O carácter indivisível e universal da segurança global
por Vladimir Putin
Muito obrigado Sra Chanceler Federal, Sr Teltschik, minhas senhoras e meus
senhores!
Agradeço por me terem convidado para esta conferência
tão representativa, na qual participam políticos, militares,
empresários e peritos de mais de 40 nações.
O formato desta conferência permite-me evitar excessivas
cerimónias e a necessidade de utilizar circunlóquios
diplomáticos, agradáveis aos ouvidos mas vazios de
conteúdo. O formato desta conferência permitir-me-á dizer o
que realmente penso sobre problemas de segurança internacional. Se os
meus comentários parecerem demasiado polémicos, menos exactos,
então peço-lhes que não fiquem irados comigo. Afinal de
contas, isto é apenas uma conferência. Espero que depois dos
primeiros dois ou três minutos do meu discurso, Mr Teltschik não
acenda ali a luz vermelha.
Comecemos pois. É sobejamente conhecido que a problemática da
segurança internacional compreende muito mais do que os assuntos
relacionados com a estabilidade militar e política. Compreende a
estabilidade da economia global, que engloba os assuntos relacionados com a
pobreza, a segurança económica e o desenvolvimento do
diálogo entre civilizações.
Este carácter universal e indivisível da segurança global
expressa-se como o princípio básico de que "a
segurança de cada um é a segurança de todos". Como
disse Franklin D. Roosevelt alguns dias depois do início da Segunda
Guerra Mundial: "Quando a paz é interrompida, seja em que lugar
for, o mundo inteiro tem a paz ameaçada".
Estas palavras não perderam a actualidade. A propósito, o tema da
nossa conferência crises globais, responsabilidade global
confirma isto mesmo.
Há apenas duas décadas, o mundo estava ideologicamente e
economicamente dividido e a segurança global era garantida pelo enorme
potencial estratégico das duas superpotências.
Esta confrontação global levou a que problemas sociais e
económicos mais prementes fossem postos à margem da agenda da
comunidade internacional e mundial. E, como em qualquer guerra, a Guerra Fria
deixou-nos as suas minas por explodir, figurativamente falando. Refiro-me a
critérios ideológicos estereotipados, como o duplo padrão,
e outros critérios típicos da Guerra Fria.
O mundo unipolar que se propunha após a Guerra Fria, também ainda
não aconteceu.
A História da Humanidade conheceu períodos unipolares e
aspirações de domínio mundial. O que não aconteceu
na História mundial?
Mas o que é um mundo unipolar? Por muito que se pretenda embelezar este
termo, na prática ele define uma situação em que existe um
só centro de autoridade, um só centro de força, um
só centro de tomada de decisão.
É o mundo no qual existe um só senhor, um só soberano. Ao
fim e ao cabo, isto é pernicioso, não só para todos
aqueles que estão dentro deste sistema, mas também para o
próprio soberano, porque este sistema destrói-se por dentro.
Certamente que isto não tem nada a ver com a democracia. Porque, como
sabem, a democracia é o poder da maioria que tem em conta os interesses
e as opiniões da minoria.
A propósito, quero salientar que a Rússia nós
está constantemente a sofrer lições sobre
democracia. Mas, por alguma razão, aqueles que nos ensinam não
têm muita vontade de aprender.
Considero que o modelo unipolar não só é
inaceitável como também impossível no mundo
contemporâneo. E não apenas porque um líder único no
mundo contemporâneo e precisamente no mundo contemporâneo
não teria suficientes recursos militares, políticos e
económicos. Mas porque o que é ainda mais importante
se trata de um modelo imperfeito por não possuir os fundamentos
morais que regem a civilização moderna.
E ao mesmo tempo, verificamos que o que está a acontecer no mundo de
hoje e nós ainda só começámos a abordar o
assunto é a tentativa de introduzir precisamente este conceito
nos assuntos internacionais, o conceito de um mundo unipolar.
E que resultados temos?
Temos acções unilaterais, e frequentemente ilegítimas, que
não solucionaram qualquer problema. Além disso, causaram novas
tragédias humanitárias e geraram novos focos de tensão.
Julguem por si próprios: não diminuiu o número de guerras
e de conflitos locais e regionais Mr Teltschik mencionou isto muito ao
de leve. Não morreram menos pessoas nestes conflitos na realidade
estão a morrer mais do que anteriormente. Significativamente mais,
significativamente mais!
