Breve história socialista do automóvel
Não há nenhum outro produto comercial na história do
capitalismo que tenha tido um efeito tão grande na economia e na
política como o automóvel. Nenhum outro produto foi uma alavanca
tão boa para aumentar o consumo e expandir os mercados do mundo
desenvolvido. Podemos afirmar que o carro, mais do que qualquer outro produto,
foi o principal motor da expansão económica do século XX.
Nos últimos cem anos, na sociedade americana, o carro foi colocado num
pedestal cultural que idolatra o individualismo e que define a visão de
liberdade do grande negócio.
O carro acelerou o rápido desenvolvimento maciço dos
subúrbios e influenciou o planeamento urbano dos EUA como nenhum outro
produto conseguiu fazer. Hoje em dia, nos Estados Unidos, os transportes
públicos representam uma longínqua alternativa ao
automóvel, já que nove em cada dez trabalhadores usam o seu carro
particular para irem trabalhar. Na vida quotidiana das pessoas, o carro
é actualmente a segunda maior despesa familiar, a seguir à
habitação. O carro atingiu o seu apogeu.
Esta breve história socialista do automóvel vai tentar enquadrar
um pouco e inserir no seu contexto o mundo moderno dominado pelo
automóvel. Vai tentar explicar como o automóvel e a caça
feroz aos lucros reformulou o mundo e acabou por levar a humanidade ao actual
beco sem saída, em que se caminha inquestionavelmente para a
destruição global.
Esta história baseia-se no materialismo marxista, que parte da
noção de que todos os fenómenos sociais e culturais do
capitalismo são modelados pela luta contínua entre as classes
patronais e trabalhadoras. Embora não seja uma história dos
trabalhadores da indústria automóvel, tenta mostrar o papel das
lutas dos trabalhadores que sempre estiveram nos bastidores do nascimento e da
expansão do automóvel.
Um aspecto da indústria automóvel que não aparece na sua
publicidade é a via sangrenta que percorreu. Esta indústria matou
e mutilou centenas de milhares de trabalhadores, desde que apareceu e se
instalou. Este sofrimento, por sua vez, foi ultrapassado por uma luta de um
século, em torno dos recursos para alimentar os carros com
petróleo, com borracha, com aço e com vidro. Morreram muitos
milhões de pessoas em muitas centenas de guerras e de invasões
imperialistas, directa ou indirectamente ligadas ao automóvel.
O papel do petróleo na actual guerra do Iraque é evidente. Mas
não é a primeira nem será a última guerra pelos
recursos necessários ao automóvel. Há mais de cem anos o
imperialismo americano invadiu a América Central para instalar as suas
plantações de borracha para a sua indústria
automóvel em expansão; a sua brutalidade deu origem a Augusto
Sandino, o pai da resistência anti-imperialista da Nicarágua.
Este artigo é dedicado aos milhares de trabalhadores que morreram a
lutar por sindicatos automóveis e aos milhões que resistiram ao
complexo auto-industrial e foram cilindrados por ele.
Uma breve história socialista do automóvel
Em 1799, Philippe Lebon registou a sua invenção de um "motor
de combustão interna alimentado a gasolina" durante o novo governo
revolucionário de França. O novo motor era leve, autónomo
e potente. Passariam cem anos antes que a máquina a vapor terminasse a
sua vida e fosse substituída pelo motor a gasolina. Juntamente com a
descoberta de novos recursos de petróleo e a explosão da
indústria, principalmente nos EUA, estavam encaixadas todas as
peças para a invenção da carruagem sem cavalos.
Na década de 90 do século XIX, a bicicleta motorizada e o carro
eléctrico acabaram por ser postos de lado em prol do carro a motor mais
utilitário e mais eficaz. O carro começou a sua vida como um
brinquedo dos ricos e um objecto que dividia as classes. Toda a gente sabia que
Cornelius Vanderbilt, o barão dos caminhos-de-ferro, tinha uma garagem
com 100 automóveis. Em 1906, Woodrow Wilson, na altura presidente da
Universidade de Princeton, afirmava que "não houve nenhuma outra
coisa neste país que alimentasse mais as ideias socialistas do que o uso
dos automóveis
são a imagem da arrogância dos
ricos". Em 1904 a revista
Horseless Age
comentava o apedrejamento generalizado de automóveis nos bairros das
classes trabalhadoras da cidade de Nova Iorque.
Os primeiros carros estavam fora das possibilidades das classes trabalhadoras.
Em 1900 o rendimento médio anual de um trabalhador era de 450
dólares e o preço médio de um carro era de 2 000
dólares. Além do preço, havia a ideia geral de que as
carruagens sem cavalos eram menos confortáveis e menos seguras do que o
cavalo. Em 1900 só se venderam 4 192 carros. Mas, 27 anos depois, o
número de carros registados nos EUA havia disparado para mais de 20
milhões. Mais da metade de todas as famílias americanas
possuía um automóvel novo ou usado.
A ascensão da classe trabalhadora e o impasse industrial dos EUA
No final do século XIX, o capitalismo americano entra em luta com um
movimento de massas pelo sindicalismo e pelo socialismo. O capitalismo
americano ganhara a guerra civil derrotando a classe esclavagista o que,
juntamente com a dizimação das populações nativas
americanas, possibilitou ao capitalismo estabelecer o seu domínio duma
costa à outra costa. Os patrões encorajaram milhões de
imigrantes a partir para a costa oeste, em parte na tentativa de reduzir os
salários em alta, mas isso não impediu a ascensão das
classes trabalhadoras e a instituição de sindicatos de
profissões qualificadas de muitas das indústrias americanas.
Os fabricantes americanos começaram a assistir a uma grande quebra nas
suas taxas de lucros. Os empregadores tentaram reduzir os salários e
acelerar a produção, mas só conseguiram provocar mais
greves e levar mais trabalhadores a aderir aos novos sindicatos. Os
empregadores chegaram à conclusão de que precisavam alterar a
organização da produção para quebrarem o poder dos
sindicatos.
