"Unidos" eles caem:
A
Grexit
assombra a eurozona em conflito
por Farooque Chowdhury
[*]
A eurozona em conflito procura conciliação enquanto é
assombrada pelo espectro do Grexit
(Greece's exit)
a saída da Grécia da eurozona.
Exactamente na conclusão da cimeira do G8 o esforço de
conciliação produziu um entendimento ad hoc e o testemunho foi
uma Angela Merkel isolada. Uma linha divisória mais profunda atravessava
todo o comunicado que a cimeira emitiu.
Agora, quando o espectro da Grexit parece maior, Merkel & Co. está a
ventilar um plano para um divisor de águas mais pequeno e uma
união mais forte. Jörg Asmussen, o ex-vice-ministro das
Finanças alemão e actualmente o membro alemão no Banco
Central Europeu, um porta-voz de Merkel, lançou a ideia de uma
união política e financeira federalizadas dentro da UE: uma
eurozona politicamente integrada dividindo a União em duas, com o
núcleo formando uma "união bancária, fiscal e
política", do abandono temporário dos seus planos de
expansão nos Balcãs e na Turquia e com um Parlamento Europeu a
exercer poderes mais vastos.
Será isto o sonho do capital alemão? A ideia mostra
simultaneamente aspirações e limitações de uma
secção do capital na Europa que aspira ser dominante mas a que
falta o poder para dominar. Materializar o plano é agora uma tarefa
quase impossível.
Merkel encontra-se cada vez mais isolada, um espectáculo de
desunião, se bem que represente um capital inflexível para impor
o seu diktat sobre os fracos presas do poderoso capital. Na cimeira do
G8, Barack Obama estendeu uma mão amistosa sobre o ombro de
François Hollande, o presidente socialista francês.
Nas próximas reuniões formais e informais na Europa, Hollande
posicionar-se-á mais próximo de Mario Monti, o dirigente
italiano. E David Cameron desempenhará o papel de segundo violino, o
qual será por vezes insignificante e em outras vezes não
soará suavemente nos ouvidos de Merkel.
Hollande pressionará os alemães a aceitarem a ideia de medidas de
crescimento e eurotítulos. Mas isso não é aceitável
para os alemães. Herman Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu,
parecia dar apoio à agenda alemã ao passo que a Itália e a
Grã-Bretanha espera-se que apoie Hollande.
Isto testemunha o novo isolamento de Merkel na Europa, fracturas no continente
e interesses conflitivos que o capital dominante não consegue unir.
A cimeira do G9 encontrou uma Merkel aparentemente inflexível. Mas a
opção de Obama era a conciliação pois ele precisava
daquela postura. A posição alemã traz o risco de agravar a
crise europeia que por sua vez pode aumentar o número de desempregados
nos EUA. Obama não pode permitir que o número avance antes da sua
viagem eleitoral. Cameron tentou actuar como conciliador entre partes em
conflito. A aliança anglo-americana em conjunto contrariou a
posição de Merkel. Ela teve de fazer uma retirada.
A líder alemã considerou que não era assunto do G8 dizer
aos estados da UE o modo de tratar da sua economia. Mas o comunicado da cimeira
reiterou o direito do super-grupo de discutir o estado da economia europeia e a
oposição alemã foi ultrapassada. O super-grupo assinalou:
a Europa ainda não é um domínio alemão.
O comunicado comprometeu o G-9 a "dar todos os passos
necessários" para fortalecer suas economias. Ele dizia: "a
Grécia deveria permanecer na eurozona".
No seu parágrafo de abertura, o documento oficial declarava: "Nosso
imperativo é promover crescimento e empregos". Por ora, o
comunicado apresenta-se como um documento de vitória para Obama e
Hollande. Contudo, persistem diferenças em questões
políticas.
Os interesses trans-atlânticos e a equação de poder
são portanto reflectidos no comunicado. Mas a Grexit continua a
perturbar.
A Grexit é uma questão interessante! Ela une e ela divide, produz
insegurança e produz teimosia. Atrás de portas fechadas, os
actores principais ameaçam a Grécia de expulsão enquanto
publicamente asseguram à Grécia a condição de
membro na zona. Uma secção está assustada com a Grexit ao
passo que outra secção calcula possíveis perdas em caso de
saída.
Os interesses diferem pois eles não estão certos do caminho para
tratar as questões decorrentes de uma economia doente que está a
ameaçar as economias do continente. Um fraco assusta um forte! O medo da
reacção em cadeia do síndrome da Grécia está
agora a assombrar políticos da eurozona.
