O novo salvamento grego:
apenas um apaziguamento da Crise

por Yannis Varoufakis

Neville Chamberlain, 1869-1940. De acordo com a narrativa oficial, o euro foi salvo (mais uma vez) impedindo um incumprimento grego "desordenado" e contra o pano de fundo do "activismo" do Banco Central de Mario Draghi. Chega de narrativa oficial. Pois, na minha avaliação, a visão dos nossos líderes a proclamaram uma tal vitória contra a Crise tem um forte cheiro do momento em que Neville Chamberlain retornou de Munique, a contar a um aliviado público britânico que o acordo fora encontrado e a prometer-lhe "Paz no Nosso Tempo". Naturalmente, tudo o que ele havia conseguido fora comprar tempo para que a Guerra se tornasse mais forte, mais ameaçadora, de uma letalidade para além da compreensão. Analogamente, nossos líderes europeus apenas cederam a uma forma de Apaziguamento. Não da Alemanha (uma vez que estes líderes são, para ou melhor ou o pior, alemães) mas sim da Crise. Uma Crise que, sob a cobertura de celebrações inócuas de "resoluções" e "salvamentos", está a tornar-se cada vez mais forte, mais desagregadora e eficiente no modo como corrói os próprios fundamentos da eurozona.

Se bem que baste declarar a afirmação de que o euro foi salvo para que se perceba a sua fragilidade, apresentarei três considerações:

Primeiro, o próprio estudo de sustentabilidade do FMI em relação à dinâmica da dívida da Grécia, o qual torna perfeitamente claro que para domar a crise da dívida grega, sob o plano actual, seria preciso uma cadeia de milagres – da espécie que o mundo pós 2008 está um tanto carente.

Segundo, enquanto os spreads têm estado a declinar (devido à espectacular ambi-destreza do sr. Draghi para com os bancos, isto é, a LTRO [1] ), a verdadeira natureza da combinação de aumento dos desequilíbrios internos da eurozona e de uma ruptura completa do sistema inter-bancário da eurozona pode ser rastreada a partir do florescente montante do Objectivo 2 do Sistema Europeu de Bancos Centrais. O Börsenzeitung informa que é de €511 mil milhões a soma agora devida pelos Bancos Centrais dos países em défice àqueles países com excedente (essencialmente os Bancos Centrais da Alemanha e da Holanda). Uma ruptura do euro pode ter sido adiada pela LTRO do BCE mas o crescimento do montante do Objectivo 2 é um sinal de que tudo o que estamos a testemunhar é um Apaziguamento da Crise.

Terceiro, num momento de recessão pan-europeia (a qual está distribuída de forma desproporcional) a total e absoluta falta de qualquer política para transformar poupanças ociosas em investimentos produtivos (especialmente nas regiões deficitárias) é o equivalente moderno de imaginar que a Paz pode ser obtida quando os Deuses da Guerra capturarem os Detentores do Poder. Não aceite a minha palavra quanto a isto. Aqui está a Der Spiegel a chamar a atenção de modo sucinto.

[NT] LTRO: Ionger-term refinancing operation, operação de refinanciamento a longo prazo

Ver também:
  • O novo Plano A da Alemanha: Amputar a Grécia e Portugal, cauterizar e imprimir dinheiro
  • Averting the Next Greece: Portugal Needs More Money To Stay Afloat
  • EU Has Not Yet Faced the Whole Sad Truth About Greece
  • Os gregos salvam os bancos europeus

    O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/2012/02/22/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 23/Fev/12