A financiarização do capital e a crise
por John Bellamy Foster
[*]
Agora, em retrospectiva, poucos duvidam que a bolha imobiliária que
induziu grande parte do recente crescimento da economia estado-unidense era
obrigada a explodir ou que uma crise financeira geral e uma baixa
económica global tinham de ser os seus resultados inevitáveis. Os
sinais de advertência foram evidentes durante anos para todos aqueles
não apanhados pela nova alquimia financeira da
administração de dívidas de alto risco, e não
cegados, como grande parte do mundo corporativo, pelos enormes lucros
especulativos. Isto pode ser visto numa série de artigos publicados
neste espaço:
The Household Debt Bubble
(Maio/2006),
A explosão da dívida e a especulação
(Novembro/2006),
Monopoly-Finance Capital
(Dezembro/2006), e
The Financialization of Capitalism
(Abril/2007). Neste último
escrevemos:
Tão crucial tem sido a bolha habitacional como
contenção à estagnação e base para a
financeirização, e tão estreitamente relacionada
ela está com o bem estar básico das famílias dos EUA, que
a actual fraqueza no mercado habitacional poderia precipitar tanto uma baixa
económica aguda como o desordenamento financeiro generalizado. Novos
aumentos nas taxas de juro têm o potencial para gerar um círculo
vicioso
com valores de casas estagnados ou mesmo em queda e o crescimento dos
rácios do serviço da dívida dos consumidores conduzindo a
uma inundação de incumprimentos. O facto de que o consumo nos
EUA é a fonte nuclear da procura para a economia mundial levanta a
possibilidade de que isto poderia contribuir para uma crise mais globalizada...
Em Setembro de 2006, no
Global Financial Stability Report,
o conselho de directores executivos do FMI exprimiu a preocupação
de que o crescimento rápido dos hedge funds e dos créditos
derivativos poderia ter um impacto sistemático sobre a estabilidade
financeira, e que uma baixa da economia americana e um arrefecimento do seu
mercado habitacional pudesse conduzir a maior "turbulência
financeira", a qual poderia ser "amplificada no caso de choques
inesperados". O contexto total é aquele de uma
financeirização tão fora de controle que choques
inesperados e severos para o sistema e os resultantes contágios
financeiros são encarados como inevitáveis.
[1]
Este cenário, que já estava a começar a desenrolar-se no
momento em que a passagem acima foi escrita, de preços da
habitação estagnados e em queda, de uma inundação
de incumprimentos, e de uma crise económica global devido ao
contágio financeiro e uma queda no consumo estado-unidense, agora
tornou-se uma realidade concreta. Desde o colapso do mercado
hipotecário subprime em Julho de 2007, a agonia e o pânico
financeiros disseminaram-se incontrolavelmente não só
através de países como também através dos
próprios mercados financeiros, infectando um sector após outro:
hipotecas com taxas ajustáveis, papel comercial (dívida
corporativa a curto prazo não segurada), títulos de seguradoras,
concessão de empréstimos hipotecários comerciais,
empréstimos para automóveis, cartões de crédito e
empréstimos para estudantes.
Bancos, hedge funds e mercados monetários estão todos sob
assalto. Considerando a já fraca condição da
produção dos EUA, não levou muito tempo para que esta
desestruturação fosse registada com números negativos na
economia "real": emprego em queda, consumo e investimento
enfraquecidos, produção e lucros em baixa. A maior parte dos
analistas económicos e de negócios agora acredita que uma
máxima explosão da recessão esteja pela frente tanto em
relação aos Estados Unidos como em relação à
economia mundial, e pode já ter principiado. "A partir de
agora", declarou em 25 de Fevereiro de 2008 Alan Greenspan, ex presidente
do Federal Reserve Board, "o crescimento económico dos EUA é
zero. Estamos à velocidade de estábulo".
[2]
O que argumentaremos aqui é que não se trata apenas de um outro
esmagamento maciço de crédito daquela espécie tão
familiar na história do capitalismo, mas sinais de uma nova fase no
desenvolvimento das contradições do sistema, as quais
denominámos "capital monopolista-financeiro". A
explosão de duas grandes bolhas financeiras em sete anos na cidadela do
capitalismo aponta para uma crise de financiarização, ou da
progressiva mudança do peso da produção para as
finanças que tem caracterizado a economia ao longo das últimas
quatro décadas.
Aquilo que Paul Sweezy, a pouco mais de uma década, chamou "a
financiarização do processo de acumulação de
capital" foi a força principal a levantar o crescimento
económico a partir da década de 1970.
[3]
A transformação no sistema que isto provocou é
reflectida no rápido crescimento desde os anos 1970 dos lucros
financeiros como uma percentagem dos lucros totais (Ver Gráfico 1).
O facto de que tal financiarização do capital pareça
estar a tomar a forma de bolhas cada vez maiores que explodem mais
frequentemente e com efeitos mais devastadores, ameaçando a cada momento
um aprofundamento da estagnação ou seja, a
condição, endémica ao capitalismo maduro, de crescimento
vagaroso e aumento da capacidade excedentária bem como do
desemprego/sub-emprego é portanto um desenvolvimento da
máxima significância.
A fim de tratar desta questão examinaremos primeiro a
evolução da crise imediata identificada com a explosão da
bolha habitacional. Só depois nos voltaremos para a questão da
tendência de longo prazo da acumulação, nomeadamente da
dinâmica estagnação-financiarização, onde as
condições históricas mais vastas da presente crise devem
ser encontradas.
A cinco fases de uma bolha
Embora o declínio maciço do mercado de acções em
2000 parecesse pressagiar um sério declínio económico, as
perdas dos negócios foram amortecidas e rupturas económicas mais
vastas foram restringidas por uma bolha imobiliária o que
conduziu a apenas uma recessão relativamente menor em 2001. O analista
financeiro Stephanie Pomboy, em MacroMavens, correctamente alcunhou isto em
2002 como "A grande bolha da transferência", na qual uma bolha
especulativa no mercado hipotecário de casas milagrosamente compensou a
explosão da bolha do mercado de acções.
[4]
O Fed, através de baixas taxas de juro e mudanças nas
exigências de reservas dos bancos (as quais tornam mais fundos
disponíveis) despejou capital maciçamente no mercado
habitacional, a concessão de empréstimos hipotecários
disparou, os preços habitacionais ascenderam e a
hiper-especulação iniciou-se.
