por Miguel Urbano Rodrigues
No homem e na mulher gregos transparece uma cultura profunda, invisível,
que não se confunde com a instrução. O camponês de
poucas letras acumulou ali, na corrente de muitas dezena de
gerações, uma serenidade, uma coragem, uma tenacidade,
transmitidas pela espantosa aventura dos seus antepassados - uma sabedoria
combativa que nos faz amar os heróis da Ilíada.
As Ilhas Gregas inspiraram poetas e romancistas célebres que as cantaram
e descreveram como paraísos terrestres.
Santorini, nas Cíclades, é daqueles lugares que homens de
qualquer nacionalidade têm dificuldade em crer que existam.
Estive ali em Maio.
A Ilha era muito maior há 35 séculos quando um vulcão
submarino a destruiu. Quase metade afundou-se em águas profundas. Aquilo
que sobrou (93 km2) tem a forma de uma meia-lua irregular. No centro da
baía emergiu de erupções posteriores uma ilhota negra em
cujo cume se abrem crateras de um vulcão atualmente adormecido.
Por muitos séculos, a nova ilha terá sido inabitável. Mas
gentes do Arquipélago, atraídas pela sua beleza, fixaram-se ali.
E no rodar do tempo, lavas e cinzas transformaram-se em terra fértil
onde foram plantadas vinhas que produzem um vinho digno dos deuses do Olimpo.
Por ali passaram gregos, bizantinos, árabes, turcos, cruzados,
venezianos.
A população residente ronda hoje 15 mil pessoas. Mas a Ilha
é invadida permanentemente por densas hordas turísticas.
No lado voltado para a baía, uma escarpa rochosa despenha-se
abruptamente sobre o mar de uma altura que oscila entre os 200 e os 300 metros.
Aldeias com a brancura das alentejanas aninham-se, encasteladas, à beira
de precipícios medonhos. O casario desce pelas falésias
hotéis, restaurantes, lojas, cafés, residências abobadadas
(modestas e apalaçadas) em equilíbrios que assustam. Andei
por duas, Fira e Oia. Recordadas, desfilam pela memória como
criações humanas na aparência impossíveis.
Na costa leste, o planalto desce suavemente para morrer no mar. Em praias de
areias negras, de lavas desfeitas, o mundo turístico exibe o seu rosto
século XXI.
Mas Santorini projeta também o forasteiro para uma estranha cidade
morta, que nasceu e morreu no extremo sul da Ilha a duzentos metros das
águas azuis do Egeu. Akrotiri se chama. Escavações
recentíssimas, empreendidas com a técnica da mais avançada
arqueologia grega, arrancaram ali do solo vulcânico as ruínas de
uma cidade pré-histórica onde floresceu uma
civilização de raiz minoica da idade do bronze tardio.
Imaginei-me no século XVI antes da Nossa Era ao contemplar as ruas, as
casas, as praças, talhas que lembram as alentejanas, o
mobiliário, as esculturas e os frescos (hoje expostos no museu de Fira)
de uma civilização desaparecida.
Como sintetizar a emoção do descobrimento de Santorini?
Aquela Ilha mágica fez-me viajar durante quatro dias pela esquecida
capacidade do homem para criar formas de viver, e culturas
contraditórias no planeta Terra.
REGRESSO À ACRÓPOLE
Encostado ao mármore frio de uma coluna dos Propileus encimada por um
capitel dórico, o meu pensamento subiu pelo tempo e revi-me em 1953
sentado nos degraus do Pártenon, contemplando Atenas.
Semanas depois escrevi um artigo sobre a Grécia no
Diário de Noticias.
Dele nada recordo. Mas sei que não estava preparado para compreender
aquilo que via.
Desde então acumulei conhecimentos e difere muito a minha perspetiva
sobre a aventura do homem na Historia.
A Acrópole foi tocada por múltiplas obras de
restauração, a escadaria de acesso aos Propileus não
existia, a imagem do Pártenon é outra e a Grécia do ano
2015 um país então inimaginável.
Nos Propileus é outra hoje a minha meditação.
O Tempo não parou, nunca pára, mas abraçando com o olhar
parcelas da Acrópole sinto que os templos erguidos na pequena planura
que coroa aquele paredão rochoso transmitem mensagens permanentes de uma
cultura que marcou decisivamente o caminhar maravilhoso e trágico da
humanidade.
Viajando por 25 séculos, tento imaginar a Atenas destruída pelo
persa Dário e reconstruida por Péricles, o grande heleno a quem
devemos o Pártenon, o estadista que foi arquiteto da muito citada
democracia grega, antítese das tiranias coevas, mas que era afinal a
ditadura de uma classe aristocrática que oprimia a esmagadora maioria,
privada do direito de voto.
UMA BURGUESIA ARROGANTE INIMIGA DOS TRABALHADORES
O cântico de elogios à Grécia como "pátria da
democracia", tradicional nos políticos e intelectuais neoliberais
da União Europeia e dos Estados Unidos, é hipócrita e
falseia a História.
A Grécia foi o primeiro país dos Balcãs a libertar-se do
jugo Otomano. Mas o sujeito da insurreição vitoriosa foi o povo e
não a burguesia.
Já durante a ocupação turca se formara no país uma
próspera burguesia que se expandiu após a independência.
Essa classe nada tinha de democrática. A instalação da
monarquia, implantada com o patrocínio da Inglaterra, da Áustria,
da França e da Rússia favoreceu os interesses dessa burguesia que
colaborou sempre com os reis estrangeiros e o imperialismo.
A luta de classes acentuou-se a partir do início do século XX.
