"EUA não vão deixar de espionar, vão é tentar
evitar
outro Snowden"
por Hernando Calvo Ospina
[*]
entrevistado por Opera Mundi
OM: Como viu o caso "Snowden"? É possível medir, hoje,
o nível de vigilância da CIA?
Hernando Calvo Ospina: Eu fico feliz que essas revelações tenham
criado certa recusa pública, mas me surpreendi com a surpresa causada
pela revelação. Isso não era um segredo, nem algo novo.
Por exemplo, não faz muitos anos que Brasil e França foram
espionados pelas agências de seguranças estadunidenses durante a
negociação de um grande contrato comercial. Suas empresas
procuraram saber os detalhes dos pré-acordos, mas também
reconheceram que as francesas estavam distribuindo dinheiro por de baixo da
mesa para que fossem selecionadas. Alguns anos atrás, a segurança
francesa teve que reconhecer que o helicóptero do presidente Chirac
tenha microfones, e que suas conversas eram escutadas em uma poderosa embaixada
aliada.
No final dos anos setenta houve a denúncia de que os Estados Unidos
tinham uma imensa rede de espionagem mundial, denominada Echelon, para
interceptar e analisar as comunicações eletrônicas. De
Echelon também participam a Grã Bretanha, Austrália,
Canadá e Nova Zelândia, ainda que os Estados Unidos decidam o que
compartilhar com seus sócios. É uma rede de espionagem bastante
aperfeiçoada. Embora a União Europeia tenha investigado e
protestado, nada mudou. Pelo contrário, as revelações de
Snowden, que talvez tenham incomodado as nações aliadas de
Washington, principalmente europeias, revelam que essa espionagem não
teve limites. E que a espionagem econômica está entre o
prioritário. Agora, essa mesma espionagem eletrônica não
é tão efetiva na chamada "guerra ao terrorismo". A
própria CIA teve que reconhecê-lo ante ao Senado faz poucas
semanas.
OM: A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, disse em um discurso na ONU que a
ação viola os direitos humanos e liberdades civis. Obama
respondeu que vai estudar novas formas de conseguir informações.
Como você vê este evento? Considere-se que os EUA deixariam de
espionar outros países? Existe a possibilidade de uma mudança?
Obama nunca disse, e nem dirá, que a espionagem vai parar. Ele vai
cuidar para que não ocorram mais vazamentos de informações
ou outro 'Snowden'. Mas, qualquer dia desses, vão surgir outros para nos
contar o que já imaginamos ou sabíamos. E, por alguns dias, a
mídia vai se dizer consternada, enquanto alguns governos, cumprindo um
formalismo, vão protestar novamente, começando pelos europeus.
É que, até agora, não há nada a fazer, porque
Washington tem o poder de agir como quiser e quando for conveniente aos seus
interesses, para eles é tudo o que importa. O respeito à
soberania de outras nações só é interessante quando
produz lucros para eles.
OM: Como se define o término do "terrorismo de estado"? Qual
é a diferença do terrorismo praticado pela CIA do terror
produzido pelos chamados "países inimigos"?
Quando as instituições de uma nação funcionam em
conjunto, incluída a Justiça, para reprimir ao ''inimigo
interno'', ou seja, a oposição política, ele é o
terrorismo de Estado. Normalmente são as ditaduras que o praticam, mas
existem estados considerados como democráticos que podem ser piores,
como é o caso do colombiano. Também existe o terrorismo
''oficial'' quando um estado se crê com o direito de assassinar inocentes
em outras nações, seja em operações chamadas de
''seletivas'', seja por meio de invasões denominadas
''humanitárias''. Estados Unidos, Israel, França e
Grã-Bretanha têm-nas feitoo muito regularmente. Em um caso e outro
quase sempre se faz pouco do pretexto de salvar e impor a democracia.
Certamente muitas ações realizadas e promovidas pela CIA
estadunidense, o Mossad israelense e outros serviços de repressão
estatais têm produzido mais mortes e terror entre a
população civil inocente que muitas ditaduras e
organizações denominadas terroristas.
OM: Foi difícil reunir todas as provas e documentos para o seu livro?
É a informação seria suficiente para condenar os
ex-membros e até mesmo os Estados Unidos?
A CIA e outras 15 agências de segurança norte-americanas
não são apenas uma ameaça para a soberania de outras
nações, mas um perigo para a paz mundial e para o futuro do
planeta. E eles o são assim porque respondem aos interesses de uma regra
proposta para pegar todos os recursos estratégicos do mundo. Eles fazem
parte de um exército de conquista que chantageia, subjuga, mata e
aterroriza.
As informações sobre a CIA estão aí, na internet,
em livros, em muitos documentos preparados pelos seus próprios
especialistas. Só procurar, investigar um pouco. Eles sentem com tanto
poder que não se importa de mostrar muito do que eles têm feito.
Agora, o meu livro contém apenas uma gota de informação.
Ainda assim, há base para iniciar o julgamento de todos os que eu
menciono, começando com os presidentes dos Estados Unidos. Porque, como
eu disse, a partir de Eisenhower, todos os presidentes do país têm
sido verdadeiros criminosos e terroristas, com a particularidade de ir à
missa antes de requisitar tropas matar pessoas inocentes e saques. Sob o
pretexto de salvar a democracia, a sociedade ocidental e o cristianismo.
OM: Dos exemplos de interferências e abusos feitos pela CIA, quais mais
lhe causaram surpresa ou o deixou mais chocado? Por quê?
O que tenho conhecido da CIA e outras agências de segurança
tem-me irritado como um ser humano. Mas o que me surpreende é que,
quando elas iniciam suas campanhas de intoxicação da
mídia, abrindo o caminho para derrubar o governo ou realizar outras
atividades criminosas, muitos intelectuais e líderes políticos de
esquerda acabam acreditando nessas informações. Então,
muito poucos deles percebem que, quando fazem discursos grandiloquentes sobre a
manipulação da mídia, como quando o New York Times, O
Globo, do Brasil, ou El País, da Espanha, começam a reproduzir
com campanhas vindas do Pentágono ou a CIA, eles começam
repeti-los ou duvidar de suas próprias análises.
Então, para mim, os resultados mais dramáticos da CIA e outras
agências secretas de repressão não é espionagem ou
ação militar: é a capacidade de manipular a realidade.
Para manipular e fazer-nos crer que estamos errados e nós que somos os
maus.
Ver também:
Um manifesto pela verdade
, Edward Snowden
[1] Jornalista, autor de
A CIA e o terrorismo de Estado: Cuba, Vietnã, Angola, Chile, Nicarágua
, Ed. Insular, Florianópolis, 2013, 216p., ISBN 978-85-7474-690-6
O original encontra-se em
operamundi.uol.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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