O que aconteceu seguiu o padrão clássico das bolhas especulativas
ao longo da história do capitalismo, tão excelentemente descrita
por Charles Kindleberger em
Manias, Panics, And Crashes
: lançamento de um novo produto, expansão do crédito,
mania especulativa, aflição e crash/pânico.
[5]
Novos lançamentos
Um novo lançamento poder ser um novo mercado, uma nova tecnologia
revolucionária, um produto inovador, etc.
[6]
O novo lançamento neste caso foi a
"titularização" de empréstimos
hipotecários através de um novo instrumento financeiro conhecido
como obrigação colaterizada de dívida (collateralized debt
obligation, CDO). Desde a década de 1970 os bancos tem estado a unir
empréstimos hipotecários individuais, utilizando o fluxo de caixa
proporcionado por estes empréstimos para gerar títulos apoiados
por hipotecas residenciais. Estes empréstimos titularizados, num
desenvolvimento posterior, foram eles próprios re-empacotados na forma
de Obrigações hipotecárias colaterizadas
("Collateralized Mortgage Obligations", CMOs). As CMOs eram
compostas do que chamamos de "tranches", ou agrupamentos de fluxos de
rendimento de hipotecas divididas de modo a liquidar o principal de cada
débito da tranche em sequência a tranche mais elevadas
primeiro, e assim por diante. Na década de 1990, e especialmente no fim
da mesma, os bancos começaram a construir CDOs, os quais misturavam
juntas hipotecas de baixo risco, médio risco e alto risco, juntamente
com outros tipos de dívida.
As tranches agora representavam risco de incumprimento, com a tranche mais
baixa a absorver todos os incumprimentos antes da tranche seguinte mais
elevada, e assim por diante. As três maiores agências de
crédito deram às tranches mais altas destes novos CDOs
classificaram com notas de investimento
(investment grade).
(Um título com notas de investimento é aquele que se julga
bastante provável cumprir as obrigações de pagamento de
modo a que bancos possam neles investir um título abaixo da nota
de investimento é um título lixo). A suposição era
que a dispersão geográfica e sectorial da carteira de
empréstimos e o "esfatiamento" do risco converteria tudo menos
o extremo inferior das tranches destes veículos de investimento em
apostas seguras. Em muitos casos a tranche mais alta (e maior) de tais CDOs
obtinha a melhor classificação possível ("AAA"
equivalente à classificação das
obrigações do governo dos EUA) através do dispositivo de
estar "assegurada" contra incumprimento por um companhia seguradora
de títulos que fosse ela própria garantida por
classificações AAA. Tudo isto criou um mercado para
empréstimos hipotecários que se expandiu amplamente. Isto
rapidamente abarcou os mutuários chamados "subprime" com
fracas histórias de crédito e/ou baixos rendimentos que
anteriormente estavam fora do mercado hipotecário. E ao obter altas
classificações de crédito para os instrumentos
resultantes, os bancos criadores destes títulos obtinham prontamente a
capacidade para deles dispor por todos os novos mercados financeiros globais.
Cruciais para a bolha habitacional foram os canais fora do balanço
estabelecidos pelos bancos, conhecidos como Veículos de investimento
estruturado (Structured investment vehicles, SIVs) eles próprios
bancos virtuais concebidos para manter CDOs. Estas entidades especiais
financiavam suas compras de CDOs com a retirada sobre o mercado de papel
comercial para financiamento a curto prazo. Isto significava que elas estavam
a tomar emprestado fundos a curto prazo (através da emissão de
"papel comercial apoiado por activo") para investir em títulos
a longo prazo. A fim de tranquilizar os investidores, Foram feitos com bancos
acordos "credit default swap", envolvendo grandes bancos como o Bank
of America, através dos quais os SIV (neste caso os compradores de
swaps) faziam pagamentos trimestrais em retorno aos banco (os vendedores de
swaps) prometendo fazer um grande pagamento se os SIVs descobrissem seus
activos a declinar e o seu crédito a secar e fossem forçados ao
incumprimento. Isto, juntamente com outros factores, teve o efeito de deixar
os bancos pontencialmente expostos aos riscos que eles supostamente haviam
transferido para outra parte.
[7]
Expansão do crédito
Uma expansão do crédito a qual significa que pessoas ou
corporações estão a assumir mais dívida
é necessária para alimentar qualquer bolha no preço de
activos. Na bolha habitacional, taxas de juros extremamente baixas a seguir
à explosão da bolha do mercado de acções e
mudanças nas exigências de reservas dos bancos expandiram
generalizadamente o crédito disponível para os mutuários,
pouco importando a sua história de crédito. No princípio
de Janeiro de 2001, o Federal Reserve Board reduziu as taxas de juro em doze
sucessivos cortes de taxas, reduzindo a taxa básica dos fundos federais
de 6 por cento para uma baixa pós Segundo Guerra Mundial de 1 por cento
em Junho de 2003.
[8]
Na resultante bolha habitacional o financiamento barato expandiu o
número de mutuários de hipotecas apesar do aumento dos
preços das casas. A combinação de taxas de juros
extraordinariamente baixas e hipotecas mais longas resultou em pagamentos
mensais acessíveis mesmo no momento e que os preços estavam
rapidamente a aumentar. Se tais pagamentos mensais ainda fossem
inacessíveis como eram frequentemente uma vez que os
salários reais estagnaram durante trinta anos e ao nível da
entrada os empregos raramente pagam mais do que perto do salário
mínimo isto significava que foram concebidos para reduzir os
pagamentos iniciais mais uma vez. Isto muitas vezes tomou a forma de hipotecas
com taxas ajustáveis com baixa taxas de juro "dificultosas"
("teaser"),
as quais seriam recompostas após um especificado período
introdutório, habitualmente três a cinco anos ou menos. Ao pagar
quase nenhum juro e ao não fazer pagamentos de capital, os novos
compradores podiam agora "aceder" a lares a preços ainda mais
elevados.
Compradores de casas pouco refinados foram prontamente seduzidos pela euforia
dominante do boom imobiliário, e facilmente levados a acreditar que a
ascensão contínua nos preços das suas casas lhes
permitiria refinanciar suas hipotecas quando as taxas dificultosas expirassem.
