"Caminhamos para uma
indianização
do Brasil"
2017, o ano que não deveria ter existido
por Ricardo Antunes
entrevistado por Gabriel Brito
O Brasil termina o ano com a cara no chão. Desolado, fraturado, repleto
de ressentimentos e sem nenhuma perspectiva para o próximo
período. Na entrevista que encerra o ano, o
Correio da Cidadania
conversou com o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, professor e
pesquisador da Unicamp. Para definir o momento, ele atualiza o conceito da
"contrarrevolução preventiva", alusão ao golpe
militar de 1964 e que ocorre em escala global, ainda que não vivamos uma
era revolucionária.
"Uma derrota profunda dos movimentos populares, sociais, dos partidos de
esquerda, dos trabalhadores e até da luta democrática. Vivemos no
Brasil de hoje um 'Estado de Direito de Exceção'. E isso
significa que a justiça burguesa é conivente com tal estado e o
aparato repressivo usado violentamente", resumiu.
Ainda que não haja mal que dure para sempre, não será
fácil criar as articulações necessárias contra o
referido "estado de exceção permanente" que se desenha,
onde se reforçam, no caso brasileiro, a "politização
do judiciário e a judicialização da política".
Mesmo porque, nas fileiras que poderiam liderar as pautas favoráveis
à população que vive do trabalho, o peleguismo das
centrais sindicais atinge patamares inacreditáveis, como novamente se
viu na greve que não houve neste começo de dezembro.
"Lula insiste que para governar o Brasil deve-se aliar a deus e ao diabo
na terra do sal. Obviamente, isso deslegitimou o PT. Perguntam: 'mas por que o
Lula tem tanta intenção de voto?' Porque a
população sabe que entre os equívocos cometidos pelo PT e
a devastação social do Temer há alguma diferença.
Há uma diferença na desmontagem mais 'suave' e a brutalidade da
devastação de Temer", explicou.
O quadro é duríssimo e as marcadas divisões sociais
voltaram com força total, como demonstraram os conservadores e sua
considerável má fé em relação à ideia
de corrupção.
"Caminhamos celeremente para uma 'indianização' do
país. Vamos nos tornar um país com a miséria do tamanho da
Índia, que é brutal e combina um sistema perverso de castas e
classes, exploração, superexploração,
espoliação, naturalizando a miséria de centenas de
milhões de pessoas, tratadas de forma inferior... Vemos coisas assim e o
que dizem as classes médias conservadoras? "Tirem os pobres do meu
portão", afirmou.
A entrevista completa com Ricardo Antunes pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Como resumir o Brasil de 2017 em suas principais esferas?
Ricardo Antunes:
Foi o ano que talvez não devesse ter existido. Vivemos uma
regressão de tal intensidade que não é absurdo fazer
paralelo com a ditadura e o golpe de 1964. Claro que o contexto e o capitalismo
são diferentes, assim como as lutas sociais, a história e
conjuntura, mas é possível lembrar, como dizia Florestan
Fernandes, e tenho usado muito tal ideia, da
"contrarrevolução preventiva" no Brasil, mesmo sem
haver risco de revolução.
2017 consolidou a contrarrevolução preventiva dada pelos
conjuntos dos capitais, suas ramificações financeira,
bancária, comercial, de serviços, agroindústria, pelas
corporações em geral. Encontraram na
contrarrevolução com Temer a possibilidade de extinguir o ciclo
de conciliação de classes, positivo aos capitais por longo
período, em especial nos dois primeiros governos Lula e parte do
primeiro governo Dilma.
Mas a partir de 2013-14 e o avanço da crise econômica nos
países da periferia, mesmo que os intermediários como
Rússia, Índia, África do Sul, México, Brasil,
sofremos as consequências mais profundas da crise econômica que
havia avassalado o centro do sistema capitalista. O resultado foi decisivo para
tais frações das classes dominantes, primeiro, definirem que,
como sempre, o ônus seria jogado em cima dos ombros da classe
trabalhadora. De modo que agora lidamos com a contenção de gastos
em saúde, educação, previdência,
flexibilização e corrosão da legislação do
trabalho, com a terceirização total e a nova
legislação trabalhista que não fez outra coisa
senão legalizar todas as burlas que o empresariado tentava emplacar
[fazer aprovar] sobre a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho].
Basta ler nos textos da nova lei como se tenta, parágrafo por
parágrafo, desmantelar o que está escrito na CLT. Assim, num
contexto de crise profunda, interessava primeiro impor o negociado sobre o
legislado, perdendo o patamar mínimo de direito trabalhista. Com isso, a
porteira ficou aberta e animais de todo tipo vão passar, como disse um
juiz do trabalho.
