Portugal devastado: rotina ou terrorismo?
"O vento sopra em todo o país, mas as chamas, tal como em
1975, poupam as zonas onde prevalecem grandes interesses económicos
tendencialmente sem pátria".
O terrorismo tem mil caras. Lançar o terror contra pessoas comuns e
quase sempre indefesas, ou atemorizar populações e devastar
países usando os cidadãos apavorados como reféns
são práticas que preenchem os nossos dias num mundo que, pela
mão de dementes usando o poder acumulado por conglomerados do dinheiro,
caminha para inimagináveis patamares de destruição.
Portugal tem tido a sorte de ser poupado pelo terrorismo, diz-se e repete-se,
por vezes com inflexões de um misticismo bolorento próprio de
pátrias "escolhidas" para auferir das mercês do
sobrenatural. Uma interpretação com curtos horizontes e vistas
estreitas, características cultivadas por uma comunicação
social habilmente arrastada para realidades paralelas e que reduz o terrorismo
dos nossos dias ao estereótipo do muçulmano fanático
imolando-se com explosivos à cintura, ou atropelando a eito, não
se esquecendo de deixar o cartão de identidade, intacto, num local de
crime reduzido a destroços humanos e amontoados de escombros.
Assim sendo, deixa de ser terrorismo, por exemplo, o que a NATO fez na
Líbia, o que Israel pratica em Gaza, os massacres que as milícias
nazis integradas no exército nacional da Ucrânia
"democratizada" cometeram, por exemplo, na cidade de Odessa.
Olhando em redor, porém, é imperativo que cada um de nós
estilhace a dependência em relação a um conceito de
terrorismo que corresponde a uma ínfima parte da gravidade do
fenómeno global. Só assim alongaremos os horizontes e alargaremos
as vistas que permitirão reflectir a sério, e profundamente,
sobre a realidade que devasta Portugal e que, com uma irresponsabilidade e uma
inevitabilidade próprias de uma cultura tecnocrática e desumana,
chegou a ser conhecida como "a época dos incêndios".
Se quisermos reflectir livre e abertamente sobre o maior número
possível de aspectos da situação com que nos confrontamos
é imprescindível associar o poder destruidor e aterrador dos
incêndios deste ano ao quadro político-social que vivemos em
Portugal; e também à memória que em muitos ainda
estará viva e que outros poderão consultar junto dos mais velhos
ou das fontes de uma época que dista 42 anos. Chamaram-lhe o
"Verão quente de 1975".
Pois nesse "Verão quente", assim baptizado não por
causa do terrorismo incendiário mas de uma instabilidade política
inerente às situações revolucionárias e
também organizada, em grande parte, por conspiradores externos, internos
e todos os outros manobradores integráveis no diversificado
círculo dos contra-revolucionários, multiplicaram-se as
práticas terroristas.
Houve os assassínios políticos puros e duros, os assaltos
às sedes dos partidos de esquerda, quase sempre culminados com
incêndios, a intimidação e perseguição de
democratas em regiões onde o salazarismo campeava como se nada tivesse
acontecido, forçando a restauração de
situações de clandestinidade; e houve os incêndios: no
Alentejo, ferindo a Reforma Agrária, que depois viria a ser assaltada e
liquidada em nome da "normalidade", da "estabilidade",
enfim, da "democracia do arco da governação"; e que
deflagraram também em muitas outras regiões do país onde
não ameaçavam os grandes interesses económicos
estabelecidos desde logo protegidos pela contra-revolução
caracterizadas por populações economicamente mais
débeis, socialmente vulneráveis, presas fáceis das
mensagens contra a "indisciplina",
a "balbúrdia" e todos os outros nefastos efeitos
atribuídos à revolução.
Hoje os tempos são outros, mas quem dispuser de olhos para ver
não terá dificuldade em encontrar pontos de contacto. A
própria comunicação social, no seu afã recadeiro de
apontar culpados e responsáveis pelas causas e consequências da
interminável vaga de incêndios, abre interessantes pistas de
análise e, por certo involuntariamente, ajuda a estabelecer
diferenças gritantes entre a tragédia deste ano e as rotineiras
"épocas de incêndios".
Sem precisar de evocar essas discrepâncias, é evidente que o
actual governo português, pesem embora as suas subserviências, que
são também fontes das suas fragilidades, não goza das
simpatias dos interesses que gerem a União Europeia, a NATO, enfim das
gentes que dirigem o mundo. Tal como em 1975, mesmo que as semelhanças
sejam pouco mais que imperceptíveis.
Porém, nunca como agora, nos tempos da "estabilidade", um
governo foi atado ao pelourinho dos responsáveis pela vaga estival de
incêndios, tanto pela oposição como pela
comunicação social. São conjecturas,
especulações, exigências de demissões,
acusações levianas de incompetência, sucessivas
adivinhações sobre "remodelações
ministeriais", aproveitamentos necrófilos das vítimas,
mentiras sobre suicídios e outras desgraças o quadro
é tão conhecido que não vale a pena prosseguir com a
enumeração das malfeitorias.
As atrocidades políticas chegam ao ponto de responsabilizar o governo
por insuficiências do SIRESP e da PT, entidades privadas que se guiam
pelo lucro e não pelos interesses humanos, quando o verdadeiro pecado do
executivo, nesta matéria, é sujeitar-se a mendigar investimentos
a sociopatas, pondo liminarmente de lado o dever de colocar tais entidades ao
serviço dos portugueses e às ordens do Estado Português,
porque manipulam interesses estratégicos dos cidadãos nacionais,
prejudicando-os.
No meio da altercação passa de fininho o facto mais repugnante
das manobras: foi a actual oposição quem entregou esses
serviços fundamentais a entidades que nem querem ouvir falar em pessoas
e nos inconvenientes que provocam ao bem-estar do mercado.
