A tragédia da Grécia:
Uma acusação à teoria económica neoliberal,
à elite política interna e ao duo UE/FMI
por C. J. Polychroniou
[*]
Não há nenhuma outra disciplina nas ciências sociais que
repouse tão pesadamente sobre dados estatísticos e
fórmulas matemáticas e ainda assim seja tão
lamentavelmente incompetente em analisar e prever os acontecimentos e processos
que estuda do que a própria "lúgubre ciência"
("dismal science").
A crise financeira global de 2007-08 é um grande exemplo. Virtualmente
todos os economistas profissionais da corrente dominante foram apanhados com as
calças arriadas quando o Lehman Brothers entrou em colapso, disparando
uma crise financeira à escala mundial. A razão para isto é
que a maior parte dos economistas convenceu-se, com base nos fantásticos
modelos de engenharia financeira desenvolvidos nos últimos 20-30 anos,
que o capitalismo havia evoluído para um sistema
sócio-económico estável e livre de crises. Agora que o
dinheiro podia ser criado a partir do ar (chamam a isto o "esquema dos
derivativos"), grandes e poderosas instituições financeiras
podiam acumular riqueza sem gerar nova riqueza e predadores financeiros podiam
pilhá-la à vontade.
Na verdade, aos olhos dos profetas da nova era económica, a redescoberta
do deus perdido do homem (i.e., mercados livres) significando simetria e
perfeição (i.e., estabilidade permanente e
acumulação sem fim) abriu um caminho para a
realização de uma ordem económica livre da fragilidade
contratual e da destruição do ciclo de negócios associado
ao perturbado capitalismo do passado. Modelos de equilíbrio geral com
dinâmica estocástica (uma abordagem académica cujas
"bases científicas" são no mínimo dúbias)
e outros modelos deterministas construídos em torno da
noção de mercados racionais e eficientes (ex., a hipótese
das expectativas racionais), todos eles carregados com suposições
normativas ahistóricas e asociais, não deixavam espaço
para questionar os mecanismos de engenharia financeira e o admirável
novo mundo prometido pelos sumos sacerdotes do capitalismo de livre mercado
(Polychroniou 2008). A seguir, os economistas e sábios da corrente
dominante
(mainstream)
nunca viram a aproximação do mais recente desastre financeiro,
muito embora a vingança da economia real sobre a economia de papel seja
um cenário que se tenha verificado incontáveis vezes na
história do capitalismo moderno. Este é o preço pago por
substituir economia política por teoria económica
matemática e análises econométricas estreitas, ignorando a
história e a teoria social, e por zombar da percepção
filosófica da natureza humana.
Basta dizer, se economistas contemporâneos se incomodassem a ler mesmo o
primeiro volume de
Das Kapital
de Marx, ou considerassem seriamente as sombrias advertências de
Marshall contra a transformação da análise
económica em modelos matemáticos formais, ou prestassem
atenção à fundamentada abordagem de Keynes da procura
agregada e do ciclo de negócios ou à hipótese da
instabilidade financeira de Minsky (qualquer uma destas opções
poderia ter permitido isso), teríamos sido poupados às loucuras
associadas com o particularmente absurdo empreendimento de transformar uma
ciência social numa física newtoniana e apresentar o universo
capitalista como um progresso infindável rumo à
acumulação ilimitada, com a ajuda da alquimia do livre mercado.
Podíamos também ter evitado as incontáveis crises
financeiras e económicas que se verificaram desde a ascensão de
uma ilusória mas perigosa ordem sócio-económica
neoliberal.
Mas a ignorância da história e da política atravessa a
análise económica e formulação de políticas
como uma linha vermelha, a qual nos faz perguntar o que impede o capitalismo
contemporâneo de entrar em colapso sob o peso das suas próprias
contradições (realmente, sabemos a razão, e não
é nenhuma outra senão a intervenção maciça
da própria instituição que os neoliberais gostariam de ver
canibalizada até os ossos: o estado) ou, alternativamente, o que
impede os milhões de desempregados, os social e economicamente
incapacitados e aqueles relegados para trás pelas implacavelmente
desorientadas políticas do "gotejamento económico", da
"austeridade fiscal" e dos "mercados não subjugados"
de se levantarem para desafiar as cada vez mais crescentes desigualdades na
distribuição do rendimento e da riqueza por todos os
países capitalistas ocidentais (as razões para isto são,
confessadamente, muito mais complicadas e esquivas).