Em segundo lugar, o decreto que desvertebra a CLT introduz o elemento mais
nefasto do capitalismo de hoje, o incentivo ao trabalho intermitente.
Passaremos a ter uma classe trabalhadora disponível para o trabalho o
tempo todo, a receber quando trabalhar e perecer quando não o fizer. A
experiência do
zero hour contract
na Inglaterra já demonstra isso. O empregador não é
obrigado a chamar o empregado, e este não é obrigado a atender a
eventual chamada. Uma vez que atendeu, recebe apenas por aquele trabalho
específico. O exemplo do Uber, em expansão, é a
tendência em ampliação.
Como estou trabalhando no meu próximo livro, que tem como título
"O Privilégio da Servidão", isso é o que
está se criando em escala global: se os trabalhadores jovens tiverem
sorte, no futuro imediato, serão servos. Intermitentes, informais,
precarizados, numa miríade de trabalhos que assumem a forma de
"autônomos" e "independentes" para, na verdade,
mascarar os trabalhadores assalariados que de fato são.
E o decreto do Temer ainda tem embutida a desestruturação e, no
limite, a eliminação da Justiça do Trabalho no Brasil.
É de assustar, porque a Justiça do Trabalho foi criada por Vargas
no Brasil para incentivar a conciliação de classes, e a
contrarrevolução preventiva do governo Temer está em
sintonia com a agenda de imposição dos grandes capitais (afinal,
é um governo terceirizado, um gendarme, fantoche obediente aos grandes
capitais que movem seus fios) para acabar com a política de
conciliação de classes.
Correio da Cidadania: O que o governo Temer e o Congresso que o acompanha em
ideias e práticas representam, de fato, em termos estruturais?
Ricardo Antunes:
É preciso reconhecer a qualidade política que Temer demonstra.
Ele conseguiu consolidar uma maioria parlamentar, na expressão mais
pantanosa da história deste parlamento, de onde o próprio
é cria e, portanto, nada muito bem nas águas deste pântano.
Mais que isso: conseguiu alterar a seu favor peças importantes no
Supremo [Tribunal Federal], fundamental para dar-lhe margem de manobra
jurídica no plano máximo possível. E conseguiu inclusive
alterar o comando da Polícia Federal, o que mostra capacidade
política. "Faço o que vocês (os capitais) mandam, mas
preciso de apoio do legislativo e do judiciário, além do aparato
repressivo". E conseguiu, como vimos ao se livrar de dois processos de
impeachment, a ponto de seu atual ministro tentar denunciar criminalmente o
Janot
[1]
. Vejam a que ponto se chegou.
Portanto, 2017 é o ano que não deveria ter existido. Uma derrota
profunda dos movimentos populares, sociais, dos partidos de esquerda, dos
trabalhadores e até da luta democrática. Vivemos no Brasil de
hoje um "Estado de Direito de Exceção". E isso
significa que a justiça burguesa é conivente com tal estado e o
aparato repressivo usado violentamente.
Nesses dias vimos na Argentina uma violenta repressão do aparato
repressivo argentino
[2]
, contra movimentos sindicais, operários etc. que lutam contra as
"reformas" similares às do governo Temer.
Correio da Cidadania: Por que o discurso e os protestos contra a
corrupção desapareceram, a seu ver?
Ricardo Antunes:
Aquilo foi fundamentalmente um álibi para, digamos, destituir o governo
do PT. As classes médias conservadoras, as dominantes e em particular os
aparatos midiáticos que jogaram todo seu peso no golpe que levou
à deposição da Dilma sabiam que o PT tinha cometido um
erro que, ao nascer, dizia que iria combater. Com todas as suas
limitações que sabemos, sua proposta visava a combater a
corrupção e esse era um dos traços distintivos que o PT
dizia ter em relação aos chamados partidos da ordem.
Com o mensalão e a consolidação de afinidades eletivas e
perigosas com o grande empresariado, em especial da construção
civil, se evidenciou que o PT caíra na vala comum, onde o PMDB domina e
o PSDB, DEM e outros deste terreno pantanoso sempre dominaram. De 2003 a
2015-16, em linhas gerais, ao longo dos governos Lula e Dilma, era o PT quem
tinha o controle do butim. Era quem fazia a distribuição aos
partidos da base aliada, imaginando que poderia comandar e ter hegemonia no
processo de distribuição das verbas públicas para garantir
seu projeto político. O PT foi fagocitado porque, primeiro, não
tem ou tinha ideia da força dos partidos de direita que há
décadas praticam a corrupção. O PMDB mostrou: em meio
à Lava Jato simplesmente turbinou e aumentou o ritmo da
corrupção, como vimos no processo da JBS e da
aparição do
Rodrigo Rocha Loures
e suas malas de dinheiro.