No virar do século uma vaga maciça de fusões deu aos
bancos e financeiros um maior controlo sobre as maiores empresas. O
domínio dos bancos permitiu-lhes proceder à
alteração do processo produtivo das manufacturas. A pouco e
pouco, toda a indústria foi adoptando os métodos de gestão
"científica" de Frederick Taylor. Foram implementados o
planeamento centralizado, o estudo detalhado dos tempos, a divisão do
trabalho e o pagamento de incentivos, na tentativa de inverter a descida da
taxa de lucro do capitalismo e ao mesmo tempo de quebrar o poder dos sindicatos
de trabalhadores especializados.
O automóvel passou da periferia para o centro da vida capitalista nas
duas primeiras décadas do século XX. Os crescentes melhoramentos
tecnológicos conseguiram utilizar o motor de combustão interna
como um produtor de energia sem igual a qualquer invenção
anterior. Um galão [3,8 litros] de gasolina, transformado através
deste motor, produzia energia equivalente a um mês de trabalho humano. A
indústria do petróleo, que tinha crescido na sequência da
utilização alargada do candeeiro a querosene, já tinha
evoluído e estava constantemente à procura de novas fontes a
nível global. Ao contrário do imperialismo da
Grã-Bretanha, da Alemanha e da França, o imperialismo americano
tinha a vantagem da sua própria indústria de petróleo
interno.
O Fordismo: o salvador da indústria
A indústria automóvel nascente expandiu-se a partir dos grandes
fabricantes de carruagens a cavalos e das pequenas oficinas de
automóveis. Henry Ford explorou as últimas tecnologias de
manufactura e, com investimentos maciços dos grandes bancos, transformou
o brinquedo dos ricos num produto de consumo das massas. O investimento
maciço de Ford em maquinaria criou uma produção de alta
velocidade destinada a desqualificar o trabalho humano envolvido na
produção e na montagem. O Fordismo teve como objectivo destruir a
força dos sindicatos profissionais: reduzindo o processo produtivo ao
seu denominador mais baixo, às tarefas mais simples e mais repetitivas.
A seguir, para aumentar a velocidade da linha de produção, a
indústria introduziu os incentivos de pagamento baseados na
produção.
O investimento maciço nos automóveis produziu resultados
incríveis. Em 1910, ao passo que um automóvel na Europa precisava
de 3000 dias de trabalho para ser fabricado, um carro Ford era produzido nos
EUA em 70 dias de trabalho. Em 1911 a companhia de carroçarias Overland
produziu 20 mil carros. A sua divisão de pintura empregava 200
trabalhadores especializados e demorava duas semanas a pintar cada
veículo. Em 1915, com a introdução da pintura por
pulverização e os fornos de secagem, este tempo foi reduzido para
três dias por veículo. A Ford Motor Company, por sua vez, aumentou
a produção e reduziu os custos passando a fabricar um
único modelo. Em 1914 também pôs de lado todas as cores com
excepção do preto. A introdução em 1913 do tapete
rolante reduziu a montagem do Modelo T de 12,5 horas por veículo para
1,5 hora e, em 1915, o número de trabalhadores especializados na
indústria automóvel americana tinha passado de 60% da
força de trabalho para 15%.
Uma outra vantagem do imperialismo americano era que tinha o maior mercado
indiviso potencial do mundo para qualquer novo produto. Em contraste, a Europa
estava dividida por dezenas de barreiras alfandegárias nacionais.
Naquela época viviam no interior dos EUA mais de 100 milhões de
pessoas e só a instalação River Rouge da Ford empregava
mais de 100 mil trabalhadores. Ford desenvolveu e aumentou o mercado do
automóvel, aliando um aumento dos salários dos trabalhadores de
automóveis à redução dos preços dos
automóveis.
Em 1913, Ford instituiu o salário de 5 dólares por dia, quando o
pagamento médio diário nos EUA se situava abaixo dos 2
dólares. Desta forma, os trabalhadores da Ford passaram a fazer parte do
primeiro mercado de massas do automóvel. Em 1926 Ford também
reduziu a semana de trabalho para cinco dias nas suas fábricas, e
aumentando a produtividade dos seus trabalhadores.
Em 1908 foi lançado o modelo T da Ford. Vendia-se a 825 dólares,
o carro mais barato daquela época. Ford reduzira os custos, reduzindo a
sua linha a um modelo básico de preço acessível. Em 1925
os cortes regulares de preços tinham acabado por fazer baixar o
preço do Modelo T para 260 dólares cada carro, fazendo com que
passasse a haver um carro à porta de casa de metade das famílias
americanas.
Em duas décadas o automóvel tinha passado de um brinquedo
experimental dos ricos para um produto vulgar, do dia a dia. O carro deixara de
ter o estigma de ser elitista. Um dos seguidores de Ford foi a estrela nascente
do capitalismo alemão, Adolf Hitler. Hitler defendia que "o
automóvel em vez de ser um elemento divisor das classes pode ser o
instrumento para unir as várias classes, tal como aconteceu na
América, graças ao génio do Sr. Ford". As
fábricas Volkswagen de Hitler não adoptaram o salário de 5
dólares por dia, mas adoptaram a maior parte dos métodos
autoritários de gestão. As fábricas americanas de Ford
eram bem conhecidas pela sua disciplina severa e pelos despedimentos
instantâneos. Ninguém estava autorizado a falar na linha de
produção: os trabalhadores chamavam-lhe o "Silêncio
Ford". O regime de trabalho de estilo fascista de Ford só acabou
com a vitória dos Trabalhadores dos Automóveis Unidos para
organizar as instalações Ford em 1941.