Actualmente somos testemunhas do uso desmesurado, e quase incontido, da
força na relações internacionais da força
militar força que está a mergulhar o mundo num abismo de
conflitos permanentes. Como resultado disto, não temos força
suficiente para encontrar uma solução integral para qualquer
destes conflitos. E assim, torna-se também impossível encontrar
soluções políticas.
Verificamos que existe cada vez maior desprezo pelos princípios
básicos do direito internacional. E normas legais independentes
estão, como matéria de facto, a tornar-se cada vez mais
próximas ao sistema legal de um determinado estado. Um estado e,
naturalmente, em primeiro lugar os Estados Unidos, ultrapassou suas fronteiras
nacionais de todas as maneiras. Isto é visível no modo como
impõe regras às outras nações nos domínios
económico, político, cultural e educacional. Bem, quem é
que gosta disto? Quem está satisfeito com isto?
Nas relações internacionais vemos cada vez com mais
frequência o desejo de resolver uma dada questão de acordo com
considerações de conveniência política, baseado no
clima político actual.
E claro que isto é extremamente perigoso. Resulta no facto de
ninguém se sentir seguro. Quero enfatizar isto ninguém se
sente seguro! Porque ninguém sente que o direito internacional seja
como uma parede robusta que o proteja. É evidente que uma tal
política estimula a corrida aos armamentos.
A dominância da força inevitavelmente estimula um certo
número de países a adquirir armas de destruição
maciça. Além disso, tem aparecido novas ameaças
significativas embora fossem já bem conhecidas e hoje
ameaças como o terrorismo assumiram um carácter global.
Estou convencido que chegámos àquele momento decisivo em que
temos de pensar seriamente na arquitectura de segurança global.
E temos de proceder de modo a encontrar um equilíbrio razoável
entre os interesses de todos os participantes no diálogo internacional.
E muito especialmente porque a paisagem internacional é agora tão
variada e de mudança tão rápida mudanças que
resultam de desenvolvimentos dinâmicos num conjunto de países e
regiões.
A sra. Chanceler Federal já mencionou isto mesmo. Por exemplo, o
somatório dos PIB da Índia e da China, medido em paridade de
poder de compra, já é superior aos dos Estados Unidos. E o
cálculo semelhante com o PIB dos países BRIC Brasil,
Rússia, Índia e China - ultrapassa o PIB cumulativo da
União Europeia. E de acordo com os peritos, no futuro, esta
diferença só terá tendência para aumentar.
Não há razão para duvidar que o potencial económico
dos novos centros de crescimento económico global terá, como
consequência inevitável, o aumento de influência
política e do fortalecimento do caracter multipolar do mundo.
Em relação a isto, devo dizer que o papel da diplomacia
multilateral está a aumentar significativamente. A necessidade de
enveredarmos por princípios na política, como a franqueza, a
transparência e a previsibilidade, é incontestada, sendo que o uso
de força deveria ser uma medida realmente excepcional, comparável
ao uso da pena de morte que continua a existir nos sistemas judiciários
de certos países.
Porém, hoje estamos a testemunhar a tendência oposta, isto
é, uma situação na qual países que proíbem a
pena de morte, até mesmo para assassinos e outros criminosos perigosos,
estão a participar levianamente em operações militares que
dificilmente se podem considerar legítimas. E de facto, estes conflitos
estão a provocar a morte de pessoas centenas e milhares de civis!
Ao mesmo tempo a pergunta que deve ser posta é se deveríamos
ficar indiferentes e distantes aos conflitos internos que vão surgindo
em vários países, aos regimes autoritários, aos tiranos, e
à proliferação de armas de destruição
maciça? Esta era a essência da questão que o nosso querido
colega sr Lieberman colocou à Chanceler Federal. Se eu entendi
correctamente a sua pergunta (dirigindo-se a sr Lieberman), então claro
que é uma questão séria! Podemos ser observadores
indiferentes em face do que está a acontecer? Tentarei também
responder à sua pergunta: claro que não.
E temos os meios para conter estas ameaças? Certamente que temos. Basta
recordar a história recente. Não teve o nosso país uma
transição pacífica para a democracia? Na realidade
presenciámos uma transformação tranquila do regime
soviético uma transformação tranquila! E que
regime! Com que quantidade de armas, incluindo armas nucleares! Porque
deveríamos nós agora começar a bombardear e a disparar
sobre tudo o que nos desagradasse? Será o caso quando, sem a
ameaça de destruição mútua, não temos
suficiente cultura política, respeito pelos valores democráticos
e pelo direito?
