06MAI13
Caro José Gomes Ferreira
Ao visionar duas entrevistas recentes na SIC Notícias, com o ministro da
Economia e Emprego (23ABR13) e com o ex-secretário de Estado da Energia
Henrique Gomes (24ABR13) lembrei anteriores declarações suas,
entrevistado a 25 de Março, na Edição da Tarde do SIC
Notícias, sobre a captura de "rendas excessivas" por
determinados sectores económicos, e que na altura, me suscitou a ideia
de lhe escrever. Não o fiz então, faço-o agora, no
contexto da mesma matéria reavivada pelas referidas entrevistas.
Valorizando o conjunto das denúncias feitas nas entrevistas, pela sua
real importância para a generalidade dos portugueses, consumidores
domésticos, e para a competitividade das empresas portuguesas,
permita-me tecer algumas considerações e fazer alguns
possíveis esclarecimentos.
De forma veemente, o JG Ferreira pronuncia-se contra as "rendas
excessivas" capturadas por alguns sectores económicos/empresas,
ditos produtores de bens e serviços não transacionáveis, e
os grupos financeiros portugueses como os principais destinatários
finais dessas "rendas". "O último beneficiário
é o sector financeiro", diz e bem o JG Ferreira. Mas há
afirmações suas que me merecem alguns comentários.
Repara JG Ferreira que o conhecimento de tais "rendas excessivas" se
verificou com o Programa da Troika. "A Troika chegou e viu"! Que
ninguém fez ou tinha feito nada sobre o assunto. "Tudo isto
acontece e o país assiste impávido e sereno". Que a
excepção é o ministro Álvaro Santos Pereira, que
por isso mesmo "os lóbis querem deitar abaixo". Que em vez da
liberalização, o necessário era "tabelar o
preço" e dizer-lhes, "vendem abaixo desta tabela". Que
há um responsável de uma dessas empresas que diz, como o
"consumo está a cair" o "preço tem de subir".
E ninguém o contraria"! Para respeitar a "Lei da
concorrência" "estamos a prejudicar os consumidores". Nos
combustíveis "low cost" "ninguém deixa instalar
estas bombas". Etc, etc, etc. (Possíveis erros na
transcrição das citações!)
Ora a história destes assuntos, nomeadamente em matéria de
electricidade, gás natural e combustíveis, não é
bem assim! Talvez não se tenha dado por ele, com a ideia de que o PCP
é uma histórica aldeia gaulesa irredutível, mas não
tem grande importância! O que é certo é que todas estas
questões e problemas foram, ao longo dos últimos anos, muitas e
muitas vezes denunciadas pelo PCP. Que não se limitou às
denúncias, mas apresentou soluções! Houve de facto muita
gente distraída! Mas não foi o PCP. Numa Audição
Parlamentar após a sua demissão, o Eng. Henrique Gomes, referiu
que aqueles sectores e aquelas empresas têm um enorme poder sobre os
órgãos de comunicação social (e não
só, digo eu, e dirá, também, certamente o J G Ferreira!)!
Daí uma enorme cortina de silêncio, que continua até hoje,
e até se adensa
sobre estas questões e o PCP!
Andou muita gente distraída sobre as denúncias e
intervenções do PCP sobre o assunto. Para não maçar
muito, e sem ir muito atrás, algumas breves lembranças.
No já longínquo ano de 2006, intervindo na Assembleia da
República (AR) a 17 de Dezembro, sobre o aumento dos preços de
venda de electricidade, referimos os vícios genéticos/estruturais
desses preços como resultado da "remuneração da
produção vinculada no âmbito dos CAE, o excesso de
produção térmica, o preço da electricidade paga na
cogeração, o preço da electricidade produzida por via
eólica, entre outros". Quantas vezes referimos as
consequências da segmentação (o dito,
"unbundling"
), numa das reestruturações da EDP, entre a
produção e a distribuição, liquidando a
perequação de custos que havia ao longo da cadeia de valor do
sistema e "inventando" em consequência o "Défice
Tarifário" e os custos do acesso à Rede. Ou o caso
absolutamente extraordinário, entre as empresas portuguesas, da
justificação da ERSE da subida desses custos (acesso às
redes), porque havia redução de consumo não
é apenas o empresário, citado por JG Ferreira! (A ERSE, diz o
mesmo por exemplo para o abastecimento do GN: "Deste modo, o menor consumo
de gás natural perspetivado para o próximo ano gás, face
ao considerado nas tarifas atualmente em vigor, resulta num aumento dos custos
unitários do acesso" (Comunicado da ERSE de 15JUN12) E tudo isto
acontecia, enquanto a EDP, ia somando lucros anuais (desde 2005) superiores a
mil milhões de euros! Já posteriormente, quantas vezes
denunciamos o escândalo da garantia de potência, oferecida pelos
Governos PS aos grandes electroprodutores (66,6 milhões em 2011!)? Ou os
escandalosos mais de 24 milhões de euros anuais pagos na factura de
electricidade de cada cidadão, de "rendas" das terras das
barragens expropriadas há décadas pelo Salazar a
preços de miséria a muitos pequenos agricultores! (De 2010 para
2011 estas rendas passaram de 13,406 para 24,205 milhões, porque uma
Portaria (542/2010 de 21 de Julho) passou o indexante de
actualização do IPC para uma taxa swap (por onde andava já
este bicho!!!) interbancária acrescida de meio ponto percentual!
