As esquerdas na Segunda Internacional. Os partidos socialistas e o debate entre revolucionários, reformistas e revisionistas.

por Octávio Rodríguez Araujo [*]

Livro do qual foi extraído este capítulo. Após a dissolução da Associação Internacional dos Trabalhadores, em diversos países europeus colocou-se a possibilidade de constituir outra Internacional. Marx e Engels não concordaram com estas propostas. Parecia-lhes melhor que antes se formassem partidos fortes de trabalhadores e socialistas, sobretudo nos países que nesse momento revelavam uma maior industrialização. As razões pelas quais se dividiu a Primeira Internacional, até à sua dissolução, não deveriam repetir-se. Já então Engels escrevia acerca da importância de um programa para um partido ou, dito de outra maneira, de um partido com programa, enfatizando que sempre seriam mais importantes as suas acções do que o programa. Ainda que Marx e Engels não estivessem de acordo com o Programa de Gotha, que levou à fusão de lassalleanos com eisenacheanos, concordavam numa organização baseada numa comunidade teórica ou num programa de princípios, ou seja, num programa socialista definido e genuíno. Numa carta de Marx a Bracke (5 de Maio de 1875) depreende-se — interpreto — a diferença entre um partido com um claro programa de princípios e um movimento com um programa para a acção comum. Ainda que "cada passo de um movimento real seja mais importante que uma dezenas de programas", conforme assinalava Marx nesta carta, não se desdenhava a importância de um partido com um programa de princípios que, como tais, não devem ser regateados. Considero que nesses momentos já começava a tomar forma a ideia de partido como organização estruturada baseada numa definição teórica, naquilo que agora chamaríamos "declaração de princípios" e, em consequência, num "programa de acção" que correspondesse a esses princípios. Em 1877 Marx já falava do partido, com massa e dirigentes [1] , e em 1879, junto com Engels, também de disciplina partidária [2] , ou seja, de uma organização política com as características de um partido moderno de classe, da classe operária (neste caso na Alemanha). Anos mais tarde, em 1882, Engels diferenciava entre um partido de classe e um partido para ganhar votos, e dizia:

"A alternativa é puramente de princípios: a luta há de ser realizada como luta de classes do proletariado ou da burguesia, ou há de permitir-se que no bom estilo oportunista (ou como se denomina na tradução socialista: possibilista) há de esquecer-se o carácter de classe do movimento e o programa quando por este meio se apresentar uma oportunidade de ganhar mais votos, mais filiados?" [3]

E acrescentava que os possibilistas, para ganhar mais votos, sacrificaram o carácter "classistas, proletário, do movimento tornando inevitável a divisão". O ponto é muito importante, pois em fins do século XX, cerca de cem anos depois da citada carta de Engels, muitos dos partidos que se autodenominavam socialistas resolveram abandonar o seu carácter classista, proletário (ainda que por vezes o mantivessem no papel) para se converterem em partidos ideologicamente ambíguos e pluriclassistas com o objectivo de ganhar votos e competir com os partidos não classistas. O resultado para muitos desses partidos foi que nem ganharam suficientes votos para serem competitivos eleitoralmente nem se mantiveram como representantes de uma classe social: os trabalhadores, privando estes de uma alternativa partidária pelo socialismo.

A Segunda Internacional fundou-se em Paris, de 14 a 21 de Julho de 1889, na Sala Pétrelle. Paralelamente, mas na rue de Lancry, efectuou-se o congressos dos possibilistas, ou seja, da Federação de Trabalhadores Socialistas de França, apoiada obviamente pelos tradeunionistas ingleses. Os anarquistas estiveram presentes em ambas as reuniões, mas não conseguiram influência apesar do seu activismo.

Se num sentido amplo, talvez demasiado flexível, se pudesse dizer que tanto na Sala Pétrelle como na rua Lancry reunia-se a esquerda dessa época, o desenvolvimento e o fortalecimento da Segunda Internacional, surgida na Sala Pétrelle, representaria a esquerda desses anos, pelos menos até 1914 quando se verificou a sua grande divisão provocada pela Primeira Guerra Mundial. Naquele momento já se afirmava que a esquerda era a que propunha o socialismo como meta a alcançar, pelo que os grupos, associações e partidos que não lutavam pelo socialismo deixaram de ser considerados parte dessa posição, ainda que não necessariamente fossem todos qualificados como direitistas.

A Segunda Internacional, escrevia Droz, distinguia-se da Primeira "no facto de não tentar intervir directamente na vida dos partidos nacionais, cuja autonomia respeitava inteiramente" [4] . Em outros termos —óbvio—, havia partidos nacionais (e também sindicatos), e respeitavam-se as posições de cada um destes, sem que isto significasse que não houvesse discussão. Tão pouco havia um comité central que ditasse uma linha às organizações participantes, ainda que se procurasse em todos os momentos que houvesse unidade e coordenação [5] . A nova Internacional foi, de algum modo, uma federação de associações nacionais e de partidos também nacionais. A acção destes seria coordenada nos congressos que, segundo se previa, deveriam ser a cada três anos. A discussão principal e a tomada de posições entre as principais correntes ideológicas e políticas dava-se no seio de cada organização ou conjunto de organizações em cada país, ainda que os delegados levassem posições para debate nos congressos internacionais.

A luta principal não seria entre marxistas e anarquistas, como ocorreu na AIT, e sim entre os primeiros e os reformistas, tanto os oportunistas (possibilistas) como os revisionistas [6] . Entretanto, os anarquistas, antes de serem expulsos definitivamente no Congresso de Londres (Julho-Agosto de 1896), opunham-se a todas as demais correntes porque quanto à acção política estavam, tal como durante a Primeira Internacional, contra a acção eleitoral, parlamentar e legislativa. Eram, em termos modernos, ultra-esquerdistas e, por isso mesmo, sectários. As diferenças entre as outras correntes, uma vez marginalizados os anarquistas, eram mais subtis, e estas diferenças tiveram muito a ver com as experiências dos próprios partidos no seu contexto nacional, com as interpretações que deste faziam os próprios partidos e seus ideólogos, com a composição e filiação ideológicas dos seus aderentes e com a estratégia a seguir pela classe operária. Mas apesar dessas diferenças havia consenso sobre a necessidade da organização operária e da acção política pelo socialismo. O problema era como se concebiam ambas, sobretudo a segunda. Para os marxistas, como bem assinalavam Novack e Frankel [7] , o problema era combater as duas tendências principais que eles consideravam falsas (do ponto de vista das lutas políticas dos trabalhadores pelo socialismo): os oportunistas e os sectários, como já eram qualificados, entre outras correntes, os anarquistas. Entretanto, como logo se tornou evidente, entre os marxistas também houve diferenças.

Os marxistas em geral aceitavam, por exemplo, participar eleitoralmente para ganhar posições parlamentares, mas não confundiam estes propósitos com a tomada do poder e a destruição do Estado capitalista para construir, transitoriamente, um Estado dos trabalhadores e dos seus aliados. Por outras palavras, combinavam — distinguindo-as — as exigências imediatas (como a jornada de oito horas, as liberdades de associação e de expressão, ou a legislação operária), com as exigências mediatas para a construção do socialismo. "O novo [desta Internacional em relação à anterior] —assinalava Annie Kriegel— é, no contexto das grandes lutas sociais de fins do século XIX, o amplíssimo lugar que ocupam as reivindicações imediatas do proletariado industrial" [8] , e talvez porque havia novos elementos como motivo de debates, houve mudanças de posições nas próprias pessoas, e diferenças de grau entre as diversas interpretações sobre as acções imediatas e as mediatas. Nunca antes, como nesses anos, as estratégias foram tão discutidas nos seus matizes. As diferenças grossas, tais como participar ou não na política, cederam diante de outras mais finas, referindo-se por exemplo o como e onde vai a participação política. Outra diferença relativamente à Primeira Internacional foi o desenvolvimento das organizações sindicais e partidárias. Nas últimas duas décadas do século XIX os grandes sindicatos começaram a ser uma realidade em vários países e não apenas na Grã-Bretanha; e os partidos políticos de massas também, e não só na Alemanha. Mas enquanto na Alemanha a força do Partido Social Democrata e a sua influência sobre os sindicatos era entendida como algo natural, na Grã-Bretanha e na França os sindicatos eram mais influentes que os partidos e em certas ocasiões estes e qualquer tipo de direcção política eram vistos com desconfiança: no caso da França, pela longa tradição ainda presente do anarquismo tanto proudhoniano como bakuninista; e no caso da Grã-Bretanha pelo peso e pela tradição do tradeunionismo. De maneira semelhante havia diferenças em relação ao Estado. Os grupos franceses, assinalava Cole,

"eram hostis ao Estado, não como o eram os alemães, porque fosse o Estado da burguesia, destinado a ser substituído pelo Estado centralizado do proletariado, e sim porque era o Estado e, por conseguinte, o inimigo do povo enquanto existisse. No melhor dos casos consideravam-no como um organismo do qual os trabalhadores podiam arrancar concessões empregando o seu poder organizado de classes; mas nunca, nem remotamente, como uma instituição que pudessem oportunamente transformar a fim de que servisse de expressão à vontade colectiva". [9] .