O segundo ponto: as classes médias conservadoras foram impulsionadas
pela mídia. Não tem como não lembrar da
Globo
elogiando as manifestações e convidando as pessoas a irem em
massa. A grande imprensa jogou pesado nas manifestações. E as
classes médias têm uma duplicidade: de um lado, a ignorância
dos que acham que a corrupção começou outro dia com o PT e
que ao acabar com o governo deste partido estaria tudo bem. De outro lado, a
má fé de quem tem a percepção da
corrupção ser marcante na história brasileira e, mais que
isso, deve ser exclusividade e território das direitas e
"centrões".
Assim, era o momento de dizer "a corrupção é nossa,
das direitas, o PT é estranho no ninho e deve pagar por isso". Quem
ingenuamente acreditou que o fim do PT era o fim da corrupção,
está boquiaberto. As classes médias conservadoras e
ideologicamente agressivas falam numa boa: "melhor o Temer fazer a
devastação dos direitos coletivos e sociais do que o PT".
Porque pelo menos a corrupção se mantém entre os de
sempre, mas os direitos sociais estão sendo devastados e é isso
que para estes setores conservadores efetivamente importa.
E chegamos ao terceiro ponto: falta agora o desmonte e corrosão da
previdência pública. Pasmem, o Brasil faz o caminho do Chile, que
já privatizou sua previdência e de fato extinguiu uma
previdência social segura e pública. E agora precisa
republicizá-la. Porque previdência privada é sinal de
calote. A população pobre, diga-se, porque os ricos são
muito "previdentes", têm investimentos, casas, grandes
ações, recursos patrimoniais e fora do país
incalculáveis, enfim, não têm nem mais onde guardar
dinheiro, não precisam de previdência.
O que aconteceu no Chile? Os pobres pouparam por 30 ou 40 anos na
previdência privada e quando foram recorrer a ela estava falida,
deixando-os sem nada. Sem falar no roubo da Petrobras, da Eletrobras, a
privatização de tudo da Res-publica, tanto ao capitalismo
ocidental como oriental. A China compra tudo que pode, daqui a pouco isso aqui
vai ser uma colônia chinesa, de tanto que este capital entra aqui e
disputa todo o butim com os demais grandes capitais estrangeiros.
Correio da Cidadania: Do lado daqueles que foram apeados do poder e se dizem de
esquerda, o que você comenta?
Ricardo Antunes:
Vou tentar responder por meio de dois pontos. Primeiro, a cúpula do PT e
depois as ações de resistência.
No primeiro caso, não deixando de reconhecer que há uma
dissensão grande no interior do PT, como lideranças importantes
no RS, a exemplo de Tarso Genro e Olívio Dutra, dentre muitos outros,
ainda que com diferenças. Eles já manifestaram claramente a
necessidade de a direção do partido pagar pelos erros cometidos.
Disseram até na TV que não era para aquilo que tantos milhares de
militantes criaram o PT. Tarso chegou a sugerir que faltava legitimidade
à direção do PT.
De todo modo, o mais assustador é Lula não fazer uma
autocrítica. Em momento algum reconhece que se tentou conciliar o
inconciliável, que deveria ser muito mais duro com os capitais... Pelo
contrário, faz o mesmo! Até vimos recentemente a ideia de se
convidar o filho do José de Alencar para reeditar a aliança
policlassista que, de mais a mais, pode levar o próprio Lula ao
cárcere. A ideia não deu certo aparentemente, mas depois apareceu
como possibilidade o nome do
Luís Carlos Trabuco
, cujo nome já
seria suficiente para explicar o que viria. E só não tenta o
Meirelles
[3]
porque este agora está no outro bloco. Se pudesse, Lula reinventaria o
"trabuco do Meirelles".
Qual o mínimo, só o mínimo, de autocrítica? Nada.
Lula insiste que para governar o Brasil deve-se aliar a deus e ao diabo na
terra do sal. Obviamente, isso deslegitimou o PT. Perguntam: "mas por que
o Lula tem tanta intenção de voto?" Porque a
população sabe que entre os equívocos cometidos pelo PT e
a devastação social do Temer há alguma diferença.
Só um tosco diria que não há diferença alguma.
Aliás, foi por isso que a Dilma caiu. Tomou uma série de medidas
duras de ajuste, mas seria impossível ela levar adiante a
terceirização total, arrebentar a CLT, matar a previdência
e congelar a correção mínima de investimentos
públicos por 20 anos. A educação e a saúde
já estavam na UTI [Unidade de Tratamento Intensivo], mas agora
estão a caminho do inferno. As bases petistas e sindicais não
permitiriam essa devastação comandada por um governo do PT.
