De uma economia de crescimento fracassado
a uma economia de estado estacionário
Uma economia de estado estacionário é incompatível com o
crescimento contínuo tanto o crescimento positivo como o
negativo. O objectivo de um estado estacionário é manter um stock
constante e suficiente de riqueza real e de pessoas por um longo tempo. Uma
espiral em declínio de crescimento negativo, uma depressão tal
como a que estamos a entrar agora, é uma economia de crescimento
fracassado, não uma economia de estado estacionário. Travar uma
espiral de declínio em aceleração é
necessário, mas não é a mesma coisa que retomar
crescimento positivo contínuo. O crescimento económico agora
falha de dois modos: (1) o crescimento positivo torna-se não
económico na nossa economia já plenamente mundial; (2) o
crescimento negativo, resultante do estouro de bolhas financeiras infladas para
além dos limites físicos, apesar de temporariamente
necessário, torna-se a seguir auto-destrutivo. Isto é deixar uma economia
de não-crescimento, ou de estado estacionário
[1]
, como a única alternativa a longo prazo. O nível de riqueza
física que a biosfera pode manter num estado estacionário pode
muito bem estar abaixo do nível actual. O facto de que esforços
recentes de crescimento tenham resultado principalmente em bolhas sugere que
isto assim é. No entanto, todas as políticas actuais têm
como objectivo o pleno restabelecimento do crescimento da economia.
Ninguém nega que os nossos problemas seriam mais fáceis de
resolver se fossemos mais ricos. A questão é, será que o
crescimento nos faz mais ricos? Ou será que nos torna mais pobres?
Vou dispender mais uns poucos minutos a amaldiçoar o negrume do
crescimento, mas a seguir tentarei acender dez pequenas velas ao longo do
caminho para um estado estacionário. Alguns aconselharam-me a esquecer o
negrume e concentrar-me na política das velas. Mas descobri que sem um
fundo negro a luz das minha velas não é visível na aurora
falsa projectada pelos economistas, cuja propaganda do optimismo jamais
dá à esperança uma oportunidade de emergir das sombras.
Temos muitos problemas (pobreza, desemprego, destruição
ambiental, défice orçamental, défice comercial,
salvamentos, bancarrotas, arrestos, etc), mas aparentemente apenas uma
única solução: crescimento económico, ou como os
sabichões agora gostam de dizer, "crescer a economia"
como se esta fosse um batateiro com folhas curativas, como aloe vera ou
marijuana.
Mas deixem-nos parar aqui e formular duas perguntas que todos os estudantes
deveriam apresentar aos seus professores de teoria económica.
Primeiro, há um teorema profundo de matemática que diz que quando
algo cresce ele se torna maior! Assim, quando a economia cresce ela
também fica maior. Quão grande pode ser a economia, Professor?
Quão grande é agora? Quão grande deveria ser? Será
que os economistas consideraram estas questões? E mais subtilmente, o
que os faz pensar que crescimento (isto é, expansão física
do subsistema económico dentro do finito contendo a biosfera) já
não está a aumentar os custos ambientais e sociais mais
rapidamente do que os benefícios da produção, tornando-se
desta forma crescimento não económico, fazendo-nos mais pobres e
não mais ricos? Afinal de contas, o PIB real, a medida chamado do
crescimento "económico", não separa custos de
benefícios, mas amalgama-os como actividade
"económica". Como saberíamos quando o crescimento se
torna não económico? A actividade correctiva e defensiva torna-se
sempre maior quando crescemos de um "mundo vazio" para uma economia
"mundo total", caracterizada pela congestão,
interferência, deslocação, esgotamento e
poluição. As despesas defensivas induzidas por este factos
negativos são todas acrescentadas ao PIB, não subtraídas.
Estejam preparados, estudantes, para alguns gestos de mão, limpezas de
garganta e mudança de assunto. Mas não se deixem enganar.
Segunda questão. Será que o senhor, Professor, vê o
crescimento como um processo contínuo e desejável em si mesmo
ou como um processo temporário necessário para
alcançar um nível suficiente de riqueza o qual posteriormente
seria mantido num estado mais ou menos estacionário? Pelo menos 99% dos
modernos economistas neoclássicos mantêm a visão do
crescimento para sempre. Temos de remontar a John Stuart Mill e a Economistas
Clássicos mais antigos para encontrar tratamento sério da ideia
de um não crescimento da economia, o Estado Estacionário. O que
é que faz os economistas modernos tão seguros de que os
Economistas Clássicos estavam errados? Apenas expurgar a história
do pensamento económico do curriculum não é uma
refutação.