Estou convencido que o único mecanismo que pode levar à tomada de
decisão sobre o uso da força militar como último recurso,
é a Carta das Nações Unidas. E relativamente a isto, quero
dizer que não entendi o que o nosso colega, o ministro da Defesa de
Itália, disse, ou então a sua expressão não foi
muito correcta. Em todo caso entendi que o uso da força só pode
ser legítimo quando a decisão é tomada pela NATO, pelos
EUA ou pela ONU. Se ele realmente pensa assim, então temos pontos de
vista diferentes. Ou então não ouvi correctamente. O uso da
força só pode ser considerado legítimo se a decisão
for sancionada pela ONU. Não podemos substituir a ONU nem pela NATO nem
pelos EUA. Quando a ONU conseguir unir verdadeiramente as forças da
comunidade internacional, e realmente puder reagir a eventos que se verifiquem
nos vários países, quando deixarmos para trás este
desprezo pelo direito internacional, então a situação
poderá mudar. Caso contrário a situação
tornar-se-á simplesmente um beco sem saída e o número de
erros graves será multiplicado. Juntamente com isto, é
necessário ter a certeza de que o direito internacional tem um
carácter universal, tanto na concepção como na
aplicação das suas normas.
Não nos deveremos esquecer que as acções políticas
democráticas desenvolvem-se necessariamente com debates e com um
meticuloso processo de tomada de decisão.
Minhas senhoras e meus senhores!
O potencial perigo de desestabilização das relações
internacionais está relacionado com a óbvia
estagnação que se observa em matéria de desarmamento. A
Rússia apoia a renovação do diálogo nesta
importante questão.
É importante conservar a base legal internacional relativa à
destruição de armas e assegurar a continuidade do processo de
redução do armamento nuclear.
Acordámos com os EUA em reduzir a nossa capacidade nuclear de vectores
estratégicos até 1700 a 2000 ogivas nucleares até 31 de
Dezembro de 2012. A Rússia pretende cumprir estritamente as
obrigações que assumiu. Esperamos que os nossos parceiros
também ajam de um modo transparente, e se abstenham de guardar um par de
centenas de ogivas nucleares supérfluas para um dia chuvoso. Se hoje o
novo ministro da Defesa americano declara que os EUA não irão
esconder estas armas supérfluas num armazém ou, como
alguém poderia dizer, debaixo do travesseiro ou debaixo do cobertor,
então sugiro que todos nos levantemos e saudemos esta
declaração de pé. Seria uma declaração muito
importante.
A Rússia adere estritamente e pretende aprofundar essa adesão ao
Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares, como
também ao regime de supervisão multilateral para as tecnologias
balísticas. Os princípios incorporados nestes documentos
são os universais.
Em relação a isto gostaria de recordar que nos anos oitenta a
URSS e os Estados Unidos assinaram um acordo para a destruição de
uma gama inteira de mísseis de pequeno e médio alcance, mas estes
documentos não têm um carácter universal.
Hoje em dia, são muitos os países que dispõem destes
mísseis, como sejam a República Democrática Popular da
Coreia, a República de Coreia, a Índia, o Irão, o
Paquistão e Israel. Muitos são os países que estão
a trabalhar nestes sistemas e planeiam incluí-los nos seus arsenais
militares. Apenas os EUA e a Rússia arcam com a responsabilidade de
não criar tais sistemas militares.
É óbvio que nestas condições temos de pensar em
garantir a nossa própria segurança.
Ao mesmo tempo, não é possível permitir o desenvolvimento
de armamento baseado na alta tecnologia por criar situações de
desestabilização. Desnecessário será mencionar que
isto diz respeito a medidas de prevenção numa nova área de
confrontação, especialmente no espaço exterior. A guerra
das estrelas já não é uma fantasia, trata-se de uma
realidade. Em meados dos anos oitenta os nossos parceiros americanos já
eram capazes de interceptar o seu próprio satélite.
Na opinião da Rússia, a militarização do
espaço exterior poderia ter consequências imprevisíveis
para a comunidade internacional, e provocar nada menos do que o início
de uma era nuclear. Apresentámos, mais de uma vez, iniciativas com o
propósito de prevenir o uso de armas no espaço exterior.
Hoje gostaria de vos dizer que preparámos um projecto para um acordo na
prevenção de colocação de armas no espaço
exterior. Proximamente esse projecto será enviado a outros países
como uma proposta oficial. Trabalhemos juntos nisto.