A explosão económica dos anos 20 e a luta pelas
matérias-primas
A explosão económica dos anos 20 foi dominada pelos dois objectos
de consumo mais recentes e mais importantes do capitalismo americano do
século XX: a moradia familiar e o automóvel. O cinema, que
substituiu a taberna, tornou-se no principal agente publicitário do
automóvel. Os anúncios na rádio também publicitavam
a nova liberdade na estrada. Não se falava da monotonia e da
alienação da vida no local de trabalho a não ser na
literatura socialista. O capitalismo oferecia empregos cada vez mais
desprovidos de interesse e a ilusão de tempo de lazer: um carro
individual e a vedação num jardim.
O carro e o avião encurtaram as distâncias, tal como o telefone e
a rádio. A velocidade da vida fora do trabalho aumentou, seguindo o
aumento da velocidade no trabalho. Apareceu e desenvolveu-se rapidamente a
promoção de vendas e a publicidade, já que o capitalismo
procurava freneticamente aumentar os mercados e alimentar a sua necessidade
imperiosa de lucros.
Em França, a Citroën Corporation tinha 5000 caixeiros-viajantes
para promover a necessidade de ter um carro próprio em todas as aldeias
e lugarejos. A Citroën pagou 150 mil placas de estrada erguidas por toda a
França, quando anteriormente não havia nenhuma. Esta companhia
também vendeu 400 mil carrinhos de brincar para seduzir os futuros
compradores, iniciando assim a longa associação entre os rapazes
e os carrinhos. Em 1927 os fabricantes de automóveis franceses produziam
1000 carros por dia nas suas fábricas francesas.
Com a expansão do automóvel, era necessário descobrir e
arranjar novas fontes de matérias-primas. O capitalismo nunca
pára. Como Karl Marx escreveu em
O Capital,
"Acumulai! Acumulai! Acumulai! É a lei de Moisés e dos
Profetas!" O capitalismo, pela sua própria natureza, não
pode parar nunca, antes é forçado a criar continuamente mercados
cada vez maiores, e a estimular um consumo cada vez maior. É tudo o que
existe entre si próprio e um colapso económico de
produção excessiva.
O Brasil, relativamente adormecido, era o produtor exclusivo de borracha nos
finais do século XIX. As seringueiras cresciam livremente mas a
produção era dispendiosa, por causa do isolamento da
Amazónia e da escassez de mão-de-obra. Os produtos
impermeáveis, que foram a primeira utilização do
capitalismo para a borracha, depressa foram ultrapassados pelo valor da
borracha para os pneus dos automóveis. Cada carro exigia 20,4 kg de
borracha, que se vendia nos mercados internacionais a mais de 900 £
[1146] por tonelada.
O Brasil conservou ciosamente o seu monopólio da borracha até que
o imperialismo britânico entrou na indústria, roubando um
carregamento de sementes de seringueira. Depois, a Grã-Bretanha criou
viveiros na sua colónia de Ceilão [Sri Lanka] e veio a conseguir
uma produção maciça de borracha na Malásia. Na
primeira década do século XX, as colónias holandesas e
britânicas produziam centenas de toneladas de borracha. Em 1913 a
produção da Malásia e da Indonésia ultrapassou pela
primeira vez a produção brasileira. Dois anos depois as
plantações do Império Britânico produziam o dobro da
borracha brasileira e em 1919 produziam 10 vezes mais borracha do que o Brasil.
Os EUA aperceberam-se do perigo de dependerem das colónias
britânicas para a sua indústria de pneus e invadiram a
América Central a fim de desenvolverem a sua própria
indústria da borracha. Os EUA imitaram os métodos brutais das
plantações de borracha na Ásia, onde não era raro
que metade dos trabalhadores morresse antes do final da estação
da colheita. Os métodos americanos de plantação da
borracha, parecidos com os da escravatura, provocaram uma das primeiras
revoltas de massas contra o imperialismo americano, quando este iniciou o seu
papel de pilhagem dos recursos do planeta.
Nos meados dos anos 20 a introdução da câmara-de-ar
aumentou a quilometragem média do pneu de 13 para 24 quilómetros.
O preço da borracha depressa entrou em queda. A borracha, que chegara a
atingir as 900 £ por tonelada em 1910, caiu para 20 £ por tonelada
nos anos 30.
Em 1928 os proprietários das três maiores companhias
petrolíferas do mundo, a Anglo-Persian Oil (que viria a ser depois a
British Petroleum), a Royal Dutch Shell e a Standard Oil, reuniram-se e
cozinharam um acordo para a partilha do petróleo mundial entre eles. O
Acordo da Linha Vermelha assinado um ano depois iria ajudar a evitar o
sofrimento de uma nova guerra mundial para voltar a dividir os recursos
petrolíferos. Apesar disso, as classes trabalhadoras e os pobres dos
ricos países produtores de petróleo continuaram a morrer na
pobreza, ao pé dos milhares de milhões de barris de ouro negro.
'A nossa principal missão é acelerar a obsolescência'
Os automóveis foram grandemente responsáveis pela explosão
sem precedentes dos anos 20. Durante este período o mercado dos carros
ficou saturado, aumentaram as vendas de carros usados e os lucros da
indústria começaram a cair. Era necessária uma viragem na
indústria e a General Motors (GM) começou a questionar a
produção de um só modelo da Ford.
Logo no início de 1923, a GM começou a vender carros com uma
estrutura básica semelhante, mas com diferentes carroçarias.
Durante a explosão dos anos 20 os desenhadores da GM declararam que as
vendas de carros tinham atravessado uma nova fronteira passando da
exigência de "uma melhor qualidade para um melhor aspecto".
Começa aqui o afastamento do carro do seu papel simplesmente
utilitário para o domínio de ser uma expressão de
mobilidade e de riqueza social. Começa aqui a
diversificação maciça de modelos e da via que acaba por
levar às mudanças anuais de modelos. O capitalismo adora todas as
coisas novas e tenta que todas as coisas antigas sejam deitadas fora. Este
momento é o início da diversidade maciça de modelos dos
carros americanos e de tudo o que a acompanhou.
