O dia 28 de Fevereiro de 2016 foi o 25º aniversário do
término da Operação Tempestade no Deserto, a fase de
combate da Guerra do Golfo, a primeira guerra contra o Iraque. Este conflito
foi um ponto de viragem na história dos EUA e mundial, mas as guerras
que se seguiram no Afeganistão e no Iraque transformaram estes teatros
de guerra em vastos desertos tóxicos. A Tempestade no Deserto inaugurou
a utilização de generalizada de munições de
urânio empobrecido
(depleted uranium, DU),
um tópico acerca do qual poucos porta-vozes oficiais querem falar
publicamente. Agora a Síria está a tornar-se o campo de batalha
mais recente onde as "armas reais" de destruição em
massa estão a ser a posicionadas. Ainda que o Pentágono tenha
manifestado uma mudança de rumo quanto à sua decisão de
utilizar munições DU, a evidência cristalina ainda
não confirma qualquer esforço real de reduzir sua
utilização indiscriminada. Deveria ser observado que durante a
Tempestade no Deserto as forças dos EUA e Reino Unido reconheceram
abertamente terem disparado cerca de 286 mil quilogramas de balas DU entre 1990
e 1991. A vasta maioria da munição perfurante foi disparada dos
tanques US Abrams e M60, bem como dos aviões de combate a tanques A10 e
Harrier. Num avanço rápido para os dias de hoje, deparamo-nos com
um Iraque obliterado, uma África do Norte em vários estados de
confusão tensa e uma Síria em chamas. Dentro de cadinho mortal, a
sombra tóxica das munições de urânio empobrecido
ameaça combatentes e igualmente inocentes. Os efeitos colaterais
associados à exposição de elementos com DU incluem
nascimentos defeituosos, aborto, cancros desconhecidos e mais ainda.
Examinar os efeitos da Tempestade do Deserto compõe uma horrenda
convergência de industrialização do século XXI e uma
nova espécie de argumentação ética. Se bem que as
causas reais da chamada Síndrome da Guerra do Golfo
(Gulf War Syndrome, GWS)
ainda estejam a ser estudadas, os establishments militares e políticos
não tomam posição sobre questões como a
utilização do DU. Altamente eficazes em situações
no campo de batalha, as balas extremamente pesadas de urânio empobrecido
têm efeitos devastadores sobre alguns tipos de blindagem. Mas são
as malignas características incendiárias da munição
perfurante que tornam criminosa a sua utilização.
Como me contou Jeffrey Silverman, chefe de departamento do Veterans Today,
durante o treino em Fort Knox os operadores dos tanques não foram
instruídos quanto aos riscos para a saúde de tais
munições, dizendo "o que você não sabe
não o prejudica e se soubessem quais eram os riscos para civis,
muitos certamente teriam outras ideias quanto à utilização
destas munições".
Silverman deveria saber, ainda em 2003, pois ajudou a conceber uma campanha de
marketing social contra a utilização do urânio empobrecido
no Afeganistão para o Islamic Relief com sede no Reino Unido e
efectuou muita investigação sobre o assunto. Como agora sabemos
em retrospectiva, tanto no Afeganistão como na Tempestade do Deserto
houve irradiação generalizada. No fim de 1991 toda
fábrica, instalação militar e aviário estavam
totalmente destruídos nos países atingidos. Os EUA e o Reino
Unido claramente erradicaram não só a capacidade do país
para funcionar como uma unidade como deixaram uma crise de saúde que
só agora está a ser plenamente percebida.
Na época em que George Bush Júnior confirmava perante o
público americano [a existência de] armas de
destruição em massa (WOMD), o país de Saddam Hussein mal
começava a recuperar-se da Idade da Pedra imposta pelos EUA. A
utilização de munições de urânio empobrecido
foi tão extensa que alguns peritos consideraram que levaria
décadas avaliar adequadamente o seu custo humano. Defeitos de
nascimento, cancros de toda a espécie, pó radioactivo e
quimicamente tóxico e a infiltração de urânio nos
lençóis freáticos fizeram um deserto de um deserto.
Assim, a desolação da terra arrasada de 2003 levou à
irradiação subsequente.
Esta reportagem
de
The Guardian
fala de um período de três semanas no qual se estima que mais de
1000 toneladas de munições de urânio empobrecido foram
utilizadas no Iraque pelas forças da coligação. A
tragédia real para os americanos, contudo, foi o facto de que a
liderança militar e estado-unidense sabia desde o princípio o
impacto que estas armas teriam. Um
relatório
do US Army datado de 1990 apresenta claramente a munição de
tungsténio como preferível à alternativa do DU.
Além disso, o relatório "Kinetic Energy Penetrator
Environmental and Health Considerations" submetido ao Exército fala
especificamente da necessidade de uma "campanha de RP" para convencer
o público da segurança do urânio empobrecido. Eis um
excerto:
"O tungsténio apresenta a vantagem de que não exige
esforços de relações públicas. Os esforços
de RP quanto ao DU podem ser montados com êxito dada a
informação actual. Embora a litigação não
tenha sido um problema até à data, pode haver mais riscos de
litigação associados ao DU do que ao tungsténio".
