3 – Planeamento
No texto anterior tratámos da disfuncionalidade cognitiva em que o irracional se sobrepõe à compreensão da realidade. Algo que se enquadra na “síndrome de Estocolmo”, em que as vítimas se identificam emocionalmente e criam empatia com os seus agressores. Neste caso, não é reconhecida nem a exploração promovida pelas oligarquia, nem as agressões (guerras, sanções, conspirações) da NATO, nem o sistema neoliberal responsável pela estagnação económica, pobreza, crescentes desigualdades. Pelo contrário identificam-se com os que defendem tudo isto.
Baseados na Constituição Portuguesa propusemos um “tratamento”: economia mista, planeamento democrático, não alinhamento em blocos militares. Três bases para mudar de sistema, absolutamente interdependentes: qualquer uma sem as demais é inútil ou impossível.
A questão da economia mista foi anteriormente abordada, quanto ao planeamento económico democrático já aqui foi várias vezes tratado. Ver por exemplo:
4 - Não alinhamento em blocos militares
É evidente que nas atuais circunstâncias não se pode abandonar o bloco militar por decreto. Mas pode-se e deve-se cumprir a Constituição, começando por recusar políticas belicistas da NATO, estatutariamente uma organização defensiva, e propor para a guerra na Ucrânia a emergência de negociações, a cessação do envio de armas para o cenário de guerra insistindo em absurdas contraofensivas.
E isto não pode ser considerado insólito ou objeto de estúpidas invetivas dado ser também a posição do Papa. Seria aliás a forma mais concreta da ajudar o povo ucraniano, vítima de falsidades como as que levaram ao poder o atual presidente, e a diabolização do vizinho que propunha um tratado de segurança coletiva e a neutralidade da Ucrânia, recusado pelas ambições geopolíticas dos neocons e seus seguidores na UE/NATO.
O único partido que frontalmente apelou desde o início a negociações como forma de resolver o conflito, evitar a destruição da Ucrânia e sofrimentos ao seu povo, foi o PCP, numa posição, pode dizer-se, muito moderada. Apesar disto foi atacado tanto pela social-democracia como pela extrema-direita, que para além da encenação está totalmente enraizada no sistema – só o deseja mais iníquo para os trabalhadores. O Bloco de Esquerda, habitualmente ambíguo nos temas estruturais, adotou a posição “nim”: Nem Fidel nem sanções; nem Maduro nem… o que quer que seja; nem Putin nem expansão da NATO: Portugal deveria condenar “a aventura militar” do Presidente russo, em relação à Ucrânia, mas demarcar-se dos “posicionamentos de apoio aos EUA e à expansão da NATO”. O imperialismo convive muito bem com esta “contestação.
Contudo, para além da desestabilização social que percorre a Europa do ocidente e manifestações contra a guerra, surgem apelos a um distanciamento em relação a Washington. Ao regressar da China, Macron disse que a Europa deveria traçar seu próprio curso e ser um "terceiro polo" nos assuntos mundiais entre Washington e Pequim – e não ser um vassalo para qualquer um deles. Esta aparente reviravolta de Macron tem que ver com divergências entre as diversas burguesias europeias. Tal é típico nos povos colonizados entre burguesias alinhadas e que lucram com o colonizador e burguesias nacionais que vêm os seus negócios esmagados e receiam o avolumar da contestação social. Tal foi exemplarmente descrito por Kwame Nkrumah em “A luta de classes em África”.
É de facto necessário fazer cessar os loucos que conduzem o bloco militar que tem como objetivo dominar o mundo segundo as suas “regras”[1]. A decisão do RU de enviar projéteis com urânio empobrecido teve da parte da Rússia o aviso de que terão de assumir a responsabilidade pelos danos irreparáveis causados às pessoas. A resposta do vice-ministro da Defesa do RU, James Hippie, tem laivos de insanidade: “o RU não monitoriza o uso de projéteis de urânio empobrecido transferidos para a Ucrânia e não tem nenhuma obrigação de eliminar as consequências do seu uso no território ucraniano”. (Ukraine Watch, 26/04)
Mas a Ucrânia sangra. Apesar da massiva assistência militar, logística, financeira e económica do ocidente, as forças russas têm derrotado as forças ucranianas e mercenárias ao longo da linha da frente. O candidato presidencial dos EUA, Robert Kennedy Jr., falando na Fox News sobre a Ucrânia, afirmou que 14 000 civis e 300 000 militares ucranianos morreram. "Mas ninguém fala sobre isso. Os russos matam ucranianos na proporção de 7 ou 8 para 1". (Intel Slava Z – Telegram, 21/04) O Times publicou uma reportagem do hospital das Forças Armadas ucranianas em Druzhkovka, referindo-se a pesadas perdas e morte de veteranos.