Muitos empréstimos hipotecários subprime montavam a 100 por cento
do valor avaliado da casa. Os originadores dos empréstimos subprime
tinham todo o incentivo para gerar e entrouxar juntos tantos destes
empréstimos quanto possível uma vez que os empréstimos
reempacotados eram rapidamente vendidos a outros. E, naturalmente, os custos
da compra das casas rapidamente inflacionados cobertos por estes
empréstimos subprime incluíam uma rica recolha na forma de
comissões e pagamentos a um vasto e predatório enxame de
intermediários na corretagem e na "indústria" de
geração de hipotecas. "O montante das hipotecas subprimes
emitidas e encaixadas no Mortgage Backed Securities saltou de US$56 mil
milhões em 2000 para US$508 mil milhões no seu pico em 2005".
[9]
Mania especulativa
A mania especulativa caracteriza-se por um aumento rápido na quantidade
de dívida e uma redução igualmente rápida da sua
qualidade. A assunção de empréstimos pesados é
utilizada para comprar activos financeiros, não com base nos fluxos de
rendimentos que eles poderão gerar e sim simplesmente na hipótese
de aumentos de preços para estes activos. Isto é o que o
economista Hyman Minsky denominou "finanças Ponzi" ou
hiper-especulação.
[10]
As CDOs, com sua exposição a hipotecas subprime ou
"resíduos tóxicos" financeiros, progressivamente
assumiram esta forma clássica.
Não só os prestamistas hipotecários e prestatários
subprime foram capturados neste desvario. Uma multidão crescente de
especuladores imobiliários entrou no negócio de comprar casas a
fim de vendê-las a preços mais altos. Muitos donos de
habitações também começaram a encarar o aumento
rápido no valor das suas casas como natural e permanente, e aproveitavam
as baixas taxas de juro para refinanciar e retirar valor em cash dos seus
lares. Isto foi um meio de manter ou aumentar os níveis de consumo
apesar dos salários estagnados da maioria dos trabalhadores. No
máximo da bolha os novos empréstimos hipotecários
aumentaram US$1,1 milhões de milhões
(trillion)
só entre Outubro e Dezembro de 2005, trazendo a dívida
hipotecária em poder do público, no seu todo, para US$8,66
milhões de milhões, o que equivale a 69,4 por cento do PiB dos
Estados Unidos.
[11]
Aflição
A aflição assinala uma mudança abrupta na
direcção do mercado financeiro, muitas vezes resultante de algum
evento externo. A bolha habitacional foi furada primeiro em 2006 devido ao
aumento das taxas de juro, as quais provocaram uma reversão da
direcção dos preços habitacionais nas regiões
subprime problemáticas, primariamente a Califórnia, Arizona e
Florida. Os tomadores de empréstimos que haviam estado na
dependência de aumentos de dois dígitos nos preços das
casas e taxas de juro muito baixas para refinanciar ou vender as casas antes de
as taxas hipotecárias ajustáveis serem recompostas foram
subitamente confrontados com preços de casas em queda e pagamentos de
hipoteca que estavam a reajustar-se (ou iriam reajustar-se em breve) para cima.
Os investidores começaram a preocupar-se com a possibilidade de o
arrefecimento do mercado habitacional em algumas regiões se espalhasse
para o mercado hipotecário como um todo e infectasse a economia global.
Como indicador de tal aflição, os credit debt swaps concebidos
para proteger investidores e utilizados para especular sobre a qualidade do
crédito, aumentaram globalmente em 49 por cento para chegar a uma
dívida teórica de US$42,5 milhões de milhões no
primeiro semestre de 2007.
[12]
Crash e pânico
O cenário final numa bolha financeira é conhecido como de crash e
pânico, assinalado por uma liquidação rápida de
activos numa "fuga para a qualidade" (isto é, liquidez). O
cash mais uma vez torna-se rei. O crash inicial que abalou o mercado ocorreu
em Julho de 2007 quando impodiram dois hedge funds do Bear Stearns que
possuíam aproximadamente US$10 mil milhões em títulos
apoiados por hipotecas. Um perdeu 90 por cento do seu valor, ao passo que o
outro fundiu-se completamente. Quando se tornou evidente que este hedge funds
eram incapazes de calcular o valor real dos seus haveres em numerosos bancos,
na Europa e na Ásia assim como nos Estados Unidos, foram forçados
a reconhecer a sua exposição às tóxicas hipotecas
subprime. Sobreveio então uma severa sufocação do
crédito quando se espalhou o medo entre as instituições
financeiras, cada uma das quais estava incerta quanto ao nível de
resíduos financeiros tóxicos que as outras possuíam. A
infiltração do esmagamento do crédito para dentro do
mercado de papel comercial cortou a principal fonte de financiamento para os
SIVs patrocinados por bancos. Isto trouxe para a frente a muito pesada
exposição ao risco de alguns dos grandes bancos decorrente dos
credit defauld swaps. Um evento chave foi a falência e subsequente
salvamento e nacionalização do banco hipotecário
britânico Northern Rock, o qual em Setembro de 2007 foi o primeiro banco
da Grã-Bretanha em mais de um século a experimentar uma corrida,
com clientes a fazerem fila para retirar as suas contas poupança. Os
seguradores de títulos dos EUA também começaram a implodir
um desenvolvimento particularmente ameaçador para o capital
devido à subscrição de credit-default swaps sobre
títulos apoiados em hipotecas.
[13]
O pânico financeiro espalhou-se rapidamente por todo o globo, reflectindo
o facto de que investidores internacionais também estavam fortemente
ligados à especulação com títulos americanos
apoiados por hipotecas. Emergiram temores generalizados de que o crescimento
económico mundial cairia para 2,5 por cento ou um nível mais
baixos, o que para economistas define um mundo em recessão.
[14]
Grande parte do medo que varreu os mercados financeiros globais foi devida a
um sistema tão complexo e opaco que ninguém sabia onde o
resíduo tóxico estava enterrado. Isto levou a uma fuga para os
títulos do Tesouro dos EUA e a uma diminuição
drástica na concessão de empréstimos.
Em 19 de Janeiro de 2008 o
Wall Street Journal
declarava abertamente que o sistema financeiro havia entrado no
"Cenário do pânico", referindo-se ao modelo de
Kindelberger em
Manias, Panics, and Crashes.