Todos os interesses bancários uniram-se para ameaçar os eleitores
gregos. Eles agora estão a advertir a Grécia e a manipular
políticos gregos de modo a que políticos pró austeridade
vençam a próxima eleição. A sua mensagem é
directa: votar pelo Syriza, a coligação radical de esquerda que
se opõe à austeridade e aos banqueiros
[1]
, será uma aposta perigosa.
Na tarefa de advertir os eleitores gregos, Cameron deu uma ajuda a Merkel. Em
Chicago, disse: "Temos agora de enviar uma mensagem muito claro ao povo da
Grécia: há uma opção vocês podem ou
votar para permanecer no euro, com todos os compromissos que assumiram, ou se
votarem de outro modo estão efectivamente a votar pelo abandono.
Um drama de negação e afirmação antecedeu a
advertência de Cameron. Foi relatado que numa conversação
telefónica com Karolus Papoulias, o presidente grego, Merkel sugeriu que
a Grécia fizesse um referendo sobre a condição de membro
do euro como parte da eleição geral. Mas o porta-voz de Merkel
negou a informação. Contudo, o gabinete do primeiro-ministro
interino grego Panagiotis Pikrammenos declarou que a chanceler havia
apresentado a proposta durante uma conversação telefónica
com Papoulias: "É verdade", disse um porta-voz do governo
grego.
Cameron e a líder germânica associam-se. O Grexit uniu-os.
Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank, advertiu bancos centrais da Europa
para não aumentarem a sua exposição à Grécia
por causa da incerteza política ali antes das eleições.
Será isto o modo de um banqueiro negociar ou pressionar o cliente?
Wolfgang Schäuble, o ministro alemão das Finanças, disse que
a Grécia tinha de eleger um governo que continuasse a aderir ao
programa internacional de salvamento. "Se a Grécia ... quiser
permanecer no euro então eles têm de aceitar as
condições. Do contrário não é
possível. Nenhum candidato responsável pode esconder isso do
eleitorado", disse Schäuble. Ken Clarke, o secretário da
Justiça britânico, advertiu: a Grécia enfrentará um
futuro desastroso e pode ser forçada a abandonar o euro se votar por
"extremistas irritados". Uma instrução directa aos
eleitores!
Há mais ameaças aos eleitores gregos. Martin Schulz, presidente
do Parlamento Europeu, disse que um pacote de resgate de 130 mil
milhões obtido em Março junto a credores internacionais
não podia ser renegociado. "A Grécia [...] não
deveria auto-destruir-se", disse o político alemão.
"Queremos que a Grécia permaneça parte da nossa
família, da União Europeia", disse José Manuel
Barroso, presidente da Comissão Europeia. "Dito isto, a
resolução final de permanecer no euro deve vir da própria
Grécia". A CE insiste em que a Grécia deve honrar as medidas
de austeridade. Juncker, o primeiro-ministro do Luxemburgo, disse: A
próxima eleição seria a última oportunidade da
Grécia. Se a Grécia deixar de formar um governo que respeite as
condições de ajuda financeira acordadas anteriormente com a UE,
FMI e BCE, "então está acabada".
Jean-Claude Trichet, o ex-presidente do Banco Central Europeu, argumentou que
os estados da eurozona deveriam poder declarar membros da mesma em bancarrota e
assumir o comando da sua política fiscal e de gastos. Mas a ideia foi
afastada pelo economista Nouriel Roubini como "pondo totalmente em causa a
soberania nacional na Grécia e na Itália". [Pode-se agora
perceber facilmente o modo como países pobres na periferia são
ditados, ameaçados e manipulados, o modo como o seu sentido de honra
nacional é pisoteado. Empregados júnior de países do
centro dizem a estes países periféricos: "Faça
isto."].
As ameaças, advertências, etc revelam o nível mais alto de
risco na Grécia, com cerca de 400 mil milhões em
débitos externos. "Oficialmente", diz um relato da imprensa,
"governos da eurozona dizem que não estão a falar acerca de
uma saída grega. Mas há uma história diferente por
trás das portas. A reunião de ministros das Finanças em
Bruxelas segunda-feira passada ameaçou expulsar a Grécia".
A exacta reação em cadeia da Grexit é desconhecida.
Há suposições e temores. De colapso do mercado a
reacções políticas adversas, de bancarrotas à
recessão, e muito mais.
A crise de dívida soberana europeia também se tornou uma crise
bancária
[2]
. A Espanha está à beira do precipício. O país pode
desencadear um problema maior. A crise foi exacerbada pela
revelação de que o défice espanhol é maior do que
aquilo que se temia anteriormente, pressionando o seu doentio sector
bancário. Merkel intimou seu colega espanhol, o arrogante e conservador
Mariano Rajoy, a encontrar-se com ela.
