Pedrógão, uma raiva sem fim...
por Agostinho Lopes
Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de
quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste
país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca
avançou o cadastro florestal? Quem fez avançar a ideia de que o
problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De
terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das
suas terras?
Não sei porque não posso espumar de raiva, pelos mortos queimados
da tragédia de sábado. E por isso cresce-me uma tal raiva capaz
de pegar fogo à água que habitualmente o apaga. Uma raiva de
lágrimas e palavrões, daqueles que arrebentam penedos
Vamos ter missas de pesar
comícios de soluções
conferências de imprensa de estudos e planos
Vamos ter tudo o que
é habitual em casos que tais, comissões parlamentares eventuais,
investigações da PJ, declarações da Autoridade
Nacional de Protecção Civil (ANPC), discursos de ministros (por
baixo, do, da Agricultura e da, da Administração Interna), de
ex-ministros e até de ex-primeiros-ministros
Vamos ter tudo, tudo
o que tivemos em vezes que tais
(perdoa-me Gedeão, a mal amanhada
paráfrase
).
Vamos ter pena dos mortos, das árvores que arderam (até o
eucalipto vai ter o seu avé-maria), dos coelhos e raposas, e até
dos calhaus que com o calor racharam (só é pena que outros
calhaus não rachem, mesmo de frio, já servia!).
Senhores, senhores, já tudo foi dito e escrito. Há muito.
Há décadas. Já não posso mais ouvir falar de certas
coisas. Já não aguento tanta repetição. Tanto disco
riscado! Tanto relatório. Tanta comissão. Tanta chuva onde
já choveu. Tanto sol na eira e chuva no nabal! Por que razão
não se quer gritar alto, tão alto, que as trombetas do Apocalipse
parecerão ronronar de gato
que não se fez nem faz o que se
tem de fazer, porque isso custa pilim
porque isso no Orçamento do
Estado implica com o défice, com a dívida, com o grupo do euro,
com o Semestre Europeu e o Programa de Estabilidade, com o Moscovici e o
Juncker, com o Schäuble e a Merkel, com as e os
a todos!
Porque isso, chegado Outubro, vêm umas pingas e tudo fica resolvido, cai
no borralho, e até serve para assar castanhas
E lá
vêm mais umas reformas da floresta, mais uma catrefa de decretos-leis,
portarias e despachos, oh sim muitos despachos, que a despachar para o dia de
S. Nunca em Fevereiro com 30 dias, é fácil, é barato e
não chateia os senhores de Bruxelas
Haverá até, para
entreter os senhores deputados umas propostas de lei, em assuntos que
são da competência legislativa da Assembleia da
República
Senhores, não há paciência para
tanto estrume
Pobre do Diário da República, que não há folhas que
lhe cheguem para tanta lei
para tanta decisão oficial e
legal
para tanta recomendação
E quatro vezes pobre, a
floresta, que não lhe bastando os incêndios, ainda tem o
Diário da República nas suas três séries, mais o
Diário da Assembleia da República a consumir o papel das
árvores que sobraram dos incêndios para escrutinar e registar os
incêndios florestais
Vamos repetir tudo de novo outra vez? Oiçam os dentes a ranger! Vejam os
olhos a deitar lume. Vejam a boca a espumar. Só não dou coices
porque
mas é o que apetecia. E o problema não é ser
assemelhado ao animal
mas porque não tenho à beira quem os
merece.
Vamos ver:
Conhece-se o que são os matos, os pinhais, as bouças, a dita
floresta do Norte e Centro de Portugal? Sabe-se que é uma floresta de
pequenos proprietários. Imbricada até ao sabugo com as
também pequenas explorações agrícolas. Sabe-se?
Então se se sabe porque não se actua em conformidade?
Sabe-se que é "abandonada" porque a madeira nada
dá
e sabe-se quem compra a "madeira", ou a
cortiça
o Belmiro, o Queiroz Pereira, o Amorim
E senhores,
gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos nacionais
e comunitários a subsidiar as fábricas desses senhores, e
depois não há massa para os sapadores florestais, para o
cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de
gestão de combustível???
"Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas?"