Há uma diferença na desmontagem mais "suave" e a
brutalidade da devastação de Temer.
Uma destruição é lenta, outra tem a máxima
intensidade. Mas é importante recordar que a primeira tentativa de
implantar o negociado pelo legislado foi proposta pelo Sindicato dos
Metalúrgicos no governo Lula. Muitos criticaram, a ponto de se abortar a
medida. Imaginava-se uma ilha sindical avançada num país
socialmente destroçado.
É complicado entender por que não há reação
agora. Há uma taxa altíssima de desemprego. Se pegarmos a massa
real de desemprego (incluindo o subemprego e o desemprego por desalento) temos
praticamente 30 milhões de pessoas que vivenciam tais
condições. Os assalariados percebem o risco que correm se fizerem
greves, tornam-se candidato número 1 ao desemprego.
Há toda uma manipulação da mídia comercial de que o
país cresce 1%, o que na verdade é pífio e provavelmente
tem muito mais conexões com o recebimento do FGTS meses atrás,
permitindo a uma parte da população pagar dívidas,
consumir um pouco mais, voltar a comprar um frango por semana, do que com a
retomada da economia. Não se retoma economia com juros altos,
retração do Estado e devastação generalizada.
Não passa de mito pervertido dizer que acabar com a
legislação do trabalho gera empregos. O que cria emprego
não é a flexibilidade do trabalho, senão nem haveria
desemprego nos EUA e Inglaterra, já que lá a flexibilidade
é ampla. O que cria emprego é o movimento da economia, e isso tem
a ver com cenário internacional, com a impulsão maior ou menor do
Estado nos setores que puxam a produção.
Correio da Cidadania: Como grande estudioso do mundo do trabalho e sindical, o
que você comenta das centrais sindicais brasileiras e suas
decisões, inclusive de cancelar a greve recente?
Ricardo Antunes:
Para os trabalhadores, o movimento de greve tem de ter uma ação
forte dos sindicatos, dos movimentos sociais (como o MTST, que é nosso
movimento mais organizado e importante, como vemos no importante acampamento
com cerca de 8000 famílias em São Bernardo e cuja vitória
é importantíssima para a ampliação deste movimento
e das lutas sociais e políticas no Brasil hoje). Em
relação à greve, se não há engajamento das
centrais sindicais fica difícil fazer uma paralisação
forte.
A paralisação deveria ter sido confirmada, como uma
ação inicial para ir preparando uma paralisação
mais forte ainda. Com as áreas mais organizadas sindicalmente fazendo
uma ação de paralisação, criam-se espaços de
debate para mostrar porque mesmo uma paralisação parcial é
importante para derrubar medidas devastadoras. Poderia se explicar que sob a
capa da diminuição de privilégios estão na verdade
perpetuando-os, na medida em que um alto nível de calote do empresariado
não é cobrado. Que a dívida pública real decorre
dos juros pagos aos bancos. Que, uma vez aprovada a reforma de
previdência privatista e pró-bancos e fundos privados de
pensão, com a reforma trabalhista incentivando trabalhos intermitentes,
onde a arrecadação do trabalho assalariado vai diminuir muito e,
tudo isso tornará a previdência menos volumosa em termo de
recursos, e sobre a sua privatização, que é profundamente
nefasta em todos os sentidos.
Hoje, a arrecadação sobre os assalariados é grande, o que
falta é arrecadar dos altos e mais ricos estratos sociais, além
de tributar os grandes capitais e lucros, a herança, os ganhos dos
bancos etc. Algo sequer tratado nos governos do PT. Não houve
tributação do capital financeiro, das heranças, longe
disso, em muitas ocasiões foram diminuídos os impostos do grande
empresariado para gerar mais emprego. Mas fazer isso, por exemplo, em
relação à indústria automobilística existe
contrapartida: ao mesmo tempo em que (positivamente) se gera emprego, polui-se
mais, incentiva-se a indústria de transporte e reduzem-se recursos
extraídos da tributação para saúde,
previdência e educação públicas.
A população olha e diz: se eu lutar, sem apoio efetivo dos
sindicatos e centrais que têm presença coloco minha cabeça
a prêmio e ela será cortada. A pergunta é: por que as
grandes centrais não querem fazer isso? Algumas centrais são
diretamente apelegadas, negociam com Temer desde o começo. Outras
são hesitantes. Veem suas bases diminuir, perdem espaço... E
outras têm as dificuldades naturais por serem minoritárias.