Cada mudança de modelos provocou a necessidade de as fábricas de
automóveis produzirem novos moldes e actualizarem as prensas. No
início dos anos 40, só a GM estava a gastar mais de 35
milhões de dólares por ano nas alterações de
modelos. Embora dispendiosas, as alterações rotineiras de modelos
eram benéficas para os magros lucros dos maiores fabricantes de
automóveis. A GM, a Ford e a Chrysler liquidaram os outros pequenos
produtores que não conseguiam acompanhar o investimento maciço
necessário para a mudança frequente de modelos. Este aparecimento
do estilo ou do aspecto como factor competitivo pode inicialmente ter tido
alguns obstáculos mas em breve se tornou numa exigência
fundamental para a indústria. O desenhador-mor da General Motors durante
este período, Harley Earl, afirmou que "a nossa principal tarefa
é acelerar a obsolescência". Afirmou ainda que, como em
média a posse de um carro novo em 1935 era de cinco anos e em 1955 tinha
sido reduzida para dois anos, "quando for apenas um ano teremos atingido o
número ideal".
A Grande Depressão levou todas as empresas de automóveis a cortar
nos gastos e na produção. Após o pico de vendas de 5,6
milhões de carros em 1929, as vendas de carros caíram 75% para
1,4 milhões de veículos em 1932. Nas vendas de veículos de
luxo a situação ainda foi pior: o pico foi atingido em 1929 com
150 mil veículos vendidos; depois as vendas caíram
continuadamente durante os anos 30. Os ricos aperceberam-se da viragem, tomando
consciência da época em que viviam, e de que as
exibições ostensivas de riqueza lhes seriam fatais. Em 1937 as
vendas anuais de carros de luxo mergulharam para 10 mil.
Em 1928 a Ford Motor Company tinha 128 mil trabalhadores efectivos; em Agosto
de 1931 apenas 37 mil trabalhadores mantinham os seus empregos e a maioria
trabalhava apenas três dias por semana. O salário de 5
dólares por dia de Ford aumentara nos anos 20 para 8 e 9 dólares
por dia. A depressão enterrou a política dos salários
altos. Em 1931 os salários sofreram um corte de 20%. Alguns empregados
ficaram reduzidos a 10 cêntimos à hora e os salários de
algumas trabalhadoras foram reduzidos a 4 cêntimos à hora nas
instalações da Ford.
Em 1942 a produção privada de automóveis parou por
completo quando a indústria dos automóveis desviou a sua
produção para o fabrico de máquinas de guerra para
contratos governamentais dos EUA. A guerra foi sempre uma coisa boa para os
negócios, principalmente para o "complexo auto-industrial".
Logo no início da guerra civil americana o petróleo vendia-se a
49 cêntimos o barril, mas no final da II Guerra Mundial um barril de
petróleo estava quase a 8 dólares. No início da guerra do
Iraque o petróleo estava a 30 dólares por barril e agora subiu
para 110 dólares por barril. Da mesma forma, na I Guerra Mundial as
acções da GM dispararam de 78 cêntimos para 7,5
dólares. Depois da II Guerra Mundial, enquanto vencedor na Frente
Ocidental e no Pacífico, os EUA surgiram como a força dominante
do capitalismo global. O seu prestígio e poder foram uma coroa
partilhada com os gigantes do automóvel, que se puseram a construir
carros para as tropas de regresso a casa.
Gastos públicos com o carro no pós-guerra
A onda revolucionária do pós-guerra que varreu o mundo
também se fez sentir nos EUA. As dificuldades da guerra chocaram uma
raiva e uma esperança que eclodiram nos locais de trabalho dos EUA. A
onda de greves de 1946 foi o conflito industrial mais alargado da
história dos EUA. Perderam-se mais de 116 milhões de horas de
trabalho em acções de greves, mais do que o quádruplo do
recorde anterior de 1937. Os objectivos das greves eram principalmente por um
fim-de-semana mais curto, por um salário mais alto e contra a perda do
relativo controlo nos locais de trabalho que tinham conquistado durante o tempo
da guerra. Os patrões cederam nas duas primeiras exigências,
acrescentando ainda algumas concessões para um seguro privativo, com o
intuito de enfraquecerem o movimento global que exigia cuidados de saúde
nacionais. Quanto aos aspectos do controlo nos locais de trabalho, o
capitalismo contra propôs mais uma vez o mito do poder e da liberdade do
consumismo. Ofereceu aos americanos a estrada aberta e um depósito cheio
de gasolina.
O governo americano, em conjunto com os seus parceiros próximos no topo
de todas as grandes indústrias, começou a dar passos para
remodelar mais fortemente os EUA do pós-guerra no interesse dos lucros.
Foi dado maior apoio à posse privada da moradia familiar, em parte
através de garantias de hipotecas para as tropas de regresso a casa. O
governo federal também subsidiou o desenvolvimento maciço dos
subúrbios. Entre 1945 e 1960, mudaram-se para os subúrbios uns 30
milhões de americanos, e este aumento provocou um enorme boom da
indústria automóvel.
Enquanto os caminhos-de-ferro foram construídos com investimento
privado, as rodovias foram construídas de graça pelos governos
locais, estaduais e federal. Foi o dinheiro público e não o
dinheiro da indústria automóvel que pagou a
construção maciça da rede de auto-estradas e o alargamento
das estradas existentes. Em 1956 a Lei das Auto-Estradas Interestaduais
permitiu o gasto de mais uns milhares de milhões do erário
público, para uma enorme quantidade de auto-estradas que atravessavam
todos os estados. A lei foi aprovada com o pretexto revoltante de que os EUA
precisavam de uma rede de auto-estradas no caso de uma possível
invasão da URSS.
Nenhuma outra indústria na história dos EUA foi tão
subsidiada como a indústria automóvel. Foram os governos dos EUA,
locais e federal, que construíram na sua essência a superstrutura
para a expansão do automóvel. O carro tornou-se
inseparável de quase todas as funções da vida americana
numa consequência directa da sua parceria com a elite política dos
EUA.