Aqui estão algumas razões para pensar que os Economistas
Clássicos estavam certos.
Uma norma de crescimento contínuo a longo prazo podia fazer sentido
apenas se uma das seguintes três condições fossem
verdadeiras:
(a) se a economia não fosse um subsistema aberto de um sistema
biofísico finito e não crescente,
(b) se a economia estivesse a crescer numa dimensão não
física, ou
(c) se as leis da termodinâmica não se mantivessem.
Vamos considerar cada uma destas três alternativas lógicas (se
puder pensar numa quarta, deixe-me saber).
(a) Alguns economistas pensam acerca da natureza como se fosse de facto o
conjunto de subsectores extractivos da economia (florestas, pescas, minas,
poços, pastos e mesmo agricultura...). A economia, não o
ecosistema ou a biosfera, é vista como o todo; a natureza é uma
colecção de partes. Se a economia é o todo então
não é uma parte de alguma coisa ou sistema mais vasto que pode
restringir a sua expansão. Se algum subsector extractivo natural se
tornar escasso nós apenas substituímos outros sector por ele e o
crescimento da economia total continuará, não dentro de qualquer
envelope biosférico e sim no espaço sideral presumivelmente cheio
de recursos colhidos em asteróides e amistosos extra-terrestres
altamente evoluídos ansiosos por nos ensinarem como crescer para sempre
no seu território. As fontes e os sumidouros são considerados
infinitos.
(b) Alguns economistas dizem que o que está a crescer no crescimento
económico é valor, e o valor não é redutível
a unidades físicas. Isto é verdade, naturalmente, mas não
quer dizer que o valor seja independente da física ! Afinal de contas,
valor é preço vezes quantidade, e quantidade é sempre
basicamente física. Mesmo serviços são sempre o
serviço de alguma coisa ou de alguém por algum período de
tempo e as pessoas que prestam serviços têm de comer. O valor
unitário de PIB não é dólares e sim o valor do
dólar. Um valor de dólar de gasolina é uma quantidade
física, actualmente meio galão [1 galão = 3,78 litros]. A
agregação de quantias de valor em dólares de muitas
mercadorias físicas (PIB) não abole a fisicalidade da medida
muito embora o agregado já não possa ser expresso em unidades
físicas. Na verdade, $/q x q = $. Mas o facto de q ser
matematicamente cancelado não significa que a medida agregada,
"valor em dólares", seja apenas uma pilha de
dólares. E não ajuda falar ao invés de "valor
acrescentado" (pelo trabalho e capital) porque devemos perguntar, o que
é valor acrescentado? E a resposta é recursos naturais,
matéria/energia de baixa entropia pó de fadas ou pelo de
rã! O desenvolvimento (espremer mais bem estar da mesma
produção de recursos) é uma coisa boa. O crescimento
(pressionar por mais recursos través de uma economia fisicamente maior)
é o problema. Limitar o crescimento quantitativo é o caminho para
forçar o desenvolvimento qualitativo.
(c) Se os recursos pudessem ser criados a partir do nada e os resíduos
pudessem ser aniquilados no nada, então poderíamos ter uma
produção de recursos sempre em crescimento através da qual
alimentaríamos o crescimento contínuo da economia. Mas a primeira
lei da termodinâmica diz NÃO. Ou se pudéssemos apenas
reciclar a mesma matéria e energia através da economia cada vez
mais rapidamente poderíamos manter o crescimento em andamento. O
diagrama de fluxo circular de todos os textos de iniciação
à teoria económica infelizmente aproxima-se muito desta
afirmação. Mas a segunda lei da termodinâmica diz
NÃO.
Assim se não conseguirmos arranjar saída para todos os
problemas, então talvez devêssemos reconsiderar a lógica e
as virtudes do não crescimento, a economia de estado
estacionário. Por que esta recusa da parte dos economistas
neoclássicos tanto a enfrentar o senso comum como a reconsiderar as
ideias dos antigos Economistas Clássicos?
Penso que a resposta é amargamente simples. Sem crescimento, o
único meio de curar a pobreza é partilhar. Mas a
redistribuição é anátema. Sem crescimento a
pressionar o expectável quanto à transição
demográfica, o único meio de sanar a superpopulação
é através do controle demográfico. Um segundo
anátema. Sem crescimento o único meio de aumentar fundos para
investir em reparação ambiental é reduzindo o consumo
actual. Anátema número três. Três anátemas e
vocês estão amaldiçoados vão para o inferno!