É preciso dizer ainda que a Reforma Trabalhista contempla o fim do
imposto sindical. Em tese, eu sempre fui a favor disso. Mas não se pode
acabar com tal imposto no momento em que os sindicatos vivem um desmoronamento,
dado que suas bases assalariadas diminuem há tempos. Portanto, para
garantir o imposto sindical, ou um novo mecanismo de arrecadação,
tais centrais que convivem historicamente com o peleguismo usam a greve como
pretexto. Aí aparece o Temer com suas mãos pululantes, acena com
esse agrado e as greves sobem no telhado...
Há sindicatos e movimentos sindicais importantes, centrais que
não entram na conciliação, há até sindicatos
ligados à CUT
[4]
insatisfeitos com a devastação e convivem
com muito descontentamento das bases (quanto mais a CUT perde base, mais a
Força Sindical
[5]
e outras avançam neste espaço). Tudo isso
cria uma disputa e a população sabe discernir qual central luta
de fato e quais usam a luta para garantir o peleguismo. A
CONLUTAS
e a
Intersindical
têm dificuldades, pois ainda atuam parcialmente em setores da classe
trabalhadora e sem força para ações de maior envergadura.
A sua aproximação com os movimentos sociais politicamente mais
organizados torna-se vital.
Mas o cenário é difícil, ainda que não seja eterno.
Estive na Argentina um mês atrás, a população
discutia a reforma do Macri e seus riscos esse paladino da
devastação no país vizinho. E haveremos de ter
situações como a desses últimos dias na Argentina em mais
lugares.
Aqui no Brasil a classe trabalhadora e as classes populares vivem risco
iminente, muitos estão desempregados, famílias inteiras
estão desempregadas. Notamos o número de famílias e
crianças que morando nas ruas da cidade... Crianças!
Caminhamos celeremente para uma "indianização" do
país. Vamos nos tornar um país com a miséria do tamanho da
Índia, que é brutal e combina um sistema perverso de castas e
classes, exploração, superexploração,
espoliação, naturalizando a miséria de centenas de
milhões de pessoas, tratadas de forma inferior... Vemos coisas assim e o
que dizem as classes médias conservadoras? "Tirem os pobres do meu
portão".
Correio da Cidadania: O que pensa do lulismo a essa altura dos acontecimentos,
considerando que Lula tenha possibilidades de participar da
eleição de 2018?
Ricardo Antunes:
Talvez seja um ponto que a contrarrevolução do Temer não
tenha como evitar. Quanto mais ela avança, mais aquela
população, mesmo aquela enfurecida com o fim dos governos Lula e
Dilma, vai olhar para trás e dizer: "olha, aquilo era ruim, mas o
de hoje é muito pior". É o calcanhar de Aquiles do governo
Temer: quanto mais se aprovam suas contrarreformas, maior será o
descontentamento, o que por certo favorece em alguma medida a Lula.
A reforma trabalhista, assim como as outras, foi aprovada sem debate. Para
desmontar a legislação protetora do trabalho o Temer fez discurso
de que estava modernizando, melhorando, assim como na Previdência agora,
com toda a desfaçatez possível. As pessoas não vão
conseguir trabalhar por 25, 30, 40 anos, pois muitos terão trabalhos
intermitentes, e vão ter de chegar aos 120 anos para conseguir se
aposentar pela fórmula do Temer. Isso é muito brutal, criminoso
mesmo e por certo fortalece o Lula.
Outra coisa: a população se dá conta do tratamento
diferenciado que a Lava Jato concede a Lula e aos demais. Por exemplo:
não há nenhuma dúvida de que o Aécio Neves praticou
lobby com o empresariado, corrupto escolado e pós-graduado e que recebia
dinheiro de forma direta. Se fossem as mesmas evidências com o Lula, ele
já estaria na cadeia há muito tempo. Aécio está
soltinho da silva, como dizia minha mãe. Agora começam a andar
processos contra Alckmin e outros, o PMDB também, mas ainda de modo
muito, muito lento em comparação ao PT. Qualquer trabalhador, que
nem precisa de TV em casa, sabe que o tal Rocha Loures não era chefe de
quadrilha, apenas executor.
Como diria
Vicente Matheus
, a operação Lava Jato é uma
"faca de dois legumes". Com o PSDB, é lenta e gradual. Com o
PT, é ágil, lépida e esbaforida, como se vê na
antecipação inédita do julgamento do Lula, em ato
claramente político. Vemos, portanto, um processo esdrúxulo e
nefasto: a judicialização da política e uma clara e
incontestável politização do judiciário, como deixa
inequívoco "aquele" ministro que recebe dinheiro
público pra sua faculdade privada e toma as decisões que seus
amigos requerem na hora que bem entende.