No mundo real da elaboração da política económica,
as análises e projecções do Fundo Monetário
Internacional (FMI) constituem o melhor exemplo dos deuses que fracassaram
isto é, previsões económicas baseadas na fé
cega em políticas neoliberais e no dogma do mercado livre. As
projecções do FMI são notórias por serem
sistematicamente insensatas, precisamente porque são fixadas sobre
exigências de "ajustamento estrutural" que impõem o
anti-crescimento, que tipicamente produzem devastação
económica maciça, como evidenciado por incontáveis
exemplos por todo o mundo. Ainda assim, comprometidos com objectivos
ideológicos e políticos (perversos) ao invés da
evidência científica objectiva, a instituição
permanece teimosamente apegada à prescrição do mesmo
remédio para economias aflitas não importa de que origem
geográfica ou que características sócio-económicas
e culturais únicas que possam possuir. Na visão do mundo
neoliberal do FMI, "um tamanho único ajusta-se a todos".
Não é de surpreender, portanto, que os pacientes tratados pelos
bons médicos do FMI habitualmente acabem em coma (eles chamam a isso
"estabilização"). Os tratamentos de choque aplicados
pelo FMI a economias doentes têm um objectivo explícito: reverter
o padrão médio de vida a fim de criar condições
altamente favoráveis para os negócios e o investimento
internacional e para aumentar a taxa de lucro da elite corporativa e financeira
interna. É claramente uma abordagem de guerra de classe, oculta na
retórica do mais sagrado do que tu acerca dos benefícios gerais
de uma ordem económica neoliberal e acerca de como direitos laborais,
disposições sociais de bem estar e salários decentes
constituem um empecilho para economia.
A catástrofe económica a desdobrar-se na Grécia a
qual está prestes a tornar-se uma crise humanitária dentro da
periferia de uma das regiões económicas mais ricas do mundo
diz muito acerca do dano que os decisores políticos com
orientação neoliberais do FMI e da União Europeia (UE)
podem provocar através da elite política interna, a qual arca com
grande responsabilidade pelos males crónicos da economia grega e por
terem transformado a Grécia num estado baseado na "legalidade
corrupta". Durante os últimos três anos, a Grécia foi
a cobaia para as receitas políticas de uma UE neoliberal sob o comando
da Alemanha e seus aliados do Norte. Uma crise de dívida pública
foi utilizada como oportunidade para desmantelar o estado social, liquidar
empresas públicas lucrativas e activos do estado a preços de
saldo, privar o trabalho até dos seus direitos mais básicos
após décadas de árduas lutas e para reduzir
substancialmente salários e pensões, criando de facto uma
república das bananas tudo o com apoio de um segmento
significativo da classe industrial/financeira grega e com a assistência
da elite política interna, a qual desde o início da crise confiou
fortemente na acção ditatorial a fim de executar os comandos dos
credores estrangeiros do país.
O ardil, desde o princípio, foi tratar o problema grego como uma crise
de liquidez provocada pela incapacidade do governo interno para restringir a
despesa pública, acumulando défices fiscais maciços (mais
de 15 por cento no fim de 2009, embora agora haja bases para acreditar que o
governo Papandreu intencionalmente inchou o défice a fim de fabricar um
argumento convincente para reformas neoliberais e para a submissão da
Grécia ao domínio do FMI) e rácios dívida-PIB
incríveis (acima de 126 por cento em 2009) que assustaram investidores
internacionais em títulos do governo, remetendo os diferenciais de
yields
entre títulos gregos e alemães para as nuvens e no essencial
vedando indefinidamente à Grécia o acesso aos mercados de
crédito.