E sem crescimento como acumularemos arsenais para proteger a democracia (e as
reservas de petróleo remanescentes)? Como iremos a Marte e Saturno e
"conquistar" o espaço? De onde pode vir o progresso
técnico se não das decorrências inesperadas da
investigação militar e espacial? Tecno-fantasias gnósticas
de escapar da terra para o espaço exterior, e de abolir a doença
e a própria morte, alimentadas no mito do crescimento perpétuo
sem limites. Maníacos da técnica com cérebro digital, que
nunca ouviram do problema do mal, vêem o céu sobre a terra (o
crescimento eterno) bem ali ao virar da esquina. Sem crescimento devemos
enfrentar a difícil tarefa religiosa de descobrir um deus diferente para
adorar. Demasiado assustador, dizemos, vamos tentar crescer um pouco mais em
vez disso! Vamos dar a partida no carro do PIB e do Dow-Jones com um
"encosto" na bateria! Vamos construir uma outra torre de Babel com
palavras técnicas ofuscantes como hipotecas sub-prime, derivativos,
veículos de investimento titularizado, obrigação de
dívida colaterizada, credit default swap, activos
"tóxicos" e jargão de iniciados como o "dead cat
bounce"
[2]
. (Se você cair de uma torre de Babel bastante alta mesmo um gato morto
saltará o suficiente para fazer algum lucro.)
Bem, não vamos fazer isso. Vamos ignorar os anátemas e, ao
invés, pensar acerca de que políticas seriam necessárias
para nos movermos para uma economia de estado estacionário. Elas
são um bocado radicais pelos padrões actuais, mas não
insanamente irrealistas como qualquer das três alternativas para validar
o crescimento contínuo, acima discutidas.
DEZ PROPOSTAS POLÍTICAS
Vamos examinar brevemente dez propostas específicas de políticas
para nos movermos para uma economia de estado estacionária, isto
é, uma economia que assegure um fluxo metabólico constante de
recursos desde o esgotamento até a poluição um
fluxo de materiais que esteja dentro das capacidades assimilativas e
regenerativas do ecosistema.
1. Sistemas de comércio por leilão com tecto
(Cap-auction-trade systems)
para os recursos básicos. Os tectos limitam a escala biofísica
por quotas sobre o esgotamento ou a poluição, não importa
qual seja mais limitante. O comércio permite a
distribuição eficiente às melhores
utilizações. Esta política tem a vantagem da
transparência. Há um limite para a quantidade e a taxa de
esgotamento e poluição que a economia pode permitir-se impor ao
ecosistema. Os tectos são quotas, limites ao fluxo de recursos
básicos, especialmente combustíveis fósseis. A quota
habitualmente deveria ser aplicada ao input final porque o esgotamento
está mais espacialmente concentrado do que a poluição e
portanto é mais fácil de monitorar. O preço mais elevado
de recursos básicos também induzirá à sua
utilização mais económica em cada etapa a montante da
produção. Pode acontecer que o limite efectivo na
utilização de um recurso provenha da poluição que
ele provoca ao invés do esgotamento não importa,
nós indirectamente limitamos a poluição ao restringir o
esgotamento do recurso que acaba por ser convertido em resíduo. A
limitação a barris, toneladas e pés cúbicos de
carbono de combustíveis extraídos limitará as toneladas de
CO2 emitidas
[3]
. Este limite de escala atende o objectivo da sustentabilidade
biofísica. A propriedade das quota inicialmente é pública
o governo leiloa-as a indivíduos e firmas. Os rendimentos
vão para o tesouro e são utilizados para substituir impostos
regressivos, tais como impostos sobre folhas de pagamentos, e reduzir o
imposto sobre os rendimentos mais baixos. Uma vez compradas em leilão as
quotas podem ser compradas e vendidas livremente por terceiros, assim como o
podem os recursos cuja taxa de esgotamento eles limitam. O comércio
permite a atribuição eficiente dos recursos; o leilão
serve apenas para a distribuição e o tecto serve o objectivo da
escala sustentável. A mesma lógica pode ser aplicada à
limitação de capturas de bancos pesqueiros e à
extracção florestal.