Aparentemente a administração Bush pouco se importou com a
fricção internacional que a munição de urânio
desencadearia, pois o relatório menciona a percepção
negativa do público e a "reacção internacional
adversa". A recomendação ao Exército é
condenatória quando examinada à luz de hoje. Não só
a administração de então ignorou o impacto negativo de RP
como o Pentágono de 1991 de Bush pouco se importou em que a
utilização da DU fosse "mais cara" do que balas
revestidas com tungsténio. Aquilo era um mecanismo conveniente para se
livrarem dos resíduos tóxicos de fábricas atómica e
ganharem dinheiro com isso.
Pode-se apenas assumir que alguém importante na
administração do Pentágono quis o Iraque envenenado e
devastado. Pelo menos isto é uma suposição
razoável, na minha opinião. O povo do Iraque deve agora viver com
os resíduos mortais de cerca de 860 mil balas DU disparadas apenas pelas
forças estado-unidenses. A maior parte dos agricultores e
cidadãos comuns do Iraque não tem noção destas
armas, da contaminação remanescente que permanecerá no
solo iraquiano mais tempo do que o nosso sistema solar tem de vida. O
urânio empobrecido tem uma semi-vida de 4,5 mil milhões de anos
e isto não é uma gralha, leu correctamente.
Sem dúvida os EUA e as forças da coligação
destruíram o Iraque, do modo mais devastador possível. Um
relatório do Middle East Research and Information Project revela esta
destruição. Do lado que apoia o argumento do DU, think tanks como
a
Rand Corporation
seguem sempre a "linha do partido", como fica claro neste
relatório de 1999. A negação de qualquer conexão a
doenças, face às provas esmagadora do sofrimento da
Síndrome da Guerra do Golfo, é uma infâmia sobre a
reputação da América.
A utilização de munições DU em pontos quentes por
todo o mundo desacelerou recentemente e a recente (suposta) meia-volta na
utilização do urânio empobrecido é promissora. Mas
isto exigiu um esforço maciço de grupos de veteranos e de ONGs
à escala mundial, para inclinar a balança. Este filme
documentário
intitulado "Urânio 238: A piscina suja do Pentágono"
("Uranium 238: The Pentagon's Dirty Pool")
venceu o prémio de melhor curta-metragem no "First International
Uranium Film Festival". A existência de um festival de filmes desta
natureza deveria alertar o leitor para as centenas de movimentos internacionais
para a proibição deste armamento. Ainda assim, tão
recentemente como em 2015, o Pentágono ainda estava a
"procurar" substitutos para balas DU. Encontrei esta notícia
na Coligação Internacional para Proibir Armas com Urânio
(International Coalition to Ban Uranium Weapons).
Nela, o Departamento da Defesa dos EUA procurava: "Identificar e produzir
um material de baixo custo que atingisse ou excedesse o desempenho em energia
cinética do urânio empobrecido (DU) em aplicações
perfurantes". Este
relatório
(PDF) da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade de Sarajevo
pormenoriza a dispersão da munição PGU-14 durante ataques
aéreos por aviões de combate A-10 próximo de áreas
urbanas na Bósnia e Herzegovina em 1994 durante as
operações "Deny Flight", "Allied Force" e
"Deliberate Force", dentre outras incursões mais pequenas. O
relatório é o mais minucioso e condenatório que pude
encontrar, quanto às características e perigos das balas DU. No
[momento do] impacto, os projécteis de urânio empobrecido
transformam-se essencialmente em partículas inflamáveis de
resíduos perigosos. As partículas incendiários são
transformadas tanto em poeira como em aerosol, juntamente com fragmentos de
alta velocidade que são radioactivos e/ou tóxicos. Descobri algo
interessante e horrendo: que os melhores dados sobre a utilização
de contaminação por DU vem sempre das vítimas. Além
disso, a NATO e outros militares que utilizam balas DU raramente, sem é
que alguma vez, divulgam informação que ajude países a
descontaminar áreas atingidas por estas munições.
Entretanto, na Síria, os EUA têm agora 10 Warthogs a voarem em
missões de destruição dos tanques de petróleo do
ISIL. Os A10 estão armados com o canhão GAU-8 de 30 mm da General
Electric, uma metralhadora conhecida por disparar balas de urânio
empobrecido à velocidade de 3900 por minuto. O anúncio do novo
papel do A10 em resposta à campanha aérea da Rússia contra
o ISIL ficou ofuscado quando o Pentágono anunciou que o avião
anti-tanque permaneceria em serviço depois de 2020. O secretário
da Defesa, Ash Carter, informou a
imprensa
acerca da continuação do avião anti-tanque, o que atraiu
o louvor imediato do Sen. John McCain, republicano do Arizona e presidente do
Comité de Serviços Armados do Senado. Aos A-10s baseados na
Turquia foram creditados os ataques contra a infraestrutura petrolífera
do ISIL e suas fortalezas. E muito embora a retórica do Pentágono
tenha enfraquecido o protesto contra estas armas, a sua
utilização aparentemente não foi diminuída pelos
EUA. Focando o A10 em particular, o canhão de 30 mm do avião
actualmente tem três opções de munição: o
PGU-14/B API Armor Piercing Incendiary (
DU
); o PGU-13-B HEI High explosive incendiary, e uma bala para treino de alvo
designada PGU-15/B TP.
