Troika, Grexit ou Plano B?

por Michael Roberts [*]

Nesta tortuosa saga entre os líderes da Eurozona e o novo governo grego sobre o reembolso da sua dívida do sector público e a continuação do programa de austeridade imposto pela Troika, devemos recordar que a causa de toda esta confusão é o fracasso do capitalismo na Europa e na Grécia.

Sim, o governo Syriza recuou maciçamente da sua posição original de cancelar ou renegociar o fardo "odioso" da dívida e cedeu sobre algumas (muitas?) das medidas imediatas que pretendia tomar acerca da reversão da austeridade e melhoria dos enormemente reduzidos padrões de vida das famílias gregas. Mas isso inevitável se o governo pretende manter o capitalismo grego dentro ou fora da Eurozona. O capital grego é o mais fraco no espectro do capital europeu, onde a Alemanha e a França são mais fortes. Eles é que dão o tom.

Assim, o vilão real da peça é o Capital na personagem do capital franco-alemão e dos seus apoiantes nos governos do outros "aflitos" estados da União Monetária Europeia (UME) da Espanha, Portugal e Irlanda, bem como a "Europa do Norte".

Há muitos comentadores, incluindo aqueles na esquerda keynesiana, a queixarem-se de que os alemães estão a ser não razoáveis e estúpidos. Dar aos gregos alguma liberdade de movimento nos gastos públicos e na redução do fardo da dívida ajudaria a restaurar a economia grega e a manter o projecto europeu em andamento face ao acrescido cepticismo do eleitorado da Europa e uma estagnação e deflação da economia do Euro. Como vê, a austeridade não funciona, esse é o argumento ( mainlymacro.blogspot.co.uk/2015/02/greece-and-educating-economists.html ).

Mas os alemães não são "irracionais" do ponto de vista do Capital. Os austeritários consideram que o capitalismo europeu não se recuperará a menos que o sector capitalista seja restaurado com alta lucratividade e que o fardo da dívida seja reduzido. Isso significa reformas "estruturais" envolvendo primariamente dizimar o poder do trabalho através de leis anti-sindicais, aumento dos direitos de despedimento, redução de benefícios de desemprego e de pensões e mais privatizações. Juntamente com isto, deve haver cortes na despesa pública e na dívida para permitir cortes na tributação corporativa para aumentar a lucratividade. Reduzir custos do trabalho e promover a lucratividade – esse é o caminho de saída desta depressão ( https://thenextrecession.wordpress.com/...

Isto é uma estratégia racional para o Capital. Os keynesianos, por outro lado, consideram que cortar salários e austeridade orçamental apenas corta a "procura efectiva", de modo que a austeridade gera ainda menos crescimento. Na profundidade da depressão, este argumento tem alguma validade, especialmente na Grécia. Mas a essência da recuperação numa base capitalista deve ser um retorno à lucratividade e a elevação de salários ou mais gastos no bem-estar social provocam o oposto ( https://thenextrecession.wordpress.com/...

Assim, a intransigência alemã decorre de uma crença ideológica de que a austeridade orçamental e programas de cortes salariais são essenciais. Como os alemães não estão comprometidos com qualquer união orçamental justa na Europa (ver meu post, https://thenextrecession.wordpress.com/2015/02/12/red-lines-and-fiscal-union/), eles não querem fazer quaisquer (ou as mais mínimas) concessões ao Syriza. Além disso, nisto eles são apoiados pelos governos venais, corruptos e neoliberais empedernidos da Espanha, Portugal e Irlanda, os quais impuseram programas Troika aos seus povos e que seriam duramente questionados se houvesse melhores termos a um governo de esquerda na Grécia. Os impotentes governos pró capitalistas sociais-democratas da Itália e da França, ambos tentando impor "reformas estruturais" sobre o trabalho, também concordam com isto.

Infelizmente, a propaganda na Alemanha e a ascensão de forças eurocépticas levaram o eleitorado alemão a acreditar que os gregos são preguiçosos, estão todos com benefícios [sociais], obtêm pensões enormes e são corruptos. Aparentemente 66% dos alemães perguntados não querem que os gregos obtenham quaisquer concessões. Naturalmente, esta caracterização da classe trabalhadora grega é insensata.

Os gregos trabalham mais horas por ano do que qualquer outro país na Europa – e mais mesmo do que os americanos ou britânicos! E surpreendentemente, são os alemães os "mais preguiçosos", se medido pelas horas trabalhadas.

