais e sob a pressão das
grandes associações patronais, que prossegue uma agenda
económica e promete uma agenda social, enquanto procura impor uma
solução política federalista.
As instituições internacionais que configuraram e configuram a
presente ordem internacional, desde o nível mundial
ONU e suas agências, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional,
Organização Mundial do Comércio ao nível
regional União Europeia, NAFTA, ALCA, ASEA e apoiadas por
organizações inter-governamentais como a OCDE, etc. todas elas
foram criação dos governos de estados nações, que
nelas depositaram autoridade e até mesmo partes da sua soberania.
Mas essa transferência de autoridade ou soberania não
tem o mesmo valor para todos os estados. Os EUA e outras potências
capitalistas não só detêm maior poder de decisão
nessas instâncias como a elas não obedecem quando lhes
convém o que manifestamente não é o caso da grande
maioria dos estados. E a cumplicidade da maioria dos estados nas
políticas anti-nacionais exercidas nessas instâncias, se toma a
forma de submissão da soberania desses estados, é porque tal
é a forma de o capital nacional promover os seus interesses à
custa da alienação da soberania dos respectivos povos, tal como
promove o seu enriquecimento à custa da exploração dos
seus trabalhadores.
Outra face do imperialismo é o militarismo. Que hoje não tem
tanto como objectivo derrubar fronteiras, conquistar territórios e
converter povos, ainda que o perigoso desvio neo-conservador ainda preserve
essa visão imperial. O seu objectivo é mais a
afirmação do poder político inquestionável e
ilimitado sobre a economia global, exibindo o poder militar massivo e a
violência inapelável que confirmem o domínio global do
capital.
O imperialismo globalizado mantém, reforçada, a base de
organização em estados nações e, também
reforçada, a sua organização em monopólios sobre
todos os sectores de actividade e em escala planetária. A
produção e o comércio progridem na sua intensidade e
concentração. O capital financeiro cresce a taxa alucinada,
tornado predominantemente fictício. As vulnerabilidades e
contradições não são mais de origem ou não
mais se confinam a âmbitos nacionais, são claramente
sistémicos, globais. De onde se deve concluir que nenhuma particular
política nacional pode já criar ou resolver crises. Mas estando o
imperialismo organizado e irredutivelmente dependente dos
estados-nação, estes são as instâncias primeiras da
luta pela superação dos problemas mundiais contemporâneos,
a luta anti-capitalista, uma luta que sendo nacional é dirigida contra
os fundamentos de um sistema mundial, e que apela à
cooperação internacionalista.
__________
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