O Federal Reserve Board respondeu, na sua função de prestamista
de último recursos, despejando liquidez no sistema, reduzindo
drasticamente a taxa de fundos federais dos 4,75 por cento em Setembro para 3
por cento em Janeiro, com mais cortes nas taxas de juro que se aguardam. O
governo federal imiscuiu-se com um pacote de estímulos de US$150 mil
milhões. Nada disto, contudo, serviu, na data em que isto era escrito
(princípio de Março de 2008), para travar a crise, a qual
está baseada na insolvência de grande parte do mercado
hipotecário de muitos milhões de milhões de
dólares, com novos choques a seguirem-se quando milhões de
hipotecas com taxas ajustáveis vêm saltos nas taxas de juros.
Acima de tudo, o fim da bolha habitacional minou a condição
financeira dos consumidores estado-unidenses, já duramnte pressionados e
pesadamente endividados, cujas compras equivalem a 72 por cento do PIB.
Quão séria será a desaceleração
económica final ainda não se sabe. Analistas financeiros sugerem
que os preços habitacionais devem cair na média algo como 20 a 30
por cento, e muito mais em algumas regiões, para retornarem às
tendências históricas.
[15]
O declínio nos preços habitacionais dos EUA experimentou uma
aceleração no quarto trimestre de 2007.
[16]
Isto mais o facto de que os consumidores estão a ser atingidos por
outros problemas, tais como preços em crescimento nos
combustíveis e alimentos, garante uma séria
desaceleração
(slowdown).
Alguns observadores referem-se agora a um "ciclo da bolha" e
vêem uma outra bolha como o único meio para impedir a
catástrofe e restaurar rapidamente o crescimento da economia.
[17]
Outros vêem um período de crescimento persistentemente fraco.
Uma coisa é certa. Os grandes interesses capitalistas estão
relativamente bem colocados para protegerem seus investimentos na fase de
declínio através de todas as espécie de arranjos hedging e
muitas vezes podem apelar ao governo para salvá-los. Eles também
têm uma miríade de meios de transferir os custos para aqueles que
estão mais baixos na hierarquia económica. As perdas portanto
cairão desproporcionalmente sobre os pequenos investidores,
trabalhadores e consumidores, e sobre economias do terceiro mundo. O resultado
final, como em todos os episódios da história do sistema,
será agravada concentração económica e no sector
financeiro tanto à escala nacional como global.
Uma crise de financiarização
Pouco mais pode ser dito por agora acerca da evolução do
declínio, o qual ainda terá de fazer o seu caminho através
do sistema. De uma perspectiva histórica a longo prazo, contudo, estes
eventos podem ser visto como sintomas de uma crise mais geral de
financiarização, para além da qual espreita o espectro da
estagnação. É através da exploração
destas questões mais vastas e mais profundas enraizadas na
produção com base de classe que podemos lançar luz sobre a
significância dos desenvolvimentos acima para a acumulação
de capital e o futuro da sociedade de classe capitalista.
Numerosos comentadores têm censurado severamente a economia dos EUA pela
sua "monstruosa bolha do crédito barato ... com uma bolha a
produzir outra" nas palavras de Stephen Roach, presidente do Morgan
Stanley Asia. Em outra parte Roach observou que "as bolhas da
América têm ficado cada vez maiores, tal como os segmentos da
economia real que elas têm infectado". A dívida familiar
aumentou 133 por cento do rendimento pessoal disponível, ao passo que a
dívida de corporações financeiras atingiu a estratosfera,
e a dívida do governo e de corporações não
financeiras tem estado a aumentar constantemente.
[18]
Esta enorme explosão no endividamento consumidor,
corporações e governo em relação à
economia subjacente (igual a bem mais de 300 por cento do PIB na altura do pico
da bolha habitacional em 2005) tem tanto erguido a economia como conduzido
à instabilidade crescente.
[19]
Comentadores dos media "de referência" muitas vezes tratam isto
como uma neurose nacional ligada a um vício americano no consumo
elevado, grandes tomadas de empréstimos e poupanças pessoais
evanescentes. Economistas radicais, entretanto, tomaram a dianteira ao apontar
para uma transformação estrutural no próprio processo de
acumulação de capital associado ao processo histórico com
décadas agora comumente chamado financiarização
no qual o papel tradicional das finanças como uma serva
útil da produção foi invertido, com as finanças
agora a dominarem sobre a produção.
A questão da financiarização do processo de
acumulação de capital foi sublinhada um quarto de século
atrás na
Monthly Review,
por Harry Magdoff e Paul Sweezy, num artigo sobre "Produção
e finanças". Arrancando com uma teoria (chamada a "tese da
estagnação")
[20]
que via a explosão financeira como uma resposta à
estagnação da economia subjacente, eles argumentaram que isto
ajudou a "compensar a capacidade produtiva excedente da indústria
moderna" tanto através do seu efeito directo sobre o emprego e
indirectamente através do estímulo à procura criado por
uma valorização de activos (agora referidos como a
"criação de riqueza").
[21]
Mas a questão levanta-se naturalmente: Poderia um tal processo
continuar? Eles responderam:
De um ponto de vista estrutural, isto é, dada a independência de
extremo alcance do sector financeiro acima discutida, a inflação
financeira desta espécie pode persistir indefinidamente. Mas
será que isto não obriga ao colapso face à teimosa
estagnação do sector produtivo? Serão estes dois sectores
realmente independentes? Ou será que estamos a falar meramente acerca
de uma bolha inflacionária que é obrigada a explodir como muitas
manias especulativas o fizeram na história passada do capitalismo?
Nenhuma resposta garantida pode ser dada a estas questões. Mas estamos
inclinados a ver que na fase actual da história do capitalismo
exceptuando um choque de forma alguma improvável como a ruptura do
sistema monetário e bancário internacional a
coexistência da estagnação no sector produtivo e da
inflação no sector financeiro pode continuar por um longo tempo.
[22]
Na raíz da tendência da financiarização,
argumentaram Magdoff e Sweezy, estava a estagnação subjacente da
economia real, a qual constituía o estado normal do capitalismo moderno.
Nesta visão, não era a estagnação que precisava
ser explicada e sim os períodos de crescimento rápido, tais como
a década de 1960.
Os economistas da corrente dominante prestaram escassa atenção
à tendência estagnacionista em economias maduras. Na ideologia
económica recebida considera-se o crescimento rápido como uma
propriedade intrínseca do capitalismo como um sistema. Confrontados com
o que parece o princípio de uma grande baixa económica somos
então estimulados a vê-la como um mero fenómeno
cíclico penoso, mas auto-correctivo. Mais cedo ou mais tarde uma
plena recuperação ocorrerá e o crescimento
retornará ao seu ritmo rápido normal.
