Acerca do capitalismo monopolista transnacional
por Daniel Vaz de Carvalho
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O monopólio penetra imperiosamente em todos os domínios da vida
social independentemente do regime político e de todas as outras
contingências.
Lenine, O imperialismo estado supremo do capitalismo
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1
Do CME ao CMT
2
Países dominantes e países dominados
3
CMT e "comércio livre"
4
"Construtores de uma civilização mundial"
1 Do CME ao CMT
No início dos anos 70 o capitalismo monopolista de Estado (CME)
evidenciava os limites do capitalismo perante o agudizar das suas
contradições. Para as superar, bem como à crise que se
instalava, restavam duas vias: a progressista de transição para o
socialismo, a reacionária neoliberal e imperialista.
Em "A catástrofe iminente e os meios de a conjurar", Lenine
escrevera: "O capitalismo monopolista de Estado é a mais completa
preparação para o socialismo, a antecâmara do socialismo, o
degrau histórico que nenhum outro degrau intermédio separa
daquele a que se chama socialismo".
Os partidos socialistas/social-democratas renegando os seus próprios
programas em que preconizavam atingir o socialismo pele via reformista,
seguiram a sua verdadeira agenda: defender o sistema capitalista e a
aliança com o imperialismo, acabando assim por assegurar o
domínio do neoliberalismo.
O grande capital encontrara no ultraliberalismo da "escola de
Chicago" a justificação teórica para a sua ofensiva
contra o CME keynesiano, forçando a instauração de um
capitalismo monopolista transnacional (CMT).
Em dezembro de 1970 a
Business Week
postulava: "Sem um governo mundial não pode haver verdadeira
economia mundial", salientando que "doravante o Estado encontra-se
apoiado de modo periclitante entre o seu quadro nacional e o
internacional".
[1]
A social-democracia aceitou como boas as teses neoliberais (não podemos
ignorar os interesses pessoais e materiais envolvidos nestas
opções), convencendo-se, ou apenas tentando convencer os demais,
que manteria a mesma relação de forças capital-trabalho,
que os trabalhadores partilhariam dos aumentos de produtividade e da
exploração dos outros povos.
No fundo, aceitavam a tese do "gotejamento", pela qual o grande
capital iria enriquecer ainda mais. Tudo isto, disfarçado com o culto do
"mercado", apresentando-o de forma mecanicista em que as
ações humanas perdem conteúdo social e se resumem à
hipotética racionalidade e predeterminação do
homo economicus.
Uma intensa propaganda pretende que o Estado seja gerido como o comum das
famílias, portanto retirando-lhe as funções
próprias à sua soberania. O Estado submeter-se-ia totalmente
à voracidade do capital transnacional, perdendo inclusive o papel que a
social-democracia lhe reservava como protagonista na conciliação
de classes a favor do capital. A conciliação passou a
submissão e o protagonismo pertence ao grande capital financeiro.
As privatizações fazem parte do processo de desmantelamento do
CME, sendo desde logo ou posteriormente absorvidas pelos grandes grupos
transnacionais. As regras da UE e a sua "união
bancária" visam em absoluto este objetivo.
A UE é exemplo da ilusão de criar um sistema capitalista, neste
caso transnacional, esvaziado de contradições, perfeitamente
racional e solidário. Assim, enquanto os preâmbulos dos tratados e
principais diretivas apontam para mais emprego, aumento de riqueza dos
cidadãos, solidariedade, crescimento intensivo, a sua prática
apenas defende "ûber alles" os interesses dos grandes grupos
transnacionais.
O CMT representa o predomínio da oligarquia sobre a democracia: livre
circulação de capitais, hipertrofia das atividades improdutivas,
repressão dos ideais e movimentos progressistas, expansão e
propaganda de ideologias reacionárias. Tudo o que é social e
coletivo fica entregue aos exclusivos interesses do lucro capitalista. E chamam
a isto eficiência
2 Países dominantes e países dominados
O CMT estabelece e torna permanentes relações de
dependência entre as nações, relações que
não são apenas económicas, mas também
políticas (os tratados), ideológicas (direitos e deveres dos
cidadãos e dos povos) e culturais como modelos de comportamento. A
libertação das cadeias de dependência implica a
superação do CMT.
Objetivamente o CMT visa estabelecer uma repartição internacional
da mais-valia a favor do grande capital transnacional, assumindo-se a
superpotência imperialista como garante da exploração do
proletariado a nível mundial.
