Grécia: os próximos quatro meses
O que acontecerá às finanças públicas e à
economia da Grécia durante os próximos quatro meses enquanto o
governo liderado pelo Syriza negocia condições orçamentais
e económicas com o Eurogrupo em troca de fundos de salvamento da Troika
sob o programa existente, o qual foi agora estendido até o fim de Junho?
Sob o acordo provisório com o Eurogrupo, o governo grego não
receberá quaisquer dos fundos pendentes de 7,2 mil milhões
ainda disponíveis (1,9 mil milhões dos lucros do BCE com os
seus haveres de títulos do governo grego feitos em 2014 e prometidos ao
governo grego anterior; 1,8 mil milhões do EFSF do Eurogrupo e
3,5 mil milhões do FMI) até que o Eurogrupo esteja
satisfeito com os seus planos orçamentais.
E isso poderia perdurar até o fim de Abril. Como deixou claro o ministro
alemão das Finanças, Schauble: a Grécia não estava
a obter condições mais suaves, apenas mais tempo. "Só
quando virmos que eles cumpriram isto plenamente é que será pago
qualquer dinheiro. Nem um único Euro será pago antes disso",
disse ele.
Mas entre este fim-de-semana e o fim de Abril, supõe-se que o governo
grego faça reembolsos de títulos governamentais a curto prazo que
atingem a maturidade e devoluções de empréstimos ao FMI. A
Grécia tem de pagar ao FMI empréstimos de quase 2 mil
milhões em Abril e também tem de resgatar dívida a curto
prazo de 4,4 mil milhões e 2,4 mil milhões em
Março e Abril respectivamente.
De onde é que virá o dinheiro se a Troika não irá pagar
o que prometeu até o acordo sobre "condicionalidades" com o
governo grego? Bem, antes da eleição do Syriza o governo estava a
ter um excedente anualizado antes de pagar juros sobre a sua dívida de
cerca de 1,9 mil milhões. E havia acumulado algumas reservas de
cash de cerca de 2 mil milhões. Então está tudo bem?
Bem, não. Desde a eleição, contribuintes cessaram de pagar
impostos, particularmente os mais ricos e as companhias privadas. As receitas
fiscais entram em colapso e ficaram 20% abaixo do alvo. O governo realmente
incorreu num défice em Janeiro. O excedente primário
alcançado em 2014 já foi reduzido à metade. O dinheiro
disponível para pagar os resgates da dívida que estão para
vir está a desaparecer.
Agora os 6,8 mil milhões de títulos do governo a curto
prazo poderiam ser pagos através da emissão de novos
títulos que seriam comprados pelos bancos gregos (eles já
estão a fazer bons lucros com isto). Contudo, o BCE está a dizer
que o governo grego já está no seu limite de 15 mil
milhões em matéria de emissões pendentes de títulos
T-bill isto é um limite estabelecido pelo BCE, a
propósito. O BCE não quer que o governo grego financie seus
gastos utilizando os bancos gregos, para o caso de o governo entrar em
incumprimento posteriormente.
Assim, está a ficar difícil administrar as finanças
públicas durante os próximos dois meses, a menos que como ajuda o
FMI desista do reembolso da sua dívida improvável! Como
disse o ministro das Finanças Yanis Varoufakis: "Nós
definitivamente teremos problemas em fazer pagamentos de dívida ao FMI
agora e ao BCE em Julho", disse à Alpha Radio.
Assim, mesmo antes de obtermos um acordo com o Eurogrupo sobre que nível
de medidas de austeridade se supõe que o novo governo grego aplique para
atender objectivos orçamentais, a possibilidade de incumprimento
levanta-se.
A extensão de quatro meses sobre o programa existente da Troika foi
lançada pelo primeiro-ministro Tsipras e por Varoufaki como o
máximo que podia ser expectável para evitar que o BCE cortasse
fundos aos bancos gregos e levasse a uma corrida bancária e ao colapso
financeiro. Tsipras e Varoufakis argumentaram com os seus deputados do Syriza e
seguidores que realmente obtiveram um bom acordo, no sentido de que podem
negociar com o Eurogrupo sobre os termos e medidas que serão aplicadas
ao longo dos próximos quatro meses. Por outras palavras, eles têm
"margem de manobra" ou "espaço orçamental".
Mas como podemos ver no números mais recentes das receitas e despesas do
governo, mesmo se o Eurogrupo concordar um excedente primário mais baixo
do que 3% do PIB que queriam no antigo programa, não pode haveria ali de
todo qualquer excedente para gastar se receitas fiscais não forem
arrecadadas.
