Esquerdas e esquerdismo,
[1]
um livro de Octavio Rodriguez de Araujo
por Miguel Urbano Rodrigues
Não é uma história das esquerdas. Nem um ensaio
filosófico.
O autor oferece-nos uma reflexão sobre o caminhar das esquerdas desde o
período que precedeu a Revolução francesa de 1789, com
especial atenção para o confuso panorama que elas apresentam
hoje, após a implosão da URSS.
Como se fora num filme, ilumina as novas esquerdas e os esquerdismos que
proliferam como cogumelos enquanto tradicionais partidos operários
entram em decadência ou desaparecem. Sabe-se o que essas esquerdas
rejeitam, mas não é claro o seu discurso. Não se percebe
bem o que pretendem e para onde vão.
Octavio Rodriguez Araújo é professor emérito de
Ciência Politica na Universidade Nacional Autónoma do
México um gigante onde se movem 380 mil estudantes e professores
uma das mais fascinantes universidades do mundo. Escreveu um livro
didáctico do qual numa introdução não é
possível transmitir com nitidez nem o conteúdo nem as
opções do autor. A dificuldade nasce da complexidade da obra e
da amplitude da sua temática.
Os jovens sobretudo podem acompanhar lutas quase esquecidas da
história contemporânea e, através de brilhantes
sínteses de grandes acontecimentos, serem encaminhados para tomadas de
posição não esperadas.
Cabe recordar que o esquerdismo, na perspectiva em que Lenine o viu, é
uma forma de extremismo, palavra que Engels utilizou ao definir os adeptos de
Blanqui. Mas é também, como nos recorda Marx na sua critica a
Bakunine, uma faceta do sectarismo dos anarquistas da I Internacional.
ORA ilumina com muita clareza temas e momentos históricos de que muito
se fala cada vez com menor conhecimento deles.
Das polémicas de Marx com Bakunine, por exemplo, e das tempestades
ideológicas internas que envolveram a Comuna de Paris.
"Se em Setembro de 1870 cito estivesse à frente do
proletariado francês o partido centralizado da acção
revolucionária, toda a história da França, e com ela toda
a história da humanidade, teria seguido outro rumo".
Para milhares de jovens terá hoje força de
revelação "descobrir" que após a Comuna a
ditadura do proletariado já não era para Marx a definida no
Manifesto Comunista, como centralização do poder num aparelho,
mas alavanca de que se serviriam os trabalhadores "para erradicar os
cimentos económicos em que assentava a existência de classes e
portanto a dominação de classe".
Nestes dias em que István Mészaros e Samir Amin relançam o
desafio contido na alternativa "Socialismo ou Barbárie",
é muito útil o esforço de ORA para demonstrar a
actualidade dos grandes debates que na Europa do inicio do século XX
foram travados sobre a antinomia reforma-revolução quando
Edward Bernstein, subalternizando o objectivo final dos partidos
revolucionários, proclamava que "o movimento é tudo",
erigindo as lutas reivindicativas dos trabalhadores em objectivo
estratégico.
Num contexto histórico muito diferente, o discurso dos chamados
"renovadores" do marxismo, de El Salvador a Portugal, da
França ao México, tem uma clara inspiração
bernsteiniana.
A reflexão de Octavio sobre o revisionismo na Social Democracia
Alemã então o principal partido marxista na Europa
é muito esclarecedora sobretudo ao analisar as lutas no âmbito da
II Internacional.
Sem ser uma obra académica, o livro é um ensaio em que de inicio
a fim transparece o espírito de rigor do cientista político.
Pela sua criatividade e capacidade de síntese o autor ajuda o leitor a
"ver" em andamento períodos de historia quase desconhecidos
das actuais gerações, vitimas da manipulação e
desinformação de um sistema mediático perverso.
A história não se repete. Mas hoje como no início do
século é difícil para milhões de pessoas
diferenciar "o reformista do revolucionário embora seja bem
transparente o perigo como salienta ORA de que certos apelos ou
acções reformistas, em vez de empurrarem os trabalhadores para
posições revolucionárias, os conduzam ao conformismo ou a
aceitar como um fim em si mesmo o conjunto de reformas empreendidas".
As páginas dedicadas à III Internacional colocam questões
muito polémicas, em que aflora por vezes um pendor trotsquizante. Ao
tratar da problemática Estado-Partido no desenvolvimento da
Revolução Russa, ORA assume posições das quais com
frequência me distancio, não obstante reconhecer a seriedade do
autor e estar consciente de que grandes erros (muitos quase
inevitáveis) foram cometidos na transição do capitalismo
para um socialismo que desde o início se afastou do projecto
leninista. Mas, precisamente nesses capítulos, o autor desmonta o
oportunismo das correntes social democratas que de capitulação em
capitulação, desfraldando as bandeiras do "socialismo
democrático" e com um duplo discurso, acabaram renunciando ao
marxismo e, aliadas às direitas, cumprem hoje a função de
defensoras do neoliberalismo. Quando chegam ao governo administram o
capitalismo.