A conspiração do 'complexo auto-industrial' para a
destruição dos transportes públicos
O período de expansão pós-guerra assistiu ao
desenvolvimento e pico do que o economista marxista americano Paul Sweezy
chamava o "complexo da industrial automóvel" as
indústrias de automóveis, do petróleo, do aço, da
borracha, da construção de auto-estradas, dos transportes pesados
e do imobiliário, relacionadas com a expansão urbana. Uma das
consequências destes direitos adquiridos nos automóveis foi o
esmagamento sistemático da actividade dos transportes públicos. A
General Motors, a Standard Oil da Califórnia (Chevron), a Phillips
Petroleum e os pneus Firestone formaram as National City Lines, numa campanha
organizada para comprar e destruir as redes de transportes eléctricos
das cidades americanas. Depois de os autocarros substituírem os
eléctricos e os comboios, as carreiras dos autocarros também
foram muitas vezes eliminadas.
No início dos anos 50, a indústria automóvel sofreu uma
crise de baixa de procura, visto que a maioria das famílias já
possuía um carro. Na mesma época as despesas não
obrigatórias das classes trabalhadoras estavam a subir. Perante estes
factores, os Três Grandes (GM, Ford e Chrysler) avançaram para o
aumento do tamanho dos carros e para um estendal de novos acessórios e
ao mesmo tempo aumentaram a frequência da introdução de
novos modelos.
Entre 1946 e 1959 o Chevrolet mais caro aumentou 33 cm de comprimento, 17,8 cm
de largura e passou a pesar mais 181 kg. O Ford Edsel, lançado em 1957,
tinha uns incríveis 5,5 metros de comprimento. Em 1946 um modelo
médio rondava os 110 cavalos, e em 1956 aumentou para 180. As
emissões de gases, o rendimento do combustível e a
segurança dos veículos passaram para segundo lugar dada a
necessidade de aumentar continuamente os lucros.
Em 1950 os Três Grandes ofereceram aos seus clientes 243 modelos
diferentes de carros novos. Durante este período foram efectuadas
mudanças nos modelos de dois em dois anos, em vez de três anos.
Uma mudança importante de carroçaria custava mais de 200
milhões de dólares e assim em 1955 os Três Grandes
controlavam 94% de todo o mercado americano. Depois de deixarem de estar
pressionados para reduzir preços, na década de 50 os
preços subiram uns incríveis 36 % no preço médio de
um carro de 1822 dólares. O patriotismo foi sempre utilizado pelos
negócios para vender os seus produtos. Em plena Guerra-Fria, a
indústria automóvel americana e os seus representantes no governo
identificaram cada vez mais a escolha do consumidor com o capitalismo (a
chamada "democracia") e a falta de escolha do consumidor com o
comunismo. Em 1955 a Chevrolet fazia a publicidade dos seus carros como
proporcionando "poder e evasão", alimentando-se de anteriores
associações do carro com um conceito muito acanhado de liberdade.
A Guerra-fria, o abandono da militância dos dirigentes sindicais e o
monopólio dos dois partidos políticos dos negócios, deu
luz verde aos patrões para burlar os seus clientes, a classe
trabalhadora. Enquanto a média dos lucros de fabrico entre 1946 e 1967
sofreu um brutal aumento de 9% ao ano, o retorno dos investimentos da GM
atingiu a espantosa média de 21% ao ano durante o mesmo período.
Os inquéritos do Senado sobre a segurança automóvel
representaram o fim do cheque em branco para os gigantes do automóvel.
Um porta-voz da GM reconheceu que a companhia em 1963 só gastara 1,25
milhão de dólares em investigação de
segurança e em melhorias de segurança para os carros. Quando
depois interrogaram os executivos da GM sobre os níveis dos seus lucros,
reconheceram que tinham atingido 1 700 milhões de dólares nesse
mesmo ano.
Também se verificou um pequeno recuo na tendência dos carros
exageradamente compridos. Em 1955 só foram vendidos nos EUA 60 mil
carros europeus, que eram significativamente mais pequenos do que os seus
equivalentes americanos. Em 1960 as importações aumentaram para
70 mil carros, um pouco mais do que 10% do mercado. A arrogância dos
patrões do automóvel para com o carro compacto e para com a
pressão pública foi bem expressa por Henry Ford III que se
opôs ao fabrico de modelos mais pequenos com a sua postura de que
"mini-carros dão mini-lucros". Comentários como estes
irritaram cada vez mais as pessoas, levando o
Wall Street Journal
no início dos anos 70 a comentar sobre "a crescente revolta contra
os carros". A revolta era tanto contra o negócio dos carros como
contra o próprio produto.
Quando aumentou a pressão sobre os salários dos trabalhadores, as
mulheres começaram a regressar ao terreno do trabalho. Perante a
fraqueza deliberada do sector dos transportes públicos, as
famílias foram forçadas a comprar mais do que um carro. Em 1950
só 7% dos agregados familiares possuíam mais de um carro; em
1970, 2% de todas as famílias americanas possuíam mais de um
carro.
Início do declínio do automóvel
A proliferação maciça de modelos explodiu nos anos 60. Em
1970 os Três Grandes ofereceram 370 diferentes modelos por ano com um
aumento de 55% no número dos modelos em relação a 1960. A
obcecação em perpetuar o mito da escolha começava a
corroer os seus próprios lucros. Nos primeiros dias da
produção automóvel, de 1919 até 1930, a
produtividade dos trabalhadores aumentou em média 8,6 % por ano. Os
ganhos de produtividade caíram nos anos 60 para uma média de 3%
por ano. A queda de produtividade ficou a dever-se, em grande parte, à
enorme quantidade de modelos que cada um dos três grandes fabricantes de
automóveis estava a produzir e aos investimentos maciços que isso
exigia.