"As atrocidades políticas chegam ao ponto de responsabilizar o
governo por insuficiências do SIRESP e da PT, entidades privadas que se
guiam pelo lucro e não pelos interesses humanos"
Indo por este caminho, porém, perder-nos-íamos em atalhos da
política de bordel e nunca chegaríamos ao patamar de
reflexões que a situação dos incêndios em Portugal
exige.
O princípio da abordagem é tão óbvio que a
comunicação social foge dele como o diabo da cruz: o fogo que
alastra em Portugal, sem descanso, resulta da acumulação de
incêndios isolados provocados por fenómenos naturais ou pela
demência de pirómanos? Ou é uma vaga terrorista organizada
para devastar o país, delapidar o que resta da sua riqueza natural e
impedir o governo de governar até que mãos salvadoras venham
encarreirar a pátria nos trilhos de onde jamais deveria ter saído?
Estamos, obviamente, a lidar, com uma teoria da conspiração.
Assim era também o argumento fatal em 1975, como muitos se
recordarão. No entanto, na sombra, organizações
terroristas como o ELP ("Exército de Libertação de
Portugal") e o MDLP ("Movimento Democrático de
Libertação de Portugal"), dirigidas por mãos
experientes como as do marechal Spínola e de profissionais do terror
instalados em embaixadas estrangeiras de países da NATO,
naturalmente conduziam a vaga de incêndios e outras
acções terroristas contra Portugal e os portugueses. O objectivo
era virar as populações indefesas contra a
"balbúrdia" criada pelo movimento transformador, abrindo as
portas à contra-revolução, à
"estabilidade". E conseguiram-no.
Quando se saúda que Portugal tem estado imune ao terrorismo costuma
acrescentar-se que o mesmo acontece em relação a
organizações fascistas, por sinal numa Europa onde elas se
desenvolvem a ritmo veloz. Será?
Ora vivendo nós em macro estado policial formado pela União
Europeia e a NATO, onde as organizações internas e externas para
devassa secreta da vida dos cidadãos se atropelam, ao que parece para
detectar as intenções ínfimas de um qualquer
muçulmano, não haverá meios para investigar a
possibilidade de existir um ataque terrorista sistematizado contra Portugal
através desta espécie de fogo inquisitorial? Ou será
porque não querem? Ou será porque tal hipótese nem sequer
passou por cabeças tão informadas sobre as vocações
conspirativas de cada qual?
Ou porque entendem que é suficiente resumir os autos aos
interrogatórios de dezenas de incendiários já detidos,
como se o banal executante do crime soubesse dizer alguma coisa sobre os chefes
terroristas supremos? Se acham que investigar assunto tão corriqueiro
é enfadonho, ao menos ouçam os bombeiros.
Até à vista desarmada sem necessitar da espionagem por
satélites ou da caça aos telefones e e-mails de cada um de
nós se percebe que nem tudo é aleatório no quadro
de incêndios em Portugal. O vento sopra em todo o país, mas as
chamas, tal como em 1975, poupam as zonas onde prevalecem grandes interesses
económicos tendencialmente sem pátria.
As vítimas da catástrofe são pequenos e médios
proprietários fundiários, normalmente esquecidos pelos governos e
indefesos perante as calamidades; o terror ataca pequenas aldeias que
até os mapas oficiais olvidam, ou então preciosidades do
património humano, histórico e natural que é de todos,
como no caso da Gardunha e suas aldeias, onde chegou a hora do ataque das
chamas.
Tanto como destruir, o efeito procurado é o de aterrorizar. Não
é difícil perceber que o fogo, entendido como a soma de todos os
incêndios, escolhe áreas a consumir, combustíveis e rotas
que não são apenas as ditadas pelos ventos. Ao menos a grande
parte do Alentejo flagelada em 1975 tem sido agora poupada, provavelmente
porque os ventos, tal como os tempos, também mudaram.
Se pedirem a cada uma das pessoas directamente prejudicadas pela calamidade que
cite responsáveis pela tragédia, certo será, mesmo sem
qualquer sondagem, que o governo ficará com as orelhas a arder. As
pessoas sentem, mas também ouvem e assimilam, sobretudo o que via TVs,
rádios e jornais as ajuda a identificar os alvos mais fáceis para
descarregar a raiva do desespero.
O ELP e o MDLP já lá vão, sendo certo que as suas
mentalidades não se desvaneceram, tudo tem o seu
aggiornamento.
Ignorar, para os devidos efeitos, que a vaga de incêndios em curso em
Portugal, pelas suas características, regiões de
acção e contumácia, pode ser uma operação de
terrorismo organizado é um crime contra o país e todos os
portugueses. Uma hipótese como essa não pode ser descartada.
Por isso, é dever de todos os cidadãos interrogar-se, reflectir e
exigir respostas das autoridades competentes sobre quem tira proveito dos dois
crimes: o dos incêndios e o do laxismo no apuramento de uma eventual
componente terrorista.
Uma coisa parece óbvia e pode servir como ponto de partida para uma
investigação que se pretende indispensável:
ninguém, desde o Presidente da República ao mais comum dos
cidadãos, pode garantir que o ataque incendiário em curso contra
Portugal não é uma operação terrorista.
17/Agosto/2017
[*]
Jornalista.
Ver também:
SIRESP: consequências de uma parceria público-privada
Se o SIRESP não funciona quando é preciso, privados ficam isentos de responsabilidade
Não, os incêndios são um caso de política!
A ignorância, a preguiça e o preconceito
Como evitar incêndios florestais e produzir energia
, 13/Set/2005
O original encontra-se em
www.abrilabril.pt/portugal-devastado-rotina-ou-terrorismo
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|