2. Imposto ecológico de reforma comutar a base fiscal do valor
acrescentados (trabalho e capital) e sobre "o que o referido valor
é acrescentado", nomeadamente o fluxo entrópico de recursos
extraídos da natureza (esgotamento) e devolvidos à natureza
(poluição). Isto internaliza custos externos bem como eleva o
rendimento mais equitativamente. Dá um preço à escassa,
mas anteriormente sem preço, contribuição da natureza.
Valor acrescentado é algo que encorajamos, assim cessemos de
tributá-lo. Esgotamento e poluição são coisas que
queremos desencorajar, assim tributemo-los. O imposto ecológico de
reforma pode ser uma alternativa ou um suplemento aos sistemas de
comércio por leilão com tecto.
3. Limitar a amplitude da desigualdade na distribuição do
rendimento um rendimento mínimo e um rendimento máximo.
Sem crescimento agregado a redução da pobreza exige
redistribuição. A igualdade completa é injusta, a
desigualdade ilimitada é injusta. Procurar limites razoáveis para
a amplitude de desigualdade. A função pública, os
militares e a universidade são administradas com uma amplitude de
desigualdade com factor de 15 ou 20. A América corporativa tem uma
amplitude de 500 ou mais. Muitos países industriais estão abaixo
dos 25. Não poderíamos limitar a amplitude a, digamos, 100, e
verificar como isto funciona? As pessoas que atingiram o limite podiam tanto
trabalhar por nada à margem se elas gostam do seu trabalho, ou dedicar o
seu tempo extra a hobbies ou serviço público. A procura deixada
por satisfazer por aqueles no topo será satisfeita por aqueles que
estão abaixo do máximo. Um sentido de comunidade,
necessário para a democracia, é difícil de manter em meio
às vastas diferenças de rendimento actuais nos EUA. Ricos e pobre
separados por um factor de 500 tornam-se quase espécies diferentes. A
principal justificação para tais diferenças tem sido de
que elas estimulam o crescimento, o qual um dia fará toda a gente rica.
Isto pode ter tido plausibilidade superficial num mundo vazio, mas no nosso
mundo cheio é um conto de fadas.
4. Liberalizar a extensão do dia, semana e ano de trabalho
permitir maior opção para trabalho em tempo parcial ou pessoal. O
emprego externo a tempo inteiro para todos é difícil de
proporcionar sem crescimento. Outros países industriais têm
férias muito maiores e licenças pós parto do que os EUA.
Para os Economistas Clássicos a extensão da jornada diária
era uma variável chave pela qual o trabalhador (auto-empregado ou
artesão) equilibrava a desutilidade marginal do trabalho com a utilidade
marginal do rendimento e do lazer de modo a maximizar o gozo da vida. Sob o
industrialismo a extensão da jornada diária tornou-se um
parâmetro ao invés de uma variável (e para Karl Marx era o
determinante chave da taxa de exploração). Precisamos
torná-la mais uma variável sujeita à escolha do
trabalhador. E deveríamos cessar de enviesar a escolha entre trabalho e
lazer através de anúncios para estimular mais consumo e mais
trabalho para pagar por ele. A publicidade não deveria mais ser tratada
como uma despesa comum da produção fiscalmente dedutível.
5. Re-regulamentar o comércio internacional afastar o livre
comércio, a livre mobilidade de capital e a
globalização, adoptar tarifas compensatórias para
proteger, não firmas ineficientes e sim políticas nacionais
eficientes de internalização de custos da
competição com padrões rebaixados. Não podemos
integrar-nos com a economia global e ao mesmo tempo ter melhores salários,
padrões ambientais e redes de segurança social do que o resto do
mundo. A mobilidade do comércio e do capital deve ser equilibrada e
justa, não desregulamentada ou "livre". As tarifas
também são uma boa fonte de receitas que poderiam substituir
outros impostos.
6. Reduzir o FMI-BM-OMC a algo como o plano original de Keynes para uma
câmara de compensação multilateral de pagamentos, cobrando
taxas penalizadoras sobre excedentes bem como sobre défices de
balanças buscar o equilíbrio em conta corrente e portanto
evitar grandes dívidas externas e transferências em conta capital.
