Os custos da desigualdade
por Daniel Vaz de Carvalho
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Se os mercados correspondessem às promessas de melhoria dos
padrões de vida da maioria dos cidadãos, todas as
transgressões das grandes empresas, todas as evidentes injustiças
sociais, as injúrias ao ambiente, a exploração dos pobres,
poderiam ter sido reduzidas.
Joseph Stiglitz,
The price of Inequality
[1]
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1 A INEFICIÊNCIA DOS MERCADOS
A crescente desigualdade nos países submetidos ao neoliberalismo,
não pode mais ser escondida, apesar de ignorada nos discursos do governo
PSD CDS. Stiglitz, denuncia como causas diretas da desigualdade a
desregulação dos mercados e a austeridade, politicas
preconcebidas a favor dos ricos, uma "guerra de classes" contra a
maioria dos cidadãos. Defende sindicatos fortes e ações
coletivas dos trabalhadores e dos cidadãos.
Stiglitz foi economista chefe do Banco Mundial, as suas críticas ao FMI
levaram em 1998 o economista chefe do FMI a acusar Stiglitz de "fumar
outras substâncias para além das legais". Em 1999 Stiglitz
demitiu-se do BM. Este episódio é típico da forma como os
mentores do atual sistema económico lidam com as críticas por
mais sustentadas e consistentes que sejam.
A UE tornou-se um espaço de fundamentalismo neoliberal, ao sabor dos
interesses hegemónicos da Alemanha que insiste em ter uma Europa ao seu
serviço, não reconhecendo outros interesses que não os dos
seus oligarcas.
Os partidos da social-democracia/socialismo reformista, baixaram a cerviz,
comprometendo os seus povos na austeridade e na desigualdade. Perante as
críticas à sua esquerda o PS regurgitava o que é ditado
nos areópagos do neoliberalismo, como o clube de Bilderberg, entoando
loas à economia de mercado e à UE com a sua "regra de
ouro" (o famigerado Tratado Orçamental) e o euro, que seria o
nec plus ultra
da estabilidade financeira e do progresso económico. Os resultados
estão à vista.
Os mercados seriam supostamente eficientes e estáveis, mas não
são uma coisa nem outra, a crise financeira mostrou o contrário,
com consequências devastadoras. Porém, não se tratou de
acidente: as regras estabelecidas constituíram os incentivos para a
finança agir como agiu e age. O mercado obviamente não é
eficiente, se o fosse não veríamos o que ocorre crescentemente
nos países sujeitos ao neoliberalismo e à austeridade: imensas
necessidades não satisfeitas e o aumento da pobreza. (p. 2)
A ineficiência desta "economia de mercado" é por demais
evidente no desemprego, nas empresas encerradas ou não produzindo o seu
potencial. A incapacidade do mercado para gerar empregos é a maior fonte
de ineficiência e das principais causas da desigualdade. (p. 3)
Na UE os Estados estão impedidos de subsidiar as empresas
públicas, mas são incentivados a fazê-lo para as grandes
empresas privadas por via dos resgates financeiros e pelas várias formas
de despesa fiscal (subsídios, reduções de impostos, etc),
privatizações, PPPs.
Os governadores do Banco de Portugal, sejam Vítor Constâncio ou
Carlos Costa, postos perante os casos de fraude, corrupção,
gestão danosa, argumentam com as regras a que estariam obrigados. Fazem
a leitura minimalista, neoliberal dessas mesmas regras, para esconder as suas
falhas. Mas são as regras do modelo económico que defendem.
A desregulamentação desempenhou um papel central na instabilidade
em que os países vivem. As empresas e especialmente o sector financeiro,
têm rédea livre no interesse dos ricos. Usaram seu peso
político e o seu poder de moldar ideias para forçar a
desregulamentação. A fórmula sagrada da economia atual
destaca o papel do sector privado como motor do crescimento económico,
porém o sucesso dessas empresas e, na verdade, a viabilidade de toda a
economia, dependem muito do bom desempenho do sector público. (p. 81)
As forças do mercado são reais, mas moldadas por processos
políticos: por leis, regulamentos e instituições. (p. 54)
Os mercados não existem em abstrato, a forma como governos atuam faz a
diferença, tanto para a eficiência como para a
redistribuição da riqueza criada. (p.135)
A eficiência dos mercados tornou-se uma questão de crença
religiosa, um artigo de fé. (p. 141). Na realidade, é a
justificação para as iniquidades da austeridade e para o seu
corolário, o aumento das desigualdades. Tal é evidente nos
argumentos do governo PSD-CDS que se refugia na dogmática
ilusória, na mentira ou nos acintes à oposição. Se
isto der votos é porque a democracia está profundamente doente.
[2]
2 A AUSTERIDADE, FASE SUPERIOR DA GUERRA DE CLASSES
Stiglitz considera que se passou da coesão social para a guerra de
classes. (p. 6) A austeridade foi o modelo encontrado para conformar as
sociedades aos "mercados", ou seja, aos interesses de quem os
controla: os monopólios, as grandes transnacionais, o imperialismo.