A Rússia tem-se dedicado a destruir sistematicamente equipamentos militares da NATO e infraestruturas militares. Independentemente do que os media propagam, uma vitória da NATO/Ucrânia na prevista ofensiva, é longínqua. O sistema de defesa aérea ucraniano está em estado crítico. Os russos destacaram para a linha da frente 160 000 soldados, têm predominância de artilharia, superioridade aérea e fortificaram fortemente a linha da frente em várias camadas de defesa.
A Ucrânia, perdeu grande parte dos seus soldados mais experientes. Segundo o General ucraniano Serhiy Melnyk, comandante na região de Kharkiv, em entrevista ao jornal espanhol El Pais: "O problema é que nunca teremos pessoas e equipamentos suficientes. Porque os soldados profissionais estão exaustos, feridos ou morreram. Por isso, convocamos pessoas sem experiência militar e as treinamos." (Intel Slava Z – Telegram, 24/04)
Nos EUA são temidas as consequências de uma contraofensiva ucraniana fracassada, escreve o Politico. Washington receia críticas internas e dos aliados se a ofensiva falhar. Os países da Europa começarão a considerar as negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia como a opção mais viável se Kiev não provar que pode obter uma vitória. The Washington Post, refere-se às dúvidas dos serviços secretos dos EUA sobre a possibilidade de a Ucrânia "recuperar territórios" na posse da Rússia. A Bloomberg diz que muitas das elites ocidentais estão cada vez mais céticas sobre um avanço decisivo este ano, devido às defesas criadas pela Rússia.
Será que um falhanço da contraofensiva NATO/Ucrânia significa o fim da guerra? Não é credível caso os neocons permaneçam no poder em Washington e na Europa do ocidente se continue a agir como vassalos. Impulsionados pelos belicistas renasce a ambição de protagonismo dos dirigentes polacos, cujos efetivos militares participam na guerra, podendo prever-se o seu aumento na esperada ofensiva.
As elites polacas sonham transformar o seu país num campo de batalha para lucrar com o financiamento ocidental. O primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, na recente visita aos EUA, criticou a França e a Alemanha e disse que a Polonia era o "líder da nova Europa" após "o fracasso da velha Europa". “A velha Europa acreditava num acordo com a Rússia e a velha Europa fracassou, a Polónia é o líder da nova Europa.” “A Polónia quer construir o exército mais forte da Europa, e por isso queremos cooperar com a indústria de defesa mais avançada do mundo, ou seja, a indústria americana". (?!)
Dalibor Rohac, do American Enterprise Institute, publicou um artigo de opinião na Foreign Policy intitulado "Time to Re-Establish the Polish-Lithuanian Union" em que defende a criação de um um “Estado federal ou confederal entre a Polónia e a Ucrânia, que, fundindo as políticas externas e de defesa, traria a Ucrânia para a UE e a NATO quase instantaneamente”.
Contudo, na Polónia há contestação a estas políticas resultantes da atual concorrência de cereais ucranianos, da vaga de emigrantes da Ucrânia e benefícios que lhes são proporcionados, além dos prejuízos causados pelo envolvimento na guerra.
Face aos insanos delírios dos belicistas, o mundo multipolar impõe-se, o que reforça a necessidade do abandono de blocos militares. O seu belicismo e o desejo de hegemonia global querendo ditar “regras” a todo o mundo, embora violando-as, levou a que a parceria estratégica Rússia-China se fortalecesse. A visita oficial do conselheiro de Estado chinês e ministro da Defesa, general Li Shangfu, à Rússia, mostrou a disposição dos dois países de aprofundarem a coordenação face ao agravamento das tensões geopolíticas, designadamente os desafios militares no Extremo Oriente. As conversas entre Putin e Shoigu, representaram o desenvolvimento da cooperação técnico-militar evidenciando, quão seriamente a China se prepara para um conflito em torno de Taiwan. (Intel Slava Z – Telegram, 18/4)
Com o mundo unipolar a chegar ao fim, ameaças e sanções tornam-se cada vez mais contraproducentes: agravaram as crises nos países NATO e aliados, e enfraqueceram o dólar. A Rússia está longe de estar isolada e goza de plena aceitação internacional, enquanto o declínio do ocidente e a diminuição da influência global dos EUA são a realidade geopolítica atual.
A imposição de sanções a empresas chinesas por "apoiarem as indústrias militares e de defesa da Rússia", são rebatidas pela China: “Assim como a China é uma grande potência independente, o mesmo acontece com a Rússia. É nosso direito decidir com quem realizaremos a cooperação económica e comercial normal. Não podemos aceitar a coação económica dos EUA".
A comunidade dos BRICS alarga-se: mais 19 Estados pretendem aderir ao BRICS, 13 candidataram-se já oficialmente. Segundo a Bloomberg, a maior associação de países a ser está formada, podendo atuar como contrapeso à coligação do G7. Como principal potência económica, a China permanecerá como líder. Obviamente, os EUA, a UE e o RU fingirão que o BRICS+ não tem peso geopolítico, mas isso não é importante. Importante é ter uma associação que estabeleça uma agenda coletiva, implementando-a nos seus próprios interesses.
