A chanceler e os cegos
por Jacques Sapir
Assim, pois, a chanceler Angela Merkel lançou a peça. Uma
saída do Euro pela Grécia, após a próxima
eleição de 25 de Janeiro, já não é mais
impensável. Esta declaração é relatada pelo
sítio web do semanário
Der Spiegel, de sábado 3 de Janeiro
. É uma declaração
importante, que se pode analisar de duas maneiras diferentes, mas que
não são nada opostas.
A primeira é que a senhora Merkel, numa subtileza muito germânica,
decidiu fazer pressão sobre o eleitor grego. Sim, se "votarem
mal", uma saída do Euro é concebível. Portanto,
mantenham-se neste espaço! Ainda que com falta de subtileza, certamente
é mais eficaz que o apelo de Pierre Moscovici, antigo comissário
europeu, aos eleitores para votar pelo prosseguimento das reformas. Há
pessoas que não têm vergonha. Como se os gregos tivessem a menor
dúvida sobre o que significam estas reformas que puseram o seu
país de joelhos e que provocaram uma grande alta de mortalidade. Na
realidade, estas reformas não tiveram o resultado esperado, o que
é inteiramente normal face às realidades da economia. O fraco
crescimento registado pela Grécia (+0,7% após uma queda
vertiginosa nos anos anteriores) não se explica senão por uma boa
temporada turística
[1]
. As exportações continuaram a declinar em 2014, um processo
acelerado pelo embargo decretado pela Rússia sobre os produtos
agrícolas após sanções decididas pela União
Europeia. Mas a senhora Merkel poderia também estar a cometer um erro
gröss
supondo que a população grega continua presa ao Euro.
De facto, uma sondagem realizada pela Gallup International datada de Dezembro
2014 dá resultados interessantes e nada surpreendentes:
Tabela 1- Resultados da sondagem (Dezembro 2014)
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Da União Europeia
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Em relação ao Euro
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Sente-se mais próximo
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10%
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Deseja conservar o Euro
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32%
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Sente-se mais afastado
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52%
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Deseja recuperar a moeda nacional
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52%
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Sem mudança
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35%
|
Nenhuma opinião
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11%
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Sem resposta
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3%
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Sem resposta
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5%
|
Fieldwork conducted by WIN/Gallup International,
www.Gallup-international.com
Portanto não está absolutamente provado que a
"ameaça" agitada pela sra. Merkel, que incidentalmente
demonstra sua "alta" concepção da democracia, tenha o
efeito esperado sobre o eleitor grego.
Uma segunda maneira de analisar esta declaração consiste em nela
ver a ruptura de um tabu absoluto: não se sai da zona Euro!
Quanto
já não foi dito a este respeito e que imbecilidades não
foram
proferidas em diversas ocasiões. Na falta de um florilégio
exaustivo tivemos direito a "uma saída do Euro duplicaria o peso
da divida francesa" (Nicolas Sarkozy que visivelmente, apesar do advogado
que é, ignora o direito internacional e o facto de que um título
emitido em França é reembolsável na moeda da
França) ou ainda "uma desvalorização do Franco de 20%
significaria uma alta de 20% do preço do carburante na bomba" (o
preço mundial do petróleo baixou 50%, notou uma baixa equivalente
aquando das vossas paragens numa estação de abastecimento?) e
finalmente "uma saída do Euro provocaria uma alta do desemprego de
1,5 milhão" (Institut Montaigne) quando todos os cálculos
económicos mostram pelo contrário uma forte melhoria do emprego
nos três anos seguintes a uma dissolução da zona Euro e uma
depreciação de 20% do Franco recuperado
[2]
. A ruptura deste tabu pela própria sra. Merkel deve ter
constituído um verdadeiro choque para os eurolatras de toda
espécie, quer à direita (Fillon) ou à
"esquerda". Imagina-se as caras decompostas, os ares de
catástrofe, o pânico desenfreado. Ouvem-se já os
comentários luminosos da inteligência, como aqueles produzidos
pelo inexorável Pierre Moscovici: "mas isso vai dar razão
à Frente Nacional"...