Para Stiglitz, a austeridade leva ao desastre social e compromete o futuro, na
medida em que muitas famílias têm pouca ou nenhuma riqueza e o
governo fornece apenas uma limitada oportunidade educacional, determinante para
o futuro dos seus filhos. (p. 94)
O sector privado está totalmente envolvido em corrupção. A
agenda de privatizações e liberalização tem sido
corrompida em si mesma gerando rendas elevadas, usadas para exercer
influência política. Por exemplo, com Obama foram combatidas
tentativas de se responsabilizar as instituições financeiras
pelas suas atividades. Em Massachusetts, quando o procurador-geral do Estado
entrou com uma ação contra alguns bancos, um banco controlado
pelo governo federal ameaçou cessar suas atividade nesse Estado. (p.160)
Em vez do governo moderar os excessos das forças de mercado, trabalha
conjuntamente para aumentar as disparidades de rendimento. (p. 50) Nos EUA um
estudo mostrou que, em média, os serviços privatizados cobram ao
governo mais do dobro do que seria pago a trabalhadores de serviço
público para a efetuarem serviços comparáveis. (p. 143).
Esta captação de rendas permite às grandes empresas obter
vantagens sobre o resto da sociedade. (p. 46).
A austeridade é de facto um vírus social: o vírus
capitalista que destrói as economias.
[3]
Os credores privados ditam as condições aos governos, fazem
pressão para pôr em prática políticas brutais de
ajustamento que conduzem as economias a uma situação de
permanente recessão.
[4]
Sob o governo de direita/extrema-direita do PSD-CDS o país conheceu uma
recessão de 6%, o número de milionários aumentou 28%,
três deles detêm individualmente mais de 1000 milhões de
euros. Para isto, tal como disse Almeida Garrett, o número de pobres
passou de 2 para 3 milhões desde 2011. O desemprego é mascarado
pelos estágios (41 mil), pelos inativos disponíveis (302 mil),
pelo "emprego de inserção e formação
profissional (114 mil). São 457 mil retirados dos números
oficiais, além da emigração de 350 mil trabalhadores.
[5]
O IRS aumentou em média 43%, a taxa de pobreza que o governo mascara com
degradantes apelos à caridade passou para 24,7%, e a infantil para
30,9%. O RSI deixou de ser concedido a 116 mil pessoas, o complemento
solidário para idosos a menos 83 mil, mais de 70 mil empresas arrastadas
para a falência, menos acesso a cuidados de saúde e
educação, uma dívida pública que atinge 134% do
PIB.
Nas crises que os financeiros ocasionam, trabalhadores e MPME suportam os
custos da crise. O dinheiro barato que os bancos centrais fornecem à
banca não passa dum subsídio escondido. (p.191) A
estratégia dos resgates financeiros, consiste em colocar os interesses
dos bancos e banqueiros à frente do resto da economia. O dinheiro
é dado aos bancos para supostamente o fluxo de crédito não
ser interrompido, mas não são impostas condições
às instituições financeiras quanto à forma como
utilizam o dinheiro recebido. (p. 192)
Ninguém atualmente pode saber a verdadeira posição
financeira de um banco ou outra instituição financeira. Seria de
esperar que a recente crise forçasse a mudança, mas os banqueiros
resistiram. Resistiram a maior transparência na circulação
de capitais e regulamentos para restringir práticas anticoncorrenciais.
Atividades que custam muitos milhares de milhões aos povos como
operações com derivativos e circulação de capitais
por paraísos fiscais. (p. 42)
Os bancos não ajudaram as pessoas a gerir os riscos, pelo
contrário: criaram esses riscos, considerando que o comprador é
que tem de os assumir. Na realidade o que se podia dizer é:
"ninguém deve confiar em nós, e quem o fizer é um
tolo." (p. 193)
Em Portugal falta fazer as contas finais para saber quanto perderam os
contribuintes e os pequenos acionistas nos casos BPN, BPP, BANIF, BCP ou BES.
3 ACERCA DA DESIGUALDADE
Os apologistas da desigualdade argumentam que dando mais dinheiro ao topo isso
vai beneficiar todos, pois levaria a maior crescimento Esta ideia do
trickle-down,
tem sido totalmente desacreditada. (p. 21)
Os críticos das políticas redistributivas sugerem que o custo
é muito alto. O seu grande argumento é que "não
há dinheiro". Além disto, os desincentivos, seriam grandes
demais: podíamos ter mais igualdade, mas com o custo de um crescimento
menor do PIB. A realidade é exatamente a oposta: (p. 16)
A chamada globalização tem sido outro fator para as crescentes
desigualdades. Conduzida por e para o 1% dos mais ricos, proporciona o
mecanismo que facilita a evasão fiscal e impõe pressões
que dão a esse 1% vantagem quer nas negociações com os
trabalhadores quer na política, pela perda de controlo dos países
devedores sobre o seu próprio destino, que fica nas mãos dos
credores. (p.116)
Tirando proveito dos seus mercados e do poder político, os do topo da
pirâmide da riqueza aumentam os seus rendimentos às custas dos
demais. Os EUA foram tomados como exemplo das políticas
"economicamente saudáveis", Stiglitz aponta o resultado: a
maravilhosa máquina económica dos EUA, trabalhou apenas para os
de topo. (p. 2) O 1% mais rico detinha em 2007 mais de um terço da
riqueza do país; 93% do aumento do PIB em 2010 foi captado por aquele
1%, que numa semana ganha mais 40% que 20% da população num ano.