O mais favorável desempenho dos países dominantes é
apresentado como resultante do seu modelo, tendo em vista a
manutenção das relações de dependência e a
sua aceitação pelos países dominados.
Na UE os mecanismos de dependência conduziram os países menos
desenvolvidos para a via do subdesenvolvimento, os casos da Grécia e
Portugal são evidentes, mas logo na sua esteira estão a Espanha,
a Itália, apenas menos pressionados devido à sua dimensão
que provocaria o rápido desmoronamento desta construção
imperialista. Quanto aos países da Europa do leste foram
(des)estruturados ao nível do chamado "terceiro mundo".
A financeirização constitui uma estrutura fundamental de suporte
do CMT sendo a forma do grande capital tentar escapar à baixa tendencial
da taxa de lucro. A função da banca seria transformar dinheiro
(capital fictício) em capital produtivo criando valor. Transformou-se no
seu contrário: acumula valor através da usura e transforma-o em
capital fictício através da especulação.
A lei do valor (transformação do valor em preço de
mercado) passa a realizar-se ao nível global, controlada pelas
transnacionais com nítidos prejuízos para os trabalhadores de
todos os países envolvidos e com o poder do Estado capturado nesta
lógica.
A extorsão do excedente económico dos países dominados
faz-se pelos juros, pela troca desigual, pela livre transferência de
capitais, pela (criminosa) concorrência fiscal e seus
"paraísos", mas também pela emigração
altamente qualificada.
À perda de soberania e da autonomia democrática dos Estados
corresponde o acréscimo de relações de dependência
económica, monetária, tecnológica, modelos de consumo. Os
ataques aos direitos e salários como forma de criar
"confiança" ao investimento estrangeiro contribuem para
estabelecer uma rede de exploração a nível global sob o
controlo das transnacionais.
3 - CMT e "comércio livre"
"A liberdade de comércio é a liberdade do capital",
escrevia Marx em "Miséria da filosofia". O CMT elimina
limitações nacionais à penetração do capital
transnacional justificando-se com uma aparente neutralidade e eficiência
dos mercados, pelos quais se obteria a otimização dos recursos
produtivos a nível mundial.
Contudo esta aparência esconde as relações de
produção que suportam os mercados e a forma como atuam nos
espaços onde se inserem. Praticamente todos os mercados estão
programados pelas grandes transnacionais, numa ótica monopolista, sob a
proteção do imperialismo. O preço é então
uma grandeza determinada por esses interesses, frequentemente com o apoio
(vergonhoso) de entidades ditas reguladoras
Quanto à função reguladora que o mercado poderia
desempenhar desaparece sob a ação dos monopólios e o
domínio da finança. Tal função só seria
possível entre unidades de dimensão e com fatores de
produção equivalentes.
A mera constatação da realidade mostra que o comércio
externo baseado na teoria das "vantagem comparativas" (algo
completamente fora do contexto!) conduz ao aumento das desigualdades e
desequilíbrios estruturais dos países menos competitivos,
impedindo a reestruturação das suas economias, estabelecendo
relações de dependência e subdesenvolvimento. Tal é
evidente no nosso país com as acríticas e alienantes
opções europeias.
A "concorrência livre e não falseada" da UE não
passa de um sofisma para estabelecer mecanismos de troca desigual. A
competição pelo preço mascara a desigualdade dos valores
trabalho trocados pela igualdade das taxas de lucro, em vez de: a trabalho
igual salário igual, mesmo capital mesmo lucro.
[2]
A partir do momento em que a OMC escapava de alguma forma às
intenções do imperialismo e se tornava um instrumento
insuficiente para impor o CMT
[3]
passou-se à fase a dos tratados transcontinentais como o TPP (acordo de
parceria transpacífica), o TTIP, a ser negociado em segredo entre os EUA
e a UE (mas em conluio com as grandes transnacionais) e o TISA (tratado de
serviços e investimento, em negociação).
[4]
Estes tratados são uma arma contra os povos e a
formalização institucional do CMT, colocando as transnacionais
acima da democracia e do próprio poder dos Estados, nada mais
reconhecendo senão esses interesses, movidos por uma insana
ambição de maximizar os lucros, lei que sobrepõem a
qualquer outra.
De facto, com estes tratados as transnacionais podem submeter totalmente as
nações aos seus interesses e penaliza-las caso considerarem que
de alguma forma as suas perspetivas de lucro foram prejudicadas.
São tratados que vão muito para além do
"comércio livre": visam assegurar o domínio absoluto do
CMT tornando a democracia, as aspirações e a vontade dos povos
uma ficção. Trata-se de nivelar por baixo a nível mundial
legislação laboral, políticas de taxação de
rendimentos e lucros, mas também requisitos de qualidade e sanidade,
regulamentações ambientais, etc.