Estamos num nível de degradação... O que aconteceu no jogo
da final da Copa Sul-Americana entre Flamengo x Independiente é a
fotografia do Brasil. Vivemos a devastação e corrosão
total. Outra notícia impressionante é aquela que mostra que o
PCC
pretende aumentar em 40 mil o número de adeptos da sua
organização.
Tudo isso torna o país muito, mas muito imprevisível.
Correio da Cidadania: E, dentro dessa imprevisibilidade, o que é
possível vislumbrar para 2018 e, a seguir nesta toada, nos
próximos tempos?
Ricardo Antunes:
É o seguinte: a eleição de fato ainda não
começou. Raras eleições tiveram nomes que apareciam no
topo das intenções de voto muito antes e terminaram eleitos. Tem
muita coisa, muita pedra no meio do caminho. Já indicamos que Lula se
beneficia muito do nível de elevação do pauperismo que o
governo Temer promove. No entanto, Lula já mostrou até onde
é capaz de levar sua conciliação. E também
já mostrou até onde dá para chegar mesmo quando as coisas
parecem dar certo. Repetir isso parece um pouco tragédia, tem algo de
farsa, salpicada com comédia. As direitas intensificarão a
devastação, de Alckmin a Meirelles, para não falar da
aberração Bolsonaro. E, é bom lembrar, Trump também
parecia somente aberração...
Existe ainda uma grande dificuldade das esquerdas em buscar alternativas junto
aos movimentos populares, a suas militâncias. Talvez o exemplo mais forte
hoje das lutas sociais seja o MTST. Há uma importante liderança
que se consolida, com respaldo social e político. Mas há uma
enorme dificuldade das esquerdas (para além do PT) em constituir
possibilidades próprias. Falo do PSOL, PCB, PSTU e de pequenos grupos em
seu entorno.
Não há dúvidas de que, dentre estes, o PSOL é o
mais forte eleitoralmente e possui mais presença social. Mas aquela
disposição de pensar o conjunto de forças sociais do
trabalho, sindicatos, periferias, que pudesse desembocar num polo alternativo,
ainda parece inexistir. É compreensível, mas uma pena. Porque se
as esquerdas pensam demais na luta parlamentar, não conseguem pensar
numa ação política radical cujo eixo não seja o
parlamento ou a institucionalidade, mas as lutas sociais extraparlamentares e
extra-institucionais. Não adianta ganhar as eleições, como
Lula, e se deixar fagocitar pelo esquema dominante, pelos interesses que de
fato dominam.
Portanto, não adianta falar em "união das esquerdas" e
impor seus nomes escolhidos a partir dos grupos majoritários de cada um
destes partidos. O movimento deveria ser outro: buscar densidade nas lutas
sociais, sindicais e políticas a partir das bases. E, a partir destes
movimentos de massa, criar os canais necessários para que eles adquiram
organicidade, estruturação e, aí sim, apresentá-los
política e eleitoralmente, porém, com uma
formulação de outro tipo, conquistada a partir das lutas
populares, sindicais, das comunidades indígenas, dos negros, movimentos
feministas, ambientalistas, LGBT, pela base e não pelas cúpulas.
É positivo, dentro deste quadro difícil, o exercício
iniciado pelo MTST e pelo Vamos.
O desafio é enorme, até porque a contrarrevolução
preventiva é global, brasileira, latino-americana, como vimos na
Argentina, em Honduras, na recente vitória eleitoral da direita
ultraconservadora do Chile. Tem o Trump nos EUA, tem a direita na
Áustria, a eleição da França onde um neoliberal
perigoso apareceu como freio à ultradireita... E não preciso ir a
Itália, Hungria, Polônia... Essa onda vai passar, mas está
aí hoje e é forte.
Em 2010, 2012, estávamos numa era de rebeliões que não
conseguiu se converter em era de revoluções. Agora vivemos a era
de contra-revoluções. Ela vai passar, mas as placas
tectônicas estão batendo. E não sabemos que tipo de coisa
sairá daí. É evidente que cresce a oposição
nos EUA, o Bernie Sanders era um bom exemplo, cresce a oposição
na Inglaterra através do Jeremy Corbyn, no Chile a esquerda
próxima ao Partido Comunista e aliados atingiu 20% dos votos... Na
própria França, Jean Luc Melenchon se mostrou eleitoralmente como
uma alternativa à esquerda.
Vivemos uma nova fase, mais destrutiva, do ideário regressivo
neoliberal, de completa hegemonia do capital financeiro. Nisto, a
naturalização da miséria global é o empreendimento
enfeixado pelas classes dominantes globais. Esta é o quadro, o
cenário que os capitais querem construir.