Nas reivindicações imediatas e nas acções coordenadas em diversos países também ocorriam diferenças e pontos de vista que não mantinham relação uns com os outros. Cole dá-nos um exemplo, a meu ver muito ilustrativo, relacionado com a proposta da American Federation of Labor (AFL) de que os operários se manifestassem em toda a parte no primeiro de Maio, e cita várias opiniões que certamente se exprimiam acerca do sentido dessa manifestação "mundial" de trabalhadores: para uns era um pretexto para fazer petições às autoridades e afirmar a solidariedade da classe operária; para outros, não muito distantes dos anteriores, era para conseguir concessões tanto dos patrões como das autoridades, mediante a greve, que era certamente a posição da AFL. Para os marxistas franceses, já então influenciados pelos alemães, tratava-se de convocar os trabalhadores ao socialismo para, uma vez aumentado o seu número, conseguir maiorias parlamentares ou serem capazes de tomar o Estado nas suas próprias mãos e "refazê-lo como um Estado dos trabalhadores". Para os sindicalistas não exactamente simpatizantes dos partidos, o primeiro de Maio era, em contrapartida, uma espécie de preparação dos trabalhadores em acções de greve (que os ingleses recusavam, razão pela qual eles não celebravam o primeiro de Maio e sim o primeiro domingo de Maio) e ao mesmo tempo parar o trabalho nesse dia para conseguir concessões de patrões, de autoridades locais e do próprio Estado sem necessidade de "empreender uma acção parlamentaria ou perder-se nas manobras e transacções do parlamento". Para os anarco-sindicalistas, finalmente, o primeiro de Maio seria um dia "para provocar choques com a polícia e o exército, a fim de adestrar os trabalhadores não só para a greve como também para convertê-los em verdadeiros revolucionários e deste modo preparar o caminho para a greve geral insurreccional na qual o Estado seria destruído e surgiria a sociedade livre do futuro". Próxima a esta última posição estava a meramente anarquista, inimiga inclusive dos sindicatos (para não dizer dos partidos), para a qual a comemoração do dia do trabalho só seria pretexto para agitar e "desencadear o máximo de fúria destruidora". [10] Estes últimos assemelhar-se-iam na actualidade com aqueles que, entre os movimentos anti-globalização, são conhecidos como o Black Block, cujos membros também são chamados em espanhol Monos Negros, e que têm entre as suas publicações na Internet o sítio web La Haine (O ódio), titulo significativo retirado do filme do mesmo nome dirigido por Mathieu Kassovitz em 1995. [11] .

Convém dizer que os marxistas, apesar do tempo transcorrido desde 1872 (quando os bakuninistas foram expulsos da AIT), mantiveram a sua oposição aos anarquistas nos primeiros anos da Segunda Internacional. No Congresso de Bruxelas (Agosto de 1891) os anarquistas foram excluídos na sua maioria. No Congresso de Zurique (dois anos depois) também foram excluídos e Bebel, com a intenção de evitá-los no futuro, propôs uma moção a estabelecer que só seriam admitidos nos Congressos "os sindicatos profissionais operários bem como aqueles partidos e associações socialistas que reconhecem a necessidade da organização operária e da acção política" [12] . No Congresso de Londres (1896), como já foi assinalado, foram expulsos definitivamente, depois de grandes discussões.

"Os resultados da referida luta contra os anarquistas —assinala Kriegel— não foram só teóricos em relação à afirmada importância da acção política, mas desembocaram, na prática, na consagração da preponderância do partido enquanto forma superior de organização e de acção operária. Por isto, se os componentes da Internacional, no seu Congresso de Paris em 1889, são ainda multiformes e nele predominam representantes das organizações operárias e sindicais, a organização em partidos nacionais passa a ser a regra geral em fins do século XIX..." [13]

Regra geral que foi apoiada por Engels em sua Introdução de 1895 a As lutas de classes em França, como se verá mais adiante.

A observação de Kriegel, coincidente com a de outros especialistas sobre o tema, é muito importante, penso. A principal oposição à acção política era representada pelos anarquistas em suas diversas vertentes. A Internacional, apesar de não ser centralizada, estava concebida, desde a convocatória para participar na Sala Pétrelle, para a acção política e, naturalmente, por esta via, para lutar pelo socialismo. Como já mencionei, havia diferentes interpretações de como devia ser essa acção política (problemas de estratégia) mas, salvo os anarquistas, todos concordavam em que devia ser levada a cabo. Se a AIT (seu Conselho Geral) teve de ser enviada para os Estados Unidos a fim de evitar que os bakuninistas dela se apoderassem, na Segunda Internacional não foi necessária uma medida semelhante. As condições haviam mudado consideravelmente. No momento da fundação da Segunda Internacional tanto os sindicatos como os partidos em boa parte da Europa eram organizações fortes, consolidadas, facilmente oponíveis a qualquer tentativa dos anarquistas para dominar a associação internacional. Uma vez expulsos estes, os partidos e os sindicatos ficavam donos da situação e a acção política, nas suas diversas interpretações, ficaria garantida. A polémica seria outra. Primeiro entre partidos e sindicatos e, a seguir, uma vez marginalizados de facto os sindicatos (depois de 1900), entre os partidos e os seus ideólogos, principalmente quanto à estratégia a seguir frente à classe dominante e seu Estado.

Em relação aos sindicatos havia duas posições principais: os ingleses e os franceses, por um lado, e os alemães pelo outro. Os dois primeiros, menos influenciados pelo marxismo que os alemães, separavam as lutas económicas das políticas pelo que os sindicatos cuidariam das primeiras e os partidos das segundas. Os alemães, em contrapartida, consideravam os sindicatos como formas de organização menos evoluídas do que os partidos e antecedendo a estes na formação da consciência de classe dos trabalhadores. Recorde-se que para o marxismo a luta económica e a política devem caminhar juntas, sem que isto queira dizer que não se reconheça importância à melhoria salarial ou às condições de trabalho, etc. Na vida prática, inclusive dos últimos anos do século XX e princípios do XXI, pôde-se observar que em geral os trabalhadores sindicalizados mas sem militância partidária são menos solidários com as lutas políticas que transcendem as suas organizações gremiais do que os trabalhadores que participam também em partidos políticos. Mas tão pouco pode passar-se por alto que em muitos momentos e países ao longo do século XX os partidos subordinaram os sindicatos (por vezes controlando-os), sobretudo os partidos comunistas da linha de Moscovo, levando-os a aventuras que se verificaram contrárias aos interesses imediatos e justificados dos trabalhadores.

Em França, Jules Guesde, que havia estado em contacto com Marx e com os socialistas alemães, tinha a intenção de formar um grande partido socialista de trabalhadores, no qual certamente, uma vez consolidado como Parti Ouvrier Français (POF), não só participariam operários como também camponeses, intelectuais e membros da pequena burguesia. Guesde argumentava que não só os operários eram vítimas do capital (do grande capital) mas também os membros de outras classes e sectores sociais que também eram agravadas pela concentração do capital. Obviamente os sindicalistas que propunham a acção directa e nenhuma relação com a burguesia estavam contra os guesdistas, sobretudo os anarco-sindicalistas inspirados por Kropotkin. Em termos partidários, os adversários dos guesdistas eram os possibilistas, encabeçados desde a década dos 80 por Paul Brousse. A diferença fundamental entre os marxistas e os possibilistas era que os primeiros, apesar de aceitarem participar no Parlamento e noutras instâncias públicas, faziam-no para pressionar por leis e políticas públicas assim como meio para fazer propaganda em favor do socialismo, pois o seu objectivo era a tomada do poder, ao passo que os segundos, os possibilistas, mantinham que a partir do Parlamento, mas sobretudo a partir de posições de governo (sobretudo local), poder-se-iam conseguir reformas imediatas favoráveis aos trabalhadores, sem necessidade de modificar substancialmente o capitalismo. Deste modo, os possibilistas apoiavam a política de ganhar governos locais, ao passo que os marxistas pensavam numa organização nacional e centralizada para a tomada do poder nacional. À direita dos possibilistas estava Alexandre Millerand, que no meu entender tem importância porque haveria de ser um precursor da social-democracia a partir de meados do século XX, ou seja, da Internacional Socialista. Num célebre discurso de 1896 Millerand

"combateu a ideia de que os socialistas deveriam tratar de conseguir os seus objectivos por outros meios que não fossem os constitucionais, ou sem conseguir o apoio de uma maioria do povo [...] Proclamou como objectivos do socialismo a difusão geral da liberdade e da propriedade e declarou sua devoção pela república. Além disso, começou a recusar a ideia de que o socialismo podia ser introduzido de imediato, e apresentou-o como uma tendência inevitável que os socialistas não poderiam criar, mas apenas guiar em cooperação com as forças necessárias da evolução social". [14]

É evidente que neste ponto Millerand guardava semelhanças com as posições já mencionadas da Sociedade Fabiana, incluídas as referidas às mudanças sociais sem modificar substancialmente o capitalismo e sem combater o Estado existente. Daí não ser surpreendente que Millerand aceitasse o Ministério do Comércio e Indústria no governo burguês de "defesa da república". Ele mesmo, segundo assinala Cole, autodenominar-se-ia "apóstolo do socialismo reformista ". [15] .

