Economia política, políticas económicas e
eleições
por Daniel Vaz de Carvalho
|
|
A economia política não se ocupa da produção, mas
das relações sociais dos homens na produção, do
regime social da produção.
V.I. Lenine
Alguém que não possa ver agora a finalidade do jogo
governo global pelos banqueiros, dos banqueiros e para os banqueiros ou
é cego ou deliberadamente ignorante.
James Corbett
[1]
|
1 Economia política
A economia política foi objeto de estudo pelos clássicos. Marx
estabeleceu neste domínio um caracter científico e abrangente
relacionando-a com a sociologia e a história. Em termos marxistas a
economia política estuda as leis económicas vigentes em cada modo
de produção.
Diferentemente das leis das ciências naturais, estas leis são
efémeras, atuam, na sua maioria pelo menos, no decurso de um determinado
período histórico, após o qual cedem lugar a novas leis.
Porém, estas leis não são eliminadas, apenas perdem
validade por força das novas condições económicas,
e saem de cena para dar lugar a novas leis, as quais não são
criadas por vontade humana, mas surgem na base das novas
condições económicas.
[2]
Isto é, em cada forma de produção, seja feudalismo,
capitalismo ou socialismo, existem leis gerais e leis específicas. A lei
da correspondência necessária entre as relações de
produção e a natureza das forças produtivas é uma
lei geral. Políticas corretas e progressistas, exigem, o conhecimento e
a conformidade com as leis objetivas vigentes em cada situação
económica.
A economia política revela as contradições da realidade
social e mostra como as leis do mercado não conduzem ao progresso
social. A análise marxista, permite determinar os conceitos e as leis
fundamentais de cada sistema económico. É esta a razão
pela qual honestamente se tem de reconhecer que as análises do PCP sobre
o euro, a UE e seus tratados estavam corretas.
O conceito marxista de economia política liquidava as
intenções dos ideólogos do capitalismo que o pretendiam
como o estado final da sociedade. Assim, em lugar da concepção
clássica de economia política, estabeleceram uma
ciência económica baseada nos dogmas dos
mercados eficientes, justificando a submissão ao grande
capital. As políticas económicas e sociais são deste modo
prioritariamente orientadas para dar confiança aos mercados
e criar um melhor ambiente para os negócios. Nisto se
baseiam as políticas da UE. Seria ridículo se não se
traduzisse num somatório de tragédias a nível individual e
coletivo.
Todos estes sistemas pese embora o seu pretenso rigor matemático
tinham falhas que os devotos da superstição do liberalismo
económico procuraram colmatar caindo por sua vez noutras
contradições.
[3]
Enfim, como salientou John K. Galbraith, admite-se (como postulado) o
importante e depois analisa-se o que não é importante
[4]
2 A ciência dos negócios e do máximo
lucro
O capitalismo atual derivou para um sistema dominado por mega-empresas
transnacionais e pelo capital financeiro entregue à
especulação e à agiotagem. É o grande capital, com
políticos ao seu serviço, que impõe o neoliberalismo e
determina as políticas quer internas quer externas: neofascismo e as
mais variadas formas de agressão aos povos.
A substituição da economia política pela economia de
mercado eliminou a história e a sociologia.
Elucubrações econométricas, marginalismos, tecnocracia,
foram sobrepostas à dialética inerente à economia
política. A ciência económica transformou-se na
ciência dos negócios. Como se as leis
económicas objetivas se resumissem à economia dos "agentes
privados", isto é, aos seus interesses, suprimindo a
dimensão coletiva das forças produtivas. A teoria
económica do capitalismo reduziu-se a um normativo sobre gestão
de negócios, em grande medida meras negociatas como as
privatizações, PPP, as fraudes bancárias, etc. Como
estratégia esta ciência alinha com o que de mais
hipócrita se concebe.
A política europeia posta em prática pelo PS, PSD, CDS,
corresponde a substituir a economia política pelo neoliberalismo,
é a capitulação perante os especuladores e os
agentes do
crime sistémico
é a aceitação da
morte da política
(da morte da cidadania, da liberdade e da democracia) sacrificadas à
vontade e ao poder do grande capital financeiro e especulador e às
leis dos mercados.
[5]
A política de direita não tem outras perspectivas para os
trabalhadores senão deixarem-se explorar, dividir e dominar com medo das
«greves de investimento» do patronato. É a ambiciosa
agenda de reformas para garantir da melhor forma os objetivos dos
capitais exteriores que nos procuram.
Sendo a crítica fundamentada a estas políticas absolutamente
necessária, a batalha ideológica necessita que sejam elaboradas e
apresentadas alternativas alicerçadas numa economia política
consistente. A alternativa é no entanto simples: ou o Estado
intervém no sentido da maximização dos lucros monopolistas
e especulativos ou no da máxima satisfação das
necessidades sociais.
