Troika, Grexit ou Plano B?
Nesta tortuosa saga entre os líderes da Eurozona e o novo governo grego
sobre o reembolso da sua dívida do sector público e a
continuação do programa de austeridade imposto pela Troika,
devemos recordar que a causa de toda esta confusão é o fracasso
do capitalismo na Europa e na Grécia.
Sim, o governo Syriza recuou maciçamente da sua posição
original de cancelar ou renegociar o fardo "odioso" da dívida
e cedeu sobre algumas (muitas?) das medidas imediatas que pretendia tomar
acerca da reversão da austeridade e melhoria dos enormemente reduzidos
padrões de vida das famílias gregas. Mas isso inevitável
se o governo pretende manter o capitalismo grego dentro ou fora da Eurozona. O
capital grego é o mais fraco no espectro do capital europeu, onde a
Alemanha e a França são mais fortes. Eles é que dão
o tom.
Assim, o vilão real da peça é o Capital na personagem do
capital franco-alemão e dos seus apoiantes nos governos do outros
"aflitos" estados da União Monetária Europeia (UME) da
Espanha, Portugal e Irlanda, bem como a "Europa do Norte".
Há muitos comentadores, incluindo aqueles na esquerda keynesiana, a
queixarem-se de que os alemães estão a ser não
razoáveis e estúpidos. Dar aos gregos alguma liberdade de
movimento nos gastos públicos e na redução do fardo da
dívida ajudaria a restaurar a economia grega e a manter o projecto
europeu em andamento face ao acrescido cepticismo do eleitorado da Europa e uma
estagnação e deflação da economia do Euro. Como
vê, a austeridade não funciona, esse é o argumento
(
mainlymacro.blogspot.co.uk/2015/02/greece-and-educating-economists.html
).
Mas os alemães não são "irracionais" do ponto de
vista do Capital. Os austeritários consideram que o capitalismo europeu
não se recuperará a menos que o sector capitalista seja
restaurado com alta lucratividade e que o fardo da dívida seja reduzido.
Isso significa reformas "estruturais" envolvendo primariamente
dizimar o poder do trabalho através de leis anti-sindicais, aumento dos
direitos de despedimento, redução de benefícios de
desemprego e de pensões e mais privatizações. Juntamente
com isto, deve haver cortes na despesa pública e na dívida para
permitir cortes na tributação corporativa para aumentar a
lucratividade. Reduzir custos do trabalho e promover a lucratividade
esse é o caminho de saída desta depressão
(
https://thenextrecession.wordpress.com/...
Isto é uma estratégia racional para o Capital. Os keynesianos,
por outro lado, consideram que cortar salários e austeridade
orçamental apenas corta a "procura efectiva", de modo que a
austeridade gera ainda menos crescimento. Na profundidade da depressão,
este argumento tem alguma validade, especialmente na Grécia. Mas a
essência da recuperação numa base capitalista deve ser um
retorno à lucratividade e a elevação de salários ou
mais gastos no bem-estar social provocam o oposto
(
https://thenextrecession.wordpress.com/...
Assim, a intransigência alemã decorre de uma crença
ideológica de que a austeridade orçamental e programas de cortes
salariais são essenciais. Como os alemães não estão
comprometidos com qualquer união orçamental justa na Europa (ver
meu post,
https://thenextrecession.wordpress.com/2015/02/12/red-lines-and-fiscal-union/),
eles não querem fazer quaisquer (ou as mais mínimas)
concessões ao Syriza. Além disso, nisto eles são apoiados
pelos governos venais, corruptos e neoliberais empedernidos da Espanha,
Portugal e Irlanda, os quais impuseram programas Troika aos seus povos e que
seriam duramente questionados se houvesse melhores termos a um governo de
esquerda na Grécia. Os impotentes governos pró capitalistas
sociais-democratas da Itália e da França, ambos tentando impor
"reformas estruturais" sobre o trabalho, também concordam com
isto.
Infelizmente, a propaganda na Alemanha e a ascensão de forças
eurocépticas levaram o eleitorado alemão a acreditar que os
gregos são preguiçosos, estão todos com benefícios
[sociais], obtêm pensões enormes e são corruptos.
Aparentemente 66% dos alemães perguntados não querem que os
gregos obtenham quaisquer concessões. Naturalmente, esta
caracterização da classe trabalhadora grega é insensata.
Os gregos trabalham mais horas por ano do que qualquer outro país na
Europa e mais mesmo do que os americanos ou britânicos! E
surpreendentemente, são os alemães os "mais
preguiçosos", se medido pelas horas trabalhadas.