Na Grã-Bretanha, as diferenças ideológicas eram menos importantes do que na França e na Alemanha. O sindicalismo, sobretudo depois da crise da primeira metade dos 80, estava a crescer consideravelmente e surgiu também um novo sindicalismo (New Unionism) com jovens líderes próximos às posições socialistas que nessa altura era representado principalmente por Blatchford e Keir-Hardie e o casal Aveling. [16] . Na realidade, mais que a formação de grupos socialistas importantes, na Grã-Bretanha anterior ao século XX eram os socialistas individuais que entravam nos sindicatos para influenciar os trabalhadores e ocasionalmente dirigi-los. Vários desses líderes e outros que romperam com os liberais formaram em 1893 o Partido Trabalhista Independente (ILP, na sua sigla em inglês), precursor do Partido Trabalhista fundado em 1900. Com o risco de ser demasiado esquemático, poder-se-ia dizer que nessa época, mais que correntes socialistas definidas, havia socialistas que, ligados aos sindicatos de trabalhadores, seriam agora chamados de heterodoxos. O ILP actuava tanto em eleições locais e para o Parlamento como no movimento operário organizado; considerava-se socialista ainda que não o tornasse explícito.

Foi na Alemanha que a luta ideológica teve maior importância. Dois anos após a fundação da Segunda Internacional, o Partido Social-democrata alemão (SPD) efectuou o seu primeiro congresso de definição marxista, pois "antes de 1890 a teoria marxista não podia ter penetrado, evidentemente, com profundidade excepcional". O Congresso de Erfurt adoptou um novo programa, "redigido na sua parte teórica por Kautsky e na sua parte prática por Bernstein". [17] . Ambas as intervenções na redacção do Programa tornavam-no contraditório. Se a parte teórica era marxista, a prática era reformista. Um aspecto importante da redacção de Kautsky, que era correcto nessa época e durante muitos anos mais, foi a ênfase no crescimento do proletariado e no fortalecimento dos monopólios a expensas da pequena propriedade capitalista. O primeiro deixou de ser certo, proporcionalmente falando, em fins do século XX, o segundo foi-se tornando cada vez mais evidente, até ao extremo de que agora, princípios do XXI, 200 empresas dominam a economia mundial. Entretanto, havia um elemento no Programa que talvez Marx houvesse criticado, chamando-o sectário, tal como havia feito perante os lassalleanos ao qualificar as demais classes, salvo o proletariado, como reaccionárias. O sexto parágrafo do Programa assinalava que a transformação social "só pode ser obra da classe operária, porque todas as demais classes, apesar da oposição de interesses existente no seu seio, repousam sobre a propriedade privada dos meios de produção e têm como meta comum a manutenção das bases da sociedade actual". [18] . Entretanto, o Programa de Erfurt haveria de ser, em certa medida, o modelo dos programas dos partidos da Segunda Internacional durante algum tempo, apesar de deixar de lado o problema da transição do capitalismo para o socialismo e sublinhar tanto o tema da revolução como "a maneira como se realizará o socialismo". [19] .

Falar nessa época do paradigma da social-democracia alemã era falar de partidos, de ampliação do sufrágio, de eleições, de posições em governos municipais e nos parlamentos. Os matizes de diferenciação com a tradição trabalhista-socialista inglesa eram na realidade muito subtis. O próprio Engels punha esperanças no sufrágio e na representação operária (social-democrata) no Reichstag alemão e declarava inviáveis as formas revolucionárias tipo 1848. Na sua introdução de 1895 a As lutas de classes em França [20] , que segundo o mesmo Engels havia sido tergiversada em diversas publicações parciais e "fora do contexto" da época, dizia que "O método de luta de 1849 hoje está antiquado em todos os aspectos...". E mais adiante acrescentava "...do lado dos insurrectos todas as condições pioraram. Uma insurreição com a qual simpatizem todas as camadas do povo já dificilmente se dá [...] O 'povo' aparecerá, pois, sempre dividido, com o que faltará uma formidável alavanca, que em 1848 foi de uma eficácia extrema". E acrescentava o facto de que perante os novos exércitos regulares os trabalhadores estariam em desvantagem militar e que as novas ruas "compridas, rectas e largas" eram favoráveis aos canhões do Estado. "Teria de estar louco o revolucionário que escolhesse os novos distritos operários do norte e leste de Berlim para uma luta de barricadas", e o mesmo poderia ser dito das avenidas parisienses da reforma urbana dirigida por Haussmann nos tempos de Luís Bonaparte. Acerca deste ponto Engels concluía da seguinte maneira: "Se mudaram as condições da guerra entre as nações, não mudaram menos as da luta de classes. A época dos ataques surpresa, das revoluções feitas por pequenas minorias conscientes à testa das massas inconscientes, está ultrapassada".

Quanto à "velha táctica", Engels afirmava que devia ser revista, inclusive nos países latinos. "Em toda a parte imitou-se o exemplo alemão do emprego do sufrágio, da conquista de todos os postos que estão ao nosso alcance; em toda a parte passaram para segundo plano os ataques sem preparação". E em relação à França assinalava que "o trabalho lento de propaganda e a actuação parlamentar foram também aqui reconhecidos como a tarefa imediata do partido [...] Não só se conquistaram toda uma série de conselho municipais como nas Câmaras há 50 deputados socialistas, que já derrubaram três ministérios e um presidente da República". E focava também os casos de êxito da Bélgica, Suíça, Itália, Dinamarca e até Bulgária e Roménia. Estes avanços, entretanto, não deviam ser interpretados como a renúncia, longe disso, ao direito à revolução — acrescentava.

E mais adiante o velho companheiro de Marx dizia: "A ironia da história universal põe tudo de cabeça para baixo. Nós, os 'revolucionários', os 'elementos subversivos', prosperamos muito mais com os meios legais do que com os meios ilegais de subversão". Esta afirmação depreende-se não de uma deificação dos meios legais e sim da concepção de que as eleições não só serviriam para "fazer uma recontagem das nossas forças a cada três anos" como para agitar e fazer propaganda sobre o socialismo, aumentar as fileiras de militantes para o partido socialista. "Com a agitação eleitoral, foi-nos proporcionado um meio único para entrar em contacto com as massas do povo, ali onde ainda estão longe de nós, para obrigar todos os partidos a defenderem-se perante o povo, frente aos nossos ataques, suas ideias e os seus actos", além de usar as Câmaras como tribuna livre. Em síntese, Engels dizia que com "este emprego eficaz do sufrágio universal entrava em acção um método de luta totalmente novo para o proletariado...". E para que não houvesse dúvida acrescentou que não havia de ter ilusões: "uma vitória efectiva da insurreição sobre as tropas na luta de ruas, uma vitória como no combate entre dois exércitos, é uma das maiores raridades".