Não há dúvida de que governos gregos nos últimos 30
ou mais anos demonstraram-se tão incompetentes e corruptos quanto
qualquer governo sobre a terra poderia ser, com a classe política
dominante utilizando o estado e seus cofres como um meio de enriquecer-se e
enriquecer seus parceiros capitalistas parasitas, assim como de satisfazer as
necessidades e pedidos da sua clientela política a fim de manter um
exército de eleitores fieis ao partido. É um tipo de
corrupção política que está intrinsecamente ligada
tanto ao capitalismo (Bratsis 2003) como às suas próprias
idiossincrasias internas, de outra forma não seria possível
explicar porque práticas perversas semelhantes não são
toleradas em toda sociedade capitalista. Governos e sector privado malbarataram
fundos estruturais da UE com temerária despreocupação,
permitindo no processo que se verificasse a destruição de
sectores vitais (ex., agricultura). Também é verdadeiro que, a
partir do momento em que a Grécia aderiu ao euro, os custos baratos dos
empréstimos demonstraram-se um grande incentivo para um impressionante
crescimento baseado na procura do consumidor através do endividamento e
apoiando-se num sector estatal cada vez mais corrupto e ineficiente a fim de
efectuar permutas benéficas entre a política e os
negócios. O caso do antigo ministro da Defesa do PASOK, Akis
Tsochatzopoulos, que está agora a cumprir pena por ter montado uma
operação de lavagem maciça de dinheiro com base em
esquemas de comissões que aparentemente lhe renderam mais de 100
milhões de euros em subornos, é simplesmente o topo do iceberg:
ele é apenas um, um "infeliz" político que caiu como
vítima numa campanha da actual elite grega no sentido de lançar
"areia para os olhos". A "Lista Lagarde", de mais de 2000
gregos com gordas contas bancárias além-mar, tem sido passada de
um responsável do governo para outro desde 2010, desde que foi entregue
ao então ministro das Finanças grego pela sua colega francesa,
Christine Lagarde, com o objectivo expresso de perseguir evasores fiscais. O
dispositivo electrónico contendo a informação foi copiado
com nomes removidos e desde então a elite política está a
fazer tudo o que pode para proteger os nomes que nela permanecem (os quais sem
dúvida incluem também os de numerosos políticos)
recusando-se a tratar do assunto de uma maneira que cumpra a lei. Na verdade,
quando um jornalista grego obteve a lista e procedeu à
publicação dos nomes na sua revista semanal foi preso sob a
acusação de violar leis da privacidade (foi posteriormente
libertado aguardando julgamento em Junho).
Não se pode negar que a elite política grega está podre
até o tutano e que a cultura política está em
terrível necessidade de reforma. Durante cerca de 40 anos, os dois
partidos políticos que dirigiram o país, Nova Democracia
(conservadores) e o PASOK (socialistas), utilizaram as mesmas tácticas
sem escrúpulos e, na maioria dos casos, impôs as mesmas
políticas económicas destrutivas, tornando virtualmente
impossível julgar qual dos dois partidos é mais corrupto ou mais
perigoso para os interesses do país. Ambos estiveram envolvidos em
vários grandes escândalos centrados na exploração de
recursos do estado a fim de transferir riqueza do sector público para o
privado, enriquecerem-se e redistribuírem riqueza da base para o topo.
Até muito recentemente, escândalos financeiros e
corrupção constituíam grandes fontes de
criação de riqueza na Grécia (embora mínimas em
comparação com fraudes financeiras nos Estados Unidos). Outrora o
país foi um paraíso para a lavagem de dinheiro, enquanto subornos
e comissões permaneciam como componente integral do modo como a
sociedade efectuava seus negócios. O impacto destas tendências e
práticas sobre a democracia foi severo. Com os líderes dos dois
partidos a alternarem-se a prender eleitores numa relação a longo
prazo baseada não em proporcionar bens públicos e uma ordem
social justa mas sim em promessas de redistribuição de recursos
tendo em vista a fidelidade ao partido, o bem comum dissolveu-se numa
multidão de interesses estreitos sem ligação comum e
frequentemente as acções de um grupo de interesse violavam os
direitos de outros.
[1]
O resultado final foi a emergência de uma cultura política que
apresentava níveis perigosos de auto-engrandecimento e
irresponsabilidade social e, finalmente, a formação de uma
cidadania altamente apolítica: os cidadãos retiraram-se para os
seus próprios enclaves pessoais, sentindo-se impotentes ou simplesmente
não desejosos de enfrentar as forças envolvidas na
destruição económica e decomposição social
do país. Sindicatos trabalhistas, os quais em tempos anteriores à
crise costumavam empenhar-se em protestos simbólicos apelando à
greve dos seus membros, agora têm dificuldade até para organizar
uma greve porque apenas uns poucos milhares de pessoas incomodam-se em aparecer
tudo isto quando mais de 1,3 milhão de gregos numa força
de trabalho total de 3,7 milhões de pessoas estão desempregados.
