As bases americanas na Alemanha e a base ouro
A Alemanha não é nem independente nem soberana, apesar das
pretensões habituais. Ela tem tropas americanas no seu solo por
razões inexplicadas e inexplicáveis após a retirada de
todas as tropas soviéticas há quase 25 anos atrás.
Igualmente significativo é o facto de que a fatia do leão da
reserva ouro alemã esteja sob a custódia americana. Se o
Bundesbank
pediu a repatriação de uma parte simbólica daquele ouro
durante um longo período de tempo, podemos considerar como garantido que
isto foi
feito sob instruções americanas.
Mas por que os americanos pediriam ao Bundesbank para requerer o retorno de uma
parte do ouro alemão armazenados na "segurança" dos
porões
do Federal Reserve Bank of New York na parte baixa de Manhattan? Certamente
não porque os porões estejam cheios de ouro americano e eles
tenham de arranjar espaço para mais.
É tudo grande teatro. Há uma agenda oculta que tem de ser
camuflada. O melhor meio de fazer isso é montar um show. O
público fica fascinado por imagens com tramas de ouro de bancos centrais.
Uma razão, talvez a principal para este exercício, é que
os administradores do sistema de moeda fiduciária
(fiat money)
global estão a preparar-se para a próxima
confrontação decisiva, a cortina final sobre o que há
alguns anos atrás chamei de
The Last Contango in Washington.
Por outras palavras, os decisores políticos estão a preparar-se
para (ou a tentar defender-se da) a permanente escassez
(
backwardation
)
nos mercados futuros de ouro de todo o mundo que está a ameaçar
rasgar em pedaços o actual e desgastado sistema de pagamentos mundial
que repousa na fé
(make-belief).
A multa por atraso
(
contango
)
é a condição normal dos mercados futuros de outro quando
o preço spot do ouro está com um desconto em
relação ao preço de contratos futuros. O contango
demonstra que está disponível muito ouro para satisfazer a
procura actual. As pessoas estão confiantes em que promessas de entrega
de ouro serão honradas. A condição oposta à
situação de contango é chamada de escassez
(backwardation)
que se verifica quando os preços futuros perdem o seu prémio em
relação ao preço spot e ficam menores. No mercado de ouro
esta condição é altamente anómala porque, face a
isto, permite aos comerciantes ganharem lucros sem risco. Eles vendem ouro spot
com um prémio e compram-no de volta com um desconto para entrega futura.
Contudo, lucros sem risco são efémeros uma vez que a
própria acção de comerciantes os eliminará
instantaneamente. O que isto sugere é que escassez permanente de ouro
nunca poderia acontecer pela própria natureza do caso.
Mas sem o conhecimento do público geral um perigo muito grande
está a surgir, perigo semelhante a um que não ameaçava o
mundo desde o colapso da parte ocidental do Império Romano há
mais de 1500 anos atrás. Este perigo, se se materializar, marcaria o fim
da nossa civilização e princípio de uma nova Idade
Média
(Dark Age).
Estou a falar acerca da ameaça do súbito e completo colapso do
comércio mundial. Isto seria anunciado pela escassez permanente de ouro,
algo que alegadamente nunca poderia acontecer. Directamente nos seus
calcanhares seguir-se-ia o colapso do sistema de pagamentos em dólar. O
comércio por trocas
(barter),
naturalmente, começaria entre países vizinhos, mas o
comércio mundial tal como o conhecemos desapareceria junto.
O indicador pelo qual a viragem do contango para a escassez (backwardation)
poderia ser medido é chamado a base ouro. É o prémio sobre
o preço do ouro para entrega futura de acordo com o contrato que o
acompanha relativo ao preço spot. Portanto a base ouro negativa é
equivalente a escassez. Mal se passaram uns 40 anos de história de
orientação pela base ouro, porque não havia
comércio organizado de futuro de ouro antes de a América
incumprir suas obrigações internacionais de ouro em 15 de Agosto
de 1971.
O comércio de futuros começou com uma base ouro robusta. O
contango estava no seu pico. A base ouro não pode ser mais elevada do
que o pleno encargo de armazenagem
(carrying charge)
(também conhecido como o custo de oportunidade de possuir ouro, cujo
principal componente é o juro). Mas bastante cedo a base ouro
começou a erodir-se e a erosão continuou até hoje. Isto
foi um processo agourento e que foi ignorado por todos os políticos,
economistas e jornalistas financeiros.
O desvanecimento da base ouro é ainda mais curioso uma vez que tem
estado a acontecer contra o pano de fundo de um avanço constante no
preço do ouro. Os manuais de teoria económica ensinam que um
avanço no preço sempre e em toda a parte chama novas oferta.