A participação dos EUA no comércio mundial caiu de 21,5% em 1990 para 15,4% em 2022. As projeções do FMI, mostram uma nova queda para 14,5% até 2028. A participação da China aumentou drasticamente, está projetado ser 19,3% este ano e 20,1% em 2028.
Concentrados na guerra pela unipolaridade o próprio país é esquecido pelos neocons. As infraestruturas degradam-se, mais de um sexto do PIB vai para a saúde, mas a expectativa de vida nos EUA tem diminuindo para a metade mais pobre da população. Enquanto os povos enfrentam uma inflação persistente em 2022, as empresas da Fortune 500 obtiveram um lucro 1 800 milhões de milhões de dólares, numa receita de 16 100 milhões de milhões.
5 - Como conclusão
Muitas pessoas perderam a capacidade de entender e analisar com boa fé tanto as razões dos que lhes são apresentados como inimigos como os motivos dos que lhes são apresentados como amigos. Tal deve-se, em termos marxistas, a uma agravada alienação.
Vemos como os media fomentam este estado de espírito, pior: desencadeiam histéricos ataques a quem apenas raciocine na base de factos e sem perder memória da história recente, apontando soluções de simples bom senso. É aquilo a que Andrea Zhok se refere como a história de uma involução: da política estrutural (em que se fundamenta a análise marxista) ao moralismo histérico. A lição marxista foi fundamental para compreender, e deixar claro, que, no mundo moderno, qualquer mudança de moral e de opinião que se torne hegemónica tem sempre uma raiz primária na "estrutura", isto é, na esfera da produção económica e na correspondente gestão do poder. Apresenta-se uma análise da política e da geopolítica que, esquecendo a verdadeira causalidade, se dedica a leituras moralistas do mundo, a notícias sangrentas, ao gosto do escândalo, ao politicamente correto, à fofoca política.
Ou seja, nos media a análise de políticas (ou estrutural) deu lugar à mediocridade de se discutirem pessoas, dando lugar a outras que irão realizar as mesmas políticas – estruturalmente falhadas.
Evitar a guerra, lutar pela paz, sempre foi um objetivo do socialismo marxista, porque provocar guerras sempre foi também a forma mais drástica de reprimir as forças populares. A prevenção da guerra exige o respeito pela soberania e a segurança dos outros povos. Nada disto se passou com a expansão da NATO e após o golpe de 2014 em Kiev. Hoje a Ucrânia é um país sem existência real, uma ficção financiada pela NATO e FMI. A guerra acaba logo que a NATO cesse este apoio.
Mas os belicistas ocidentais querem o mundo todo. As recentes fugas de informação do Pentágono testemunham o desastre e a bancarrota, que a propaganda faz por ignorar. Mais de 200 mil milhões de dólares foram esbanjados pelos Estados ocidentais nesta guerra fútil, enquanto as sociedades ocidentais estão a desintegrar-se na pobreza e privações. Nos EUA a dívida federal cresce sem controlo, 2 milhões de milhões de dólares por ano, já atingindo 31,7 milhões de milhões! Quem se lembra das fanfarronices de que “a agressão de Putin contra a Ucrânia” iria lançar a Rússia no caos económico e social e isolá-la internacionalmente?
Os EUA ao cancelarem as negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia em março de 2022 mostraram o que pretendiam: arrastar a Rússia para um atoleiro de guerra onde se esgotasse, independentemente de quanto a Ucrânia fosse destruída e quantos ucranianos morressem ou fugissem para outros países. Se soubessem um pouco de História e geografia perceberiam como é difícil vencer um país como a Rússia, que dispõe da maior extensão terrestre e (de longe) as maiores reservas de bens naturais do mundo.
Os propagandistas, mantêm as populações no distúrbio psicótico – como é timbre dos fascismos – impedindo que vejam como cada vez mais países se afastam da insanidade e falhanços do ocidente num conflito que está a remodelar a geopolítica mundial ou como Xi Jinping, disse: "o mundo está a passar por mudanças profundas nunca vistas em um século".
A resistência do povo cubano merece ser lembrada. Como o presidente Miguel Díaz-Canel afirmou na Assembleia Nacional em 19 de abril (dia da Vitória da Playa Giron em 1961): “mais cedo do que mais tarde, a política de hegemonia terá que cessar; o multilateralismo tomará o seu lugar, e Cuba será capaz de mostrar até onde um nobre povo criativo e talentoso pode ir se estiver unido em torno de objetivos claros e se estiver livre de pressões e bloqueios".
Eis, porque a Constituição de Abril revolucionário não pode estar, nem estará, morta para as forças progressistas.