Em suma, renderam-se totalmente à "troika" a
Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu e às
políticas mortais de austeridade. É o que se pode dizer,
portanto, do grande mito do radicalismo grego.
Contudo, apesar de tudo o que foi dito acima ser verdadeiro, a crise grega
é muito mais do que o simples resultado de práticas corruptas do
governo, embora a corrupção, incluindo evasão fiscal, seja
um grande componente dos males económicos que o país hoje
enfrenta. É também a história de um estado
cleptocrático e de uma elite capitalista parasita que foi apanhada na
teia da concepção defeituosa da eurozona (ver Papadimitriou e
Wray 2012) quando a crise financeira estado-unidense de 2007-08 atingiu as
costas europeias. É igualmente a história de uma economia que
não cumpriu os pré requisitos para entrar numa alegada
área de moeda óptima (Mundell 1961; McKinnon 1963; Kenen 1969),
nem fez grande tentativa de ajustar-se adequadamente. Mas é
também a história do fracasso geral do projecto global
neoliberal, da financiarização da economia e da ortodoxia do
livre mercado (Polychroniou 2012a). Na verdade, de que outra forma poderiam
países da eurozona com economias tão diferenciadas
(Grécia, uma economia estatista e altamente corrupta; Irlanda, uma
perfeita representante do capitalismo neoliberal; Espanha, uma seguidora fiel
dos ditames da UE acerca de défices e dívida) acabar por sofrer o
mesmo destino?
A razão é perfeitamente simples: porque todos eles orbitaram a
mesma entidade central, o buraco negro do capitalismo neoliberal europeu.
Assim, diferenças políticas e ideológicas entre partidos
social-democratas e conservadores há muito que se esvaneceram. Portanto,
na Grécia, Espanha, Portugal e alhures, governos
"social-democratas" há muito abandonaram até a desculpa
de serem agentes de reforma progressista (Polychroniou 2012b). Daí a
facilidade com que tais governos cooperaram com os ditames da UE/FMI na
imposição de cortes e medidas de austeridade sem precedentes que
reduziram drasticamente o padrão de vida para o povo trabalhador dos
seus respectivos países.
Em suma, a crise grega (1) apresenta-se como uma grave crise orçamental
e da dívida pública (durante as décadas de 1980 e 1990, as
despesas anuais do governo excederam a receita numa média de mais de 8
por cento do PIB, ao passo que a dívida nacional excedeu os 100 por
cento do PIB) resultante dos problemas estruturais profundas e de longo prazo
da economia grega e das deformidades do seu sistema política e cultural;
(2) representa uma crise europeia devido aos intrincados laços
comerciais e financeiros entre a Grécia e os outros estados membros da
eurozona; e (3) reflecte o fracasso fatal do projecto neoliberal, o qual se
institucionalizou por toda a estrutura operacional da UE, enquanto o FMI
continua a ser o mais poderoso mundial impositor do fundamentalismo do mercado.
No cerne da visão neoliberal está uma ordem societal e mundial
baseada na priorização do poder corporativo, nos mercados livres
e no abandono dos serviços públicos. A afirmação
neoliberal é que as economias funcionariam mais eficazmente, produzindo
maior riqueza e prosperidade económica para todos, se aos mercados fosse
permitido funcionar sem intervenção do governo. Esta
afirmação baseia-se na ideia de que mercados livres são
inerentemente justos e podem criar meios eficazes a baixo custo de produzir
bens de consumo e serviços. Consequentemente, uma economia
intervencionista ou administrada pelo estado é esbanjadora e
ineficiente, estrangulando crescimento e inovação devido ao
constrangimento da inovação e do espírito empresarial.
Esta é a versão de neoliberalismo desenvolvida por Milton
Friedman e a Escola de Chicago e habitualmente associada ao regime de Pinochet
no Chile e, posteriormente, às políticas de mercado livre de
Margaret Thatcher e Ronald Reagan uma revolução
ideológica que foi longa na formação mas que ganhou
ascendência sobre o keynesianismo com o surgimento da
estagflação (Jones 2012). E é de longe a mais perigosa
ideologia do nosso tempo, espalhando destruição com a sua
"teoria económica do desastre social" (Polychroniou 2012c).