E sobre os preços dos combustíveis, onde as "rendas
excessivas" estão muito mais bem disfarçadas, quantas vezes
questionou o PCP sucessivos ministros da Economia e secretários de
estado da Energia, e a Autoridade da Concorrência (e até a
Comissão Europeia por escrito e o Comissário da
Concorrência Almunia oralmente), relativamente a uma questão que o
JG Ferreira levanta! O facto dos preços em Portugal antes de impostos,
serem mais elevados do que na generalidade dos países da União
Europeia, decorrente dos diferenciais adicionados aos índices Platts de
Roterdão (referência para Portugal), serem maiores no nosso
país! O que ninguém percebe, excepto a AdC, que o justifica pela
posição periférica do País!!! Mas como, se os
combustíveis consumidos cá, são produzidos, em geral,
cá? AdC com uma também extraordinária,
concepção do funcionamento do mercado grossista dos
combustíveis líquidos
como é verificável num
dos seus Relatórios sobre o assunto. Ou porque razão, o
País não criou uma efectiva concorrência aos
combustíveis líquidos, pelo uso do GN Comprimido (GNC) e GN
Liquefeito (GNL), e expansão do uso do GPL, no transporte
rodoviário, com o estabelecimento de redes nacionais de abastecimento de
GNC e GNL, e alargamento da rede já existente de GPL! (Anote-se: uma
recente Comunicação da CE (COM(2013) 17 final) e uma consequente
Proposta de Directiva comunitária (COM(2013) 18 final), avançam
exactamente nesta direcção! E questionar porque razão
sucessivas maiorias PS, PSD e CDS chumbaram (três ou quatro vezes) o
projecto de lei do PCP para a criação da rede nacional de GNC! E
quantas vezes reclamamos da dita rede combustíveis low cost, de que se
fala há anos?
E a pergunta a que nenhum ministro respondeu (nem a AdC, que considerava que
nas suas investigações, não tinha que analisar os lucros
das empresas, apesar de confrontada com evidentes lucros de monopólio!)
porque razão se multiplicaram por 5 os lucros da GALP quando por
decisão do Governo PSD/CDS, foram liberalizados a partir de 1 de Janeiro
de 2004, os preços dos combustíveis líquidos! De uma
média de lucros anuais (depois de impostos) entre 2000/2003 de 138,8
milhões de euros, a GALP teve entre 2004 e 2011, uma média de
667,8 milhões de euros!
Quantas vezes, apresentamos projectos de resolução (PJR), com
recomendações aos governos, visando atenuar, reduzir, eliminar
essas rendas. Para não o sobrecarregar com informação
excessiva, veja, por exemplo, o PJR 449/XII/2ª (Preços de Energia
compatíveis com o poder de compra dos portugueses e a produtividade da
economia nacional), e os PJR 277/XII/1ª (Preços máximos nos
combustíveis, travar a especulação
e PJR 343/XII/1ª (Uma estratégia para a promoção de
combustíveis alternativos na mobilidade rodoviária) já com
o actual Governo e maioria PSD/CDS! (documentos anexados).
E quantas vezes, foram chumbados pelo PS, PSD e CDS, os requerimentos do Grupo
Parlamentar do PCP, para que fossem ouvidos os responsáveis da EDP e
GALP sobre a origem dos (super)lucros das suas empresas? Muitas vezes! Com o
registo, de que alguns colegas jornalistas do JG Ferreira, apodavam tais
tentativas do PCP, de esclarecer as "rendas excessivas", como
atitudes demagógicas!
Quem tiver dúvidas sobre o que afirmamos, pode retirá-las
facilmente, pela leitura da intervenção do PCP sobre a
matéria, acessível e disponível na página da net da
Assembleia da República. Vantagens das novas tecnologias
Caro JG Ferreira
Estes problemas são de facto há muito conhecidos e denunciados
pelo PCP. Eles têm como raiz principal (mas não única) a
privatização de grandes empresas públicas de bens e
serviços essenciais, em sectores de bens não
transacionáveis (BnT), muitas vezes monopólios públicos,
transformando-as em monopólios (se quiser, em oligopólios, com
uma empresa dominante) privados. Associando processos de
reestruturação, como o referido para a EDP, e a (aparente)
liberalização dos respectivos mercados.