Contudo, há uma visão económica radicalmente diferente, da
qual Magdoff e Sweezy estavam entre os principais representantes, que sugere
que o caminho normal das economias capitalistas maduras, tais como aquelas dos
Estados Unidos, dos principais países da Europa Ocidental e o
Japão, é o da estagnação ao invés do
crescimento rápido. Nesta perspectiva, as crises periódicas de
hoje, ao invés de constituírem meras interrupções
temporários num processo de avanço acelerado, apontam para
sérios e crescentes constrangimentos a longo prazo na
acumulação de capital.
Uma economia capitalista a fim de continuar a crescer deve descobrir
constantemente novas fontes de procura para o crescente excedente que ela gera.
Entretanto, na evolução histórica da economia, chega um
momento em que grande parte do excedente à procura de investimento
gerado pela enorme e crescente produtividade do sistema é incapaz de
descobrir suficientes novas saídas de investimento lucrativo. As
razões para isto são complexas e têm a ver com (1) a
maturação das economias, nas quais a estrutura industrial
básica já não precisa de ser construída a partir do
zero e sim simplesmente reproduzida (e portanto normalmente pode ser financiada
pelas quotas de amortização); (2) a ausência durante
longos período de qualquer nova tecnologia que gere estímulos que
façam uma época e a transformação da economia, tal
como ocorreu com a introdução do automóvel (mesmo a
utilização generalizada de computadores e da Internet não
teve o efeito estimulante sobre a economia das tecnologias transformativas
anteriores); (3) crescente desigualdade de rendimento e riqueza, a qual limita
a procura por consumo na base da economia e tende a reduzir o investimento
quando capacidade produtividade não utilizada já
construída e os ricos especulam mais com os seus fundos ao invés
de investirem na economia "real" os sectores que produzem bens
e serviços; e (4) um processo de monopolização
(oligopolização) que conduz a uma atenuação da
competição através dos preços habitualmente
considerada como a principal força responsável pela flexibilidade
e dinamismo do sistema.
[23]
Historicamente, a presença da estagnação sentiu-se mais
dramaticamente na Grande Depressão da década de 1930. Ela foi
interrompida pelo estímulo económico proporcionado pela Segunda
Guerra Mundial e pelas condições excepcionalmente
favoráveis após a guerra, na chamada "Era Dourada".
Mas quando as condições favoráveis diminuíram a
estagnação voltou à superfície na década de
1970. A utilização da capacidade manufactureira começou o
seu declínio secular que continuou até ao presente, numa
média de apenas 79,8 por cento no período 1972-2007 (a comparar
com uma média de 85 por cento em 1960-69). Em parte como resultado
disto o investimento líquido vacilou (ver gráfico 2).
[24]
O papel clássico do investimento líquido (após reservas
para substituição de equipamento desgastado) na teoria do
desenvolvimento capitalista é claro. Ao nível da firma, é
apenas investimento líquido que absorve excedente à procura de
investimento que corresponde a lucros não distribuídos (e
não onerados pelo fisco) das firmas uma vez que o remanescente do
investimento bruto é investimento de substituição coberto
por dotações para consumo de capital. Como observou em 1983 o
economista Harold Vatter num artigo intitulado "The Atrophy of Net
Investment",
Ao nível do representante individual da empresa, a fuga ao investimento
líquido significa a aproximação do término da
raison d'être histórica e profundamente enraizada da firma
não financeira: a acumulação de capital. Em
consequência, aos lucros contabilísticos não
distribuídos, se não forem tomados pelo fisco, faltariam os
destinos tradicionais (procura efectiva na forma de investimento
líquido), pelo menos numa economia fechada.
[25]
O investimento no sector privado que outrora representava a força
condutora principal da economia capitalista, absorvendo um excedente
económico crescente. Foi o relativamente alto investimento fixo
líquido não residencial dos privados (juntamente com gastos do
governo orientados para as despesas militares) que ajudou a criar e sustentar a
"Era Dourada" da década de 1960. A falta de tal investimento
(em percentagem do PIB) no princípio da década de 1970 (com breve
excepções no fim dos anos 1970-princípio dos anos 1980, e
fim dos anos 1990), assinalou que a economia era incapaz de absorver todo o
excedente à procura de investimento que ela estava a gerar, e portanto
marcou o início do aprofundamento da estagnação na
economia real de bens e serviços.
O problema total tem-se agravado ao longo do tempo. Nove em cada dez anos com
o mais baixo investimento fixo líquido não residencial como
percentagem do PIB ao longo do último meio século (até
2006) estiveram nas décadas de 1990 e 2000. Entre 1986 e 2006, em
apenas um ano o de 2000, exactamente antes do crash do mercado de
acções a percentagem do PIB representada pelo investimento
fixo líquido privado não residencial atingiu a média de
1960-79 (4,2 por cento). Este fracasso no investimento não se deve
evidentemente não à falta de excedente à procura de
investimento. Um indicador disto é que as corporações
agora sentam sobre uma montanha de cash um excesso de US$600 mil
milhões em poupanças corporativas que foram acumuladas ao mesmo
tempo que o investimento tem estado a declinar devido à falta de
saídas lucrativas.
[26]
O que tem impedido as coisas de ficarem piores nas últimas poucas
décadas, devido ao declínio do investimento líquido e aos
limites sobre os gastos civis do governo, tem sido principalmente as
finanças em ascensão. Isto proporcionou uma escapatória
considerável para o excedente económico, no chamado FIRE
(finanças, seguros e imobiliário), empregando muitas novas
pessoas neste sector não produtivo da economia, ao mesmo tempo,
também, estimulando indirectamente a procura através do impacto
da valorização de activos (o efeito riqueza).
Além das finanças, o principal estímulo para a economia,
nos últimos anos, tem sido os gastos militares. Como observou o
crítico do império Chalmers Johnson em
Le Monde Diplomatique
de Fevereiro de 2008:
As despesas planeadas pelo Departamento da Defesa para o ano fiscal de 2008
são maiores do que os orçamentos militares de todos os outros
países em conjunto. O orçamento suplementar para pagar as
guerras actuais no Iraque e no Afeganistão, que não fazem parte
do orçamento oficial da defesa, é maior do que os
orçamentos conjuntos da Rússia e da China. Os gastos
relacionados com a defesa no ano fiscal de 2008 excederão US$1
milhão de milhões
(trillion)
pela primeira vez na história... Deixando de lado as duas guerras em
curso do presidente Bush, os gastos de defesa duplicaram desde meados da
década de 1990. O orçamento de defesa para o ano fiscal de 2008
é o maior de todos desde a segunda guerra mundial.
