A humilhação nacional dos EUA pela Eurásia (2)
por Max Parry
[*]
No século XIX a China era "o doente da Ásia",
no século XXI os EUA são "o doente do Ocidente"
A China tem sido a superpotência económica mundial em
ascensão com a sua mistura única de empresas privadas e estatais,
enquanto a economia dos EUA tem encolhido à medida que a
liberalização do comércio e a globalização
desindustrializaram o seu "Cinturão da Ferrugem".
Simultaneamente, a despesa do orçamento militar tornou-se tão
gigantesca que não pode ser auditada, ao mesmo tempo que as precipitadas
guerras imperialistas no Médio Oriente após o 11 de setembro
marcaram o início do fim da hegemonia americana.
Em 2016, Donald Trump subiu ao poder contra a elite económica e
política por causa das suas "guerras sem fim" e acordos de
livre comércio anti-trabalhadores, abandonando a proposta de Parceria
Transpacífico (TPP) no seu primeiro dia no cargo e impondo tarifas
protecionistas que deram início a uma guerra comercial EUA-China.
Infelizmente, quaisquer esforços para fazer retornar aos EUA a
capacidade produtiva deslocalizada para a China por multinacionais e reduzir a
extensão do império americano, estavam destinados ao fracasso.
Trump também foi perseguido politicamente pelos democratas e pela
comunidade dos serviços de segurança por ousar estabelecer um
desanuviamento com Moscovo como candidato, tendo passado todo o seu mandato a
tentar apaziguar o "estado profundo" de Washington com poucos
resultados. Curiosamente,
foi relatado
que não terá sido
ninguém mais, senão Henry Kissinger que encorajou Trump a aliviar
as tensas relações com a Rússia como estratégia
para conter a China, o inimigo tradicional, em relação à
qual ele convenceu Richard Nixon a dar passos em direção à
paz.
O Partido Republicano, representando os interesses do complexo
militar-industrial, retribuiu a histeria anti-Rússia acusando Joe Biden
de ser fraco com a China, embora a administração anterior de
Obama-Biden tenha presidido a um aumento militar sem precedentes no
Pacífico como parte do "pivô para a Ásia" dos
EUA. As opiniões dos membros de ambos os partidos também parecem
seguir as linhas partidárias, conforme indicado numa
sondagem recente da Gallup
, onde apenas 16% dos democratas têm uma visão positiva da
Rússia e apenas 10% dos republicanos consideram a China favoravelmente.
A ascensão da Rússia e da China no cenário global
representa uma ameaça tão grande para a presença do
domínio global de Washington que o chefe do Comando Estratégico
dos EUA, Almirante Charles Richard,
alertou
recentemente sobre a possibilidade muito real de uma guerra nuclear no futuro
com os dois países.
Sob a administração de Xi Jinping, a China reformulou a ordem
geopolítica com seu ambicioso projeto de infraestruturas Belt and Road
Initiative (BRI), também conhecido como Nova Rota da Seda. Ao mesmo
tempo, a Rússia reintegrou várias das ex-repúblicas
soviéticas na formação da União Económica da
Eurásia (EAEU). É, pois, concebível que o regresso da
Rússia à política mundial tenha o potencial de transformar
a esfera de competição entre os EUA e a China num plano
multipolar onde o equilíbrio de poder pode mudar em
direção a um cenário geopolítico mais
estável a longo prazo. No entanto, o desafio feito pela parceria
Xi-Putin ao domínio do capital ocidental é a base para a
agressividade dos EUA em relação à Eurásia, tal
como a união das suas forças para restaurar as
relações políticas sino-russas rompidas décadas
atrás.
Quando a União Soviética se dissolveu, a tentativa de
aliança EUA-China efetivamente terminou e a reaproximação
sino-russa começou. Mas o que impediu a RPC de seguir o mesmo caminho
que o Bloco de Leste? Por que Deng teve sucesso e Gorbachev falhou? Afinal, os
protestos da Praça Tiananmen de 1989 foram simultâneos às
numerosas "Revoluções Coloridas" por trás da
Cortina de Ferro, embora a narrativa ocidental sobre o Incidente do Quatro de
Junho omita que entre os manifestantes "pró-democracia"
estavam muitos maoistas que consideraram as reformas de mercado de Deng uma
traição ao socialismo chinês. Acontece que o próprio
Xi Jinping identificou corretamente um dos principais motivos pelos quais a
URSS se dissolveu num
discurso
de 2013:
"Por que a União Soviética se desintegrou?
Por que razão o Partido Comunista Soviético caiu do poder? Uma
razão importante foi que a luta no campo ideológico foi
extremamente intensa, negando completamente a história da União
Soviética, negando a história do Partido Comunista
Soviético, negando Lenine, negando Estaline, criando niilismo
histórico e pensamento confuso.
Os órgãos do partido em todos os níveis haviam perdido as
suas funções, os militares não estavam mais sob a
liderança do partido. No final, o Partido Comunista Soviético, um
grande partido, dispersou-se, a União Soviética, um grande
país socialista, desintegrou-se. Esta é uma história de
advertência!"
Xi está correto ao dizer que a China, ao contrário da
União Soviética, nunca cometeu o erro crucial de fazer o jogo do
Ocidente ao condenar sua própria história, como fez Khrushchev no
seu "Discurso Secreto". Apesar do facto de o relatório do
líder soviético conter falsidades demonstráveis, como a
afirmação absurda de que Estaline, um dos mais eficientes
assaltantes de bancos da Rússia como revolucionário, era um
cobarde com medo da invasão nazista que se aproximava de Moscovo durante
a Segunda Guerra Mundial. O seu discurso servil dividiu o movimento comunista
internacional e lançou as bases internas para a queda final da URSS.