Horresco referens
[NT]
.
Certamente não virá a nenhum destes "grandes
espíritos" a ideia de que, justamente, ao dissolver o Euro a partir
de hoje, a frio, retirar-se-ia à Frente Nacional um dos seus melhores
argumentos. É verdade que Júpiter, que os gregos chamam de Zeus,
enlouquece aqueles que quer perder... E Pierre Moscovici poderá retornar
à sua concha (a 25 mil euros por mês, ela é revestida de
ouro) para se deitar sob a vassoura da sra. Merkel.
Contudo, é preciso compreender as razões que puderam levar a
chanceler a romper este tabu. Será porque ela compreendeu que a
zona Euro na realidade esta morta? Já não há
integração bancária, ao contrário do que se afirma,
como o demonstram dois autores, Anne-Laure Delatte e Vincent Bouvatier num
documento no sítio VOX do CEPR
[3]
. Ou será que a sra. Merkel sabe que por trás da Grécia
perfila-se uma crise com uma outra importância na Itália, que
poderia muito rapidamente ser seguida pela Espanha e pela França? Em
suma,
será esta declaração o produto de uma "fadiga"
da assistência, e sabe-se que o problema grego está condenado a
ressurgir de maneira regular no menu dos Conselhos Europeus, ou de uma tomada
de consciência da acumulação dos problemas tanto
económicos como políticos que rapidamente vão tornar a
zona Euro ingerível? Não é impossível, neste caso,
que a sra. Merkel, que desejará evitar que o peso político de uma
ruptura da zona Euro caia sobre as costas da Alemanha, procure numa crise
preparada
a ocasião de proceder a uma dissolução que ela pressente
como inevitável.
Também é preciso avaliar o impacto de uma tal
declaração sobre o governo francês. Compreenderá ele
que tem nas mãos simplesmente a última, a derradeira,
oportunidade de retomar o controle? Se o nosso governo tivesse a lucidez e a
coragem que os acontecimentos impõem, ele tomaria as iniciativas e, ao
invés de se condenar a uma postura reactiva, aproveitaria a oportunidade
que lhe oferece a sra. Merkel e proporia uma dissolução
concertada do Euro. Deve-se temer que, encerrado num autismo tanto
político como económico, ele não faça nada e que
continuemos a nos dirigir para a crise tais como cegos num mundo em pleno
tumulto.
04/Janeiro/2015
[1]
J. Bastian, "Is there (sustainable) growth in Greece?",
publicado em 19 Novembro no Blog
Macropolis,
14 novembre 2014,
www.macropolis.gr/?i=portal.en.the-agora.1720
[2] Remete-se o leitor à brochura redigida por Sapir J., Murer P.
e Durand C.,
Les Scénarii d'une dissolution de l'Euro,
Fondation ResPublica, Paris, septembre 2013. Ver
resistir.info/europa/dissolucao_do_euro.html
[3] Vincent Bouvatier, Anne-Laure Delatte,
Eurozone bank integration: EU versus non-EU banks,
14 décembre 2014,
www.voxeu.org/article/eurozone-bank-integration-eu-versus-non-eu-banks
[NR] De modo alarmista, os noticiários dos media ditos de
referência classificam o Syriza como "radical" pelo simples
facto de pretender uma renegociação da dívida grega
para com bancos europeus (o que tem implicaçõoes com os Credit
Default Swaps).
Mas o Syriza é apenas um partido social-democrata, o sucessor do
desmoralizado Pasok. Ele não defende que a Grécia seja
libertada do Euro, nem da UE nem da NATO. Assim, a sua eventual
vitória eleitoral não significará a
libertação do povo grego.
As promessas demagógicas que faz para ganhar eleições
retomar o crescimento
e simultaneamente
manter o país na zona Euro são uma
contradição em termos.
[NT]
Em latim: Tremo ao dizer.
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/3233
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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