Por exemplo: sob o plano de Keynes os EUA pagariam um encargo penalizador
à câmara de compensação pelo seu grande
défice para com o resto do mundo e a China também pagaria uma
penalidade semelhante pelo seu excedente. Ambos os lados em
desequilíbrio seriam pressionados a equilibrar as suas contas correntes
através de penalidades financeiras, e se necessário fosse por
ajustamentos na taxa de câmbio em relação à unidade
da câmara de compensação, chamada de bancor por Keynes. O
bancor serviria como divisa de reserva mundial, um privilégio que
não deveria ser desfrutado por qualquer divisa nacional. O FMI prega o
livre comercio com base na vantagem comparativa e assim fez por longo tempo.
Mais recentemente o FMI-BM-OMC começaram a pregar o evangelho da
globalização, o qual, em acréscimo ao livre
comércio, significa a livre mobilidade internacional do capital.
Contudo, o argumento clássico da vantagem comparativa assume
explicitamente a imobilidade internacional do capital! Quando confrontado com
esta contradição o FMI agita as mãos, sugere que
você pode ser um xenófobo e muda de assunto. O FMI-BM-OMC
contradizem-se ao serviço dos interesses das corporações
transnacionais. A mobilidade internacional do capital, a par do livre
comércio, permite às corporações escaparam à
regulamentação nacional de interesse público, jogando um
país contra o outro. Uma vez que não há governo global
elas estão de facto sem controle. A coisa mais próxima que temos
de um governo global (FMI-BM-OMC) não mostrou interesse em regulamentar
o capital transnacional em prol do bem comum.
7. Afastar-se da reserva fraccionária da banca rumo a um sistema com
exigências de reserva de 100%. Isto colocaria o controle da oferta
monetária e da
seigniorage
[4]
nas mãos do governo ao invés de estar nas mãos de bancos
privados, os quais não poderiam mais criar moeda a partir do nada e
emprestá-la a juros. Todas as instituições financeiras
quase-bancárias deveriam ficar sob esta regra, regulamentadas como
bancos comerciais sujeitas a exigências de reservas de 100%. Os bancos
ganhariam o seu lucro apenas com a intermediação financeira, a
emprestar o dinheiro de poupadores a eles próprios (cobrando uma taxa de
empréstimos mais alta do que a taxa paga a depositantes em contas de
poupança) e proporcionando controle, guarda e outros serviços.
Com reservas de 100% todo dólar emprestado seria um dólar
previamente poupado, restabelecendo o equilíbrio clássico entre
abstinência e investimento. O governo pode pagar as suas despesas
emitindo mais moeda fiduciária não sujeita a juros para compensar
a moeda eliminada criada por bancos e sujeita a juros. Contudo, ele pode fazer
isto até o limite estrito imposto pela inflação. Se o
governo emitir mais dinheiro do que o público quer manter, o
público o comercializará em troca de bens, conduzindo os
preços a um nível mais alto. Tão logo o índice de
preços comece a elevar-se o governo deve imprimir menos e tributar mais.
Portanto uma política de manter um índice de preços
constante governaria o valor interno do dólar. O valor externo do
dólar poderia ser deixado às taxas de câmbio a flutuarem
livremente (ou preferivelmente à taxa contra o bancor na câmara de
compensação de Keynes).
8. Cessar de tratar a escassez como se fosse não-escassez, mas cessar
também de tratar a não-escassez como se fosse escassez. Confinar
os bens comuns remanescentes de capital natural (exemplo: atmosfera, espectro
electromagnético, terras públicas) em trusts públicos e
atribuir-lhes preço através de um sistema de comércio por
leilões com tecto, ou de impostos, ao mesmo tempo que libertar de
confinamentos privados e de preços a comunidade não rival do
conhecimento e da informação. O conhecimento, ao contrário
da produção material, não é dividido com a partilha e
sim multiplicado. Uma vez que exista conhecimento, o custo de oportunidade de
partilhá-lo e o seu preço de distribuição deveriam
ser zero. A ajuda internacional ao desenvolvimento deveria cada vez mais tomar
a forma de conhecimento livre e activamente partilhado, juntamente com pequenas
doações, e cada vez menos a forma de grandes empréstimos
sujeitos a juros. Partilhar conhecimento custa pouca, não cria
dívidas não reembolsáveis e aumenta a produtividade dos
factores de produção realmente rivais e dos factores escassos. O
conhecimento existente é o mais importante input à
produção de novo conhecimento e mantê-lo artificialmente
escasso e caro é perverso. Os monopólios de patente
(também conhecidos como "direitos de propriedade intelectual"
deveriam ser dados a cada vez menos "invenções" e
durante cada vez menos anos. Os custos de produção de novo
conhecimento deveriam, cada vez mais, ser financiados publicamente e a seguir o
conhecimento ser livremente partilhado.