Quanto ao dano permanente que o urânio empobrecido já provocou,
quatro estudos efectuados em 2012 mostram que o povo de Faluja tem "a mais
alta taxa de dano genético em qualquer população já
estudada". E quanto à teimosa determinação do governo
dos EUA em aferrar-se ao urânio empobrecido apesar da
devastação que as munições podem causar, o facto de
que a General Dynamics e outros empreiteiros industriais-militares serem os
únicos produtores merece escrutínio.
Quando eu estava em serviço activo na US Navy, o Grupo de
Aproximação em Sistemas de Armas (Phalanx Close in Weapons
System, CIWS) acabara de ser desenvolvido. Não houve surpresa para
aqueles que se beneficiavam economicamente com tal munição.
Além disso, não se deveria ficar chocado por acontecer de a
General Dynamics
ser a única produtora das balas de 20 mm MK149 DU dos sistemas de fogo
embarcados do CIWS. Quanto ao outro fabricante DU, companhias como a Honeywell
ou
Orbital ATK
ganham milhões com a manufactura de tais munições. Basta
uma investigação rudimentar dos comunicados de imprensa da
companhia para perceber como o negócio está a prosperar. E por
simples acaso isto coincide com zonas de crise todo o mundo. Um
comunicado de imprensa
da Orbital, por exemplo, fala-nos de um novo escritório aberto no fim
do ano passado na Arábia Saudita. A Orbital ATK recentemente foi
premiada com um contrato de US$105 milhões para produzir a
"próxima geração" de balas M1A1 Abrams
anti-tanque, designadas M829A4, em 12 de Outubro de 2015. Agora é claro
que o Pentágono e os planeadores políticos, aqueles que fazem a
maior parte dos donativos de campanha, não têm qualquer
intenção de eliminar seus stocks de urânio empobrecido
dentro em breve, a menos que [não] possam encontrar a próxima
frente de batalha para utilizá-lo.
Em conclusão
Os militares dos Estados Unidos, e seus parceiros da NATO, incluindo a Turquia,
para eliminar seguramente os seus stocks maciços de velha
munição DU precisam utilizá-lo sobre algum país
inocente como dispositivo preferencial de remoção. E para tornar
a situação ainda pior, adivinhe quem é pago para dar
destino àquela velha munição. Adivinhou
fornecedores como a General Dynamics não só são pagos para
desmontar a munição mais velha. E por doentio que isto soe, eles
[os mesmos empreiteiros da defesa] ganham novos contratos para fornecer outra
vez munição DU actualizada. Com base um artigo do
Counterpunch
, o ataque furioso de devastação, mentiras e conivência
conectado a estas armas e munição é criminoso. As
corporações dos EUA estão agora posicionadas para colher
lucros inesperados. Elas não têm responsabilidade moral ou legal,
irradiando e tornando tóxicas regiões inteiras, isso é
apenas parte do negócio. Quem está a discutir os efeitos a longo
prazo e inter-geracionais das munições DU? Oficialmente as
questões de saúde e segurança ainda não são
plenamente conhecidas e serão muito piores do que aquilo que soubemos do
Agente Laranja durante o Vietname. Enquanto isso os sabichões só
falam a uma distância segura do grau aceitável de danos colaterais.
Tudo isso enquanto os EUA e o Reino Unidos continuam a fazer o que "sabem
demasiado bem" ser um crime de guerra. Como cidadãos temos todos o
dever de sermos os supervisores, pois é claro que a supervisão
governamental não existe e aqueles em posição para tal
foram subornados e estão moralmente em bancarrota. Aparentemente os
"think thanks" de Washington e o Pentágono criaram uma guerra
total, arrasam a Terra para irradiar todos os povos e regiões.
Por favor, provem-me que estou errado!
Ver também:
DU, o horror que o imperialismo espalha por todo o planeta
Mísseis de cruzeiro com urânio empobrecido sobre a Líbia
O urânio e a guerra
Urânio empobrecido: Bombas sujas, mísseis sujos e balas sujas
Uma questão de integridade
Urânio empobrecido: Um crime de guerra dentro de uma guerra criminosa
Vindo do Iraque, um trágico apelo ao processo dos criminosos de guerra
O urânio empobrecido retorna aos EUA
International Coalition to Ban Uranium Weapons
[*]
Analista e cientista político, perito em Europa do Leste.
O original encontra-se em
journal-neo.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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