Engels, na sua introdução de 1895, deixava claro que a luta do proletariado pelo socialismo devia combinar as exigências imediatas com as mediatas, as legais com as ilegais, que não havia razão para desprezar a luta eleitoral uma vez que esta serviria inclusive para ligar às massas e ganhar adeptos para a causa do socialismo. Da sua revisão das tácticas de 1848 e 1871 concluiria que os ataques ao poder de surpresa e sem preparação não levariam à transformação social, pelo que o proletariado teria de preparar-se, na teoria e na acção, e acumular forças para as suas grandes lutas pelo poder do Estado. Engels, ainda que aceitasse as reformas, não as confundia com a colocação dos oportunistas (possibilistas e millerandistas), pois o papel do partido, como ele e outros marxistas pensavam então, não era ganhar votos nem posições em ministérios e sim fortalecer a organização do proletariado rumo ao socialismo. Entretanto, fica no ar o problema da ilusão eleitoral e democrática dos trabalhadores e sua possível alienação ao acreditarem que a sua emancipação estaria mais próxima em função do número de deputados que tivesse na Câmaras. A este respeito, Karl Liebknecht escreveu muitos anos depois que "ainda que na Assembleia Nacional [o parlamento] uma maioria socialista decidisse a socialização da economia alemã, tal decisão parlamentar ficaria como um simples pedaço de papel e enfrentaria a enérgica resistência dos capitalistas". [21] . A questão, contudo, talvez fosse outra: se, como dizia Engels, a revolução pela via das barricadas ou dos assaltos de surpresa correspondia a condições pretéritas, qual então seria a alternativa? Havia uma opção diferente do reformismo, interpretando com toda boa fé que este reformismo serviria para engrossar as forças revolucionárias? Talvez uma maior compreensão do termo reformismo, como o entendiam os marxistas mais conhecidos da época, nos sirva para situar melhor as razões e a dimensão do debate. A respeito Lenin escrevia: "No conhecido trabalho de K. Kautsky, A revolução social, está bem explicado que a reforma se distingue da revolução porque com aquela conserva-se o poder para a classe dos opressores, os quais, por meio de concessões aceitáveis para eles, sem a destruição do seu poder, esmagam a insurreição dos oprimidos". [22] O que teria dito Engels acerca deste texto? Provavelmente não teria estado de acordo, a menos que houvesse concordado — se houvesse vivido então — que 1907, ano em que Lenin escreveu a frase citada, não era precisamente um ano para tarefas imediatas (como o próprio líder russo exprimiu) e sim para tarefas revolucionárias. "Esta é uma época revolucionária" [23] , escreveu, e 1895 na Alemanha, quando Engels escreveu a introdução mencionada, não era em absoluto um momento revolucionário. Este foi o debate da Segunda Internacional: reformismo ou oportunismo (possibilismo) e reforma ou revolução. E este debate, repito, foi muito subtil, uma vez que os defensores destas posições se destacavam por sua agudeza. Entretanto, a análise das posições reformistas ou revolucionárias nem sempre se fez em função do momento ou da conjuntura em que viviam. Com frequência a discussão foi doutrinária e, por isso mesmo, à margem da realidade concreta, aspecto que não nos interessou na análise.

Os triunfos sucessivos e cada vez mais espectaculares do SPD nas eleições alemãs (mas da quarta parte dos votos após a anulação da lei anti-socialista) conduziram a um optimismo exagerado entre os ideólogos da social-democracia. O reformismo ganhou força; o gradualismo também, ainda que na viragem do século a condição dos trabalhadores europeus (incluídos os alemães) já não fosse tão boa como nos últimos anos do século anterior.

Karl Kautsky, em fins do século XIX era um dos principais teóricos marxistas e o principal opositor de Eduard Bernstein dentro do SPD. Kautsky subscrevia as interpretações económicas de Marx, Bernstein criticava-as. Mas mais importante, em termos políticos, foram as suas diferenças que Kaustsky chamaria de "programa". Bernstein inventou para Marx e para Engels a teoria do derrubamento do capitalismo pelas crises sucessivas e não pela maturidade e pelo poder crescente do proletariado, como demonstrara Kautsky [24] . Também lhes atribuiu a tese da miséria crescente do proletariado, que o mesmo Cole endossou a Kautsky [25] , quando na realidade Marx se referia (e Kautsky subscrevia) à depauperação relativa do proletariado, até à data constata-se tanto a nível mundial como nacionalmente através dos índices de desigualdade social. [26] . O capítulo de maior importância na crítica de Kautsky a Bernstein, para o nosso propósito, é o da táctica, ou seja, a controvérsia sobre a luta política e a luta económica, sobre revolução e reformismo.

O programa de Erfurt, citava Kautsky, continha o seguinte parágrafo:

A luta da classe operária contra a exploração capitalista é, necessariamente, uma luta política. A classe operária não pode entrar no combate económico, nem desenvolver sua organização económica, sem direitos políticos.

E Kautsky depois citava Woltmann, um dos partidários de Bernstein que questionava o parágrafo anterior qualificando-o de cândido por exigir ao Estado esses direitos políticos. A resposta de Kautsky, um tanto irónica, foi a seguinte:

Confessamos que é muito inocente isso de reclamar os direitos políticos ao Estado, mas desgraçadamente Woltmann esquece-se de dizer-nos a quem os poderíamos reclamar, senão ao Estado e aos seus organismos: o Governo e o Parlamento.

No ano passado, nossos amigos da Bélgica foram, mais uma vez, suficientemente cândidos para pedir o sufrágio universal ao Parlamento e ao Governo, e não a uma cooperativa de consumo.

[…] O que seria dos nossos sindicatos e das nossas sociedades cooperativas sem o direito de coligação e o direito de associação? Não teve a classe operária de conquistar os direitos políticos antes de poder fundar aquelas organizações económicas? E estes direitos políticos não estão ainda, na Europa central, expostos a violentos ataques?

[…] E a forma mais elevada da luta de classes, a que dá o seu carácter a todas as demais, não a luta entre organizações económicas isoladas e sim a luta sustentada pela colectividade do proletariado para a conquista da mais poderosa das organizações sociais, o Estado; é a luta política. Esta é a que decide tudo. [27] .

Outro ponto a destacar era se o partido devia ser só da classe operária ou se devia fundir-se com outras classes para formar um grande partido democrático. Kautsky apresentava o problema da seguinte maneira:

Hoje já não se trata do Partido Socialista como agrupamento de propaganda e sim como factor político de primeira ordem. A questão não é de saber se os proletários devem abandonar o Partido Socialista para somar-se à democracia burguesia e sim, antes, se devemos organizar o nosso programa e a nossa táctica de modo que as portas do Partido estejam abertas para todas as classes ou matizes democráticos. [E acrescentava que o] Partido Socialista acolherá com gosto todos aqueles, seja qual for a classe a que pertençam, que estejam dispostos a tomar parte na luta de classes empreendida pelo proletariado. A questão é averiguar se o Partido Socialista deve prestar-se a trabalhar para satisfazer as necessidades das classes não proletárias.

Havia aqui uma definição estratégica do partido muito diferente à lassalleana. Em primeiro lugar não se considerava que as classes não proletárias fossem reaccionárias, mas sim que o partido devia ser a organização dos trabalhadores com um programa deles e para eles, no qual outras classes ou agrupamentos, se concordassem com o programa, poderiam fazer parte. Em segundo lugar, ficava claramente estabelecido que o proletariado não deixaria o seu partido nem o dissolveria para somar-se às forças democráticas de outras classes sociais, pois então regressar-se-ia às condições pré-lassalleanas do partido amplo, o progressista, que era o partido da pequena burguesia liberal, com seus conteúdos liberais próprios, no qual participavam os trabalhadores sem um programa próprio e subordinados à política e aos interesses das classes médias liberais. Estes matizes não são secundários, e menos ainda se se pensa nas mudanças que sofreram muitos partidos socialistas (ou comunistas) durante e depois do experimento eurocomunista nos anos 70 do século XX: o que estes partidos fizeram com suas renúncias de princípios e de programa foi "prestar-se a trabalhar para satisfazer as necessidades das classes não proletárias" (Kautsky) ou, em termos de Engels, "para ganhar votos" sacrificando o carácter "classista, proletário, do movimento tornando inevitável a divisão" [28] .

Bernstein contrapunha o conceito de "democracia social" ao de "democracia" (sem adjectivos). A democracia social era algo mais amplo do que o exercício do sufrágio universal. O sufrágio universal era, "por um lado e pelo outro, a alternativa a uma revolução violenta". [29] Com base na sua "democracia social" Bernstein opunha-se à "ditadura do proletariado" como fórmula de transição entre o capitalismo e o socialismo. Para Bernstein, na interpretação de Cole, "a democracia significa a supressão de um governo de classe, não a substituição de uma forma deste por outra". [30] Ou seja, democracia igual a quase socialismo. Daqui a importância que atribuía Bernstein à democracia e, nesta, à possibilidade das mudanças sociais no gradualismo, na evolução da sociedade: "a democracia social não pode prosseguir melhor o seu trabalho senão ocupando seu posto sem reservas na teoria da democracia, no terreno do sufrágio universal, com todas as consequências resultantes da sua táctica". [31] Para Bernstein uma verdadeira democracia era o mais urgente e o mais importante pelo que lutar. A democracia plena seria a condição prévia para que fosse possível o socialismo: "a democracia é uma condição do socialismo" [32] . Aparentemente, neste ponto, seria uma posição semelhante à de Engels quando este dizia que "prosperamos muito mais com os meios legais do que com os meios ilegais de subversão", mas não é o caso: uma coisa é que para o proletariado e suas lutas a democracia seja melhor do que a ausência desta, e outra que a democracia seja uma condição do socialismo. Agora (princípios do século XXI) já o sabemos bem: há mais democracia do que antes, é inegável, mas, como diria Kautsky (acrescentando de imediato que Bernstein não o negava), "a democracia [...] não significa a supressão das classe sociais" nem do domínio de uma classe sobre outra. [33] . E eu acrescentaria um lugar comum: a democracia não se come nem serviu para diminuir o fosso entre os miseráveis e os ricos por mais que o sufrágio universal seja uma realidade extensa em quase todo o mundo moderno.