Os planos de ampliação de certos elementos do sistema de defesa
anti-míssil na Europa não ajudarão, e deixam-nos
preocupados. A quem convém dar o próximo passo do que seria,
neste caso, uma inevitável corrida às armas? Duvido profundamente
que convenha aos europeus.
Não existem, nos chamados países problema, os mísseis com
o raio de acção de cinco a oito mil quilómetros que
poderiam realmente representar uma ameaça para a Europa. Isso não
acontecerá nem será previsível num futuro próximo.
Qualquer hipotético lançamento de, por exemplo, um míssil
norte coreano para território americano através da Europa
Ocidental, contradiz obviamente as leis da balística. Como costumamos
dizer na Rússia, seria usar a mão direita para alcançar a
orelha esquerda.
E aqui na Alemanha, não posso deixar de mencionar o estado
lastimável do Tratado das Forças Armadas Convencionais na Europa.
O Tratado das Forças Armadas Convencionais na Europa adaptado foi
assinado em 1999. Teve em conta uma nova realidade geopolítica,
nomeadamente a eliminação do bloco de Varsóvia. Passaram
sete anos e apenas quatro estados ratificaram este documento, entre eles a
Federação Russa.
Os países da NATO declararam abertamente que não ratificariam
este tratado, incluindo as providências sobre restrições de
flanco (a instalação de um certo número de forças
armadas nas zonas de flanco), até que a Rússia removesse as suas
bases militares da Geórgia e da Moldávia. O nosso
exército está a retirar-se da Geórgia, inclusive
acelerando os prazos. Resolvemos os problemas que tínhamos com os nossos
colegas georgianos, como toda a gente sabe. Ainda existem 1.500 membros das
forças armadas na Moldávia com funções de
manutenção da paz e de protecção dos paióis
de munições ali instalados desde a era soviética. Temos
discutido regularmente este assunto com sr Solana que conhece a nossa
posição. Estamos prontos para trabalhar ainda mais nesta
direcção.
Mas o que está a acontecer ao mesmo tempo? Ao mesmo tempo surge a
chamada linha de frente flexível de bases americanas com até
cinco mil homens em cada uma. Por sua vez, verifica-se que a NATO tem colocado
suas forças de vanguarda junto às nossas fronteiras, enquanto
nós continuamos a cumprir estritamente as obrigações do
Tratado e não reagimos de modo algum a estas acções.
Penso que é óbvio que a expansão da NATO não tem
qualquer relação com a modernização da
própria Aliança ou com a garantia da segurança na Europa.
Pelo contrário, representa uma séria provocação que
reduz o nível de confiança mútua. E temos o direito de
perguntar: Contra quem se dirige essa expansão? E o que aconteceram
às garantias que os nossos parceiros ocidentais fizeram depois da
dissolução do Pacto de Varsóvia? Onde estão hoje
tais declarações? Ninguém se lembra delas sequer. Mas eu
me permitirei recordar a esta audiência o que foi dito. Gostaria de citar
o discurso do secretário-geral da NATO, o Sr Woerner, em Bruxelas no dia
17 de Maio de 1990. Na ocasião ele afirmou o seguinte: "o facto de
estarmos decididos a não colocar as forças da NATO fora do
território alemão, dá à União
Soviética uma forte garantia de segurança". Onde
estão tais garantias?
As pedras e os blocos de betão do muro de Berlim foram, por muito tempo,
distribuídos como recordações. Mas não se deveria
esquecer que a queda do muro de Berlim foi possível graças a uma
escolha histórica uma escolha que também foi feita pelo
nosso povo, o povo de Rússia uma escolha a favor da democracia,
da liberdade, da franqueza e de uma sociedade sincera com todos os membros da
grande família europeia.
Mas hoje estão a tentar impor novas linhas divisórias e novos
muros entre nós estes muros podem ser virtuais mas, não
obstante, eles estão a dividir, a fragmentar o nosso continente comum. E
será possível que, mais uma vez, necessitemos de muitos anos, de
décadas, assim como de várias gerações de
políticos, para desmantelar estes novos muros?
Minhas senhoras e meus senhores!
Somos inequivocamente a favor do fortalecimento do regime de
não-proliferação. O Direito Internacional vigente permite
desenvolver tecnologias para o fabrico de combustível nuclear que se
destine a fins pacíficos. Muitos países com a melhor das
intenções pretendem criar a sua própria energia nuclear
como base para a sua independência energética. Mas também
entendemos que rapidamente estas tecnologias podem ser aproveitadas para a
produção de armas nucleares.