Nas últimas três décadas o 1% mais rico aumentou o seu
rendimento 150% e 0,1% mais rico, 300%. (p. 18)
Pensamos que o aumento do PIB vai beneficiar todos, mas não é o
caso. O PIB pode estar subindo e a vida da maioria dos cidadãos do
país pode estagnar ou até mesmo regredir se nenhuma
política social, por exemplo de saúde, educação ou
meio ambiente, for desenvolvida. (p.148)
As crescentes desigualdades fazem parte da genética capitalista. Em
todos os países, qualquer que seja o modelo de capitalismo adotado,
verifica-se o empobrecimento, ou relativo ou absoluto como nos do
neoliberalismo A lista da
Forbes
evidencia-o. Em 2014, 1645 indivíduos detinham 6,4 milhões de
milhões de dólares, um acréscimo de 39% em 2 anos! A
entrada para os 20 primeiros da lista passou de 23 mil milhões em 2013
para 31 mil milhões. Um record, qualifica a
Forbes
!
4 MENOS DESIGUALDADE MAIS DEMOCRACIA
No final do seu livro, Stiglitz apresenta algumas propostas. Para Stiglitz os
cortes nas prestações sociais reduzem a capacidade dos pobres
ascenderem socialmente. Defende o reforço dos programas sociais e uma
política fiscal para restaurar e manter o pleno emprego. Neste sentido o
Estado deve pôr fim à alienação dos bens
públicos e benefícios às grandes empresas.
Quanto ao sistema monetário, considera que é gerido por gente
cujo pensamento foi capturado pelos banqueiros e que faz a gestão em
benefício dos do topo. Foi criada uma economia em que grande parte da
riqueza é obtida por rendas. Estas rendas movem o rendimento da base
social para o topo, distorcem o mercado, com vantagem para uns e desvantagem
para outros.
Os bancos centrais estão entregues a tecnocratas e, Stiglitz adverte, as
soluções simples não bastam: é necessário
submeter
(curbing)
o sector financeiro e limitar o poder dos dirigentes das grandes empresas.
Para restaurar a coesão social e terminar com a guerra de classes movida
pelos do topo, Stiglitz defende que o governo deve apoiar as
ações coletivas dos trabalhadores e dos cidadãos.
Sindicatos fortes, ajudam a reduzir a desigualdade, enquanto sindicatos fracos
facilitam a vida às administrações, apoiando as
forças de mercado que ajudam a aumentar a desigualdade. Assim, em termos
democráticos há que considerar não apenas direitos civis e
direitos de propriedade, mas direitos económicos para os cidadãos
comuns.
Stiglitz não é um revolucionário, nem defende o
socialismo. Contudo, as suas propostas na situação atual,
tão reacionária ela é, têm um cunho
revolucionário. No entanto, talvez Stiglitz tenha disso
consciência ao defender ações coletivas dos trabalhadores e
dos cidadãos, sindicatos fortes e um estado interventivo contra os mais
poderosos.
Perante estas propostas, a questão colocamos é: que parte deste
programa defende o PS? Quanto a nós, peneirando o fraseado das boas
intenções, nenhuma.
NOTAS
[1] J. Stiglitz, The price of inequality, p. 7, Ed. W. W. NORTON & COMPANY,
2013. Existe também edição portuguesa da Ed. Bertrand. Os
números de página entre parêntesis são os da
edição em língua inglesa e referem-se a conteúdos
ou ideias expressas por Stiglitz.
[2] Não vamos aqui analisar o que parece ser uma
contradição entre a crítica aos mercados, as suas
propostas (ver ponto 4) e a defesa de melhoria das leis da concorrência
para evitar lucros monopolistas. No entanto, noutro texto Stiglitz considera
que o equilíbrio saído da concorrência é
fundamentalmente ineficaz, devido à manifestação de
externalidades. (The Inefficiency of the stock market equilibrium,
Revue of economic studies,
vol. 64, 1982. Citado por J. Sapir em
Les trous noirs de la science économique
, Ed. Seuil, 2013, p. 95)
[3] O virus capitalista, Robert Hunziker,
www.counterpunch.org/2012/02/23/capitalista-virus/
[4[ Eric Toussaint,
www.legrandsoir.info/...
[5] Eugénio Rosa,
resistir.info/e_rosa/desemprego_13dez14.html
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http://resistir.info/
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