Finalmente, há um aspecto na polémica Kautsky-Bernstein que tem a ver com os parâmetros de realidade, aos quais quer Bernstein quer aferrar-se em relação à classe operária:

"Não podemos pedir a uma classe, cujo maior número de membros vive em condições amontoadas, são pouco educados e tem um salário escasso e inseguro, o elevado grau intelectual e moral que implica a organização e a existência de uma comunidade socialista [...] Regozijemo-nos unicamente com a grande massa de inteligência, de sacrifício e de energia que o movimento das modernas classes operárias revelou e em parte produziu, mas não devemos conceder sem discernimento a vários milhões aquilo que só algumas centenas de milhares têm". [34] .

Soa forte, e em alguns casos injusto, mas é evidente, ao longo da história, que no marxismo vulgar, à margem da consideração das chamadas "condições objectivas", teve-se confiança ilimitada na consciência de classe e na educação política dos trabalhadores, salvo quando se menciona a importância e a necessidade do partido político como direcção (em suas duas acepções principais) do movimento das massas (aspecto que não é aceite pelos anarquistas nem pelos anarco-sindicalistas, por essa espécie de quiliaísmo em que caem). O problema de Bernstein não é que levasse em conta as diversas realidades concretas de diferentes países (o que está bem, pois obviamente não são iguais) ou que não idealizasse as massas trabalhadoras, e sim que deixasse as possibilidade de mudanças apenas à inteligência e capacidade de uns quantos e ao mesmo tempo falava-nos de democracia em geral e de democracia social em particular como meio e objectivo, respectivamente, da evolução social e histórica para o socialismo. Bernstein concebia o socialismo como "legítimo herdeiro" do liberalismo e consequência lógica deste [35] , como se se tratasse de uma evolução natural (e lógica) em que as massas e os povos fossem decorativos. De que democracia estaríamos a falar então? Era óbvia a influência da Sociedade Fabiana em Bernstein, que viveu em Londres entre 1898 e 1901. E mais, o evolucionismo de Bernstein havia sido proposto por Sydney Webb vários anos antes na Sociedade Fabiana e por Georg von Vollmar em 1891, que nas suas conferências de Eldorado (Munique) dera a "conhecer o programa de um reformismo consequente" [36] .

Anos depois Kautsky foi modificando suas posições, em direcção ao reformismo não precisamente socialista, o que lhe valeu severas críticas de Rosa Luxemburgo e de Lenin. Sobretudo para as eleições gerais alemãs de 1911, Kautsky tornou-se um defensor do gradualismo e da tese do "desgaste" da classe dominante no capitalismo contra a tese de Luxemburgo que propunha a sua derrubada [37] . Em Parlamentarismo e socialismo, citado por Emilio Olcina Aya [38] , Kautsky tentava justificar suas novas posições: "Já se vê de um modo manifesto que um regime realmente parlamentar pode ser instrumento da ditadura do proletariado como o foi da ditadura da burguesia". Algo assim como a física nuclear, que depende de quem e para que a utilize.

A polemica Kautsky-Bernstein, referida à realidade do Partido Social Democrata alemão, seria sintetizada por Trotski da seguinte maneira:

"As organizações de trabalhadores cresceram quase automaticamente, mas a 'meta final', isto é, a tarefa social-revolucionária do proletariado, esteve separada do movimento em si próprio e manteve uma existência puramente académica. Daí o conhecido aforismo de Bernstein: 'O movimento é tudo, a meta final nada' " [39] . Como filosofia de um partido de trabalhadores isto não tem sentido e é trivial. Mas como uma reflexão do espírito real da social-democracia alemã do último quarto de século antes da guerra, o que foi dito por Bernstein é muito revelador; a luta reformista quotidiana havia adquirido um carácter auto-suficiente, ao passo que a meta final foi guardada na secção de Kautsky" [40] .

No interior do SPD Bernstein foi censurado, mas as suas ideias já haviam penetrado, especialmente as críticas à "ortodoxia marxista", como assinalou Cole [41] . Entretanto, a luta de Bebel e Kaustksy contra o revisionismo continuou até que em 1903 conseguiram que se ratificassem o conceito da luta de classes, a não cooperação com os partidos burgueses e a conquista do poder político e a consequente derrota dos inimigos do proletariado e do socialismo. Esta derrota teórica do revisionismo foi estendida à Internacional e por volta de 1905 o marxismo (ainda que nunca homogéneo) significava a comunidade teórica que Marx tanto havia desejado nos anos da AIT. A Segunda Internacional seria já uma organização de organizações consolidadas com reconhecimento internacional, mas haveria tendências, e para estas tendências, qualificativos. Annie Kriegel escreveu que "os termos esquerda e direita já se empregam oficialmente" [42] , mas haveria mais qualificativos, mais caracterizadores. Kautsky foi qualificado como centrista por Rosa Luxemburgo em 1910, e o kautskismo foi sinónimo de centrismo até a Primeira Guerra Mundial. Depois desta, o centrismo como tendência reconhecida deixou de existir para reaparecer muitos anos depois.

Uma vez mais afloraram diferenças quanto à estratégia. Havia um objectivo aceite, mas controvérsias sobre como alcançá-lo.

"Contra o revisionismo e a prática reformista do centro — escreveu Kriegel —, agrupa-se uma corrente heterogénea que tenta fundar uma prática autenticamente revolucionária simultaneamente sobre a fidelidade ao marxismo e sobre a análise das novas implicações do capitalismo [...] A expressão mais típica da esquerda revolucionária (marxista) situou-se, no seio da social-democracia alemã, no grupo de Rosa Luxemburgo, de Franz Mehring e de Parvus..." [43] . Este grupo iria influir entre os jovens, os quais desempenhariam um papel relevante anos mais tarde, como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo (ambos nascidos em 1871). Os revolucionários, ou seja, a esquerda radical do conjunto dos socialistas, reagiram não só contra o revisionismo de Vollmar e Bernstein e grupos como os fabianos, como também contra as posições centristas de Kautsky. Entretanto, os esquerdistas alemães não representavam a maioria no seio do SPD. Em França o grupo de Guesde impôs-se ao de Jaurès, ainda que se unissem para formar a SFIO (Section Française de l'Internationale Ouvrière), e nenhum dos dois era considerado revolucionário. Na Itália, Turati representava os reformistas e Lazzari os marxistas, ambos os grupos dentro do Partido Socialista Italiano. Como os reformistas contaram com a simpatia do primeiro-ministro liberal (Giolitti), considerado mais hábil do que o próprio Bismarck, a ala esquerda do partido e os sindicalistas viram-se diminuídos. Na Inglaterra, o Partido Trabalhista considerava que as revoluções e seus partidários pertenciam aos bárbaros da Europa continental. Contra estas posições não se destacou ninguém na esquerda. Na Rússia não parecia haver muitos reformistas nessa época. Não os havia entre os populistas nem entre os marxistas. Tão pouco havia um governo de corte liberal ou reformista que desse esperanças de algum tipo aos trabalhadores. E mais: dificilmente se poderia dizer que se colocasse a disjuntiva reforma ou revolução. A questão era antes se a revolução devia iniciar-se no imediato ou passado algum tempo de preparação política das massas. Entretanto, com argumentos de uma suposta ortodoxia marxista houve pensadores que sugeriam que o socialismo só poderia ser consequência da implantação de um regime democrático-burguês, que não existia, e do desenvolvimento da economia capitalista que, na Rússia, estava atrasada.

O domingo sangrento de 9 de Janeiro de 1905 iniciou a primeira revolução na Rússia. Por ordens do czar foi brutalmente reprimida uma manifestação pacífica em São Petesburgo (depois Petrogrado). A 22 do mesmo mês, nesta cidade, o proletariado levantou-se contra o absolutismo com a palavra-de-ordem "abaixo a autocracia". As exigências dos trabalhadores, tanto da Rússia como da parte da Polónia dominada pela primeira, foram primeiro económicas fazendo greves em diferentes cidades, mas logo estas exigências se tornaram também políticas, concretamente contra o despotismo. Em Fevereiro as revoltas de rua já se haviam estendido a várias cidades polacas, principalmente Lodz e Varsóvia. A greve revolucionária estendeu-se a diferentes sectores de trabalhadores, tais como ferroviários e telegrafistas, inclusive sectores da Armada, como os do Kronstadt. Os reformistas na Duma adquiriram maior força sobre os conservadores. Em fins de Dezembro a revolução arrancou do império um decreto que fazia concessões eleitorais para a próxima Duma. As eleições de Abril de 1906 favoreceram os democratas. Os democratas constitucionais, chamados kadetes (devido à sua sigla em russo, KD), tinham a maioria. Sua luta era pela ampliação das liberdades para o povo. O czar não aceitou a exigência da Duma, e menos ainda as exigências sobre a terra; em consequência, dissolveu-a. A segunda Duma, de Março de 1907, também foi de oposição. Tal como a anterior, foi dissolvida e imediatamente foi promulgada uma nova lei eleitoral que garantiria a maioria aos conservadores no órgão parlamentar. A terceira Duma (Novembro de 1907), portanto, foi governista. A luta contra o absolutismo, então, renovou-se à margem das instituições, e os opositores, especialmente os socialistas, foram enviados para o desterro ou condenados à morte ou sobreviveram na clandestinidade ou no exílio. As liberdades foram restringidas, os jornais encerrados e proibiram-se as sjodkas, ou reuniões estudantis, nas universidades.