[27]
Contudo, mesmo o estímulo proporcionado por tais gastos militares
gigantescos hoje não é suficiente para retirar o capitalismo
americano da estagnação. Portanto, a economia tornou-se cada vez
mais dependente da financiarização como veículo chave de
crescimento.
Ao apontar em 1994 para esta condição económica alterada
de forma dramática, numa palestra para estudantes de ciências
económicas de Harvard, Sweezy declarou:
Antigamente as finanças eram tratadas como um modesto auxiliar da
produção. Elas tenderam a ganhar vida por si próprias e
gerar excessos especulativos nas etapas finais das expansões do ciclo de
negócios. Em regra estes episódios eram de breve
duração e não tinham efeitos duradouros sobre a estrutura
e o funcionamento da economia. Em contraste, o que aconteceu em anos recentes
foi o crescimento de um sector financeiro relativamente independente,
não num período de super-aquecimento mas ao contrário num
período de alto nível de estagnação (alto
nível devido ao apoio proporcionado à economia pelo sector
público orientado militarmente) no qual a indústria privada
é lucrativa mas carente de incentivos para expandir, portanto a
estagnação do investimento privado real. Mas uma vez que as
corporações e os seus accionistas estão a sair-se bem e,
como sempre, estão ansiosos por expandir o seu capital, eles despejam
dinheiro dos mercados financeiros, o qual responde com a expansão da sua
capacidade de manusear estas somas crescentes e oferece novas espécie de
instrumentos financeiros atraentes. Tal processo começou na
década de 1970 e realmente arrancou na de 1980. No fim da
década, a velha estrutura da economia, consistente num sistema de
produção servido por um modesto auxiliar financeiro, havia dado
lugar a uma nova estrutura na qual um sector financeiro grandemente expandido
havia alcançado um alto grau de independência e sentava sobre o
topo do sistema de produção subjacente. Isto, no essencial,
é o que temos agora.
[28]
Desta perspectiva, o capitalismo na sua fase monopolista-financeira tornou-se
cada vez mais dependente do inchaço do sistema de
crédito-débito a fim de escapar aos piores aspectos da
estagnação. Além disso, nada no próprio processo
de financiarização apresenta uma via de saída deste
círculo vicioso. Hoje a explosão de dois bolha num
período de sete anos no centro do sistema capitalista aponta para uma
crise de financiarização, por trás da qual espreita a
estagnação profunda, sem saída visíveis da
armadilha presente além do enchimento de novas bolhas.
Será a financiarização um problema real ou simplesmente um
sintoma?
Os argumentos anteriores levam à conclusão de que a
estagnação gera financiarização, a qual é o
meio principal pelo qual o sistema continua a coxear até ao momento.
Mas deve ser notado que trabalhos recentes de alguns economistas radicais nos
Estados Unidos apontaram para a conclusão diametralmente oposta: que a
financiarização gera estagnação. Nesta
visão, é a financiarização ao invés da
estagnação que parece ser o problema real.
Isto pode ser visto num documento de trabalho de Novembro de 2007 do Political
Economy Research Institute escrito por Thomas Palley, intitulado
"Financialization: What It Is and Why It Matters". Palley observa
que "a era da financiarização foi associada com crescimento
económico geralmente morno... Em todos os países excepto o Reino
Unido, o crescimento médio anual caiu durante a era da
financiarização que se iniciou após 1970. Além
disso, o crescimento também parece mostrar uma tendência vagarosa
pois o crescimento na década de 1980 foi mais alto do que na de 1990, o
qual por sua vez foi mais alto do que na de 2000". Ele prossegue ao
observar que "o ciclo de negócios gerado pela
financiarização pode ser instável e finalizar uma
estagnação prolongada". No entanto, o ponto principal do
argumento de Palley é que esta "estagnação
prolongada" é uma consequência da
financiarização ao invés de outro meio para
contorná-la. Portanto ele afirma que factores como
"estagnação de salários e desigualdade agravada de
rendimentos" são "devidos significativamente a mudanças
forjadas pelos interesses do sector financeiro". O "novo ciclo de
negócios" dominado pelo "culto da finança"
é dito conduzir a mais volatilidade decorrente de bolhas financeiras.
Portanto, "a financiarização pode tornar a economia presa da
dívida-deflação e da recessão prolongada".
Palley chama a este argumento a "tese da
financiarização".
[29]
Não há dúvida de que uma profunda estagnação
prolongada poderia emergir no fim de uma bolha financeira, isto é, com o
desaparecimento de um período de financiarização
rápida. Afinal de contas, foi isto o que aconteceu ao Japão a
seguir à explosão do seu mercado de activos imobiliários e
de acções em 1990.
[30]
A análise que apresentamos aqui, entretanto, sugeriria que um mal
estar económico desta espécie é mais habitualmente
encarado como uma crise de financiarização ao invés de
atribuível aos efeitos negativos da financiarização sobre
a economia, tal como sugerido por Palley. O problema é que o processo
de financiarização caiu num impasse e com isso o crescimento que
ele gerava.
O ponto que estamos aqui a destacar pode ser clarificado examinando outro
documento de trabalho (Outubro de 2007, também do Political Economy
Research Institute) do economista Özgür Orhangazi sobre
"Financialization and Capital Accumulation in the Non-Financial Corporate
Sector." Orhangazi argumenta que "investimento financeiro acrescido e
oportunidades de lucro financeiras acrescidas expulsam o investimento real ao
mudar os incentivos dos administradores das firmas e dirigir os fundos para
longe do invetimento real". Notando que "a taxa de
acumulação de capital [referindo-se ao investimento fixo
líquido não residencial por corporações não
financeiras] tem sido relativamente baixa na era da
financiarização", Orhangazi encara isto como sendo devido ao
"investimento acrescido em activos financeiros", os quais "pode
ter um efeito de 'expulsão' sobre o investimento real": a
estagnação é então convertida de uma causa (como na
tese da estagnação) em um efeito (na tese da
financiarização).