3 Políticas económicas e eleitoralismo
A política de direita, dominando a comunicação social e o
ensino universitário, deslocou o discurso crítico para o seu
terreno deixando de fora a análise e discussão dos
processos alternativos. As críticas ao neoliberalismo são
atualmente em grande parte defensivas.
Por isso, para além das boas intenções da
retórica partidária, importa ver em que economia política
são baseadas. O discurso neoliberal da política de direita
não deixa de vir ornamentado de preocupações sociais, de
defender que a economia tem de crescer, o rendimento deve ser melhor
distribuído, o desemprego reduzir-se. De seguida, a prática nega
tudo isto
A coligação da direita PSD-CDS aplica um neoliberalismo puro e
duro, com uma ideologia que alinha com as orientações
ultra-reacionárias do republicanismo dos EUA, nem sequer
disfarçando a total submissão do país ao nível de
neocolónia de uma UE comandada por Berlim.
O objetivo neoliberal daquela coligação não é que o
Estado faça mais gastando menos, mas que faça menos gastando mais
em benefícios fiscais, subsídios, arranjos legais a favor do
capital e plena satisfação da agiotagem internacional. É
este é o sentido da sua reforma do Estado.
O PS pretende uma abordagem neoclássica-neoliberal do keynesianismo,
promovendo a procura com os mecanismos que o neoliberalismo permite, em que as
nuances sociais aparecem mais como propaganda que como convicção.
De qualquer forma a participação ativa dos trabalhadores, o apoio
às suas lutas esteve e está completamente arredada das suas
estratégias.
Muito pouco assertivo, o PS limita-se a críticas circunstanciais ao
radicalismo neoliberal vigente, manifestando aliás ativo
repúdio ao socialismo e a quaisquer ideias contrárias
à ordem europeísta instituída.
Marx mostrou que a forma social de produção está
intimamente ligada à forma de distribuição. É
inútil querer melhorar esta última sem alterar a primeira. A
política de direita, qualquer que seja o proclamado e prometido,
mantém as estruturas monopolistas e pretende resolver as
contradições do capitalismo pela melhor
redistribuição de riqueza. Na realidade, já nem isto
faz parte das suas políticas concretas: a prioridade é pagar aos
credores, submeter-se à agiotagem internacional.
A franja de mini partidos resulta sobretudo de ambições e
protagonismos pessoais sem exprimirem qualquer conteúdo
ideológico. Tentam de uma maneira geral pescar votos nas águas
turvas da crise, esperando que chegue a sua hora de servir o capital contra uma
política realmente de esquerda.
A esquerda que não se assume marxista, apesar de ideias e propostas
corretas procura não ultrapassar o modelo keynesiano. Porém,
falar de alternativas sem referências ideológicas consistentes,
sem se definir que economia política suporta as suas propostas acaba por
se tornar inconsistente e débil no seu conteúdo prático.
A política de direita, nas suas variantes eleitoralistas tem como
objetivo básico a plena integração do país na
estrutura capitalista global em decadência colocando-o como fornecedor de
mão-de-obra barata, com o mínimo de direitos, o mais qualificada
possível, num processo de capitalismo dependente de cariz neocolonial
impulsionado pelo euro e tratados da UE.
Com a política de direita, Portugal deixou de ter estratégia
própria, adota os dogmas determinados pelas oligarquias, veiculados
pelos países dominantes, pelo grande capital, pelo euro.
4 Eficiência privada contra a eficiência social
A ideologia do absolutismo monárquico estabelecia como padrão da
riqueza de um país a riqueza do seu rei. A ortodoxia atual não
anda longe deste critério: a riqueza dos países é vista
pela ótica do enriquecimento dos seus capitalistas, mesmo que estes nem
sequer lá tenham o seu dinheiro!
Independentemente de todas as máscaras de concorrência livre
e não falseada da UE, o capitalismo atual é o capitalismo
monopolista, interligado com a especulação financeira. As
oligarquias colocam os Estados e as instituições financeiras
internacionais ao seu serviço, promovendo privatizações,
desregulamentação, livre circulação de capitais,
concorrência fiscal, medidas económica e socialmente desastrosas.
Hipocritamente, uma legião de escribas aproveita a oportunidade para
criticar o Estado pelas suas falhas e ineficiências.
O endividamento, a ditadura dos mercados financeiros, tornou-se a forma de
submeter os povos á oligarquia predadora. Em Portugal 25 grandes
capitalistas detêm à conta destas políticas 10% da riqueza
nacional, a pobreza e exclusão social atingia em 2013, 25,8% da
população.