Aliás, a predação dos sectores de BnT sobre os sectores de
bens transacionáveis (BT) (empresas exportadoras, PME da
indústria, agricultura, pescas) até está calculada. No
livro "O Nó Cego da Economia", Vitor Bento, aponta um valor
equivalente a 15% do PIB entre 1990 e 2010! Questão que várias
vezes levantei nos debates travados na AR! É fácil perceber a
enorme "fraude" e mistificação, com que tantos, tantas
vezes abordam o problema da competitividade da economia portuguesa, sem
qualquer referência a esta predação!
E a montagem (desmantelando outras estruturas públicas) de custosas
entidades ditas reguladoras, como a prática evidencia não regulam
nada
Alguém, já se interrogou (agora que se está
novamente a legislar na AR sobre as ditas entidades) porque razão a ERSE
não viu, não descobriu, não detectou, ao longo de anos de
actividade, os 4 mil milhões de euros de rendas excessivas, que o Estudo
externo mandado fazer a pedido da Troika, calculou?!
Mas é evidente, que as ditas entidades reguladoras não se
libertam das teias/malhas (teóricas/neoliberais, relações
de poder, promiscuidade política) da estrutura monopolista do sector de
BnT! Nem os governos. Como muito bem diz o JG Ferreira,
"enquanto o governo não disser assim: quem manda no país
não são meia dúzia de banqueiros e os presidentes das
grandes empresas que estão no PSI 20, na Bolsa, quem manda no
país não são eles, isto não muda"!
E não vai mudar, porque os que estão neste governo, como nos
anteriores são os "paus mandados" dos mandantes, a tal
"meia dúzia de banqueiros e os presidentes das grandes empresas que
estão no PSI 20"!
E o ministro Álvaro, pese a sua farronca, não é melhor que
os outros. Faz é um esforço para passar por entre os pingos da
chuva
É fácil ver (um dos rapazes da Troika sinalizou-o
recentemente), em matéria de rendas excessivas quase tudo continua como
dantes, quartel-general em Abrantes! Na energia eléctrica, o corte de
1800 milhões (menos de 50% das rendas excessivas calculadas por entidade
externa!) que era para ser feito até 2020, já foi alisado para
lá dessa data até 2030, ou seja até 2020 o corte fica em 1
200 milhões. Se quiser um Balanço recente sobre a matéria,
é ler o recente estudo de Eugénio Rosa
"Rendas (lucros) excessivas da EDP
"
de 02MAI13 em www.eugeniorosa.com!
E porque na sua entrevista se falou da nova Lei da Concorrência, uma das
ditas reformas estruturais de que se gaba o ministro A Santos Pereira, o JG
Ferreira já se questionou, porque razão a dita
legislação nada avançou nas matérias
"posição dominante colectiva" e "abuso de
dependência económica"? De facto o governo PSD/CDS, o
ministro Álvaro com a tutela do tema, e a sua maioria na Assembleia da
República, e também com a ajuda do PS, concretizaram uma
alteração minimalista e insuficiente da legislação,
impedindo pela inviabilização das propostas do PCP
o desenvolvimento legislativo de três questões fundamentais: a
introdução do conceito de "posição dominante
colectiva" (hoje presente em legislação de outros
países europeus), o aperfeiçoamento e tipificação
do "abuso de posição dominante" e sobretudo do
"abuso de dependência económica", e ainda a
introdução do conceito de "dumping" e a sua
penalização em termos concorrenciais. Ora eram estes progressos
legislativos que poderiam fazer alguma mossa aos monopólios do sector de
BnT!!!
É fácil perceber, porque razão António Mexia abriu
a garrafa de champanhe, quando o Governo se viu livre de Henrique Gomes!
(Poucos meses antes (Dezembro de 2011), em audição parlamentar,
tinha eu feito uma profecia ao então secretário de Estado sobre o
seu destino, caso levasse até ao fim a sua missão. Não me
enganei!) E não é difícil, compreender a
situação de promiscuidade EDP/poder político dominante:
basta olhar para a fotografia a duas páginas do Conselho de
Supervisão da EDP, na revista da EDP nº 25 de
fevereiro/março 2012. Só ex-ministros PS, PSD e CDS são
seis (com o A Mexia são sete)! Só representantes visíveis
da Banca e Grupos do PSI 20 (BCP, BES, Liberbank, J. Mello, Colep/BIG, CIMPOR,
CIN) são outros tantos! Todos, naturalmente, fanáticos da
austeridade e dos baixos salários (dos outros)! Acredite, JG Ferreira, a
fotografia ampliada, dava um excelente cenário/pano de fundo para um
debate nos Negócios da Semana, sobre energia eléctrica
Pedindo-lhe compreensão para a extensão da missiva,
Com os meus melhores cumprimentos,
[*]
Agostinho Lopes, responsável pela Comissão de Assuntos
Económicos junto do CC do PCP e ex-Deputado na AR