Erratas
A propósito do livro de Fidel Castro "La paz en Colombia"

por Jesús Santrich [*]

 
Não existem os "mistérios da História".
Existem as falsificações da história, as mentiras daqueles que escrevem a História.

Roque Dalton

'La paz en Colombia', Edit. Política, Havana, 2008, 296 pgs., ISBN 978-959-01-0850-1. Esta nota, inspirada no imenso amor do poeta salvadorenho Roque Dalton para com a revolução cubana e para com a causa da emancipação e do socialismo, inicio-a exprimindo a profunda admiração que o meu coração guerrilheiro, fariano, mantém pelo povo do Apóstolo Martí, e o carinho imenso que desde sempre floresceu na minha consciência pelo companheiro Comandante Fidel, um dos indiscutíveis condutores da emancipação continental.

Especificamente, ao lado de algumas precisões necessárias, darei neste texto cordial algumas opiniões breves, sem maior profundidade, quanto ao livro recentemente publicado com o título La paz en Colombia. O objectivo é contribuir um pouco para que se gere um maior conhecimento entre revolucionários, que aprofunde a fraternidade que tanto requer a urgente necessidade da unidade entre os povos que lutam contra o imperialismo e pela segunda independência definitiva.

Nesta ocasião, começo por prestar homenagem a todos os revolucionários que deram as suas vidas para elevar ao zénite da esperança os princípios comunistas, sobre os quais se levanta o ideal de uma sociedade sem exploradores nem explorados. Hoje evoco especialmente o nome de Roque Dalton, pelos seus sonhos que ainda não foram mas que inexoravelmente serão.

Num dos seus militantes versos aguerridos, dizia o autor de Alta Hora de la Noche:

Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
Porque se detendría la muerte y el reposo.
Tu voz que es la campana de los cinco sentidos sería el tenue faro buscado por mi niebla.


Fidel Castro e Manuel Piñeiro com comandantes das FARC, 1991. Não será então, em vão, que mencione o seu nome. Faço-o com orgulho e devoção, porque ainda que assassinado por essa escória imoral que é Joaquín Villalobo, Roque estará sempre vivo nos corações insurgentes daqueles que compartilham seus sonhos.

Mas, ainda que morto fosse, então, que glorioso seria que nos abrace sua bruma, e que satisfação teria o pronunciar das suas "sílabas estranhas", dizer "flor, abelha, lágrima, pão, tormenta".

Seguramente as "onze letras" do nome do poeta soarão a blasfémia aos que compartilham o pecado do crime que pretendeu anulá-lo; mas, para nós que o amamos, Roque Dalton é apotegma da justa rebelião do oprimido, um sinal de camaradagem..., um eterno paradigma de luta, apesar da infâmia daqueles que o fuzilaram covardemente; ele não só continuará a vir "da terra escura" como de cada rincão onde a ânsia da emancipação se mantiver viva, fertilizando-se, ainda com o "seu silêncio".

Confiança teve e certeza no seu "eu voltarei eu voltarei" em que a sua cinza, como a do Che, jamais desapareceria com o vento. Porque, "condenado" estava ele, também, a ressuscitar para ficar à esquerda dos homens a exigir-lhes que apressem o passo pelos séculos dos séculos.

Continuaria dizendo, sempre em memória e honra de Roque Dalton, que ainda não entendo o sentido da sua menção na Introdução do livro do Comandante Fidel. Não obstante, exprimo a minha alegria por sua relembrança, não sem lamentar profundamente que seus colaboradores e amigos no continente não lhe tenham advertido, durante tanto tempo, sobre de quem era a mão assassina que no "Unicórnio Azul" lhe abreviou a sua passagem sobre a terra.

É auspicioso que o poeta venezuelano Tarek William, hoje governador de Anzoátegui, tenha dado a conhecer ao Comandante Castro tal pormenor sobre o horrendo facto, que é certamente [a razão] porque a esquerda latino-americana mais detesta o falso Villalobos. E valha o momento para dizer de maneira se não concludente pelo menos enfática que Roque Dalton, íntegro revolucionário comunista que abraçou as fileiras do ERP, não morreu "estranhamente assassinado"; pois há muitos anos o nome do seu assassino não é uma suposição. Foi esse artrópode infame e desavergonhado que os ianques enviam a diversos pontos do continente para desmotivar a luta revolucionária, esse anuro que hoje pontifica sobre "a arte de governar revolucionariamente", esse verme que agora posa de sapientíssimo académico de Oxford, sevandija venal que ostenta bazófia apresentando-se como guerreilherólogo, esse rufião vestido de traições e maledicências, esse elemento impúdico que se atreve de maneira cínica a dizer à insurgência colombiana que "as guerra se ganham no terreno moral...", e acrescenta que "as FARC estão moralmente em bancarrota" sem ter a menor ideia do que ocorre no seio da luta de classes na Colômbia; esse vómito do destino, verdadeiro agente da CIA, foi, sim, quem assassinou Roque. E estas afirmações não são, nem devem parecer, "simples calúnias". Os dirigentes mais insignes da FMLN poderão confirmar a afirmação.