Isto cria tensões internacionais sérias. A situação
que envolve o programa nuclear iraniano representa um claro exemplo disso. Se a
comunidade internacional não encontrar uma solução sensata
para solucionar este conflito de interesses, o mundo continuará a sofrer
crises desestabilizadoras similares, pois existem mais países que
pretendem ter acesso a esse tipo de energia para além do Irão.
Todos nós sabemos isto. Lutaremos constantemente contra a ameaça
da proliferação de armas de destruição
maciça.
No ano passado a Rússia avançou com a iniciativa de estabelecer
centros internacionais para o enriquecimento de urânio. Estamos abertos
à possibilidade de tais centros não serem apenas criados na
Rússia, mas também noutros países onde exista uma base
legítima do uso civil da energia nuclear. Os países que
desejassem desenvolver a sua energia nuclear poderiam garantir o
aprovisionamento de combustível através da sua
participação directa nestes centros, que evidentemente seriam
operados sob o estrito controlo da AIEA.
As mais recentes iniciativas do presidente americano George W. Bush
estão em conformidade com esta proposta russa. Considero que a
Rússia e os EUA estão objectivamente e igualmente interessados no
fortalecimento do regime da não-proliferação de armas de
destruição maciça e dos seus vectores. São
precisamente os nossos países, enquanto líderes em capacidade
nuclear e balística, que devem conduzir o processo de
implementação de novas e mais rigorosas medidas de
não-proliferação. A Rússia está pronta para
esse trabalho. Estamos a participar em reuniões com os nossos amigos
americanos.
Em termos gerais, estamos a falar acerca do estabelecimento de todo um sistema
de incentivos políticos e estímulos económicos pelo qual
não seria do interesse dos estados estabelecerem as suas próprias
capacidades no ciclo do combustível nuclear mas pelo qual teriam a
oportunidade de desenvolver a energia nuclear e fortalecer as suas capacidades
energéticas.
Em relação a isto falarei com mais detalhe acerca da
cooperação energética internacional. A sra Chanceler
Federal também abordou este tema de uma forma resumida. No sector da
energia a Rússia pretende criar princípios uniformes de mercado e
condições transparentes para todos. É óbvio que o
preço da energia devem ser determinado pelo mercado ao invés de
serem assunto de especulação política, pressão
económica ou chantagem.
Estamos aberto à cooperação. Companhias estrangeiras
já participam em todos nossos principais projectos de energia. Segundo
diferentes estimativas, até 26% da extracção de
petróleo da Rússia e, por favor, pensem neste
número até 26% da extracção de
petróleo da Rússia é feita através de capital
estrangeiro. Tentem encontrar um exemplo semelhante onde homens de
negócio russos participem tão extensivamente em sectores
económicos fundamentais nos países ocidentais. Tais exemplos
não existem! Não há nenhum exemplo.
Quero mencionar também a correlação entre os investimentos
estrangeiros na Rússia e os que a Rússia faz no estrangeiro.
É aproximadamente de quinze para um. Aqui têm um exemplo claro do
carácter aberto e estável da economia russa.
A segurança económica é baseada na
uniformização das regras a que todos devemos aderir. Estamos
prontos para uma competição justa.
Por essa razão, mais e mais oportunidades estão a surgir na
economia russa. Os peritos e os nossos parceiros ocidentais estão a
confirmar estas mudanças. Como tal, a OCDE elevou a
classificação (rating) da Rússia, que passou do quarto
para o terceiro grupo de risco. Gostaria de aproveitar esta ocasião,
aqui em Munique, para agradecer aos nossos colegas alemães por terem
contribuído para essa decisão.
Como os senhores saberão, o processo da Rússia de adesão
à OMC está na sua etapa final. Quero assinalar que durante as
longas e difíceis conversações que tivemos, por mais de
uma vez nos falaram de liberdade de expressão, de livre comércio
e de possibilidades iguais, mas, por alguma razão, faziam sempre
referência apenas ao mercado da Rússia.