A política de terra queimada da Alemanha e o "par de monstros
gémeos" do capitalismo neoliberal
Em Abril de 2010 a Grécia foi excluída dos mercados
internacionais de títulos e enfrentava a perspectiva de um
incumprimento. Meses antes, o governo Papandreu havia abordado o FMI para que
concedesse seu "know-how técnico e experiência" à
UE pela administração de uma dose de terapia de choque. A
Grécia precisava ser "resgatada" e os europeus precisavam
não só da perícia do FMI como também de acrescentar
um elemento de legitimidade ao experimento de austeridade que estava prestes a
ser executado num estado membro periférico. Neste contexto, o convite ao
FMI para juntar-se à cirurgia económica num paciente doente
europeu serviu finalidades múltiplas.
Os curandeiros neoliberais foram rápidos a expedir um julgamento acerca
das raízes da crise grega alegadamente, um sector público
inchado que desperdiçava demasiados recursos sobre cidadãos
preguiçosos ou improdutivos e comprometendo o potencial do sector
privado e não perdeu tempo em recomendar medidas brutais de
austeridade. E se os factos não se ajustassem a esta narrativa? Na
verdade, todos os dados disponíveis mostram que o sector público
grego, ainda que ineficiente e corrupto, era realmente mais pequeno do que o
sector público de muitos outros países europeus; que os gregos
trabalhavam em média mais do que a maior parte dos outros europeus; e
que mesmo a produtividade grega nos anos que precederam a crise comparava-se
favoravelmente à da Alemanha (Papadimitriou, Zezza, and Duwicquet 2012).
E se houvesse enormes desequilíbrios na eurozona, com os estados do
núcleo a incidirem em enormes excedentes e os periféricos em
enormes défices? (Bibow 2012)? A Grécia foi julgada como a
única responsável pelo triste estado da sua
condição orçamental na era do euro e tinha de ser punida,
tanto como castigo pelos seus pecados como a título de advertência
aos seus primos sulistas de que o mesmo destino os aguardava se não
colocassem o seu próprio orçamento em ordem.
É esta perspectiva cínica e brutal que levou a Grécia a
tornar-se um relutante sujeito de teste para a visão neoliberal da UE e
manteve o jogo da Alemanha em andamento quando as coisas se tornaram
ásperas na Eurolândia. A maior parte dos bancos alemães
estavam super-expostos à dívida grega e quase insolventes. O
salvamento de Maio de 2010 com a soma de 110 mil milhões de euros (com
uma taxa de juro usurária de 5 por cento) foi orquestrado pela UE e o
FMI o par de monstros do capitalismo neoliberal numa aparente
tentativa de manter a Grécia em dia com os seus pagamentos de
dívidas a bancos estrangeiros, portanto a rejeição
até da mais ligeira consideração de uma
reestruturação de dívida, embora isto tivesse sido o modo
mais rápido e mais seguro para permitir à Grécia algum
espaço para respirar. Ajudar a sua economia a recuperar através
da implementação coordenada de um plano de desenvolvimento em
grande escala também teria sido apropriado numa união
económica e monetária.
Na verdade, tais movimentos poderiam ter assegurado a confiança dos
investidores internacionais em títulos na estabilidade do euro e poderia
mesmo ter impedido o contágio ao resto da periferia. Eles certamente
teriam impedido a propagação de um contágio
evitável da periferia para o centro, o qual está claramente a
caminho desde o ano passado. Mas com a adopção de uma
política punitiva, o contágio na periferia tornou-se
inevitável. Com as economias deficitárias na periferia envoltas
num colete de força de austeridade, as economias excedentárias do
centro foram obrigadas a sentir os efeitos das suas políticas insanas e
brutais. As economias tanto da Alemanha como da França
contraíram-se no último trimestre de 2012. O PIB na eurozona como
um todo caiu em 0,5 por cento no ano passado e, mais significativo, 2012
ficará na história como o primeiro ano desde 1995 no qual nenhum
trimestre produziu crescimento (Blenkinsop e Breidthardt 2013)
Na verdade, como política, o esquema do salvamento demonstrou ser um
fracasso funesto sob todos os aspectos possíveis, salvo assegurar que
pagamentos de dívida continuassem a fluir para bancos estrangeiros. O
programa de macro estabilização bruta e as duras medidas de
austeridade que acompanharam o empréstimo à Grécia
(equivalendo a 11 por cento do PIB do país) tiveram sobre os mercados o
efeito oposto do pretendido e sufocaram todas as perspectivas de
recuperação para a economia grega: a procura caiu na vertical
devido à combinação mortal de cortes orçamentais
maciços, reduções em salários e pensões, e
aumentos fiscais drásticos, levando a que milhares de pequenos
negócios fossem à bancarrota e obrigando várias
multinacionais a mudarem suas instalações de
produção para países vizinhos dos Balcãs,
provocando com isso taxas de desemprego explosivas, receitas do estado em
diminuição drástica e aumentando substancialmente o
rácio dívida-PIB (Polychroniou 2012c). A política
executada pelo duo UE/FMI é tão fundamentalmente defeituosa que
Keynes deve estar a rolar no seu túmulo.