A partir da experiência desta revolução, na qual o Partido Social Democrata russo teve uma participação limitada mas decidida, Rosa Luxemburgo escreveu diversos textos sobre o movimento espontâneo das massas nos quais defendeu a greve geral como a arma revolucionária mais importante do proletariado. Luxemburgo assinalava que a greve de massas não era igual em todas as partes nem teria, pela mesma razão, o mesmo significado revolucionário. Além disso, dava ênfase às diversas greves operárias na Rússia desde 1896, sem as quais, além da matança de Janeiro, não seria possível entender a revolução de 1905. A greve de massas, acrescentava, reflectia as fases da luta política e económica, todos os momentos e factores da revolução [44] . Do mesmo modo, tentou, com êxito, explicar a relação entre o programa mínimo e o máximo e assinalou que Bernstein, com o seu gradualismo, não estava a escolher "um caminho mais calmo, seguro e lento em direcção à mesma meta, e sim a uma meta diferente [...] pois não se encaminham [suas reformas graduais] para a realização da ordem socialista e sim para a reforma da capitalista " [45] . Acerca do programa mínimo e do máximo e da sua combinação em função de cada conjuntura, Luxemburgo teria certas coincidências com outros revolucionários, principalmente com Lenin. O líder russo censurava aqueles que se opunham a programas mínimos, entre outras razões porque essa posição os levaria ao isolamento. Chamou-os de sectários e esquerdistas. Em 1908 qualificou de esquerdistas àqueles, como já foi mencionado no princípio, que se negavam a participar no parlamento e nas organizações operárias legais. A posição de Lenin foi muito clara: participar inclusive no parlamento mais reaccionário e nas organizações de trabalhadores ainda que não fossem revolucionárias, saber recuar nos momentos de repressão, tratar de utilizar em seu favor as leis ao mesmo tempo que se lutava por transformá-las. Numa palavra, travar a luta legal e ilegal segundo as condições e sem confundir as suas possibilidades. [46] . Luxemburgo enfatizava, pelo seu lado, a necessidade de vincular a luta quotidiana "pelas exigências mínimas e a conquista revolucionária do poder: de outra maneira — escrevia Geras —, a primeira converter-se-ia para todas as finalidades práticas num fim em si mesmo e a segunda 'divorciar-se-ia inteiramente da realidade' " [47] .

Como se pode verificar, neste ponto (mas não em outros) havia coincidências entre Luxemburgo e Lenin. O que não ficava claro é como se conquistaria o poder revolucionariamente, ao mesmo tempo que colocava, desde a muito citada introdução de Engels de 1895, a participação nos órgãos parlamentares e inclusive em governo de tipo municipal. Reforma ou revolução seriam na verdade opostos? A partir de que conjunturas e condições específicas? Qual seria a fronteira entre as reformas, baseadas em programas mínimos, e a revolução, geralmente maximalista? Quem determina esta fronteira? O líder? O partido? A intuição?

Geras mencionava que a própria Luxemburgo não propôs uma estratégia ou uma táctica concretas para superar as limitações do estabelecimento de distinções entre as exigências mínimas e as máximas.

"Luxemburgo recusava categoricamente a ideia de que os objectivos do socialismo pudessem dissolver-se numa série de reformas parciais, assegurando-se uma cadeia de incrementos parciais através da actividade sindical, eleitoral e parlamentar da classe operária. Tão pouco via em tal actividade qualquer dinâmica automática ou espontânea que conduzisse a classe trabalhadora às conquistas revolucionárias do poder. Naturalmente, de uma forma geral — acrescentava Geras —, permitiam à classe operária aumentar sua força política e económica e representavam um importante papel organizador e educativo. Não obstante, a principal oposição de Luxemburgo contra o revisionismo consistia em que, per se, como táctica encerrada em si mesma, não podia ter como resultado a conquista proletária do poder. Ao contrário, poderia afastar-se completamente deste último objectivo e, em tal caso, constituiria a actividade de um partido burguês e não de um partido socialista". [48] .

Persiste o enigma de como distinguir o reformista do revolucionário, ainda que fique perfeitamente claro o perigo de que certas exigências ou acções reformistas ao invés de aproximar os trabalhadores de posições revolucionárias os leve ao conformismo ou a aceitar como um fim em si mesmo o conjunto de reformas efectuadas.

Uma conjuntura que levou à divisão da Segunda Internacional, ao seu desaparecimento de facto, foi a guerra, a Primeira Guerra Mundial. Mais uma vez foi um problema estratégico, de profundo conteúdo teórico e de princípios, o que dividiu a já então influente Internacional. O problema era sobre a participação dos trabalhadores na conflagração bélica. Era uma guerra dos trabalhadores ou dos capitalistas? Esta era a questão, por mais que os próprios governos dos países envolvidos quisessem apresentar a guerra como uma luta entre nações, ou seja, entre toda a população de um país contra a de outro país. A posição dos marxistas era que os trabalhadores não deviam participar: não era a sua guerra nem havia razão para que morressem para defender os interesses das classes dominantes em luta. A posição dos demais era que cada nação corria perigo e que, por isso mesmo, capitalistas e trabalhadores estavam a correr o mesmo risco.

Assinaturas no Manifesto de Zimmerwald. Em Agosto de 1914 desencadeou-se a guerra. Os socialistas franceses, uma vez assassinado Jaurès, aprovaram, tal como os alemães, os créditos militares e apoiaram os seus governos na guerra contra outras nações. Lenin e Luxemburgo não estiveram de acordo. Era uma guerra inter-imperialista — disseram —, e os marxistas não estavam de acordo com ela. Na Conferência de Zimmerwald (1915), depois da reunião de Bruxelas de Julho de 1914 na qual a Segunda Internacional deixou de funcionar como "expressão colectiva de uma política socialista internacional" [49] , debateram-se duas posições à margem das defesas nacionais que antes estavam em discussão. Ou seja, os participantes em Zimmerwald eram socialistas, internacionalistas e contrários à guerra, mas tinham diferenças: uns propunham que as organizações socialistas actuassem como mediadoras enquanto exigissem a paz em todo os países, e os outros (a esquerda minoritária na Conferência) defendiam a ideia de que a guerra abria possibilidades para uma revolução que, se se levasse a cabo ainda que fosse primeiro num só país, estender-se-ia a outras nações. A Segunda Internacional já se havia desmoronado e, em consequência, em Zimmerwald falar-se-ia da necessidade de uma Terceira Internacional. A palavra-de-ordem de Lenin, assinalava Kriegel, era "transformação da guerra imperialista em guerra civil" [50] , posição não compartilhada por outros socialista, mas sim, de alguma maneira, pelos espartaquistas da Alemanha (Luxemburgo, Karl Liebknecht e outros).

Dessa polémica surgiria outro qualificativo: os socialpatriotas, ou seja, os defensores da pátria e dos seus governos na conjuntura da guerra [51] . Em 1917 o czar foi derrubado e uns meses depois começaram os triunfos dos bolcheviques na Rússia. Uma revolução surgiu durante a guerra, uma revolução que, além disso, triunfaria, o que não ocorreu na Alemanha onde também se fez a tentativa. A Segunda Internacional deixou de existir, principalmente pela divisão entre revolucionários e reformistas, internacionalistas e socialpatriotas. A guerra, que para alguns socialistas significava uma conjuntura favorável para a greve geral e para pressionar os seus governos (e inclusive para a revolução), provocou o caos interno na Internacional, várias divisões e o seu fim, sem ninguém que assinasse o seu atestado de óbito.