O lucro e o impasse de produtividade do início dos anos 70 aumentaram as
tensões de classe no interior das fábricas de automóveis.
Quando as empresas tentaram automatizar ainda mais e aumentar a velocidade da
linha de montagem tiveram que enfrentar a resistência dos
operários. Os patrões responderam com duras medidas disciplinares
e penalizações contra as pessoas. Foi esta ofensiva que provocou
uma revolta entre os operários da jovem UAW, como em Lordstown, no Ohio.
Em Lordstown os trabalhadores automóveis estavam a produzir um carro a
cada 36 segundos. Era a linha de montagem mais rápida do mundo.
Em 1972 os trabalhadores da GM em Lordstown entraram em greve contra as medidas
disciplinares da gestão. Depois de uma greve de 22 dias, a grande
maioria dos trabalhadores foi reintegrada e os processos contra a maior parte
dos trabalhadores foram cancelados. Mas o medo dos operários e
patrões cada vez mais agressivos fizeram com que a burocracia da UAW
convergisse para a actual política colaboracionista de classes, o
trabalho de equipa. Através do Conceito de Equipa, os patrões
conseguiram obter uma maior cooperação da sua força de
trabalho que, por sua vez, acelerou a velocidade do trabalho e a
alienação do trabalho.
As longas filas junto às bombas de gasolina durante a crise do
petróleo de 1973 viraram ainda mais a opinião da classe
trabalhadora contra a indústria automóvel. Isto por sua vez levou
a mais regulamentações sobre os carros, principalmente no que se
refere ao rendimento do combustível. Nasceu a frase "glutão
de gasolina". Quando os fabricantes de automóveis começaram
a ser considerados cada vez mais como socialmente irresponsáveis, foram
forçados a reduzir as dimensões dos seus carros monstros. Detroit
foi forçada a fazer um grande investimento no mercado do carro compacto.
Então a indústria ficou à espera, de sobreaviso, que
desaparecessem os ambientalistas e os receios dos anos 70 de que o
petróleo acabasse.
A chegada dos SUV
O boom económico dos anos 80, expresso politicamente com
eleição e reeleição do presidente dos EUA Ronald
Reagan, deu novo alento às corporações e à
necessidade da regulamentação governamental. A era do Vietname
foi enterrada e seguiu-se uma tendência de evasão que não
se via desde os anos 20. Foi este o pano de fundo para o surgimento da mais
dissipadora e insegura versão de todos os tempos e em todo o mundo do
carro a motor: o sports utility vehicle (SUV).
Outrora um modelo obscuro, o SUV, com a sua carroçaria de carro de
passageiros e estrutura de camião, tornou-se a tendência
prevalecente. O SUV tornou-se o salvador dos Três Grandes. A grande
maioria dos lucros da indústria automóvel nos EUA dos anos 90
feita à custa dos camiões ligeiros e dos modelos SUV. Os
veículos desportivos utilitários passaram a simbolizar tudo o que
há de errado e de dissipador na actual economia. Tal como na
explosão dos anos 50, o complexo auto-industrial explorou a subida das
receitas disponíveis que a explosão da habitação
criou para vender mais carros a cada pessoa. Um carro médio nos 10 anos
anteriores pesava normalmente cerca de 1360 kg. O SUV médio pesa
frequentemente mais de 2700 kg. Os capitalistas "verdes" da Toyota
vendem centenas de milhares do seu SUV Sequóia que pesa uns 2948 kg.
O colapso da habitação acabou praticamente com o apogeu das
vendas dos SUV. Não é por coincidência que os dois artigos
de consumo mais importantes do capitalismo, a casa própria e o carro
próprio, entram em crise ao mesmo tempo. Estes dois produtos representam
um estilo de vida individualizado e esbanjador e uma construção
social que não pode ser sustentada pelo planeta Terra.
The home equity crash has essentially ended the heyday of SUV sales. It is no
coincidence that capitalism's two most important consumer commodities: the
privately owned house and the private car are going into a crisis at the same
time. Both products represent a way of life that is individualised and wasteful
and a social construct that cannot be sustained by the planet Earth.
Quando o Modelo T foi lançado há cem anos, podia percorrer 9,3 km
com um litro. Mais de um século de fabricação de
automóveis depois, os modelos de carros mais populares têm uma
eficiência de combustível inferior. Os Hummers e os Escalades dos
últimos anos têm um rendimento urbano de cerca de 4,25 km por
litro de gasolina. O desperdício energético do combustível
e a extracção das emissões poluentes e daquelas que
provocam o aquecimento global eram desprezíveis na viragem do
século passado quando havia apenas 8 000 carros registados nos EUA. Hoje
há 231 milhões de carros registados nos EUA. A China já
ultrapassou o Japão como consumidor número dois de
automóveis e poderá haver 100 milhões de carros nas
estradas da China antes que esta década termine. Em 1995 venderam-se
globalmente 38 milhões de carros. No ano passado este número
aumentou para 49 milhões de carros.
Os automóveis americanos estão em segundo lugar, quanto à
produção de dióxido de carbono, logo a seguir às
centrais termoeléctricas a carvão. Os carros americanos
são responsáveis por 1500 milhões de toneladas de
emissões de dióxido de carbono por ano. Não há
nenhuma compensação que possa eliminar este nível de
poluição
[NR 1]
. Os EUA teriam que plantar 55 mil milhões de árvores todos os
anos para compensar este nível de emissões. E com a China a
tentar imitar a via do capitalismo americano, os recursos mundiais do futuro
serão esticados a níveis inadministráveis.
No virar do século passado o carro eléctrico foi abandonado,
principalmente por causa da sua baixa autonomia (80 quilómetros por cada
carregamento de bateria) e hoje está a ter um tímido regresso. O
aumento de vendas dos carros eléctricos e dos híbridos
gasolina-electricidade mais populares certamente amortecerá a taxa de
prejuízo ao planeta. Estas vendas representam ainda uma percentagem
negligenciável do mercado de carros. Qualquer carro, a gasolina ou a
electricidade ainda está essencialmente em cerca de 1360 kg de peso em
movimento muitas vezes para levar apenas uma pessoa.