A crise dos partidos comunistas europeus merece muita atenção, a
partir da contaminação pelo eurocomunismo. O Partido Italiano
desapareceu como tal ainda antes da implosão da URSS, o Francês
entrou em decadência acelerada ao aliar-se ao Partido Socialista no
governo da
gauche pluriel
(durante a administração Jospin houve mais
privatizações do que, somadas, as concretizadas nos governos de
Balladur e Juppé), o PC de Espanha diluiu-se progressivamente na
Esquerda Unida. O Partido Comunista Português, o Grego e o Akel de Chipre
foram excepções num quadro em que a grande maioria dos partidos
comunistas da Europa, em vez de se mobilizarem contra as políticas
neoliberais impostas pela direita e pela social democracia, se tornaram
cúmplices indirectos ou directos das mesmas. Na sua reflexão
sobre a vaga reformista que descaracterizou (ou destruiu) partidos comunistas
europeus, com repercussões profundas na América Latina, ORA
identifica-se com aqueles que se opuseram à teorização
revisionista:
"Concluiu-se a meu ver com razão escreve que a partir
da interpretação do estado capitalista deveria resultar a
estratégia "correcta para o socialismo, pois o reformismo nas suas
diferentes versões eludia esse ponto ou tendia a levar a crer que
como Lassalle quis na sua época que para se atingir o socialismo
era suficiente apoderar-se da máquina ou do aparelho de estado e
não, como Marx havia afirmado, que era necessário destruir o
Estado capitalista através da instauração da ditadura do
proletariado, como fase de transição entre o capitalismo e o
socialismo".
No capitulo em que analisa e comenta a guinada para a direita de muitos
partidos comunistas e a aceitação
de facto
do neoliberalismo pela social-democracia, Octavio tenta iluminar as fronteiras
actuais da
esquerda.
Tarefa difícil nestes tempos em que numerosos partidos socialistas
entre os quais o português aprovam as agressões
imperiais do monstruoso sistema de poder dos EUA e patrocinam a
institucionalização do capitalismo na União Europeia
através de uma Constituição.
A que aspira hoje aquilo que aparece como
esquerda?
pergunta. A resposta não é fácil quando o
próprio Exército Zapatista de Libertação Nacional,
do subcomandante Marcos "não afirmou em momento algum,
explicitamente, que luta pelo socialismo".
A perplexidade de ORA é compartilhada por milhões de pessoas.
Pessoalmente evito cada vez mais utilizar a palavra
esquerda
ao referir-me a partidos ou movimentos políticos. Quando a
televisão em Portugal promove mesas redondas para confrontar
representantes da
esquerda e da direita
e exclui delas os comunistas, somos colocados perante uma perversão
ostensiva e consciente do conceito de esquerda. Agrada à burguesia
mascarar de esquerda personalidades comprometidas com o sistema.
O último capitulo do importante ensaio de Octavio Rodriguez de
Araújo é dedicado àquilo a que chama "as novas
esquerdas".
O livro foi escrito antes de Toni Negri e John Holloway terem, em obras
traduzidas em muitos idiomas, contribuído para dar alento a grupos
esquerdistas que contribuíram para aumentar a confusão em
movimentos que proclamam a sua disponibilidade para o combate à
globalização neoliberal.
Mas Octavio Rodriguez de Araujo (que posteriormente manteve uma polémica
com John Holloway) terá sido na América Latina um dos primeiros
intelectuais a sublinhar que "no eclectismo ideológico e
político das novas esquerdas se misturaram ingredientes do anarquismo
com marxismo e derivados, com algum predomínio do anarquismo,
especialmente nos movimentos maioritariamente juvenis".
As consequências do discurso anarquizante dos inspiradores desses grupos
são desmobilizadoras. Em vez de funcionar como estimulo á
acção, a teorização desses reformistas de novo tipo
conduz ao imobilismo. Na pretensa "adequação ao 'presente'
omitem a referencia ao capitalismo, ao Estado, às classes sociais, ao
imperialismo e a categorias semelhantes".
Na sua critica às "novas esquerdas", Octavio Rodriguez Araujo
antecipou e definiu algumas das tendências que pesaram no rumo de
muitos movimentos sociais anti-globalizaçao que, afirmando combater o
capitalismo, ambicionam reformá-lo, tendências em que se
manifesta um anticomunismo que se expressa, por exemplo, numa atitude hostil
perante os partidos revolucionários como instrumento decisivo nas
lutas em defesa da humanidade.
Critico severo dos partidos tradicionais, Octavio Rodriguez Araújo, ao
sublinhar o papel de fundamental importância cumprido pelos movimentos
sociais após Seattle , está, entretanto, consciente das
limitações dos protestos e movimentos espontaneístas.
Compartilha as dúvidas de Samir Amin quanto ao rumo do Fórum
Social Mundial, ou mais exactamente sobre a sua possibilidade de se
transformar numa força real de mudança.
Prudente, não entra pela estrada das previsões com sabor de
utopia.
Não perdeu a esperança de um novo internacionalismo como o
imaginado por Marx na apologia da comunidade de acção que tornou
possível a Associação internacional dos Trabalhadores.
Mas, sabe que estamos muito longe, longíssimo, de um programa
teórico comum do movimento operário mundial.
Acredito que
Esquerdas e Esquerdismos
será, como obra polémica, didáctica, inteligente e bem
documentada, um contributo valioso para o aprofundamento da reflexão da
juventude portuguesa sobre uma crise de civilização que
ameaça a própria continuidade da vida na Terra, pátria do
homem.
Serpa, Novembro/2004
[1]
Octávio Rodriguez Araújo, Izquierdas e Izquierdismos, Ed. Siglo
XXI, México, 2002.
Edição portuguesa:
Campo das Letras
, Porto, Fevereiro/2007, 232 pgs, ISBN 989-625-039-1.
Este prefácio encontra-se em
http://resistir.info/
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