Por isso hoje há um movimento pesadíssimo, como mostra com muita
competência a
Virgínia Fontes
, de grupos empresariais que vão fazer "trabalho
voluntário" em escolas públicas para introjetar o
vírus da ânsia por acumular desde a mais tenra idade. Lembrando um
artigo genial do jovem Gramsci, "as escolas não podem ser
incubadoras de pequenos monstros". O voluntarismo empresarial nas escolas
públicas é para fazer das crianças "pequenos
monstros". E até na TV vemos gente mostrando como crianças
devem aprender a poupar e a acumular desde cedo. É o que estamos
vivendo, ainda que não será eterno. Logo entraremos novamente num
período muito tenso e de muita confrontação.
Correio da Cidadania: Ainda sobre a esquerda e sua incapacidade de aglutinar um
projeto de massas, há muita gente afinada a suas ideias fora desses
partidos e grupos mais tradicionais, mas que não se aproxima, e
não são apenas anarquistas. Não estaríamos diante
de um momento onde elas estão um pouco atrasadas em alguns debates,
aparecendo apenas reativamente e, em muitos casos, não se mostrando
tão antissistêmica?
Ricardo Antunes:
Passa também por isso, diretamente. Se a maior parte do oxigênio
das "esquerdas de esquerda" é, em última
instância, destinado para ganhar o processo parlamentar e eleitoral, elas
jogam no campo que Mészàros já considerava a "linha
de menor resistência". O boxeador mais forte chama o boxeador mais
fraco para lutar no campo dele. Os capitais chamam as oposições,
inclusive de esquerda, a lutarem no campo onde o capital domina, isto é,
o parlamento, as instituições burguesas.
A institucionalidade brasileira está em decomposição, nas
três esferas. Mas há também, e é muito importante
enfatizar, um mosaico de movimentos sociais, sindicais, das periferias, das
comunidades indígenas, negros, LGBTs, feministas, ambientalistas... Mas
essa miríade de descontentamentos deve se esforçar ao
máximo para buscar as interconexões fortes entre gênero e
classe; entre etnia/raça e exploração do capital; entre a
juventude desempregada e sua condição de classe, entre a
questão ambiental e as lutas anticapitalistas, entre tantas outras.
Um outro modo de vida torna-se um imperativo societal da classe trabalhadora
ampliada e do conjunto dos movimentos sociais. O MTST, por exemplo, vem
mostrando que a arquitetura das cidades brasileiras é de
destruição social. O MST há décadas luta pela
terra, pela produção sem transgênicos e sem
agrotóxicos e as comunidades indígenas combatem pela
preservação de suas terras, contra as tentativas de Temer para
liberar a exploração dos garimpos. Estas são as lutas
vitais, ponto de partida para uma política radical de outro tipo.
Em síntese: não se criam alternativas orgânicas de um dia
para outro. Vivemos uma fase de transição dentro do capitalismo,
para uma fase ainda mais destrutiva. Vivemos uma fase de
radicalização e aguçamento da destruição
neoliberal e do saque financeiro. É por isso que o chamado "estado
de direito" que hoje vigora é também um "estado de
exceção", só pode sobreviver exercitando os
mecanismos de exceção. E faço o parêntese para
lembrar que o "estado de direito" aqui mencionado nem de longe me
parece o suprassumo societal.
Num quadro com essa moldura não posso pegar minhas ferramentas
fragilizadas e jogá-las fora. Porque aí fico sem nada, de vez.
Reparem que o capital não joga nenhuma de suas ferramentas, mesmo as
piores, na lata do lixo. Aparelhos midiáticos, religiosos, repressores,
estatais, parlamentares... Ele não joga nenhum desses aparelhos fora.
Eles configuram o lócus da dominação burguesa. E as lutas
sociais, operárias e populares têm fundamentalmente três
ferramentas: seus sindicatos, seus partidos e seus movimentos sociais.
Os sindicatos têm um mérito: quando são de classe e
defendem de forma intransigente suas categorias representadas. Essa é
sua força, mas é também o seu limite. Os sindicatos dos
professores, dos metalúrgicos, dos bancários, podem lutar pela
defesa dos direitos de seus trabalhadores. Mas nem sempre conseguem pensar a
categoria que representam como parte de um todo, da totalidade da classe
trabalhadora. E frequentemente resvalam para uma defesa excessiva da categoria.
A defesa da redução dos impostos da indústria
automobilística é exemplo de sindicalismo com componentes
corporativos, que defende a sua categoria, tem dificuldade de visualizar o
conjunto.
