EUA: origens dos lucros e parasitismo crescente
por José C. Valenzuela Feijóo
[*]
O ordenamento por origens dos lucros pode ser examinado com diversos
critérios de classificação. Exemplo: segundo ramos de
actividade económica. Estes ramos podem ser manejados conforme a
classificação habitual do Sistema de Contas Nacionais (SCN), ou
agrupá-los em sector primário, secundários e
terciário. Também se podem agrupar em ramos produtivos e
improdutivos. Os ramos produtivos são aqueles em que o capital atravessa
fa se da produção e, consequentemente, produz e apodera-se de
mais-valia. E os improdutivos são os que não produzem mais-valia
mas apropriam-se dela. Este é o caso, designadamente, do capital
circulatório. Outra classificação grossa é a que
distingue a origem geográfica dos lucros: no território nacional
ou no estrangeiro. No que se segue, utilizaremos as
classificações mais pertinentes para examinar o problema que nos
preocupa.
Os lucros e a sua captação conforme os sectores
Entre o ano de 1973 e o de 2014, os lucros totais (a preços correntes)
ganhos no território dos EUA multiplicaram-se 16,0 vezes. Os do capital
não financeiro 15,1 vezes e os do capital financeiro 20,1 vezes. No
mesmo período os lucros provenientes do resto do mundo multiplicaram-se
28,1 vezes. Ou seja, em termos de lucros alcançados, o segmento mais
dinâmico corresponde aos lucros que se obtêm fora do
território. A seguir vem o capital financeiro e, em último lugar,
o sector de empresas não financeiras. Se considerarmos só o
sector vital da indústria manufactureira, temos que neste período
seus lucros multiplicaram-se 7,92 vezes, um factor de expansão
claramente inferior.
[1]
Vale a pena acrescentar: entre 2000 e 2014, os lucros totais do sector
corporativos que opera nos EUA multiplicaram-se (a preços correntes)
3,06 vezes. Os do sector não financeiro multiplicaram-se 3,14 vezes e os
do sector financeiro 2,83. O desvio das tendências mais amplas
verifica-se a seguir à grande crise de 2007-09. Com esta, perdem peso
tanto os lucros do sector financeiro como os que provêm do estrangeiro.
Ou seja, dos sectores mais dinâmicos no espaço neoliberal. A
seguir à grande crise, por volta de 2013-15, observa-se certa
recuperação da situação tradicionais, mas parece
prematuro saber com certeza se se retorna ou não à
situação anterior.
[2]
Para o período 1980-2014, os dados básicos são mostrados
no quadro I.
Quadro I: Lucros do capital conforme espaços de aplicação
(mil milhões de dólares correntes e percentagens do total)
|
Sector / Ano
|
1980
|
2014
|
Taxa media anual de crescimento
|
|
1.- Não financeiro
|
169,9 (70,6 % )
|
1363,2 (61,8 %)
|
6,3 %
|
|
2.- Financeiro
|
35,2 (14,6% )
|
423,4 (19,2%)
|
7,6 %
|
|
3.- Total nacional ( 3 = 1 + 2 )
|
205,2 (85,3 % )
|
1786,6 (81,0 %)
|
6,6 %
|
|
4.- Estrangeiro
|
35,5 (14,8 %)
|
418,2 (19,0 %)
|
7,5 %
|
|
5.- Total (3 + 4)
|
240,6 (100,0%)
|
2204,9 (100,0%)
|
6,7 %
|
|
6.- Manufactura
|
97,6 (40,6%)
|
439,8 (19,9%)
|
4,5 %
|
|
7.- 6 / 2
|
2,77
|
1,04
|
|
Fonte: Elaborado a partir de "Economic Report of the President,
2016"; Tabela B-6. Edição citada.
As tendências tornam-se muito claras: i) os lucros do capital financeiro
são os que se elevam mais rapidamente no período; ii) os lucros
provenientes dos investimentos no estrangeiro realizados pelo país
crescem praticamente ao mesmo ritmo com que se expandem os de tipo financeiro.
De facto, nos últimos anos o fluxo de capital para o exterior
acentuou-se e, inclusive, há corporações que transferem
seus escritórios matrizes para o estrangeiro. Fazem-no para evitar as
taxas impositivas dos EUA que costumam ser mais altas que as de outros
países. E como sublinharam diversos economistas (e inclusive o candidato
Trump), esta transferência de capitais também tem um impacto
negativo no emprego.
O caso da indústria manufactureira é significativo: tem uma forte
queda no seu peso percentual: de quase 41% em 1980 para quase 20% em 2014. A
descida é abrupta e mostra-nos um dos aspectos mais danosos do estilo
neoliberal: sua "capacidade" para prejudicar os sectores produtivos.
Convém acrescentar: o investimento que se aplica no estrangeiro
também começa a localizar-se em ramos improdutivos. A
nível mundial, os EUA aplicam no ano de 2015 uns 12,3% na
indústria manufactureira e uns 20,0% em Finanças e
Comércio. Mais uns 52% em empresas detentoras, manejadoras de activos
financeiros (ou "holding companys"). Para a América Latina e
Caribe, aplica-se 6,1% em Mineração; 6,6% em Indústria;
28,7% Finanças e Comércio e 53,0% em empresas holding.
[3]
Quando a mais-valia é obtida sem haver participado na sua
produção, fala-se de "parasitismo económico".
Isto é o que se passa com todos os capitais que são aplicados em
sectores improdutivos. Não produzem valor nem portanto mais-valia, mas
na verdade apropriam-se dela. Se não o fizessem, não seriam
capitais. Uma segunda modalidade de parasitismo refere-se à
apropriação de lucros que são produzidos fora do
país. E, como vimos, os dois traços encontram-se presentes no
capitalismo estado-unidense. Presentes e em termos que vão crescendo
cada vez mais. Poder-se-ia falar de "parasitismo ao quadrado", o que
reflecte um processo de decomposição, económica e social,
que se acentua e é expressão da decadência histórica
do próprio sistema capitalista.
[1] Estimado a partir de "Economic Report of The President, 2016";
Tabela B-6.
[2] Entre as medidas tomadas para atenuar a profundidade da crise está a
regulação para baixa das taxas de juros.
[3] Dados calculados a partir de D. Jenniges e S. Stutzman, obra citada.
[*]
Economista, chileno, professor universitário no México.
Do mesmo autor:
EUA: uma contradição peculiar e novíssima
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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