Há ainda um outro tema importante que tem a ver directamente com a
segurança global. Hoje em dia fala-se muito de luta contra a pobreza. E
o que está a acontecer realmente neste domínio? Por um lado,
estão a ser disponibilizados recursos financeiros para programas de
ajuda aos países mais pobres e por vezes são somas
significativas. Mas para ser honesto e muitas das pessoas que
estão aqui sabem isto esse dinheiro é dirigido,
frequentemente, para as empresas dos países dadores. Por outro lado, os
países desenvolvidos subsidiam a sua agricultura e limitam o acesso dos
restantes países aos produtos de alta tecnologia.
Digamos que as coisas estão assim: com uma mão distribui-se a
ajuda, e com a outra, não só se mantém o atraso
económico, como ainda se retiram lucros disso. A crescente tensão
social que surge nas regiões deprimidas resulta inevitavelmente no
crescimento do radicalismo, do extremismo, alimenta o terrorismo e os conflitos
locais. E se tudo isso acontecer no Médio Oriente, por exemplo, onde
existe um sentido crescente de que o mundo é injusto, surge então
o risco de uma desestabilização global.
É óbvio que as principais potências deveriam perceber esta
ameaça e edificar um sistema mais democrático, mais justo, nas
relações económicas globais, um sistema que daria a todos
a oportunidade e a possibilidade de desenvolvimento.
Minhas senhoras e meus senhores
Ao intervir na conferência dedicada ao tema da segurança, é
impossível não mencionar as actividades da
Organização para a Segurança e Cooperação na
Europa (OSCE). Como é notório, esta organização foi
criada para analisar todos o aspectos da segurança e sublinharei,
todos: militar, político, económico, humanitário e,
especialmente, a sua relação mútua.
E o que vemos hoje? Vemos que este equilíbrio está claramente
alterado. As pessoas estão a tentar transformar a OSCE num vulgar
instrumento utilizado para garantir os interesses da política externa de
um país ou de um grupo de países. E esta tarefa também
está a ser realizada pela estrutura burocrática da OSCE que
já não está, de todo, relacionada com os países
fundadores. Os procedimentos de tomada de decisão e o envolvimento das
chamadas organizações não-governamentais, são
ajustados à realização dessa tarefa. Estas
organizações não-governamentais são formalmente
independentes, mas são financiadas por entidades concretas, e por
conseguinte, estão controladas.
Segundo os seus documentos estatutários, na esfera humanitária,
à OSCE compete prestar cooperação aos países
membros, quando a seu pedido, na observância das normas internacionais em
matéria de direitos humanos. Esta é uma tarefa importante.
Nós temos apoiado. Mas isto não significa praticar
ingerência nos assuntos internos desses países, e especialmente
não impor regras que determinem a forma como devem viver e como se devem
desenvolver.
É evidente que tal ingerência não promove de modo nenhum o
desenvolvimento de estados democráticos. Pelo contrário, torna-os
dependentes e, como consequência, política e economicamente
instáveis.
Esperamos que a OSCE se guie nos seus procedimentos por tarefas objectivas e
numa estrutura de relacionamento com os estados soberanos baseadas no respeito,
confiança e transparência
Minhas senhoras e meus senhores
Para concluir pretenderia referir o seguinte. Ouvimos frequentemente, e eu
muito particularmente, o apelo por parte de outros países, nomeadamente
de países europeus, para que a Rússia comece a desempenhar um
papel mais activo nos assuntos internacionais.
Em face disto quero fazer uma pequena observação. Creio que
não existe muita necessidade de nos estimular nesse caminho. A
Rússia é um país com uma história de mais de mil
anos e teve quase sempre o privilégio de desenvolver uma política
externa independente.
Não será nos dias de hoje que vamos abandonar esta
tradição. Estamos muito atentos às mudanças que se
estão a verificar no mundo, e temos um sentido realista das nossa
oportunidades e do nosso potencial. E, obviamente, que gostaríamos de
nos envolver com parceiros igualmente responsáveis e independentes, com
quem pudéssemos trabalhar na construção de uma ordem
mundial justa e democrática que asseguraria a segurança e a
prosperidade, não apenas para uns eleitos, mas para todo o mundo.
Obrigado pela vossa atenção.
Discurso na 43ª Conferência de Munique sobre Política de
Segurança, em 11/Fevereiro/2007. F. William Engdahl faz uma
análise deste importante discurso em
Putin e a geopolítica da Nova Guerra Fria: ou, o que acontece quando os cowboys não agem honestamente como costumavam
As intervenções na Conferência de Munique encontram-se em
http://www.securityconference.de/
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/ index.php?context=viewArticle&code=PUT20070211&articleId=4741
. Tradução de MJS.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
.
|