Alguns empresários, políticos e os omnipresentes
"comentadores" declaram o seu apoio a este "comércio
livre" que possibilitaria a expansão dos mercados. A pergunta que
se deve fazer é: a troco de quê para o país e para o seu
povo? Ou tal não lhes diz respeito?
4 "Construtores de uma civilização mundial"
Os ideólogos do CMT defendem os seus políticos como
"construtores de uma civilização mundial". A insanidade
desta obsessão evidencia-se pela mera circunstância de que para a
formação dos EUA como Estado federal foi necessária uma
sangrenta e prolongada guerra, cujas sequelas se mantiveram durante
décadas.
O CMT procura criar a ilusão de uma economia mais produtiva, permitindo
mais empregos, maiores níveis de desenvolvimento e
correção das ineficiências de cada país. Na
realidade, resultou num descontrolado aumento das desigualdades e em
intermináveis crises.
A ação combinada do capital financeiro e das megaempresas
transnacionais levaram as contradições do sistema capitalista
para um nível ainda mais gravoso e antagónico. O CMT está
a ser imposto através da chantagem do "não há
alternativa", da conspiração e da ingerência, guerras
de agressão, desmembramento de Estados, caos social, desastres humanos,
apoio (camuflado) ao terrorismo.
A UE ultraliberal integra-se neste modelo de capitalismo, sem
soluções para os problemas que origina, no fundamental
escamoteados pelos "analistas" e comentadores de serviço que
não ultrapassam o estado de miopia ideológica ou da mera
estratégia de desinformação. Uma evidência é
a estagnação económica, desemprego massivo, aumento da
pobreza, apesar dos 60 mil milhões que o BCE programou despejar
mensalmente sobre o sistema financeiro e que não consegue transformar-se
em capital produtivo.
As contradições entre as necessidades de desenvolvimento nacional
e os interesses das transnacionais são evidentes: o capital
transnacional apenas ocorre para os locais onde a taxa de lucro é maior,
independentemente de considerações éticas e humanistas.
Para serem defendidos os lucros do grande capital as funções
sociais do Estado são destruídas.
A imposição de um modelo que se pretende global e uniforme para
todos os povos, regido exclusivamente pelas leis do lucro monopolista,
não apenas bloqueia a democracia e o desenvolvimento como destrói
a cultura e a identidade de cada povo: em suma a capacidade para decidir o seu
destino coletivo.
Sem a transformação das relações de
produção as soluções reformistas apenas conduzem a
uma situação instável que a oligarquia reverterá a
seu favor. Mas a transformação das relações de
produção só é possível realizar por um
movimento revolucionário, popular de massas, na base de uma
estratégia antimonopolista, indo ao encontro dos mais profundos
interesses nacionais. Relembremos que neste sentido o 25 de ABRIL foi de facto
um movimento revolucionário ao definir uma "estratégia
antimonopolista". Logo revertida quando se estabeleceram políticas
de direita.
As necessidades de desenvolvimento económico e social dos povos
têm de sobrepor-se às iníquas condições
impostas aos Estados para lhe serem proporcionados capitais e à
"racionalidade" dos preços internacionais, que as
transnacionais controlam em seu benefício.
O desenvolvimento terá de ser, como é mais que evidente numa
entidade coletiva, baseado em custos e benefícios sociais e numa
estratégia de longo prazo.
O CMT representa um gravíssimo retrocesso civilizacional em todos os
campos da atividade humana e mostra que o capitalismo atingiu o seu limite como
fator de desenvolvimento, mergulhando a humanidade em quatro crises
insuperáveis nesse sistema: a crise económica e financeira, a
crise social, a crise ambiental e a crise belicista. A alternativa a este
sistema é a transformação das relações de
produção e a opção libertadora pela paz e pelo
socialismo.
[1]
Business Week
de 19/12/1970, Special Report, citado em "A economia mundial capitalista
Vol. II", Christian Palloix, Ed. Estampa, 1972, p. 188
[2] Idem, p. 68
[3] Acerca das recentes posições da OMC ver:
A nova estratégia de negociação comercial do imperialismo
, Prabhat Patnaik,
[4] Ver:
O tratado de comércio livre EUA-UE: a grande golpada
, Daniel Vaz de Carvalho,
e
O Acordo TPP: o tratado de comércio livre mais agressivo da História
, Florentino Lopez Martinez
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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