Ainda assim, aparentemente, dogmas económicos devem ser respeitados
não importa que resultados produzam Assim, na mente dos fanáticos
neoliberais eles deveriam ser prosseguidos até o fim amargo. Portanto,
menos de dois anos depois, um segundo "salvamento" de 130 mil
milhões de euros foi estendido à Grécia sitiada, com
termos e condições que são muito mais duros do que a
primeira tentativa de "resgate". A política do "pague
enquanto sangra" e "sofra pelos seus pecados" executada pelo par
de monstros agora deveria estar clara para todos.
Na redacção do documento para o chamado "Segundo Programa de
Ajustamento Económico para a Grécia", os lacaios neoliberais
da UE afirmaram que "a Grécia fez progressos mistos na
direcção dos ambiciosos objectivos do primeiro programa de
ajustamento" (European Commission 2012, 1). No lado positivo, observa-se
que o défice geral do governo foi reduzido "de 15,75 por cento do
PIB em 2009 para 9,25 por cento em 2011". No lado negativo, a
recessão "foi muito mais profunda do que a projectada
anteriormente" porque, é afirmado, factores tais como
"inquietação social" e "incapacidade
administrativa" (incluindo uma falta de eficácia no combate
à evasão fiscal) "atrasaram a
implementação".
O programa "fiscal e de ajustamento estrutural" anti-crescimento foi
perfeitamente concebido e teria produzido todos os resultados antecipados se o
governo fosse mais capaz de executar as políticas (talvez devesse ter
ordenado à polícia e ao exército que prendessem todos os
administradores públicos e os alvejassem por desobedecerem aos comandos
da troika) e se a cidadania não tivesse feito algum estardalhaço
acerca do programa de austeridade encenando manifestações aqui e
ali ou ocupando a praça frente ao edifício do parlamento grego.
Na essência, é isto o que diz a declaração acima.
As desculpas esfarrapadas dos burocratas da UE pelo facto de o programa de
consolidação orçamental ter provocado um declínio
económico muito mais drástico do que o "projectado
antecipadamente" são negadas claramente pelas recentes
concessões parciais feitas pelo FMI: de que as políticas
executadas na Grécia acabaram por ter efeitos muito mais adversos sobre
a economia porque este calculou mal o impacto do multiplicador fiscal. Na
verdade, o sumário executivo do "Segundo Programa de Ajustamento
Estrutural para a Grécia" continua a declarar inequivocamente que,
as perspectivas de êxito do segundo programa são preocupantes pois
os "riscos de implementação ... permanecem muito altos"
mas o êxito do programa "depende principalmente da
Grécia" (European Commission 2012, 4).
A teoria económica neoliberal aplicada à Grécia pela
Alemanha, pela UE e pelo FMI não causou simplesmente um maior
declínio no PIB grego do que o "originalmente projectado" ou
apenas fez a dívida crescer substancialmente mais no decorrer dos
últimos dois anos (de 126,8 por cento em 2010 para 180 por cento em
2012). Ela também produziu uma catástrofe económica e
social de proporções sem paralelo em tempos de paz na Europa. Em
Maio de 2010, quando o primeiro "salvamento" foi aprovado e as
medidas de austeridade arrancaram em alta velocidade, a taxa de desemprego na
Grécia situava-se nos 12 por cento. Desde então ela ascendeu para
27 por cento e a taxa de desemprego juvenil atingiu os 62 por cento. Segundo a
Autoridade de Estatística Grega (2012), o número real de
desempregados atingiu 1,35 milhão em Novembro de 2012, com o
número de empregados a situar-se nos 3,64 milhões.