Contudo, os manuais de teoria económica são impotentes quando se
trata de ouro. Para o ouro, o verdadeiro é exactamente o oposto: um
avanço no preço faz a ofertar contrair; e um avanço muito
grande pode fazer a oferta desaparecer totalmente. A razão para este
paradoxo é que o ouro é um metal monetário. Toda a
difamação do ouro por economistas pagos por governo não
alterará este facto. Nesta altura o declínio foi tão longe
que a base ouro é praticamente zero, com ocasionais afundamentos em
território negativo.
A academia evita ostensivamente investigar a base ouro, pretendendo que ela tem
tanta relação com a economia mundial quanto a base para
carcaças de porcos congelados. O público é mantido na
ignorância total. Mas só se pode ignorar a base ouro correndo
perigo. Trata-se do único indicador disponível que mostra a
deterioração progressiva do sistema de moeda fiduciária.
Como é bem sabido, em toda a história nunca houve um experimento
com êxito de moeda fiduciária. E nem foi por falta de tentativas.
Todos estes experimentos ou foram abandonados quando governos esclarecidos
decidiram retornar a divisa a uma base metálica, ou acabaram em fracasso
absoluto provocando tremendo sofrimento económico para o povo quando a
moeda fiduciária estava a perder rapidamente todo o seu poder de compra.
A implacável contracção da base ouro significa que o ouro
disponível para entrega futura está a desaparecer rapidamente. O
ouro está constantemente a mover-se para mãos fortes que o
agarram e não o abandonarão mesmo em face de altas de
preços abruptas. Finalmente a oferta de ouro secará e a escassez
esporádica dará lugar à escassez permanente. As minas de
ouro recusam-se a receber papel-moeda pelo seu produto. Se quiser ter ouro,
terá de recorrer ao barter.
Escassez permanente significa que a confiança na divisa
fiduciária em papel e nas promessas do governo de pagar evaporaram-se.
Afinal de contas, considerando a sua origem, notas de banco
irresgatáveis são nada mais do que promessas desonradas de pagar
ouro. Uma vez estilhaçada a confiança, todos os cavalos do rei e
todos os homens do rei não podem juntar Humpty Dumpty outra vez. A
escassez permanente é como um buraco negro. Não há caminho
para dele sair. Nem mesmo um raio de luz pode escapar das suas garras. Eis como
os buracos negros ganharam sua fama. "Escassez permanente" não
é um nome tão sugestivo como "buraco negro", mas mesmo
assim pode devorar a economia mundial.
A base ouro é afim à eficiência do dinheiro de suborno. A
princípio o suborno é aceite sem se fazerem perguntas. Mas quando
se torna uma característica regular do comércio de ouro, a sua
efectividade é perdida. No fim o suborno é recusado quando se
percebe que o objectivo é trapacear o proprietário e retirar-lhe
a sua posse de ouro. Um sistema de comércio construído sobre o
suborno é um castelo de cartas. Ele é desonesto. Depende do
engano e de tramas falsas.
Isto traz-me de volta à reserva ouro alemã. Como a escassez
esporádica em ouro torna-se cada vez mais frequente, os cavalheiros
responsáveis pelo andamento do sistema mundial de moeda
fiduciária ficam alarmados. O único meio de pacificar o mercado
é libertar cada vez mais ouro de bancos centrais. Ouro físico. A
besta deve ser alimentadas. O ouro de papel não o fará (mas,
naturalmente, estes cavalheiros continuarão a tentar inundar o mercado
com ele).
Libertar ouro americano directamente do Fed para os mercados de futuros
está fora de causa. Isso confirmaria a suspeita, já desenfreada,
de que o dólar é um colosso com pés de barro sustendo-se
com água até os joelhos. Assim, deixem os estados clientes da
América fazerem a libertação. Os alemães têm
a reputação de favoráveis à divisa forte. Eles
estão relutantes em aderir à "corrida para a base" das
divisas. A Alemanha é a escolha natural para alimentar mercados futuros
de ouro num esforço para proteger o dólar contra o último
assalto que está a perfilar-se.
Durante muito tempo a América tem estado a torcer o braço de
outros países, incluindo o Reino Unido e a Suíça,
fazendo-os vender centenas de toneladas de ouro do banco central, ao passo que
a América não estava a vender nem uma onça.
"Faça como eu digo, não como eu faço!" Durante
todo este tempo a Alemanha tão pouco estava a vender. Era mantida a
aparência de que esta decisão foi tomada na Alemanha. Não
foi; ela tem, ao invés, a marca "made in USA". O ouro
alemão é a última defesa do dólar. Por esta altura
praticamente todos os bancos centrais ignoram o canto de sereia da
América. De vendedores eles se tornaram compradores de ouro. De acordo
com o plano mestre americano a Alemanha é a última fortaleza [a
impedir] a desintegração do sistema global de moeda
fiduciária. A Alemanha não falhará: é para isso que
se mantêm tropas americanas no solo alemão. A Alemanha
cumprirá obedientemente a tarefa de alimentar com ouro os mercados de
futuros num esforço para defender-se da escassez permanente. A
repatriação de uma parte a reserva de ouro alemã é
um balão de ensaio. Se os mercados ficarem com medo e verificar-se
pânico de vendas antes de o Bundesbank começar a vender,
então muito melhor. Mas se a trama falsa fracassar e a marcha do mercado
mundial de ouro rumo ao entesouramento privado continuar constante,
então deixem o Bundesbank, não o Fed, sangrar ouro. O ouro da
América deve ser poupado apesar de todos os riscos.