Quanto às razões económicas para os diferentes resultado
entre a URSS e a China, o falecido historiador marxista
Domenico Losurdo explicou
:
"Se analisarmos os primeiros 15 anos da Rússia Soviética,
veremos três experiências sociais. A primeira experiência,
foi baseada na distribuição igualitária da pobreza
existente, sugere o "ascetismo universal" e o "igualitarismo
rude" criticados no Manifesto Comunista. Agora podemos entender a
decisão de passar para a Nova Política Económica de
Lenine, que muitas vezes foi interpretada como um retorno ao capitalismo. A
crescente ameaça de guerra empurrou Estaline para uma ampla
coletivização económica. A terceira experiência
produziu um estado de bem-estar social muito avançado, mas terminou em
fracasso: os últimos anos da União Soviética, foram
caracterizados por absenteísmo em massa e descomprometimento com o local
de trabalho; a produtividade estagnou e tornou-se difícil encontrar
qualquer aplicação do princípio que Marx afirmou dever
presidir ao socialismo a remuneração de acordo com a
quantidade e a qualidade do trabalho produzido".
A história da China é diferente: Mao acreditava que, ao
contrário do "capital político", o capital
económico da burguesia não deveria estar sujeito à
expropriação total,
[NT]
pelo menos enquanto pudesse servir ao desenvolvimento da economia nacional.
Depois da tragédia do Grande Salto em Frente e da
Revolução Cultural, foi preciso Deng Xiaoping enfatizar que o
socialismo implica o desenvolvimento das forças produtivas. O socialismo
de mercado chinês alcançou um êxito
extraordinário".
Uma vez que a recuperação económica da China foi
simultânea com a queda do capitalismo dos EUA, deixou os EUA apenas com
uma opção: obrigar a RPC a tornar-se igual ao seu próprio
sistema em ruínas. Infelizmente, na maioria dos casos, a pseudo-esquerda
eurocêntrica repete a propaganda dos ideólogos ocidentais do
pensamento estratégico, de que a China é "capitalismo de
Estado" e até mesmo "imperialista". Isto significa
também que os seus ganhos económicos sem paralelo deveriam, pois,
ser resultado do capitalismo, não do planeamento estatal, o que é
outra invenção.
Já houve caso mais claro de projeção neocolonial do que a
infundada acusação de "diplomacia da armadilha da
dívida" lançada contra o BRI da China pelo Ocidente?
É verdade que a China busca lucrar no Sul Global, mas com base em termos
de benefício mútuo para as nações em
desenvolvimento anteriormente saqueadas por instituições
financeiras ocidentais que, na verdade, impõem a escravidão pela
dívida aos países de baixo rendimento.
Na realidade, Pequim é apenas culpada de oferecer uma alternativa
vantajosa para todos os países explorados sob o jugo do imperialismo.
Uma vez, os próprios EUA imaginaram um mundo pacífico de
cooperação mútua e comércio sob a Política
de Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt, um legado esquecido que o BRI
de Xi está a cumprir.
Nada disto quer dizer que a China não mereça qualquer
crítica. Pelo contrário, os seus paradoxos são tão
profundos quanto suas realizações e
seria ingénuo pensar que o capital chinês, se deixado sem
controlo, não tem o potencial de ser tão predatório quanto
a variedade ocidental.
A livre iniciativa é tão inerentemente instável que a sua
natureza destrutiva será impossível de conter para sempre, mesmo
por um partido como o PCC, e deve ser finalmente desagregada.
Sem a retenção de um grande setor estatal que mantenha a
infraestrutura vital e os serviços públicos, as
relações de mercado na China causariam estragos, como aconteceu
na Rússia pós-soviética. Isto, sem mencionar que o maior
progresso feito pela RPC foi nos anos anteriores às reformas
pró-mercado e, em última análise, serviu como a base sobre
a qual o "socialismo com características chinesas" pode
prosperar.
A lição da queda da URSS é que mesmo uma sociedade capaz
dos mais incríveis avanços humanos não é
invencível para um ambiente de mercado.
A União Soviética resistiu a uma invasão de mais de uma
dúzia de nações aliadas durante a Guerra Civil Russa e ao
ataque da máquina de guerra nazi na Segunda Guerra Mundial, mas sucumbiu
à perestroika. Embora a Rússia possa estar sob o mercado livre,
ambas as nações são uma ameaça ao capital ocidental
porque representam um novo modelo de cooperação onde todos ganham
nas relações internacionais e o fim da unipolaridade dos EUA.
[NT] Acerca da posição de Estaline, num texto de 1952, sobre a
não nacionalização das cooperativas e pequenos e
médios produtores individuais, uma "proposta totalmente incorreta e
absolutamente inaceitável", posição alterada por
Khrushchev, ver
Problemas Económicos do Socialismo na URSS, o autor e a obra, 2ª Parte
A primeira parte deste artigo encontra-se em
www.resistir.info/eua/humilhacao_eua_1.html
[*]
Jornalista independente e analista geopolítico. Os seus escritos
são divulgados amplamente nos media alternativos. Pode ser contactado em
maxrparry@live.com
O original encontra-se em
www.informationclearinghouse.info/56462.htm
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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