Embora a produtividade da economia grega no conjunto tenha arrancado de uma
base baixa quando em 1999 o país aderiu à Eurozona, o crescimento
da produtividade do trabalho desde então tem sido mais rápido do
que as economias capitalistas fortes da Alemanha ou França, mais de 25%
em comparação com apenas 10% na Alemanha.
A razão porque a Alemanha tem sido tão competitiva não foi
porque o crescimento da sua produtividade do trabalho fosse muito bom, mas
porque os salários subiram o mínimo, apenas 22% desde 1999 a
comparar com quase o dobro na Irlanda e mais de dois terços na
Grécia (ver meu post,
https://thenextrecession.wordpress.com/...
Assim, enquanto os gregos viram os seus padrões de vida melhorarem sob o
Euro até à chegada da crise, eles fizeram isto trabalhando mais
horas e sendo explorados mais do que qualquer outra força de trabalho na
Europa. Os maiores ganhadores da adesão ao Euro foram os capitalistas
gregos. Os frutos do aumento do crescimento económico e do
comércio foram para eles de forma desproporcionada. A fatia dos
salários no rendimento nacional grego caiu quase 4 pontos percentuais,
uma queda só ultrapassada pela Espanha e ainda maior relativamente do
que a sofrida pelos trabalhadores americanos.
Do meu ponto de vista, o Syriza estava corecto ao dizer que queria permanecer
no Euro e fazer campanha pela remoção do fardo da dívida e
reversão da austeridade. Partir do ponto de vista de que a Grécia
deve abandonar o Euro e encarar então a "reversão da
austeridade" põe o carro diante dos bois e também vai contra
as aspirações dos gregos de serem "parte da Europa".
Mas o que está errado com a posição do Syriza (na minha
opinião) é ver a questão da dívida e do
"espaço orçamental" como a principal (única?)
das questões e ter a ilusão de que os líderes do Eurogrupo
verão que é do seu interesse salvar o capitalismo europeu de uma
grava pancada se a Grécia for atirada para fora do Euro. Como agora
sabemos, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, diz que o seu
objectivo é salvar o capitalismo das políticas estúpidas
do neoliberalismo, obter algum tempo para recuperar e procurar então
medidas socialistas por algum meio mais adiante quando o capitalismo estiver em
melhores condições (ver meu post fortemente criticado,
https://thenextrecession.wordpress.com/...
).
O que está errado com a posição da liderança do
Syriza e aquela da esquerda dentro do Syriza é que eles colocaram o
fardo da dívida e do Euro no centro das preocupações ao
invés da substituição do fracassado capitalismo grego como
principal prioridade. Quer a Grécia esteja dentro ou fora do Euro isso
não restaurará o crescimento e os padrões de vida se o
sector capitalista continuar a dominar na Grécia. A dívida do
sector público grego nunca poderá ser reembolsada e deveria ser
cancelada como odiosa. Mas o custo do seu serviço tem caído para
níveis já baixos, de modo que cancelá-la não
será suficiente para arrancar a economia.
O governo grego e seu povo devem tomar o controle do alto comando da economia.
Isso significa propriedade pública e controle democrático dos
bancos e das principais companhias estratégicas, o lançamento de
um programa de investimento público para empregos e crescimento e uma
pelo à solidariedade dentro da Europa para a alternativa grega contra os
governos neoliberais do Eurogrupo. Isso provavelmente levaria a Grécia a
ser expulsa da UE, dado o actual equilíbrio das forças
políticas. Mas pelo menos o povog grego o resto da Europa veriam porque
os líderes do Euro faziam isso e tinham também um claro Plano B
alternativo para implementar
(
https://thenextrecession.wordpress.com/...
O perigo agora é que o Syriza venha a acordar um compromisso com os
líderes da UE que "salve" o capitalismo grego e o Euro a
expensas de pouca ou nenhuma melhoria nas condições para a maior
parte do povo grego.
[NR]
Tudo o que isso faria seria adiar o choque entre a reversão da
austeridade e os interesses do Capital, sem um Plano B no interesse do Trabalho.
20/Fevereiro/2015
NR: Os sublinhados a vermelho são de resistir.info. Este artigo é
anterior ao acordo do governo Syriza com o Eurogrupo.
[*]
Economista.
O original encontra-se em
https://thenextrecession.wordpress.com/2015/02/20/troika-grexit-or-plan-b/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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