[NR 2]
O sensacionalismo em torno dos veículos híbridos faz parte de um
aumento mais lato de produtos do capitalismo verde. Estão relacionados
com a ideia de que as pessoas podem optar por não fazer parte de um
sistema enormemente poluidor e que o gigantesco consumo do passado pode
continuar de uma forma ambientalmente sustentável. Neste mundo, o grande
capitalismo continua a fazer os seus lucros, os mercados continuam a
expandir-se e as pessoas sentem-se melhor quanto ao ambiente. Mas o ritmo do
aquecimento global mantém-se desimpedido.
[NR 1]
Em última análise, qualquer carro "verde" produzido em
massa continua a estar em oposição ao transporte público e
às mudanças sociais fundamentais necessárias para salvar o
planeta.
A vingança dos automóveis: transportes públicos
Para além dos factores sociais e ambientais, poucos produtos há
que se tenham demonstrado tão letais como o automóvel. Enquanto
estudos provaram que a viagem de autocarro é 170 vezes mais segura do
que a viagem de carro, continuam a morrer cerca de 120 pessoas por dia nos EUA
em acidentes de viação com carros particulares. A
indústria automóvel tem ensaiado vender maior segurança
aos compradores de carros mais abastados, mas é impossível
eliminar o erro humano em 231 milhões de condutores.
A ascensão do automóvel foi acompanhada pelo colapso dos
transportes públicos. Os transportes públicos não
diminuíram por causa da sua incapacidade de competir economicamente com
o automóvel. Houve uma campanha do complexo auto-industrial para
combater e enterrar os transportes públicos.
Com o crescimento da indústria e dos empregos, o transporte
público nos Estados Unidos aumentou na proporção do
acréscimo de carros. O transporte público atingiu o pico com uma
média de 166 viagens de passageiros por ano, per capita da
população. Em 1956, com o apoio complacente dos políticos
capitalistas, o número de viagens foi reduzido para metade. Foram
desenvolvidos subúrbios que não dispunham de acesso ao transporte
público, forçando mais pessoas a comprarem carros. Em 1973, a
utilização dos transportes públicos nos EUA atingiu o
recorde do pós-guerra de apenas 31 viagens por ano por pessoa.
Actualmente este número recuperou levemente para cerca de 35 viagens por
pessoa por ano.
No início dos anos 20, 90% das viagens eram feitas por carris,
principalmente carros eléctricos. Só um em cada 10 americanos
possuía um automóvel. Praticamente todas as cidades e vilas nos
EUA com mais de 2500 pessoas tinham o seu próprio sistema de
eléctricos sobre carris. A General Motors utilizou os seus lucros
gigantescos durante um período de 30 anos para matar estas redes de
transportes eléctricos. A GM comprava as companhias de eléctricos
e deitava-as abaixo. Também introduziu linhas de autocarros que
percorriam o mesmo percurso dos carros eléctricos, oferecendo bilhetes
mais baratos. As extensas redes de eléctricos de Nova York, Los Angeles,
Chicago, Filadélfia, Baltimore, Washington DC, St. Louis, Salt Lake
City, Sacramento, San Diego e Oakland foram todas esmagadas pelo dinheiro da GM.
Los Angeles, sendo a mais nova das mega cidades dos EUA, foi a que teve
pior sorte. A Los Angeles Railway operava a maioria dos 1500 autocarros
eléctricos da cidade. Em Maio de 1945, a American City Lines, uma
organização da GM, comprou 59% das acções da LA
Railways. Nesse mesmo mês, a LA Railway anunciou a sua
intenção de abater a maior parte das suas carreiras de autocarros
eléctricos.
A destruição dos transportes públicos, em especial dos
sistemas de linhas eléctricas, representou não só um
enorme desperdício de recursos como também a maior
contribuição isolada para o aumento da poluição e
da mudança climática em toda a história. A General Motors,
como a maior corporação do mundo, decidiu adoptar este
procedimento em privado, no seu conselho de directores. Nunca houve voto
popular quanto a esta política. Foi a "democracia" capitalista
em acção. As repercussões da destruição dos
transportes públicos são multifacéticas. A
redução dos transportes públicos também contribuiu
para a pobreza racialmente segregada das áreas urbanas,. O estudo do
professor Evelyn Blumenburg, da UCLA, sobre empregos e trânsito
público em Los Angeles na década passada mostra que os moradores
em Watts que têm acesso a um carro particular têm 59 vezes mais
possibilidade de arranjar emprego do que aqueles que dependem de transportes
públicos.
O futuro
O capitalismo e a sua corrida desenfreada atrás dos lucros trouxe o
planeta ao estado em que se encontra. O automóvel particular foi um dos
seus maiores veículos para o lucro. Os habitantes, actuais e futuros,
têm que lidar com o mundo tal como o receberam. O passado irá
continuar se não for posto em causa. Os políticos Republicanos e
Democratas fazem declarações hipócritas sobre o ambiente,
mas como são comprados e pagos pelos grandes negócios, apenas
propõem pequenas medidas que não salvarão o planeta.
O mundo está a ser gerido pelos lobos dentro da capoeira. As General
Motors, Chevrons, Citibanks continuam a tomar as decisões importantes
acerca do futuro. Estas companhias nunca porão a humanidade ou o planeta
à frente da corrida para os lucros. Para remover este obstáculo a
um futuro sustentável é necessária uma
revolução social e política. As classes trabalhadoras
precisam de se apoderar do leme e reorganizar a sociedade no interesse da
grande maioria.