Contudo, a Segunda Internacional foi um ambiente propício para o desenvolvimento dos partidos de massas e modernos, com princípios, programas de acção e disciplina organizativa. Foi, em geral, socialista e maioriamente marxista, ainda que não homogénea. Uma vez mais o problema da heterogeneidade, ainda que menos contrastante do que na Primeira Internacional. O anarquismo foi excluído, como antes, sem um verdadeiro debate. Talvez, pela sua própria pobreza teórica e pelo dogmatismo frequente dos seus representantes, o anarquismo não pudesse ser derrotado, pois para que isto fosse possível seria necessário um debate sério no qual cada um estivesse disposto a ser convencido pelos argumentos da outra parte. O debate reforma ou revolução, que este sim verificou-se, não foi resolvido, entre outras razões por duas principais: a) Nenhuma das duas interpretações convenceu a outra e o centrismo, que pode ter sido uma posição mediadora entre ambas, foi abandonado como tendência reconhecida depois da guerra; e b) A fronteira entre o reformismo e o revolucionarismo era (e continua a ser) difusa, frequentemente imbricada e só possível de distinguir em momentos específicos nos quais um movimento social assume posições revolucionárias. Ainda assim, a prova do êxito ou do fracasso de um movimento revolucionário (ou entendido como tal) determinaria se se tratava na realidade de acções revolucionárias ou aventureiras, imaturas ou irresponsáveis. Como sabê-lo? A revolução russa de 1917 triunfou, mas também fracassou, como bem o sabemos agora, uma vez que não foi possível a construção do socialismo (que era o seu objectivo) e nem sequer a ditadura do proletariado como fase transitória entre o capitalismo e o socialismo. Talvez a chave para distinguir o reformismo do revolucionarismo nos tenha sido dada por Rosa Luxemburgo quando sugeria que toda reforma que se afastasse completamente do objectivo da conquista proletária do poder seria antes a actividade de um partido burguês e não a de um partido socialista. Mais uma vez pode-se comprovar, a partir da proposição anterior, que a esquerda é um conceito relativo e que, portanto, é uma corrente avançada ou progressista em relação à direita que costuma ser conservadora, como assinalei no princípio deste texto. Na Segunda Internacional a esquerda era socialista e, no contexto, era a corrente que propunha combinar a acção eleitoral e parlamentar com acções de massas (greves, manifestações de rua e até guerra civil). Aqueles que se opunham a qualquer forma de acção legal foram qualificados como esquerdistas (agora diríamos ultra-esquerdistas ), sectários e dogmáticos. Aqueles que se opunham às acções de massas contra o poder instituído ou contra os capitalistas eram qualificados de reformistas (e dentro desta categoria, de revisionistas, uma vez que todos revisionistas eram reformistas, mas nem todos os reformistas eram revisionistas).

O texto mais importante que já se escreveu até agora sobre os problemas de estratégia e sobre as esquerdas e o esquerdismo é o de Lenin, já citado: A doença infantil do "esquerdismo" no comunismo, que tem como antecedentes vários juízos de Engels e de Marx contra o infantilismo revolucionário, o dogmatismo, o sectarismo e o voluntarismo de grupos que em vez de analisar a realidade inventam-na e a partir da sua visão subjectiva propunham ou efectuavam acções que, na sua interpretação, eram revolucionárias ainda que de facto não o fossem.

Este folheto foi escrito por Lenin em 1920, dois anos e meio depois de os bolcheviques terem tomado o poder. Nesse momento Lenin devia sentir-se realizado como revolucionário cheio de experiência e como líder com autoridade moral para qualificar os seus inimigos e os seus adversários [52] . Os erros que tenha cometido como revolucionário, como líder e como pessoa não interessam neste momento, o que não quer dizer que sejam ignorados. Na época em que escreveu A doença... Lenin era um defensor da ditadura do proletariado ("a guerra mais abnegada e mais implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, contra a burguesia...") e do internacionalismo proletário. Quase a lamentar-se, dizia que "ainda que não seja senão num país" a burguesia havia sido derrubada, o que faz pensar que ainda mantinha a ideia de que a revolução deveria verificar-se também em outros países para que na Rússia pudesse ter êxito. Entretanto, segundo o texto, já então Lenin confundia a ditadura do proletariado com a do partido (o que lhe valera fortes críticas anteriores de Rosa Luxemburgo). Os bolcheviques, escrevia Lenin, não se teriam mantido no poder "sem a disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, do nosso Partido..." — amplamente apoiado pela massa operária, acrescentava. E mais adiante dizia: "a experiência da ditadura proletária triunfante na Rússia mostrou de um modo palpável [...] que a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia" [53] . Recorde-se que, tal como Marx e Engels nos seus últimos anos, Lenin concebia o partido como a vanguarda dos trabalhadores e a direcção do partido como a vanguarda destes. Além disso, considerava que a disciplina "incondicional" era necessária, do mesmo modo que a centralização das decisões, ainda que a esta forma de organização chamasse "centralismo democrático" em outros escritos. [54]

Com estas observações não é estranho o tom utilizado por Lenin para qualificar e desqualificar os seus adversários, nem sempre com justiça e, a meu ver, por vezes mais por razões políticas momentâneas e porque é comum que os revolucionários, sobretudo quando tiveram êxito, tendam a pensar que eles e só eles têm razão. Todavia, tudo indica que na lógica marxista, ou seja, da esquerda socialista mais sólida e coerente do século XIX, tinha razão em algumas das suas qualificações e desqualificações que poderiam ser muito bem, com a devida cautela, categorias político-analíticas (de facto foram-no durante quase todo o século XX) que nos servem para investigar e compreender a realidade, sempre e quando essas categorias não sejam convertidas, como ocorreu frequentemente, em simples adjectivos utilizados para anatematizar os adversários políticos e inclusive pessoais.

Em primeiro lugar Lenin criticou os "revolucionários de palavra" que não souberam compreender que há momentos de ofensiva e outros de recuo e que "é obrigatório aprender a actuar legalmente nos parlamentos mais reaccionários e nas organizações sindicais, cooperativas, de seguros e outras semelhantes, por muito reaccionárias que sejam". Aqui referia-se àqueles que se negaram a participar na Duma durante o governo despótico do czar, igualmente aos sectários que se negavam a participar nas organizações de trabalhadores porque estas não eram, no seu entender, revolucionárias. Esta crítica era válida e na minha opinião tiveram vigor ao longo de todo o século XX em muitas dos agrupamentos e movimentos de esquerda — como veremos depois. O raciocínio é simples, ainda que por vezes não pareça, e penso que poderia resumir-se na seguinte expressão de Lenin: "uma república burguesa com uma Constituinte era preferível à mesma república sem Constituinte, mas [...] a república 'operária e camponesa' soviética é melhor do que qualquer república democrático-burguesa, parlamentar", isto é, não devem desprezar-se os avanços que a luta de classes impõe à dominação burguesa nas suas instituições e nas suas leis, pois estas podem ser aproveitadas pelo proletariado e pela forças revolucionárias. Em que circunstâncias se desenvolve melhor a classe operária e suas organizações: numa ditadura ou numa democracia por burguesa que seja? A resposta, para mim, é óbvia.

Por sua vez Lenin criticou os reformistas e os centristas por fazerem o jogo dos governos dos países em que actuavam, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial. A estes reformistas e centristas chamou-os oportunistas e socialpatriotas (ou socialchauvinistas), por haverem passado para o lado da burguesia contra o proletariado durante a guerra que, obviamente, não era a guerra dos trabalhadores e sim a guerra por uma nova repartição do mundo por parte das burguesias de então.

Em relação ao anarquismo e ao "semi-anarquismo" Lenin utilizou outra categoria: o revolucionarismo pequeno-burguês (para simplificar chamarei de RP). O RP é próprio, passe a obviedade, dos pequeno-burgueses, também vítimas do capitalismo na sua tendência para a concentração, os quais irritados, "enfurecidos", caem "com facilidade no ultra-revolucionarismo, mas [são incapazes] de manifestar serenidade, espírito de organização, disciplina e firmeza". E mais adiante dizia algo que tem muito a ver com os jovens (da classe média e do lumpen-proletariat ) tanto nos anos 60 do século XX como nos fins do mesmo século e princípios do seguinte: "O pequeno burguês 'enfurecido' pelos horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um fenómeno social próprio de todos os países capitalistas. São do domínio público a inconstância destas veleidades revolucionárias, a sua esterilidade e a facilidade com que se transformam rapidamente em submissão, em apatia, em fantasias, inclusive num entusiasmo 'furioso' por esta ou aquela corrente burguesa 'na moda' ". (Como aconteceu, sem exagero, com alguns sectores das novas esquerdas anteriores a 1968 e posteriores (e contemporâneas) ao movimento zapatista mexicano de fins do século XX). O RP foi sinónimo de esquerdismo, ou seja, de "doença infantil do comunismo". E Lenin cita dois momentos em que o bolchevismo lutou contra os desvios "esquerdistas" no seu próprio partido: os já mencionados contra os otzovistas em 1908 e os comunistas "de esquerda" que se manifestaram contra a paz de Brest-Litovsk. O segundo momento foi entre o primeiro e o segundo congressos da III Internacional, precisamente quando Lenin escreveu o folheto. Mas este segundo momento trataremos mais adiante.