[31]
Todavia, a ideia da "expulsão" do investimento pela
especulação financeira faz pouco sentido, na nossa
opinião, quando colocada no contexto actual de uma economia
caracterizada pela ascensão do excesso de capacidade e pelo
desaparecimento de oportunidades de investimento líquido. Há
muitas saídas lucrativas para o capital na economia real de bens e
serviços. Um limite muito estreito existe em relação ao
número de oportunidades de geração de lucro associado
à criação de novos ou automóveis ou
fabricação de electrodomésticos, cabeleireiros,
estabelecimentos de comida rápida, e assim por diante. Sob as
circunstâncias de um processo de acumulação de capital a
que faltam saída lucrativas e trava constantemente, a
acumulação de mais e mais dívidas (e a
inflação de preços de activos que isto produz) é
uma alavanca poderosa, como vimos, no estímulo ao crescimento.
Reciprocamente qualquer redução no inchaço da
dívida ameaça este crescimento. Isto não quer dizer que a
dívida deveria ser encarada como uma cura para tudo. Ao
contrário, para a fraca economia subjacente de hoje nenhuma quantia de
estímulo da dívida é suficiente. Está na natureza
do capital monopolista-financeiro de hoje que ele "tende a tornar-se
viciado em dívida: cada vez necessita mais dela apenas para manter o
motor em andamento".
[32]
Ainda assim, por importante que a financiarização se tenha
tornado na economia contemporânea, isto não deveria cegar-nos para
o facto de que o problema real jaz alhures: em todo o sistema de
exploração de classe enraizado na produção. Neste
sentido a financiarização é meramente um meio de compensar
a doença subjacente que afecta a própria acumulação
de capital. Como escreveu Marx em
O Capital,
"A superficialidade da economia política mostra-se no facto de que
ela encara a expansão e contracção do crédito como
a causa das alterações periódicas do ciclo industrial,
quando ela é um mero sintoma deles". Apesar da vasta
expansão do crédito-dívida no capitalismo de hoje,
continua a ser verdade que a barreira real para o capital é o
próprio capital: manifestada na tendência rumo à
sobre-acumulação de capital.
A crítica bem intencionada da financiarização
avançada por Palley, Orhangazi e outros da esquerda é destinada
à re-regulamentação do sistema financeiro, e a
eliminação de alguns dos piores aspectos do neoliberalismo que
emergiram na era do capital monopolista-financeiro. A intenção
clara é criar uma nova arquitectura financeira que estabilizará a
economia e protegerá o trabalho assalariado. Mas se o argumento
anterior é correcto, tais esforços para re-regulamentar as
finanças provavelmente fracassarão nos seus objectivos
principais, uma vez que quaisquer tentativas sérias de dominar o sistema
financeiro arrisca-se a desestabilizar todo o regime de
acumulação, o qual precisa constantemente da
financiarização para subir a níveis sempre mais altos.
As únicas coisas que de modo concebível poderiam ser feitas
dentro do sistema para estabilizar a economia, afirmou Sweezy em 1994 na
palestra de Harvard, seria expandir muito a despesa civil do Estado em vias que
genuinamente beneficiassem a população; e executar uma realmente
radical redistribuição do rendimento e da riqueza da
espécie "a que Joseph Kennedy, o fundador da dinastia Kennedy"
se referiu "em meados da Grande Depressão, quando as coisas
pareciam gélidas" indicando "que ele abandonaria com
satisfação a metade da sua fortuna se pudesse ter a certeza de
que a outra metade ficaria mais segura". Naturalmente, nenhuma destas
propostas radicais está na agenda do presente, e a natureza do
capitalismo é tal que se uma crise alguma vez levasse à sua
adopção, os interesses adquiridos fariam todas as tentativas para
repelir tais medidas no momento em que a crise houvesse passado.
[33]
A dura verdade é que o regime do capital monopolista-financeiro
está concebido para beneficiar um minúsculo grupo de
oligopolistas que dominam tanto a produção como as
finanças. Um número relativamente pequeno de indivíduos e
corporações controla enormes reservas de capital e não
encontram outro meio de continuar a ganhar dinheiro na escala necessária
senão através de uma pesada dependência nas finanças
e na especulação. Isto é uma contradição de
raízes profundas intrínseca ao desenvolvimento do próprio
capitalismo. Se o objectivo é promover as necessidades da humanidade
como um todo, o mundo mais cedo ou mais tarde terá de abraçar um
sistema alternativo. Não há outro caminho.
05/Março/2008
Notas
1. John Bellamy Foster, "Financialization of Capitalism,"
Monthly
Review
58, no. 11 (April 2007): 810. Ver também John Bellamy Foster,
"The Household Debt Bubble," Monthly Review 58, no. 1 (May 2006):
111, e "Monopoly-Finance Capital,"
Monthly Review
58, no. 7
(December 2006); e Fred Magdoff, "The Explosion of Debt and
Speculation,"
Monthly Review
58, no. 6 (November 2006), 123.
2. "U.S. Recovery May Take Longer than Usual: Greenspan," Reuters,
February 25, 2008.
3. Paul M. Sweezy, "More (or Less) on Globalization,"
Monthly
Review
49, no. 4 (September 1997): 3.
4. Stephanie Pomboy, "The Great Bubble Transfer," MacroMavens,
April 3, 2002,
http://www.macromavens.com/reports/the_great_bubble_transfer.pdf;
Foster, "The House-hold Debt Bubble," 810.
5. A discussão seguinte das cinco fases da bolha habitacional repousa
primariamente nas seguintes fontes: Juan Landa, "Deconstructing the
Credit Bubble," Matterhorn Capital Management Investor Update, 3rd Quarter
2007, http://www.matterhorncap.com/pdf/3q2007.pdf., and "Subprime Collapse
Part of Economic Cycle,"
San Antonio Business Journal, October 26, 2007, and Charles P. Kindelberger and
Robert Aliber, Manias, Panics, and Crashes (Hokoben, New Jersey: John Wiley and
Sons, 2005).
6. Na análise das bolhas financeiras que Charles Kindelberger
apresentou com base na teoria anterior da instabilidade financeira iniciada por
Hyman Minsky, a fase da bolha associada aqui com um "novo
lançamento" é mais frequentemente mencionada como
"deslocação", um conceito que é suposto combinar
as ideias de choque económico e inovação. Uma vez que
"novo lançamento" é mais descritivo daquilo que
realmente acontece na formação de uma bolha, é muitas
vezes substituído por "deslocamento" em tratamentos concretos.