Uma das alternativas é uma futura expansão maciça dos
transportes leves por carris. Em todas as cidades, em todas as regiões e
em todos os países, os transportes eléctricos por carril
diminuiriam drasticamente as emissões dos automóveis. No entanto,
se isso levasse a centrais de energia eléctrica a carvão cada vez
maiores, os ganhos ambientais poderiam perder-se na sua totalidade.
[NR 3]
Há quem defenda que se deve reexaminar a energia nuclear. Em
França, 75% da electricidade provém da energia nuclear. Isto
levanta duas questões: a segurança operacional e o armazenamento
dos desperdícios. O desastre nuclear de Chernobyl libertou no ar uma
toxicidade equivalente a 200 bombas de Hiroshima
[NR 4]
E parece ainda não haver soluções para o armazenamento a
longo prazo dos resíduos nucleares.
As grandes corporações auto-industriais, juntamente com os
grandes bancos, têm que passar a ser de propriedade pública. Os
recursos industriais e a capacidade produtiva da indústria
automobilística têm que ser convertidos numa
produção socialmente útil dentro de um plano
democrático a ser traçado pelas classes trabalhadoras.
No século XIII, Roger Bacon, o filósofo social, previu que
"Os homens conseguirão construir uma carruagem que ande a uma
velocidade milagrosa sem cavalos ou outros animais de
tracção". A sociedade humana já ultrapassou esse
estádio e tem que avançar para o seu único futuro
possível: um futuro colectivo, com um sistema de transportes colectivos.
09/Março/2008
[*]
Membro do Labor's Militant Voice, Austrália.
Fontes:
Ilya Ehrenburg,
The Life of the Automobile
(1929)
David Gartman,
Auto Opium: A Social History of American Automobile Design
Roger Keeran,
The Communist Party and the Auto Workers' Unions
Historical Statistics of the United States,
US Department of Commerce
Bradford Snell,
How General Motors Deliberately Destroyed Public Transit
[NR 1] É um equívoco do autor. Nem o CO2 é um poluente
nem as suas emissões provocam danos ao ambiente. Só os crentes
na
impostura pseudo-científica do "aquecimento global"
preocupam-se com o CO2.
[NR 2] O peso das baterias é uma limitação severa dos
carros eléctricos.
[NR 3} O custo de instalação e manutenção de novas
infraestruturas de carris em zonas urbanas é extremamente elevado. O
autor esquece a alternativa dos veículos a gás natural (metano),
combustível que tanto pode ter origem fóssil como não
fóssil. A Suécia tem neste momento um vasto programa de
produção de biometano para alimentar a sua frota. Já
existem mais de 8,5 milhões de veículos a gás natural em
circulação no mundo.
[NR 4] Ainda assim menos do que o imperialismo americano libertou no
Afeganistão, Iraque e Jugoslávia com as suas armas de
urânio empobrecido
(depleted uranium).
Apêndice
Plataforma Ambiental do Labor's Militant Voice australiano
Uma economia socialista planeada com base nas necessidades básicas do
ser humano, em vez da corrida insensata atrás de lucros, resolveria
muitos dos problemas-chave ambientais actuais, nos termos da seguinte
plataforma.
1.
Sistemas integrados de transportes de massas.
Um sistema integrado de transportes públicos ligando as áreas
urbanas, suburbanas e rurais, juntamente com um melhor rendimento de energia e
custos acessíveis. [Com esse] sistema de transportes controlado pelos
trabalhadores, desapareceriam as pressões do mercado e proporcionariam
um transporte seguro e eficaz aos habitantes da região. No caso de uma
catástrofe natural ou de uma emergência, um terramoto ou um
tsunami, por exemplo, um sistema de transportes destes responderia mais eficaz
e responsavelmente às necessidades humanas, como durante.
2.
Energia.
Um programa para desenvolver e aprofundar as fontes de energia
renováveis e alternativas. A investigação de tecnologias
que promovam as fontes de energia do hidrogénio, solar, eólica e
hidroeléctrica. Um plano racional de utilização da energia
e da sua produção levaria a uma redução geral na
utilização de qualquer tipo de energia armazenada para satisfazer
as necessidades gerais da sociedade. Seria eliminada a produção
de energia para consumo público pelas centrais industriais de
propriedade privada, que contribui actualmente para as emissões de
carbono, juntamente com os transportes aéreos, e para a toxicidade da
água e do solo; essas centrais seriam substituídas por centrais
de produção de energia sob controlo comunitário. Para
reduzir ainda mais o consumo público de energia e de
desperdícios, deveria ser implementado um programa de
produção de produção de alimentos socializado e de
saneamento, através de organizações de controlo
comunitário.
3.
Agricultura e produção de alimentos.
Cultivo de cereais e criação de gado sem
utilização de pesticidas e hormonas artificiais ou organismos
geneticamente modificados, estranhos a um determinado ambiente. A fertilidade
do solo e da água subterrânea seria mantida através de
métodos de rotação de culturas e de
irrigação, tal como se praticou nas sociedades agrícolas
durante milhares de anos. Os métodos modernos actuais de análise
e investigação geológica, hoje sobretudo ao serviço
das grandes empresas privadas, podiam servir para uma utilização
dos recursos naturais planeada de modo mais eficaz e racional. A necessidade de
conservantes químicos para manter os alimentos frescos para transporte e
armazenamento, seria eliminada com a produção de alimentos local
e de acordo com as necessidades imediatas da população.
4.
Habitação e desenvolvimento urbano.
Os centros populacionais que sejam adequados às necessidades e
recursos dos habitantes podiam ser planeados democraticamente, em conjunto com
os transportes, a energia e a produção de alimentos. O
desenvolvimento de novas habitações seria feito de acordo com as
circunstâncias imediatas da sociedade e não segundo a
especulação do mercado. A necessidade de viagens de longa
distância, e o tráfego entre a casa e o trabalho, seria eliminada
através da conversão dos materiais disponíveis e da
construção segundo um programa de habitação de
custo acessível para todos os trabalhadores e suas famílias.
O original encontra-se em
http://links.org.au/
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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