Os partidos: qual sua força? Se formos ver PSOL, PCB, PSTU, todos
dirão que são socialistas, anticapitalistas e desejam uma
mudança profunda. Será difícil encontrar alguém que
veja no capitalismo algo humano, social. Qual a força deles? Eles sabem,
em linhas gerais, a direção da estrada que deve ser tomada. Qual
o limite deles? Serem muito voltados à institucionalidade,
calendários eleitorais, tempo de televisão, como ter mais voto, e
se começam a ser criticados por radicalizarem, logo começam a
fazer concessões, amolecer e por fim se enfraquecem. Isso não
vale para todos, mas ninguém está imune a estes riscos. Basta
crescer para ver como eles aparecem. A sua força é o projeto de
futuro, a fraqueza a vida cotidiana, o dia a dia.
Os movimentos sociais: mostram muita força na vida quotidiana. O MST faz
ações importantes, luta pela reforma agrária, faz
ocupações, luta contra os transgênicos, pesticidas,
consegue imaginar uma produção não destrutiva. O MTST, com
uma pujante atuação hoje, tem uma questão muito concreta:
a arquitetura da destruição joga os pobres para a vida na lata de
lixo nas cidades. Só há um jeito de sair das
"habitações" onde a população
periférica é atirada: ocupar. E há outros movimentos, do
passe livre, de juventude periférica que estuda, contra barragens,
comunidades indígenas que lutam pela preservação da
água, do solo, da natureza... É a força dos movimentos
sociais. Não podemos esperar que, entretanto, ofereçam um desenho
de sociedade do futuro, anticapitalista e socialista, salvo aqueles que
têm uma escola, uma formação para tal, como o MST tem.
Essas forças todas não são excludentes e, sim,
complementares. Buscar a organicidade entre elas, o que elas apresentam de
decisivo, que é o sentimento que os assalariados pobres têm da
vida cotidiana: quais as questões vitais do nosso tempo, que tocam na
consciência da população trabalhadora. Você acha que
a população está preocupada com a próxima
eleição de vereador? Por favor. Se o voto não fosse
obrigatório ninguém ligava. Não que eu seja contra, mas
digo que é uma piada os partidos gastarem tanta energia disputando
eleições e fazendo campanhas para vereador, deputado etc sem um
programa anticapitalista que toque nas questões vitais.
Não adianta falar do socialismo em termos abstratos. É preciso
falar das questões vitais de hoje, dando concretude à proposta
socialista. Se não formos capazes de fazer isso, os movimentos sociais e
lutas populares farão, mas num tempo maior. É o desafio, talvez,
mais crucial.
Por fim, tratamos muito das dificuldades das esquerdas. Mas tem o lado de
lá. Quem imagina que o capitalismo vai bem, obrigado, sem
tensões, tampouco tem ideia do que fala. Porque a inconstância se
tornou traço dominante do nosso tempo. Tudo que parece sólido
pode derreter. Significa que não temos previsibilidade e certezas
históricas. A única certeza é que "a história
é a realização quotidiana de embates fundamentais entre
classes sociais que se antagonizam".
A ideia de que a classe trabalhadora acabou é risível. Não
há nenhum burguês que não saiba que é burguês.
O Lukács diria que é empiricamente constatável pela
burguesia a existência do ser burguês e da condição
burguesa de classe. O que não temos conseguido entender é que a
contradição do nosso tempo é, por um lado, a
contradição entre o capital social total versus a totalidade do
trabalho social. É o desafio crucial. A totalidade do trabalho social
é a luta dos assalariados, da classe trabalhadora no sentido mais
preciso, a luta das classes trabalhadoras, também daqueles que
trabalham, mas não propriamente assalariados, como camponeses,
indígenas, ribeirinhos, e as lutas sociais dos movimentos dos negros,
mulheres, ambientalistas, LGBT... Mas é preciso conectá-las com
um olhar para além do capital.
O desafio está aí. Se não tivemos, no conjunto de
ações, este olhar e estes pontos de conexão tudo
ficará mais difícil.
23/Dezembro/2017
NR
[1]
Janot
: Procurador-Geral da República que acusou Temer de chefiar
organização criminosa.
[2] Ver
A instalação de uma ditadura mafiosa
, de Jorge Beinstein
[3] Meirelles: o actual ministro das Finanças, o homem que gerencia o
Brasil em favor do capital financeiro.
[4] CUT: central sindical apoiada pelo PT.
[5] Força Sindical: central sindical amarela.
Ver também:
Reflexões sobre a crise atual e as tarefas da esquerda revolucionária no Brasil
, de Edmilson Costa
O original encontra-se em
www.correiocidadania.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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