Sobre tais truques e enganos está fundamentado o sistema
monetário internacional.
Qual é, portanto, a solução? Como pode ser impedida a
morte súbita do comércio mundial? Felizmente, ainda há
políticos erectos. Godfrey Bloom do Parlamento Europeu, deputado pelos
círculos de Yorkshire e North Lincolnshire no Reino Unido, sugere que a
Alemanha deveria repatriar TODO o seu ouro e reinstaurar um marco alemão
ouro.
A causa subjacente da crise financeira mundial é dívida
desenfreada. O ouro é o único extintor final de vida. A partir da
sua expulsão do sistema monetário internacional a dívida
total no mundo só pode crescer, nunca contrair. Para travar o
crescimento canceroso da dívida o ouro deve ser reinstaurado na sua
antiga posição como o guardião da qualidade de
dívida.
Se, em desafio dos desejos americanos, a Alemanha tomar a iniciativa de criar
um marco ouro e abrir a Cunhagem Alemã ao ouro em que todos os que se
apresentarem possam converter seus lingotes de ouro em moeda de ouro, o curso
da história mundial será mudado. Seria o mais admirável
momento da Alemanha. A civilização terá sido salva e o
arranque da nova Idade Média impedido. O marco-ouro poderia circular
lado a lado com o euro e dólar irresgatáveis. Deixem as pessoas
decidirem se querem ser pagas em divisas fiduciárias tendentes à
crise ou, talvez, se preferem a estabilidade da moeda de ouro respeitada pela
sua antiguidade. Não há dúvida do que seria a escolha das
pessoas.
A iniciativa alemã porá em funcionamento uma
reacção em cadeia de actos virtuosos semelhantes por parte dos
principais bancos centrais do mundo, a fim de impedir a
depreciação fatal das suas divisas contra o marco-ouro. Este
tornar-se-á a divisa mais cobiçada do mundo para comércio
internacional. O sistema financeiro será salvo do suplício das
desvalorizações competitivas de divisas e do efeito corrosivo de
défices governamentais sempre em expansão. Governos serão
forçados a enfrentar a realidade e viver responsavelmente dentro dos
seus meios como toda a gente. Agricultores já não serão
pagos para não cultivar a terra e trabalhadores fisicamente aptos para
não trabalhar. O desemprego juvenil, em particular, será coisa do
passado.
Há um precedente. Em 1948 a Alemanha desafiou a força ocupante
quando criou o Deutsche Mark sem se aborrecer a pedir permissão em
Washington.
Mas não será o padrão tendente à
deflação? Na década de 1930 o padrão ouro
internacional entrou em colapso por causa disto mesmo, não foi?
Como disse o pai do Deutsche Mark, Wilhelm Röpke (1899-1966): não
foi o padrão ouro que fracassou, mas aqueles a cujos cuidados estava
confiado.
28/Janeiro/2013
Ver também:
Histeria no mercado de ouro
, Michel Chossudovsky
O ouro e o "fim do mundo"
, Valentin Katasonov
[*]
Nasceu em Budapeste, Hungria, em 1932.
Matemático e cientista monetário. Em 1958
foi nomeado professor assistente de Matemática e Estatística na
Memorial University de Newfoundland, Canadá e em 1993 reformou-se como
Professor Titular.
Em 1974 fez uma palestra sobre ouro no seminário de
Paul Volcker na Universidade de Princeton. Posteriormente, foi
investigador visitante (Visiting Fellow) no American Institute for Economic
Research e editor sénior da American Economic Foundation. Em 1996 o seu
ensaio,
Para que o ouro? (Whither Gold?),
que se encontra em
http://www.fame.org/htm/Fekete_Anatal_Whither_Gold_AF-001-B.HTM
, ganhou o primeiro prémio no concurso internacional sobre divisas
patrocinado pelo Bank Lips, da Suíça.
Durante muitos anos foi perito em vendas e hedging de barras de ouro de
bancos centrais, e os seus efeitos sobre o preço do ouro e da
própria indústria da sua mineração.
Dedica-se agora a escrever e fazer palestras sobre reforma fiscal e
monetária, com ênfase especial no papel do ouro e da prata no
sistema monetário.
No sítio web do jornalista Lars Schall consta também esta
entrevista do prof. Fekete: "
Gold: Permanent Backwardation Ahead!
"
O original encontra-se em
www.larsschall.com/2013/01/28/american-bases-in-germany-and-the-gold-basis/
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
.
|