Será que uma depressão induzida pela austeridade descerá a cortina final sobre o drama grego?

por C. J. Polychroniou [*]

Cartoon de Latuff. Desde que a crise financeiro global atingiu a Europa, a Grécia tem estado no centro da atenção mundial pois o seu fardo não administrável de dívida e o estado abissal da sua economia trouxeram-na reiteradamente para a beira do incumprimento. Dois pacotes maciços de salvamento, uma enorme redução da dívida e medidas de austeridade draconianas têm mantido a Grécia a flutuar, mas os seus problemas não foram afastados. De facto, eles tornaram-se muito piores: a economia está em queda livre, a dissolução social em andamento e a cidadania grega está a erguer-se para desafiar a classe política interna e deitar abaixo o regime de austeridade de inspiração alemã.

A estratégia da União Europeia (UE) em relação à Grécia tem sido um desastre total. Os programas de salvamento impediram temporariamente a Grécia de incumprir os seus empréstimos mas, neste processo, destruíram a sua economia e converteram o país numa colónia económica do Norte.

A Grécia tem estado em recessão desde 2008 e o seu PIB experimentou um declínio sem precedentes para uma economia europeia em tempo de paz, contraindo 4,5% em termos reais em 2010 e 7% em 2011. O banco central grego prevê que o PIB cai mais 5% em 2012. Salários e pensões foram cortados em até 35%, impostos de todas as espécies estão a ser aumentados para indivíduos (um imposto sobre a propriedade, um imposto de "solidariedade", aumentos de impostos sobre grandes vendas), a taxa oficial de desemprego disparou para mais de 20%, a pobreza e os sem abrigo generalizaram-se e tem havido um aumento drástico de suicídios.

A política de "desvalorização interna" perseguida pela Alemanha, União Europeia e Comissão Europeia pode ser resumida em poucas palavras: grande sofrimento, nenhum ganho. A ironia disto parece que não escapou à atenção dos burocratas de Bruxelas: a previsão económica da Primavera feita pela Comissão, divulgada há poucos dias, observa que os "salários no sector de negócios tem estado a cair nos últimos trimestres mas a um ritmo que foi insuficiente para ajudar a recuperar competitividade". [1] Ainda assim, o relatório injecta uma nota de optimismo declarando que "espera-se que as recentes medidas no mercado de trabalho contribuam para novas reduções significativas nos custos do trabalho ao longo dos próximos dois anos".

E você pensava que empobrecer o povo fosse mau para uma economia!

A Comissão também reconhece que o "défice actual de transacções correntes... permanece num nível insustentável". Isto vem da implicação padrão entre economistas neoliberais de que a contracção fiscal leva a uma queda significativa no défice de transacções correntes.

No dia 6 de Maio, os eleitores gregos, cansados de austeridade e em cólera com a perda da sua soberania nacional, puniram os dois principais partidos que apoiaram os salvamentos internacionais e forçaram a sociedade a deitar-se no leito de Procrusto neoliberal. Embora bastante previsível, o resultado eleitoral enviou ondas de choque por toda a Europa e remodelou a paisagem política do país. A "Coligação da Esquerda Radical", ou Syriza, emergiu como um protagonista de destaque no drama grego ao obter 16,78% dos votos (pouco atrás dos conservadores do partido Nova Democracia, com 18,85%) e diz-se determinado a desafiar os acordos firmados entre os governos gregos anteriores e a UE e o FMI. Isto é uma enorme viragem para uma organização política que há apenas uns poucos meses era em grande medida associada aos tumultos e violência que devastaram as ruas de Atenas.

A estratégia do Syriza é idêntica à de partidos de esquerda em outros lugares da Europa e assenta sobre quatro pilares: (1) rejeição das medidas de austeridade e políticas neoliberais em geral; (2) redistribuição da riqueza nacional através de um sistema fiscal progressivo; (3) reestruturação financeira, controles de capital e nacionalização de bancos; e (4) incumprimento da dívida odiosa.

No dia 17 de Junho a Grécia efectuará uma segunda volta eleitoral, cujo resultado pode forçar a UE a interromper toda a assistência financeira. O Syriza diz que é só contra a austeridade, não contra a condição da Grécia de membro da eurozona. Mesmo assim, o partido não parece ter uma estratégia clara e suas mensagens sobre questões económicas são muitas vezes confusas e contraditórias. Os eurocratas responderam dizendo estarem desejosos de considerar uma política que mescle austeridade e crescimento – esse é simplesmente o mais recente disparate económico vindo de Bruxelas.

O grau em que o Syriza está realmente desejoso de aceitar a UE, ou se tem outras tácticas na sua manga, é difícil de avaliar. Mas a sua estratégia de cacofonia poderia realmente revelar-se uma vantagem na luta da Grécia para permanecer na eurozona, no caso de o Syriza emergir a uma posição dominante nas eleições de Junho.

RECUPERAÇÃO DA SOBERANIA MONETÁRIA

O que a Grécia precisa desesperadamente nestes tempos críticos é de uma liderança com capacidade para explorar todas as opções possíveis e, se aquelas opções forem esgotadas, preparar o país para os árduos desafios que podem estar pela frente [NR] – e torná-lo consciente das oportunidades disponíveis para um governo responsável pela sua própria divisa. Lamentavelmente, nenhum partido tanto à direita como à esquerda fez isto até agora, o que explica porque o país está a enfrentar um impasse político e a ameaça de descer a cortina final, sem nenhum aplauso.

Nota
1. European Commission, European Economic Forecast: Spring 2012 (Brussels: Directorate-General for Economic and Financial Affairs of the European Commission, 2012), p. 71.

[NR] A afirmação do autor é injusta para com o KKE, que se bate corajosamente pelo desligamento da Grécia das grilhetas que a acorrentam: euro, UE, FMI, NATO e demais organizações imperialistas.


[*] Colaborador do Levy Economics Institute of Bard College.

O original encontra-se em http://www.levyinstitute.org/publications/?docid=1543


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
04/Jun/12