Notas
1- Ver Carta de Marx a Sorge, 19 de Outubro de 1877, Correspondencia…, p. 287.
2- Ver Carta de Marx e Engels a Bebel, Liebknecht, Bracke e outros, 17-18 de Setembro de 1879 [Rascunho], idem, especialmente p. 300.
3- Carta de Engels a Bebel, 28 de Outubro de 1882. Nesta carta Engels fazia alusão à cisão de Guesde e Lafargue do grupo de Malon e Brousse, caracterizados por Engels como possibilistas, ou seja, oportunistas (itálicos no original). Mais adiante o Parti ouvrier français (POF) fundado por Jules Guesde e outros, tornar-se-ia um partido sectário na opinião de Kergoat, Op .Cit., e Guesde converteu-se em reformista e, como tal, acabou por aceitar cargos governamentais.
4- Jacques Droz, Op. Cit., p. 143.
5- No Congresso de Paris de 1900, entretanto, criou-se o Bureau Socialista Internacional (BSI) que, além dos delegados de cada país, contava com um secretário permanente cuja função era garantir que os acordos dos congressos fossem cumpridos. Com o passar dos anos, as funções do BSI foram aumentando, mas em geral foram de coordenação.
6- Provavelmente o melhor estudo sobre as diferenças entre o marxismo e o revisionismo, cujo máximo expoente foi Eduard Bernstein, é o de Bo Gustafsson, Marxismo y revisionismo (La crítica bernsteiniana del marxismo y sus premisas histórico-ideológicas), Barcelona, Ediciones Grijalbo, 1975, 439 pp.
7- G. Novack y D. Frankel, Op. Cit., pp. 58-59.
8- A. Kriegel, Op. Cit., p. 46.
9- G. D. H. Cole, Op. Cit., Tomo III (La Segunda Internacional, 1889-1914), p. 29.
10- Ídem, pp. 29 y 30.
11- Este filme trata dos jovens nos subúrbios de Paris, especialmente imigrantes (representados por um negro, um judeu e um árabe), que são vítimas do desemprego, da desesperança, da recusa e também do racismo e do ódio.
12- Citado por A. Kriegel, Op. Cit., p. 46 (os itálicos são meus).
13- Ídem, p. 47.
14- Cole, ídem, p. 319.
15- Ídem, p. 324 (itálicos no original). Anos mais tarde, a partir de 1900, a Internacional decretou que se proibisse aos socialistas fazer parte de governos burgueses, salvo em situações excepcionais.
16- Allen Hutt, British Trade Unionism (An outline History), Londres, Lawrence & Wishart Ltd., 1941, capítulo 3. Os Aveling eram Edward Aveling e Eleanor Marx, filha de Karl Marx, os quais trabalhavam muito próximos a Engels sobretudo nos bairros operários do leste de Londres.
17- B. Gustafsson, Op. Cit., pp. 35-37.
18- Citado por Gustafsson, ídem, p. 38. (Os itálicos são meus).
19- Karl Kautsky, La doctrina socialista. Bernstein y la social-democracia alemana, Barcelona, 1975, p. 224, onde Kautsky refere-se ao programa de Erfurt.
20- F. Engels, Introducción (1895) a C. Marx, Las luchas de clases en Francia de 1848 a 1850, em C. Marx e F. Engels, Obras escogidas en dos tomos, Op. Cit., T. I, pp. 112 y ss.
21- Karl Liebknecht, "¿Qué quiere la Liga Espartaco?" (23 de Dezembro de 1918), em Antología de escritos, (edición de L. Lalucat y J. Vehil), Barcelona, Icaria Editorial, 1977, p. 217.
22- V. I. Lenin, "La plataforma de la social-democracia revolucionaria", Obras completas, Argentina, Editorial Cartago, 1969, Tomo XII, p. 202.
23- Ídem, p. 198.
24- Contra a posição de Kautsky e a favor da tese da derrocada, exprimiu-se Rosa Luxemburgo no Congresso de Hanover do SPD em 1899. Neste congresso Luxemburgo afirmou que era precisamente "o conceito de uma derrocada, de uma catástrofe social [...] de um cataclismo o que distinguia o marxismo do gradualismo reformista". Citado por Norman Geras, Actualidad del pensamiento de Rosa Luxemburgo, México, Ediciones Era, 1976, p. 15.
25- Cole, Op. Cit., T. III, p. 256.
26- As posições de Kautsky sobre "a teoria do crescimento da miséria", podem ser consultadas amplamente na sua obra já citada, pp. 171 y ss.
27- Kautsky, ídem, pp. 233-235.
28- Carta de Engels a Bebel de 28 de Outubro de 1882, já citada anteriormente.
29- Eduard Bernstein, Socialismo evolucionista. (Las premisas del socialismo y la tareas de la social-democracia), Barcelona, Editorial Fontamara, [s.d.e.], p. 128.
30- Cole, Op. Cit., T. III, p. 275.
31- Ídem.
32- Ídem, p. 138.
33- Kautsky, Op. Cit., p. 244.
34- Bernstein, Op. Cit., p. 170.
35- Ïdem, p. 130.
36- Iring Fetscher, El marxismo, su historia en documentos, Bilbao, Zero, S. A., (Biblioteca Promoción del Pueblo, Serie P, Núm. 35), 1976, p. 160. Von Vollmar, certamente, desde 1879 havia-se antecipado a Stalin na defensa do socialismo num só país.
37- Ainda que Luxemburgo estivesse de acordo com a teoria do derrocamento do capitalismo como consequência das suas próprias contradições, defendia a necessidade do derrube do Estado burguês pela acção das massas.
38- Apresentação de 1979 a Karl Kautsky, El camino del poder, Barcelona, Editorial Fontamara, 1979, originalmente publicado em 1909.
39- Mais precisamente, a proposição de Bernstein foi a seguinte: "No meu conceito, o que se chama fim último do socialismo não é nada, pois o importante é o movimento", Ver Bernstein, Op. Cit., p. 158.
40- Leon Trotsky, Political Profiles: Karl Kautsky, em http://csf.colorado.edu/mirrors/marxists.org/ archive/trotsky/works/1940/profiles/kautsky.htm Usarei indiferentemente Trotski e Trotsky. Só quando está assim escrito numa obra citada se usará Trotsky.
41- Cole, ídem, T. III, p. 281.
42- A. Kriegel, Op. Cit., p. 56 (itálicos no original).
43- Ídem, p. 66. Parvus era pseudónimo de Alexander Helphand, também escrito Gelfand nos apontamentos biográficos de Vladímir I. Lenin, ¿Qué hacer? Teoría y práctica del bolchevismo, Edição a cargo de Vittorio Strada, México, Era, 1977. Ao grupo de esquerda mencionado deve acrescentar-se o nome de Clara Zetkin, dirigente de mulheres socialistas e muito próxima de Rosa Luxemburgo e de Franz Mehring nas suas posições revolucionárias e radicais. E também o holandês Anton Pannekoek, que foi um crítico dos reformistas e revisionistas muito importante. Vivendo na Alemanha (a partir de 1906) escreveu vários artigos sobre a importância da heterogeneidade do proletariado e as razões do oportunismo entre as camadas privilegiadas de trabalhadores. Em 1912 polemizou brilhantemente com Kautsky. Pannekoek distinguiu-se também pela sua defesa dos conselhos operários. Pode consultar-se a respeito a selecção de textos e comentários de Serge Bricianer, Anton Pannekoek y los consejos obreros, Barcelona, Anagrama, 1976.
44- Kautsky só aceitava a greve de massas como pressão para obter no capitalismo certas reformas favoráveis aos trabalhadores e uma legislação favorável, mas não como um meio para a revolução. Uma síntese das posições dos anarquistas, de Luxemburgo e de Kautsky neste debate sobre a greve de massas pode ser visto em Iring Fetscher, Op. Cit., pp. 217 e ss.
45- Norman Geras, Op. Cit., 96.
46- Ver a respeito V. I. Lenin, La enfermedad… Op. Cit.
47- Idem, p. 97.
48- Norma Geras, Op. Cit., pp. 97-98. Note-se a recorrência à introdução de Engels de 1895 várias vezes citada.
49- G. D. H. Cole, Op. Cit., T. III, p. 105.
50- Annie Kriegel, Op. Cit., p. 78.
51- O qualificativo leninista de social-patriotas atingiu Scheidemann, Ebert e outros na Alemanha, Guesde e seus seguidores em França, Treves e Turati na Itália, Vandervelde na Bélgica e todos os que apoiaram os seus governos na guerra.
52- Lenin afirmava, sem sombras de dúvida, que a direcção do partido, assim como a estratégia e a táctica seguidas, eram acertadas. Ver Lenin, La enfermedad…, Op. Cit., p. 360.
53- Estas referências e as seguintes são da versão já citada de La enfermedad… Não considero necessário, portanto, citar páginas.
54- Os textos mais importantes de Lenin sobre o partido são, sem dúvida, ¿Qué hacer? (1902) e, sobretudo, Un paso adelante, dos pasos atrás (1904). Entretanto, Lenin modificou alguns dos seus pontos de vista depois da revolução de 1905 e mais ainda depois da revolução de Fevereiro em 1917.


[*] Professor emérito da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM).
O presente texto é o capítulo 3 de "Esquerdas e esquerdismo: Da Primeira Internacional a Porto Alegre", Campo das Letras , Porto, 2007, 232 pgs., ISBN 978-989-625-039-3.   O prefácio de Miguel Urbano Rodrigues encontra-se em http://resistir.info/mur/prefacio_araujo.html .


Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .
15/Fev/07