Também a pobreza está a propagar-se rapidamente, afectando todos
os grupos na sociedade, incluindo crianças. Num recente relatório
divulgado pelo Eurostat (citado em ekathimerini.com 2013), 31 por cento dos
gregos tinham em 2011 um padrão de vida próximo da linha de
pobreza, enquanto o Instituto do Trabalho da Confederação Geral
Grega do Trabalho (INE-GSEE 2012a, 1) declara na sua publicação
mensal
Enimerosi
que no fim do ano passado (2012) 3,9 milhões de pessoas haviam
caído abaixo da linha de pobreza.
Os níveis de rendimento dos trabalhadores também levaram uma
grande pancada nos últimos dois a três anos, e há mais
reduções salariais a virem. Segundo dados de
investigação divulgados pelo INE-GSEE (2012b, 21), os rendimentos
caíram em 22,8 por cento ou 19 mil milhões de euros, durante
2010-11, com um declínio projectado de 33 mil milhões de euros no
rendimento disponível em 2012.
O objectivo do programa de "ajustamento estrutural" da UE/FMI em
relação ao mercado de trabalho grego (emprego e salários)
é claro como cristal: liberalização total, salário
mínimo comparável aos da Bulgária e Roménia (dois
países dos Balcãs relativamente atrasados e com níveis de
corrupção iguais aos da Grécia) e uma potencial
proibição de greves. Os primeiros dois elementos da subversiva
política neoliberal para o mercado de trabalho estão bem
avançados, enquanto o terceiro está em preparação.
Mais uma vez, estas medidas têm um selo oficial de
aprovação do governo grego, incluindo a actual
administração, uma coligação de três partidos
consistente do líder do partido conservador como primeiro-ministro e
líderes do Partido Socialista e do Democrático de Esquerda como
vice-presidentes. Além disso, como com toda administração
grega desde o estalar da crise, o Ministério das Finanças serve
como cavalo de Tróia para infligir a política de terra queimada
da UE e FMI à economia da Grécia e ao seu povo.
Nenhum governo são, certamente nenhum comprometido com o interesse
nacional, teria concordado com os termos do primeiro ou do segundo memorando de
entendimento redigido pela UE e o FMI. No começo da crise, as
oportunidades para adoptar uma rota alternativa de acção eram,
muito ironicamente, esmagadoramente a favor de Grécia e, assim, teria
sido lógico para o governo grego da altura fazer jogo duro com a
Alemanha e a UE. Mas o dolorosamente amadorístico e angustiosamente
incompetente governo que fora encarregado de cuidar do interesse nacional optou
por amarrar uma âncora ao pescoço do país enquanto estava
em águas profundas e então aguardar que este pudesse nadar de
volta à costa. Era uma proposta perdedora desde o princípio.
Agora, com a própria Europa a afundar na mais profunda recessão,
a única alternativa para o povo grego é encontrar a fortaleza e
coragem para enfrentar a brutalidade em curso do experimento de austeridade e
através de meios não violentos e democráticos mudar as
coisas. A teoria económica do desastre social não tem lugar na
sociedade de hoje. Esperançosamente, a Alemanha e o resto da UE
virão a perceber isto antes que seja demasiado tarde para o projecto
europeu e todos os seus cidadãos.
Nota
[1] Na Grécia anterior à crise era comum minorias de estudantes
fazerem greves por períodos prolongados enquanto a faculdade olhava para
o outro lado e os seus administradores escondiam-se atrás das
secretárias; ou vários grupos a perturbarem serviços
públicos ou negócios no sector privado; e violações
rotineiras das leis do emprego e do trabalho em sectores centrais da economia,
incluindo muitos negócios que não pagavam as
contribuições para a segurança social dos seus empregados
enquanto o estado olhava para o outro lado.
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Do mesmo autor:
http://www.resistir.info/grecia/polychroniou_set12.html
, 08/Set/12
http://www.resistir.info/europa/polychroniou_set11_p.html
, 21/Jan/12
http://www.resistir.info/crise/polychroniou_06dez11.html
, 12/Jan/12
http://www.resistir.info/europa/eurozone_crisis_17abr12.html
, 17/Abr/12
http://resistir.info/grecia/polychroniou_24mai12.html
, 04/Jun/12
[*]
Economista, investigador no Levy Economics Institute of Bard College.
O original encontra-se em
http://www.levyinstitute.org/publications/?docid=1725
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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