Bancos na Itália e Portugal também estão
"solidários". Todos eles estão a enfrentar riscos. Eles
podem arrastar para baixo o sistema bancário alemão. A
Grã-Bretanha é fortemente exposta à crise. Os EUA
não estarão imunes à doença grega. O Fed dos EUA
está a ficar cada vez mais preocupado com a situação da
Europa.
A agência de classificação Moody's já degradou 26
bancos italianos e 16 espanhóis. Em Março os bancos
espanhóis sentavam-se sobre 148 mil milhões de
empréstimos podres. A proporção de empréstimos
podres de bancos espanhóis subiu para um máximo de 18 anos.
A Fitch colocou bancos cipriotas na classificação de
observação negativa. A empresa advertiu que os bancos cipriotas
permanecem altamente sensíveis ao risco grego.
Uma perda de confiança nos bancos será catastrófica. O
medo de uma corrida bancária em grande escala é alto. As
consequências serão graves.
Depósitos em bancos gregos já desceram em quase um terço.
Os poupadores gregos estão a retirar euros das suas contas
bancárias. Recentemente foram retirados cerca de 900
milhões num único dia. Os bancos gregos, segundo um analista da
Moody's, tornaram-se "economicamente insolventes".
O BCE confirmou que um certo número de bancos gregos foi agora cortado
das suas operações de refinanciamento.
Indivíduos ricos em países atingidos pela crise estão a
transferir milhares de milhões de euros para áreas que consideram
mais seguras. Há sinais de que uma secção de franceses
ricos está a transferir para Londres.
"E agora", escreve Paul Krugman", "chega o momento da
verdade" (Apocalypse Fairly Soon: The Moment Of Truth In Europe
,
The New York Times,
May 18, 2012 )
Designando o euro como um "grande e enviesado experimento em união
monetária sem união política" Krugman assume: "O
euro como um todo explodiria. As coisas desintegram-se com velocidade
espantosa, numa questão de meses, não de ano. E os custos
tanto económicos e, provavelmente ainda mais importantes,
políticos poderiam ser enormes".
Ele reflecte o medo já amplamente verbalizado: "Uma ruptura teria
efeitos propagadores por todo o mundo. Os maiores custos do fracasso europeu
provavelmente seriam políticos".
O euro foi um dos maiores projectos do capitalismo na Europa. Agora, uma
porção significativa do capitalismo europeu a eurozona
está a lutar internamente, consigo própria. A sua
ineficiência intrincada está agora a surgir à vista das
pessoas comuns. Isto não é a sua tragédia, é um dos
seus atributos. Sonhava abranger tudo e todas as coisas mas não sabe
controlar as forças que alimentou e desencadeou. As
contradições que o euro está a confrontar agora não
foram criadas por ninguém, mas por si próprio. Ele ampliou a
extensão e consequências das contradições, para
áreas vastas, que atravessam oceanos.
No continente, está barbaramente a travar uma guerra de classe
não só contra o trabalho mas também contra a sociedade
mais vasta, não só num único país mas em
países e, através do continente, está a por em perigo
não só países pobres como também os seus aliados de
classe os ricos agrestes
(uncouth)
daqueles países pobres. É o seu poder, um poder que pode
tentar sobreviver só à custa de outros, inimigos de classe e
aliados de classe.
Está a intervir no sistema político de países e
está a propagandear a não interferência. Está a
ditar países e está a propagandear democracia. Está
posicionado numa zona sísmica e está seguro do seu destino.
Grexit, Espanha, Itália, Portugal e desunião-união do euro
estão a facilitar novas mudanças nas placas continentais.
22/Maio/2012
NR
[1] Nem tão radical nem tão de esquerda, pois defende a
continuação da Grécia na UE e na zona euro. A plataforma
eleitoral do Syriza é uma
contradictio in terminis
pois defende em simultâneo coisas incompatíveis. Apregoar
falsidades para obter votos não é uma posição
séria. Ver:
O chefe do SYRIZA oferece-se para colaborar com a UE
[2] Seria mais correcto formular a frase em termos inversos: a crise
bancária é que se tornou uma crise de dívida soberana.
Ver também:
O espectro da Grécia
, de Octávio Teixeira, 22/Maio/2012
[*]
Economista, autor de
numerosos livros
, natural do Bangladesh
O original encontra-se em
http://www.countercurrents.org/chowdhury220512.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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