Ver Kindelberger and Aliber, Manias, Panics, and Crashes, 4750.
7. Floyd Norris, "Who's Going to Take the Financial Weight?," New
York Times, October 26, 2007; "Default Fears Unnerve Markets,"
Wall Street Journal,
January 18, 2008.
8. Federal Reserve Bank of New York, "Historical Changes of the Target
Federal Funds and Discount Rates,"
http://www.newyorkfed.org/markets/statistics/dlyrates/fedrate.html.
9. Landa, "Deconstructing the Credit Bubble."
10. Hyman Minsky, Can "It" Happen Again? (New York: M.E. Sharpe,
1982), 2829.
11. "Household Financial Condition: Q4 2005," Financial Markets
Center, March 19, 2006, http://www.fmcenter.org; Foster, "The Household
Debt Bubble," 8.
12. "Global Derivatives Market Expands to $516 Trillion (Update),"
Bloomberg.com, November 22, 2007.
13. "Bond Insurer Woes May Mean End of Loophole," Reuters, February
13, 2008.
14. "Global Recession Risk Grows as U.S. 'Damage' Spreads,"
Bloomberg.com, January 28, 2008. Este relatório refere-se à
recessão ao nível mundial, tal como descrito pelos economista,
como 3 por cento ou inferior. Mas 2,5 por cento é provavelmente mais
exacto, i.é, mais próximo das recentes recessões mundiais
e pontos de vista do FMI.
15. Stephen Roach, "America's Inflated Asset Prices Must Fall,"
Financial Times, January 8, 2008.
16. "Decline in Home Prices Accelerates," Wall Street Journal,
February 27, 2008.
17. Eric Janszen, "The Next Bubble," Harper's (February 2008),
3945.
18. Roach, "America's Inflated Asset Prices Must Fall," and "You
Can Almost Hear it Pop," New York Times, December 16, 2007.
19. Fred Magdoff, "The Explosion of Debt and Speculation," 9.
20. A expressão "tese da estagnação" foi na
origem associada primariamente ao argumento de Alvin Hansen em resposta Grande
Depressão. Ver Hansen, "The Stagnation Thesis" in American
Economic Association, Readings in Fiscal Policy (Homewood, Illinois: Richard D.
Irwin, Inc., 1955), 54057. Posteriormente foi utilizado por Baran e
Sweezy's Monopoly Capital. Ver Harry Magdoff, "Monopoly Capital"
(review), Economic Development and Cultural Change 16, no. 1 (October 1967):
148.
21. O conceito do "efeito riqueza" refere-se à tendência
de o consumo crescer independentemente do rendimento devido à
ascensão dos preços dos activos sob a
financiarização. A utilização mais antiga da
expressão foi num artigo de 27/Janeiro/1975 na
Business Week
intitulado "How Sagging Stocks Depress the Economy." Alan Greenspan
empregou o conceito do "efeito riqueza" em 1980 para referir-se ao
efeito do aumento nos preços das casas no estímulo ao consumo por
parte dos proprietários das mesmas Greenspan, "The Great
Malaise," Challenge 23, no. 1 (MarchApril 1980): 38. Ele
posteriormente utilizou-o para racionalizar a bolha do mercado de
acções da Nova Economia da década de 1990.
22. Harry Magdoff and Paul M. Sweezy, "Production and Finance,"
Monthly Review
35, no. 1 (May 1983): 1112.
23. O argumento básico foi articulado emnumerosas publicações Paul
Baran, Paul Sweezy, e Harry Magdoff desde a década de 1950 até a de 1990.
24. Federal Reserve Statistical Release, G.17, "Industrial Production and
Capacity Utilization," February 15, 2008,
http://www.federalreserve.gov/releases/g17/Current/default.htm;
John Bellamy Foster, "The Limits of U.S. Capitalism: Surplus
Capacity and Capacity Surplus," in Foster and Henryk Szlajfer, ed., The
Faltering Economy (New York: Monthly Review Press, 1984), 207.
25. Harold G. Vatter, "The Atrophy of Net Investment," in Vatter and
John F. Walker, The Inevitability of Government Spending (New York: Columbia
University Press, 1990), 7. Vatter nota que o investimento líquido como
uma fatia do produto nacional líquido (PNL) caiu para a metade entre o
último quarto do século XIX e os meados do século XX.
Vatter and Walker, Inevitability of Government Spending, 8.
26. "Companies are Piling Up Cash,"
New York Times,
March 4, 2008. Este amontoamento de cash foi o produto da última
década, com o nível médio de cash como percentagem do
total de activos das corporações no índice 500 do Standard
& Poor's a duplicar entre 1998 e 2004 (e o rácio mediano a triplicar).
27. Chalmers Johnson, "Why the US has Really Gone Broke,"
Le Monde Diplomatique
(English edition), February 2008.
O número de Johnson de US1 milhão de milhões para os
gastos militares dos EUA foi obtido somando-se os suplementos requeridos
para as guerras no Iraque e no Afeganistão ao orçamento do Departamento da
Defesa para o ano fiscal de 2008
(chegando-se a um grande total de US$766 mil milhões), e então
acrescentando-se a isto o gastos militares ocultos nos orçamentos do
Departamento da Energia, Departamento de Segurança Interna, Veterans
Affairs, etc.
28. Paul M. Sweezy, "Economic Reminiscences,"
Monthly Review
47, no. 1 (May 1995), 89.
29. Thomas I. Palley, "Financialization: What It Is and Why It
Matters",
Working Paper Series,
no. 153, Political Economy Research
Institute, November 2007, 1, 3, 8, 11, 21,
http://www.peri.umass.edu/Publication.236+M505d3f0bd8c.0.html
30. Ver Kindelberger e Aliber, Manias, Panics, and Crashes, 12635.
31. Özgür Orhangazi, "Financialization and Capital Accumulation
in the Non-Financial Corporate Sector," Working Paper Series, no. 149,
Political Economy Research Institute, October 2007, 37, 45,
http://www.peri.umass.edu/Publication.236+M547c453b405.0.html.
32. Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, The Irreversible Crisis (New York:
Monthly Review Press, 1988), 49.
33. Sweezy, "Economic Reminiscences," 910.
[*]
Editor da
Monthly Review.
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/080401foster.php
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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