9. Estabilizar a população. Trabalhar para um equilíbrio
no qual nascimentos mais imigrantes equalize mortes mais emigrantes. Isto
é controverso e difícil, mas para começar a
contracepção deveria ser tornada disponível para
utilização voluntária por toda a gente. E se bem que cada
país possa debater se deveria aceitar muitos ou poucos imigrantes, tal
debate é tornado controverso se não forem aplicadas leis de
imigração. Apoiar o planeamento familiar voluntário,
e a aplicação de leis de imigração
razoáveis, aprovadas democraticamente apesar do lobby do trabalho barato.
10. Reformar a contabilidade nacional separar o PIB numa conta de custo e
numa conta de benefício. Compará-los na margem, cessar o
crescimento da produção quando os custos marginais equalizam os
benefícios marginais. Além desta abordagem objectiva, reconhecer
a importância dos estudos subjectivos que mostram que, para além
de um patamar, o crescimento ulterior do PIB não aumenta a felicidade
sentida. Para além de um nível já alcançado
em muitos países o crescimento do PIB não proporciona mais
felicidade, mas continua a gerar esgotamento e poluição. No
mínimo não devemos simplesmente assumir que crescimento do PIB
é "crescimento económico", mas demonstrá-lo. E
começar por tentar refutar a montanha de evidências em
contrário.
Se bem que estas políticas parecerão radicais a muitos, vale
recordar que elas são tratáveis através de
aplicação gradual. Cem por cento de reservas pode ser atingido
gradualmente, a amplitude da distribuição pode ser restringida
gradualmente, os tectos podem ser ajustados gradualmente, etc. Estas medidas
também são baseadas sobre as instituições
conservadoras da propriedade privada e da distribuição de mercado
descentralizada. Elas simplesmente reconhecem que a propriedade privada perde a
sua legitimidade se demasiado desigualmente distribuída e que os mercados
perdem a sua legitimidade se os preços não contarem toda a
verdade acerca dos custos de oportunidade. Além disso, a macroeconomia
torna-se um absurdo se à sua escala for exigido que cresça para
além dos limites biofísicos da Terra. E bem antes de atingir
aquele limite físico radical estamos a deparar-nos com o limite
económico conservador no qual os custos extras de crescimento tornam-se
maiores do que os benefícios extras, introduzindo-nos solenemente na era
do crescimento não económico, até agora não
reconhecida.
01/Junho/2009
NT:
[1] Historicamente já houve economias estacionárias (ou de
reprodução simples) como a dos incas antes de serem conquistados
pelos espanhóis, o modo de produção asiático, a
tradicional cultura de subsistência africana, o comunismo primitivo,
algumas sociedades polinésias (ver
Collapse
, de Jared Diamond), etc. Mas o modo de produção capitalista
caracteriza-se precisamente pela reprodução ampliada. Uma
economia estacionária será portanto incompatível com o
capitalismo. Ao defender o crescimento estacionário o autor põe
em causa (e bem) o crescimento canceroso da actual economia capitalista.
Contudo, abstém-se de dar o passo lógico seguinte, ou seja,
explicitar que isto não poderia ocorrer no âmbito das actuais
relações de produção e que portanto estas teriam de
ser transcendidas. Esta omissão diante da conclusão
necessária pode ser verificada nos dez paliativos progressistas que
preconiza a seguir.
[2]
Dead cat bounce:
Forte subida nas cotações depois de uma queda abrupta.
Normalmente, esta recuperação resulta do facto de existirem
vendedores a descoberto
(short sellers)
que estão a fechar posições no mercado, comprando as
acções e encaixando as respectivas mais-valias.
[3] O exemplo é mau. As emissões de CO
2
de origem antropogénica são irrelevantes em termos
climatológicos, como já foi demonstrado pelo Prof. Marcel
Leroux.
Ver
Aquecimento global: uma impostura científica
. O CO
2
não é um poluente e é errado confundir problemas
climatológicos com problemas ambientais.
[4]
Seigniorage:
lucros sobre a cunhagem de moedas (na Idade Média).
[*]
Da Escola de Política Publica da Universidade de Maryland,
http://en.wikipedia.org/wiki/Herman_Daly
O original encontra-se em
http://www.theoildrum.com/node/5464#more
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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