O ataque à Ossétia e a classe dominante russa

por Guriya Murklinskaya

Atacar a Ossétia do Sul equivale a atacar toda a República da Ossétia (seja o que for que se possa dizer, os ossetianos no norte desfrutam a soberania da Federação Russa), é um acontecimento trágico mas não inesperado. Sob o regime fantoche de Saakashvili a Geórgia não tem opção.

Mas há uma outra questão que é muito mais importante e complicada. É a seguinte: Será que a "elite" russa tem liberdade de escolha? O que seria decisivo para o desenvolvimento da linha de conduta de Moscovo quanto à guerra na Ossétia do Sul? Será o medo da burocracia russa, a todos os níveis, de perder o que ela roubou e escondeu em companhias offshore — porque o Departamento de Estado dos EUA sabe das "fortunas acumuladas" que os círculos dirigentes têm no estrangeiro, e pode a qualquer momento congelar as suas contas bancárias — ou a continuidade da defesa dos interesses estratégicos nacionais da Rússia? Os primeiros passos dos principais líderes russos dão a esperança de que desenvolveriam o segundo cenário.

Para o efeito, é preciso que seja feita uma declaração inequívoca e responsável de que o ataque à Ossétia foi um ataque à Rússia! Há pessoas a sugerir que a Ossétia deveria ser ajudada por voluntários e armas, mas isso é o que precisava ter sido feito antes, na Jugoslávia. Não foi feito! E agora estamos a pedir de joelhos aos EUA para não instalarem seus mísseis escondidos em silos demasiado próximo das nossas fronteiras. Não foi por acaso que eles mandaram o governante da Geórgia atacar a Ossétia, considerando-a como um elo fraco cuja geografia poderia provocar uma blitzkieg arrebatadora – primeiro da Ossétia do Sul – numa questão de horas contando com a não interferência de Moscovo e alguns protestos rituais. Mas as coisas não se passaram assim. Como disse Dmitry Medvedev, os povos do multinacional Cáucaso do Norte apoiam a nação ossetiana. Estas são exactamente as condições para o apoio de voluntários e armas, mas a primeira coisa que precisa ser feita é declarar a presença militar da Rússia na zona do conflito a fim de repelir o agressor.

O ataque georgiano à Ossétia foi uma tentativa de utilizar as mãos e as facas georgianas para arrancar outra peça do espaço geopolítico da Rússia a fim de ser engolido pelos ianques. A transformação de grandes territórios geopolíticos no processo de "expansão" da NATO para o Leste é penosa. A tragédia da Ossétia é parte de uma história de um certo número de repúblicas existentes no território da antiga URSS que são de facto independentes mas não reconhecidas formalmente pela comunidade internacional e precisam ser protegidas contra violência étnica no interesse dos povos a viver nestes estados e a fim de não os transformarem em ferramentas de uma geopolítica em grande escala destinada à desestabilização da Federação Russa.

A seguir ao desmembramento da URSS, que coroou as quatro décadas da "guerra fria", virtualmente todos os estados pós-soviéticos, excepto a Rússia, começaram a orientar-se para uma rápida e violenta assimilação de pequenos grupos étnicos não-autóctones e para a construção de estados mono-nacionais e mono-confessionais. A questão do reconhecimento / não-reconhecimento da Abkhazia, Ossétia do Sul e outros estados de facto no território da antiga URSS não é uma questão contida na estrutura das políticas de unificação do espaço geopolítico global – estes estados serão reconhecidos! A única questão é saber quem os reconhecerá primeiro – a Rússia ou o Ocidente?

Há actualmente uma ameaça quase aberta de desestabilização dos territórios ao Sul da Rússia se ela entrasse na zona "não permitida" em torno das repúblicas pós-soviéticas não reconhecidas. Estrategas ocidentais concordam em dar a Moscovo o papel de mostrar-se como um estado que é incapaz de proteger os seus cidadãos permitindo que os estados ocidentais tenham a última palavra acerca dos destinos de abkhazianos, ossetianos e outras nações da Rússia.

Falando puramente em termos de fronteiras estatais, muitos povos caucasianos, incluindo arménios, azeris, alguns grupos étnicos no Dagestão, foram divididos após a queda da URSS. Também há nações divididas pelas fronteiras administrativas dos "sujeitos" da Federação Russa. Se a Rússia perdesse uma guerra no Cáucaso do Norte, todas as fronteiras administrativas tornar-se-iam nulas e sem efeito. Depois disso, os estados membros da NATO redistribuiriam territórios limítrofes, e muito provavelmente o Cáucaso tornar-se-ia um protectorado turco.

Será que a Geórgia poderia lucrar com uma guerra? Sem dúvida, não a menos que a destruição numa guerra triture um número apreciável de jovens desempregados e inadequadamente treinados que Saakashvili enviou aos postos de recrutamento seja a vitória do regime de Tíflis.

Nenhum estado responsável pelo futuro do fracassado estado georgiano está actualmente interessado em apoiá-lo quanto à "integridade territorial" e "soberania nacional" dentro das fronteiras da antiga República Socialista Soviética da Geórgia. Se houvesse uma grande rixa, a Geórgia seria despedaçada em bocados e tornar-se-ia uma formação de pequenos semi-estados mono-étnicos que seriam tomados pelos vitoriosos.

Já é tempo de os georgianos perceberem por quem travam as suas batalhas.

09/Agosto/2008

Ver também:
  • A guerra ao Líbano e a batalha pelo petróleo , de Michel Chossudovsky
  • Georgia Conflict - Open Thread , de Gail o Actuário
  • Ossétia do Sul: Começou a guerra , de Andrei Areshev
  • O oleoduto Baku-Tíflis-Ceyhan
  • Israel 'has a hand in S. Ossetia war'
  • O carácter indivisível e universal da segurança global , de Vladimir Putin, Fevereiro/2007

    O original encontra-se em http://en.fondsk.ru/article.php?id=1533

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 12/Ago/08