Por favor, não brinquem com a gente, feitos sátrapas de meia
tigela. Por que razão não se recompõe o corpo de guardas
florestais, constatado o crime público que foi a sua
liquidação? Custa dinheiro ao erário público? Pois
custa, que ninguém trabalha de borla. Nem os da Santa Casa
Cresce
o número de funcionários públicos, e isso mexe com a
despesa orçamental, e sobretudo com os bonzos de Bruxelas? Pois mexe,
mas a não ser que os convençam a ingressar nos corpos de
bombeiros voluntários e podia ser uma forma da burocracia
bruxelense fazer férias activas não há maneira
Por que razão o número de Equipas de Sapadores Florestais
500 previsto num Plano oficial de técnicos florestais da
passagem do século, 2000, se me não engano, há tanto tempo
foi, continua a meio pau? Porquê? Falta de graveto? Mas ele há
tanto na nossa floresta
(Mas não se seja injusto. Os que liquidaram o corpo de guardas
florestais, os mesmos que nada fazem para que o número de Equipas de
Sapadores chegue aos 500, previsto há quase duas décadas, gente
que passa os dias a falar da qualificação dos portugueses,
têm avançado com a interessante hipótese de resolver o
problema da carência de recursos humanos da floresta portuguesa pelo
recurso (repetição adequada) a trabalhadores desempregados e
reclusos! Como quem diz, para quem é, (a floresta portuguesa) bacalhau
basta, isto quando o bacalhau era a pataco
É claro que nem os
desempregados nem os reclusos têm alguma responsabilidade nesta
miserável instrumentalização
).
Por que razão as faixas de gestão de combustível, as
primárias pelo menos, constando de sucessiva legislação
desde o
Decreto-Lei 124/2006
não estão
concretizadas? Não acham que 10 anos deviam chegar? Falta de quê?
De vontade? De verba? De um comando único e eficaz de todos estes
processos da floresta portuguesa, prevenção e combate,
espartilhados por não sei quantos ministérios, certamente para
que ninguém verdadeiramente possa assumir as responsabilidades dos
desastres que, fatais como o destino, fatais como dizem que era o fado, fatais
como a brutalidade da morte que tão brutalmente cortou cerce a vida a 64
homens e mulheres deste país!
Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de
quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste
país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca
avançou o cadastro florestal, que todos, suma hipocrisia, diziam e dizem
ser condição necessária para a boa gestão
florestal. Quem fez avançar a ideia de que o problema dos
incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono?
Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?
"Quem defendeu uma política agrícola de
liquidação da pequena agricultura para lá pôr
eucalipto?"
E logo, faz-se uma lei para que essa terra possa ser roubada, faz-se outra lei
para criar uma bolsa ou banco de terras, dão-se uns "incentivos
fiscais" a uns fundos de investimento, que vem a correr da Bolsa de Nova
Iorque para a arrendar/comprar e plantar rosas e orquídeas
(Senhor, Senhor porque lhes não dais juizinho!!!).
Poderão alguns, com alguma razão, dizer que não se deve
brincar com coisas sérias. Mas o que dizer do sucedido com o anterior
governo PSD/CDS e a ministra Cristas que, depois de
excluir do Regime Florestal total a Herdade do Ribeiro do Freixo, de 320 hectares, e desanexá-la da tutela pública para dar movimento (privatizá-la!) à sua bolsa de terras, devolveu à tutela pública a Mata da Margaraça de 67,578 hectares de propriedade pública para "compensar"
. Baralhados?
Como bem percebem os especialistas em algoritmos, 320 hectares na Floresta 4.0
valem o mesmo que 67,578 hectares, dos antigos agrimensores. E que o
público se compensa com público, mesmo que em escala reduzida!
Foi o
Decreto 9/2015
, diploma que também ninguém sabe bem o que
é
Quem são os responsáveis pela floresta em mancha contínua
de pinheiro ou eucalipto? (E agora parece que já não lhes serve
esse eucalipto
) Quem sacudiu os povos dos baldios do que era seu, para
lá pôr pinheiro? Quem defendeu uma política agrícola
de liquidação da pequena agricultura para lá pôr
eucalipto? E o problema é que acham, continuam a achar, depois de tudo o
que aconteceu, e do que vai acontecer ainda, que estão com o passo
certo
E, contrariamente à bem conhecida anedota, sabem que
não vão com o passo trocado, mas a toque de caixa de quem
considera a floresta portuguesa o seu banco Fort Knox! A quem devem preito de
menagem
Dizemos isto, mas não nos sai da boca este sabor a raiva e lama, a raiva
e carvão negro, a raiva e a um infinito lamento
Eram as horas
certas em todos os relógios (perdoa-me Garcia Lorca), mas nos nossos
relógios só podem rimar a raiva e a dor pelo que não podia
ter acontecido
no sábado 17 de Junho de 2017, em
Pedrógão Grande.
Que raiva e dor não poder fazer nada, quando tanto podia ter sido feito!
20/Junho/2017
Ver também:
Como evitar incêndios florestais e produzir energia
La inoperancia de Portugal en la lucha contra los incendios
O original encontra-se em
www.abrilabril.pt/pedrogao-uma-raiva-sem-fim
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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