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Embora a produtividade da economia grega no conjunto tenha arrancado de uma base baixa quando em 1999 o país aderiu à Eurozona, o crescimento da produtividade do trabalho desde então tem sido mais rápido do que as economias capitalistas fortes da Alemanha ou França, mais de 25% em comparação com apenas 10% na Alemanha.

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A razão porque a Alemanha tem sido tão competitiva não foi porque o crescimento da sua produtividade do trabalho fosse muito bom, mas porque os salários subiram o mínimo, apenas 22% desde 1999 a comparar com quase o dobro na Irlanda e mais de dois terços na Grécia (ver meu post, https://thenextrecession.wordpress.com/...

Assim, enquanto os gregos viram os seus padrões de vida melhorarem sob o Euro até à chegada da crise, eles fizeram isto trabalhando mais horas e sendo explorados mais do que qualquer outra força de trabalho na Europa. Os maiores ganhadores da adesão ao Euro foram os capitalistas gregos. Os frutos do aumento do crescimento económico e do comércio foram para eles de forma desproporcionada. A fatia dos salários no rendimento nacional grego caiu quase 4 pontos percentuais, uma queda só ultrapassada pela Espanha e ainda maior relativamente do que a sofrida pelos trabalhadores americanos.

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Do meu ponto de vista, o Syriza estava corecto ao dizer que queria permanecer no Euro e fazer campanha pela remoção do fardo da dívida e reversão da austeridade. Partir do ponto de vista de que a Grécia deve abandonar o Euro e encarar então a "reversão da austeridade" põe o carro diante dos bois e também vai contra as aspirações dos gregos de serem "parte da Europa".

Mas o que está errado com a posição do Syriza (na minha opinião) é ver a questão da dívida e do "espaço orçamental" como a principal (única?) das questões e ter a ilusão de que os líderes do Eurogrupo verão que é do seu interesse salvar o capitalismo europeu de uma grava pancada se a Grécia for atirada para fora do Euro. Como agora sabemos, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, diz que o seu objectivo é salvar o capitalismo das políticas estúpidas do neoliberalismo, obter algum tempo para recuperar e procurar então medidas socialistas por algum meio mais adiante quando o capitalismo estiver em melhores condições (ver meu post fortemente criticado, https://thenextrecession.wordpress.com/... ).

O que está errado com a posição da liderança do Syriza e aquela da esquerda dentro do Syriza é que eles colocaram o fardo da dívida e do Euro no centro das preocupações ao invés da substituição do fracassado capitalismo grego como principal prioridade. Quer a Grécia esteja dentro ou fora do Euro isso não restaurará o crescimento e os padrões de vida se o sector capitalista continuar a dominar na Grécia. A dívida do sector público grego nunca poderá ser reembolsada e deveria ser cancelada como odiosa. Mas o custo do seu serviço tem caído para níveis já baixos, de modo que cancelá-la não será suficiente para arrancar a economia.

O governo grego e seu povo devem tomar o controle do alto comando da economia. Isso significa propriedade pública e controle democrático dos bancos e das principais companhias estratégicas, o lançamento de um programa de investimento público para empregos e crescimento e uma pelo à solidariedade dentro da Europa para a alternativa grega contra os governos neoliberais do Eurogrupo. Isso provavelmente levaria a Grécia a ser expulsa da UE, dado o actual equilíbrio das forças políticas. Mas pelo menos o povog grego o resto da Europa veriam porque os líderes do Euro faziam isso e tinham também um claro Plano B alternativo para implementar ( https://thenextrecession.wordpress.com/...

O perigo agora é que o Syriza venha a acordar um compromisso com os líderes da UE que "salve" o capitalismo grego e o Euro a expensas de pouca ou nenhuma melhoria nas condições para a maior parte do povo grego. [NR] Tudo o que isso faria seria adiar o choque entre a reversão da austeridade e os interesses do Capital, sem um Plano B no interesse do Trabalho.

20/Fevereiro/2015

NR: Os sublinhados a vermelho são de resistir.info. Este artigo é anterior ao acordo do governo Syriza com o Eurogrupo.

[*] Economista.

O original encontra-se em https://thenextrecession.wordpress.com/2015/02/20/troika-grexit-or-plan-b/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
21/Fev/15