É este um dos resultados do euro. Prometia-se uma economia competitiva e
mais dinâmica a nível mundial, a coesão social,
criação de mais empregos em condições
qualitativamente superiores. Não vale a pena repetir o que esta quimera
produziu. Pura e simplesmente os países economicamente mais
frágeis deixaram de ter soberania, submetidos à escravatura
pela dívida, à austeridade permanente.
A política de direita aceita que os burocratas europeus tenham o
domínio total das nossas políticas, que determinem o que mais
convém ao nosso povo, quais as necessidades a serem satisfeitas e como.
Isto é, colocou o país como protetorado das nações
mais poderosas que determinam a partilha das riquezas nacionais. Aos burocratas
europeus é dado o estatuto de determinar a aplicação dos
recursos do país, de definir e fiscalizar as políticas globais
dos países, de forma a ajustarem-se à sua dogmática. Neste
sentido, falar em democracia europeia é uma farsa
A noção de soberania nacional é de facto um conceito que
distingue a política de direita neoliberal e europeísta de uma
política de esquerda e patriótica.
5 Por que é que a economia capitalista não sai da crise?
Porque se baseia em pressupostos errados, que contrariam as leis
económicas objetivas. Trata-se da expansão e do predomínio
do capital fictício na insana procura do máximo lucro. Uma camada
ultra minoritária da população, os 1%, aumenta a sua
riqueza enquanto a restante recebe uma proporção cada vez menor e
com menos direitos.
As políticas económicas atuais baseiam-se no seguinte: variar os
impostos x%, a despesa pública y%, juros z% e a economia prospera. Isto
tornou-se o míope e enganador objetivo do debate económico.
[6]
Uma concepção mecanicista: a economia e a sociedade funcionando
como uma máquina elementar em que determinadas alavancas movidas de
certa forma conduziriam a resultados regulares e previsíveis.
[7]
Os bancos centrais despejam milhões de milhões na vã
tentativa de suster as crises, mas este dinheiro nada produz: transforma-se em
capital fictício e na aplicação usurária das
dívidas públicas e privadas. Tudo isto é possível
porque as políticas económicas capitalistas recompensam
comportamentos errados e porque comportamentos que são recompensados
tendem a repetir-se. É o dogma dos mercados eficientes. Mas
os mercados não são abstrações são pessoas,
e especifica-se que não há limites para os seus comportamentos,
segundo a velha frase de incentivo aos capitalistas:
enriquecei-vos.
[8]
Trata-se de ganhar a confiança dos mercados, a isto se
resume a política económica de direita, culpando os povos, os
trabalhadores e reformados por terem direitos sociais, que querem anular
privatizando a segurança social!
O país despoja-se de tudo, para se submeter aos mercados,
populações são maltratadas e intimidadas, regras
básicas do humanismo e da coesão social, são violadas. Que
o país empobreça e o seu capital mais precioso, os jovens
trabalhadores, emigrem, para que os grandes capitalistas
enriqueçam
ainda mais.
Desde o final dos anos 80 com o modelo neoliberal estabelecido as crises
não deixaram de se manifestar, até atingirem o centro capitalista
em 2007, entrando em depressão, com sucessivos ciclos de recessão
e anémica expansão. Na realidade, é possível obter
índices de crescimento em alguns sectores num determinado
período, mas permanecer o desemprego, o endividamento, a
deterioração do nível de vida dos trabalhadores, etc.
Aquele crescimento apenas revela os sintomas dos desequilíbrios de uma
sociedade em crise. É nesta situação que propaganda do
PSD-CDS se articula, ocultando os problemas de fundo, procurando apagar a
memória recente.
O problema do desenvolvimento é em primeiro lugar um problema de
correspondência entre as relações de produção
e as necessidades do desenvolvimento das forças produtivas, humanas e
materiais. Atualmente, perante os povos as opções claras: ou o
euro e a "Europa" como ela é ou a soberania
nacional e o planeamento económico democrático; ou o
neoliberalismo fascizante ou uma sociedade realmente democrática em
transição para o socialismo.
Notas
[1]
Os bancos centrais engendraram este colapso, financeiro
[2]
Problemas Económicos do Socialismo na URSS
, 1952,
[3] Ver
A doença degenerativa da economia: o neoclassicismo
, livro de Remy. Herrera
[4] O novo Estado Industrial, Ed. Europa América, p. 65
[5] A. Avelãs Nunes, A 'Europa' como ela é,
Ed. Página a Página, 2015, p. 31
[6] Paul Ormerod, The death of economics, Ed Faber and Faber, 1994, p. 182
[7] Idem, p. 36
[8] Da conhecida frase de Guizot, o reacionário ministro e depois
primeiro-ministro de França entre 1840 e 1848, .
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|