Sim, o governo pretende centrar-se em obter impostos atrasados, obter impostos
dos oligarcas e melhorar a arrecadação fiscal em geral. O governo
afirma que pode levantar até 7 mil milhões com tais
medidas. Mas ele precisará disso (e deve convencer a Troika
também) porque também quer cessar os novos cortes de
pensões planeados sob o programa existente (embora tenha voltado
atrás sobre aumentos de pensões e do salário mínimo
ou quanto ao aumento emprego no sector público ou pelo menos da
massa salarial).
O Syriza aparentemente concordou em não aumentar impostos sobre o
rendimento ou sobre corporações e ainda assim isto é
precisamente onde as formas mais progressivas de tributação
podiam ser aplicadas. Varoufakis, ao invés, parece desejoso de cumprir
com a antiga exigência do FMI de que taxas de IVA reduzidas sobre ilhas
do Egeu deveriam ser aumentadas para o nível padrão. O IVA
é o mais regressivo de todos os impostos.
Quanto à privatização, o que não é
habitualmente percebido é que se supunha que as receitas da
privatização fossem utilizadas para reembolsar a factura da
dívida e não para reforçar receitas e o excedente
primário. A liderança do Syriza concordou em permitir as
privatizações existentes. Assim, a Cosco, a companhia estatal
chinesa de navegação, e a Maersk da Dinamarca, os que
estão à cabeça na
short list
entre os licitadores para uma participação de dois terços
na Autoridade do Porto de Pireu, tomarão o comando. E um
consórcio liderado pelo Aeroporto de Frankfurte é o licitador
preferido para uma concessão de 40 anos (!) para administrar aeroportos
regionais da Grécia.
Convidar o investimento estrangeiro a melhorar importantes activos do estado
não deveria ser evitado, na minha opinião. Afinal de contas,
é o que o governo chinês faz o tempo todo. Mas eles mantêm
uma maioria sobre a propriedade e o controle dos projectos. A Grécia
podia fazer o mesmo. Companhias estrangeiras, ao invés, obterão
sectores chave da economia grega durante os próximos quatro meses. Pelo
menos o ministro da Energia, Panagiotis Lafazanis, aparentemente travará
a venda da rede eléctrica e parte da empresa estatal produtora de
energia.
As negociações sobre os pormenores da extensão de quatro
meses serão tortuosas e é uma oportunidade para o governo Syriza
fazer campanha abertamente dentro da Europa contra medidas de austeridade que o
Eurogrupo quer impor e também dá tempo ao Syriza para mobilizar o
povo grego para a batalha pela frente.
Como disse (erradamente) o primeiro-ministro Tsipras, "nós vencemos
(realmente perderam) a primeira batalha mas a guerra continua". A
austeridade deve ser revertida. Desde 2009, sucessivos governos gregos sob a
direcção da Troika executaram enormes cortes nas despesas
públicas que montam a 30% do PIB. A despesa do sector público foi
reduzida em 29% e agora o governo concordou em não aumentá-la. Os
benefícios sociais foram cortados em 27% e mais uma vez o governo
concordou em não aumentar esta conta.
Mas as finanças pública gregas actualmente não permitem de
todo qualquer espaço orçamental, mesmo que o Eurogrupo concorde
com um objectivo orçamental mais baixo. Receitas fiscais devem entrar
para atender reembolsos da dívida
E
permitir tratar da crise humanitária, promovendo emprego e
salários. Pode isso ser feito?
E então o que é que acontece após os quatro meses? O
governo grego e o seu povo devem rejeitar qualquer novo programa Troika e suas
condições (assumindo que são oferecidas). Eles devem
alcançar o seu próprio controle da economia.
Isso significa tomar o comando dos bancos e das principais companhias, pondo em
prática um plano de investimento e crescimento que mobilize o povo a
apoiá-lo e implementá-lo. Se isto levar o governo a um conflito
final com outros governos da Eurozona e com o BCE e eles ameaçarem
cortarem fundos e lançarem a Grécia para fora da Eurozona, que
assim seja.
Mas há quatro meses disponíveis para o governo fazer campanha
dentro da Grécia e na Europa para a alternativa ao modelo
económico neoliberal e suas políticas (ver meu post,
Troika, Grexit ou Plano B?
).
25/Fevereiro/2015
[*]
Economista.
O original encontra-se em
https://thenextrecession.wordpress.com/2015/02/25/greece-the-next-four-months/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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