É significativo que o Partido Comunista da Grécia tenha sido o
primeiro na Europa, depois do Búlgaro, a ser fundado após a
Revolução Russa de Outubro de 1917.
Durante a II Guerra Mundial as camadas mais influentes da burguesia colaboraram
com os ocupantes fascistas e posteriormente foram aliadas dos ingleses na feroz
repressão desencadeada contra o Exército da Democracia ELAS.
Inimigos da democracia e da classe trabalhadora foram obviamente os armadores
multimilionários que controlaram (e controlam) a marinha mercante grega.
Dois deles, Onássis e Niarkos, tornaram-se figuras veneradas pelo
chamado jet set internacional. Exemplificam bem a afirmação de
Marx de que o capital não tem pátria.
A perversão desinformava do sistema mediático internacional
não pode ocultar a realidade: quem na Grécia ao longo do tempo se
bateu pela democracia foi a classe trabalhadora. A burguesia foi sempre
incompatível com os seus valores e princípios.
O EFÉMERO E O PERMANENTE
Do lugar onde me encontro vejo o Pártenon e o templo de Atena, mas
não o Erecteion.
O que sentiriam os atenienses ao participarem na procissão das Grandes
Panateneias, na Acrópole, quando os templos da colina sagrada eram um
festival de cores?
Sempre tive dificuldade em avaliar a atitude dos antigos gregos perante a
religião. A sua mitologia com mais de 3000 divindades é
fascinante. Mas o que significavam para eles os deuses? Até Alexandre
procedia a sacrifícios. Acreditaria nesse ritual e na sua origem divina?
O que na Acrópole sobrou de múltiplas agressões que a
atingiram ao longo dos séculos é ainda deslumbrante. A
última foi o bombardeamento pelos ingleses, após a II Guerra
Mundial. Mas o esforço de imaginação não permite
atravessar o tempo e contemplar o que "aquilo" foi, os monumentos e
os homens que os conceberam.
Percorri com lentidão os salões do Museu da Acrópole.
Não creio que exista no mundo museu semelhante. Detive-me em
meditação na galeria que exibe peças dos frisos dos
Frontões do Pártenon. Algumas, poucas, são originais
encontrados nas escavações. A maioria são réplicas
dos frisos roubados por Lord Elgin, o magnate-pirata inglês que os levou
para Londres e os ofereceu ao British Museum onde se encontram ainda.
Refleti ali sobre as guinadas da História. Quando os bretões da
futura Inglaterra ainda viviam em cavernas e cabanas, a cidade-estado de Atenas
na Península da Ática acumulava saberes que anunciavam uma
civilização vocacionada para mudar o rumo da Humanidade Ocidental.
Em vésperas de uma saga inesperada, Atenas enfrentou um enorme desafio
para sobreviver. Quando Temístocles e Milcíades derrotaram os
invasores persas, a Grécia inteira era um pequeno país comparada
com o império do Rei dos Reis.
As vitórias sobre Dario e Xerxes foram o prólogo do que parecia
impossível. O pigmeu venceu o gigante.
Transcorrido um século, um príncipe da Macedónia,
estadista e general superdotado, atravessou o Helesponto e levou a cultura
grega ao coração do que da Ásia se conhecia. Polis
helénicas surgiram nas remotas estepes da Báctria, à beira
dos píncaros nevados do Pamir. Terá sido Alexandre o primeiro
governante a conceber a ideia do Estado Universal.
UMA ARTE MARAVILHOSA E INOVAÇÕES REVOLUCIONARIAS NAS
CIÊNCIAS
Caminhando pelo Museu da Acrópole, acariciando com o olhar esculturas de
Fídias e Praxiteles e dezenas de estátuas de deuses e deusas do
panteão grego, senti-me invadido por uma certeza que contrariava a
lógica aparente das coisas.
Trabalhando os mármores do Pentélico há 25 séculos,
os artistas da época atingiram um nível de
perfeição, harmonia e rigor quase insuperável. Somente
após séculos de escuridão relativa seriam igualados na
Itália renascentista pelos grandes mestres de Florença e Veneza.
A revolução nas artes, introduzida por um povo tão pobre
de recursos naturais, foi alias acompanhada por uma revolução
científica. Na filosofia, na matemática, na geometria, na
geografia, na astronomia, na medicina, a Grécia foi precursora de
inovações científicas prodigiosas. Os materialistas
gregos, Epicuro e Demócrito, inspiraram Marx na formulação
do materialismo histórico.
De Heródoto se diz que foi o pai da História. Eu penso em
Xenofonte, no seu Anábase, para mim livro de cabeceira desde a juventude.
Encantou-me nos últimos dias palmilhar quilómetros pelas ruas de
Atenas, numa despedida da cidade revisitada. Sabia que não voltaria. Mas
essa certeza dolorosa era atenuada pelo sentimento de admiração
pelo povo grego.
A crise não apagou nele a alegria de viver, a confiança de que o
sol voltará a brilhar na boca do túnel, tal como ocorreu em
muitas outras crises da sua dramática história milenar.
No homem e na mulher gregos transparece uma cultura profunda, invisível,
que não se confunde com a instrução.
O camponês de poucas letras acumulou ali, na corrente de muitas dezena de
gerações, uma serenidade, uma coragem, uma tenacidade,
transmitidas pela espantosa aventura dos seus antepassados - uma sabedoria
combativa que nos faz amar os heróis da Ilíada.
Ao contemplar a Acrópole sinto que ela ajuda a compreender o povo grego
e a Humanidade.
Atenas, Junho de 2015
1ª parte:
O SYRIZA sem máscara
2ª parte:
Grécia mártir, heroica, humanizada
O original encontra-se em
www.odiario.info/?p=3671
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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