Manuel Marulanda. Fidel Castro. Cuadernos de Campaña e outros assuntos

Pois bem, sobre outras precisões ao livro comentado, exprimiria duas ou três coisas que poderiam motivar a leitura e maior análise do mesmo e, se fosse possível, a rectificação.

Manuel Marulanda Vélez, o pseudónimo adoptado pelo camarada Pedro Antonio Marín para, como guerrilheiro, enfrentar o regime, não corresponde ou não foi adoptado "em honra de um colombiano que morreu na guerra da Coreia". O primeiro Manuel foi realmente um membro do Partido Comunista de Medellín. Por volta de 1936 presidiu a Federação de Trabalhadores de Cundinamarca, até à sua morte, a qual verificou-se em resultado das torturas que sofreu em mãos de agentes do Servicio de Inteligencia del Estado, precisamente num protesto contra a intervenção ianque na Coreia. A respeito disso pode-se indagar melhor num dos livros de Arturo Alape que o mesmo camarada Fidel pode ter consultado para escrever o seu texto: Arturo Alape, Las vidas de Pedro Antonio Marín, Manuel Marulanda Vélez, Tirofijo, Bogotá: pp. 204-211.

Talvez de maneira mais ampla está explicada a sua história, a do primeiro Manuel, num artigo da revista Resistência, da Comissão Internacional das FARC-EP (o número 36, de Outubro de 2006). Na página 6 encontra-se publicado o artigo de Carlos Hernández Ruiz, intitulado "El Primer Manuel, un hombre legendario y emblemático". Da revista Resistência pode-se consultar a sua versão digital PDF no sítio web www.bolvarsomostodos.org , sítio virtual no qual existe uma modesta informação sobre o que são e porque lutam as FARC-EP.

Sem dúvida ao lado dos livros Cuadernos de Campaña (de Manuel Marulanda Vélez), Diario de la Resistencia, Cese al Fuego, Paz Amigos y Enemigos, Correspondencia Secreta del Proceso de paz, Vicisitudes del Proceso de Paz (de Jacobo Arenas), e esses dois livros magistrais do já falecido professor Arturo Alape intitulados: o primeiro Las Vidas de Pedro Antonio Marín, Manuel Marulanda Vélez, Tirofijo e o segundo, Los Sueños y las Montañas são, seguramente, entre outros que não é o caso de mencionar, no momento, as melhores fontes publicada a propósito da história das FARC-EP, que no seu âmbito vasto ainda está por ser escrita.

De tal maneira que é muito valiosa a recuperação de citações de alguns dos materiais que o Comandante Fidel consultou para fazer o seu trabalho. Mas vale dizer que apesar de o livro La paz en Colombia não ser rigoroso na transcrição do citado, atendendo fielmente à fonte original, o [facto de] ir dando os necessários saltos que implica o método escolhido pode suscitar erros involuntários ao deixar, sem prevenir o leitor, a sequência entre os parágrafo de um ou outro documento que façam parte de capítulos diferentes de um livro mencionado; tal como se apresenta inopinadamente nas páginas 63 a 66 de La Paz en Colombia, por exemplo, no sentido que o camarada Fidel passa por alto que, ao iniciar o parágrafo 8 a sua citação corresponde já a um capítulo que não ter a ver precisamente com a etapa dos anos 50, que é a que se referem no essencial os Cuadernos de Campaña.

Estou a descrever o que ocorre quanto ao capítulo dos Cuadernos de Campaña intitulado pelo camarada Marulanda Vélez como Algunas Reflexiones, nas quais o Herói Insurgente da Colômbia de Bolívar, génio da guerra de guerrilhas, analisa o momento em que se inicia a etapa guerrilheira de Marquetalia, circunscrita no seu momento cimeiro à resistência dos anos 60. Ali Marulanda especifica algumas razões fundamentais, além disso, que permitiram manter a combatividade e que possibilitaram a realização da Primeira Conferência do Bloco Sul e a Conferência Constitutiva das FARC.

Em síntese, o ponto de erro está em que se o comandante Fidel nos leva no seu livro até esta nova etapa de desenvolvimento da guerrilha das FARC, descuida que está num momento que possui diferenças substanciais de qualificação em relação às guerrilhas desconexas dos anos cinquenta. Assim, então, sem explicação alguma retorna-se de repente aos anos cinquenta colando, a partir do 7º parágrafo da página 65 do livro de Fidel, uma citação que corresponde a um capítulo dos Cuadernos de Campaña intitulado Documentos, a qual procede do terceiro parágrafo do texto original, e que em essência o que caracteriza é efectivamente a guerrilha dos cinquenta e não a guerrilha que já havia passado pela Constituição do Bloco Sul e que inclusive havia estabelecido o Estado Maior que convocará a Conferência Constitutiva do movimento nascente.

Entenda-se então, para sermos rigorosos na análise, que quando Marulanda fala de "O defensismo 'puro' que levava alguns movimentos a responder aos agressores e nada mais" e que "impunha ao mesmo tempo certo localismo e no melhor dos casos regionalismo que impedia considerar, propor e empreender tarefas nacionais com critério político mais definido rumo à derrubada da ditadura", está a aludir às guerrilhas liberais anterior à Operação Marquetália. Mais precisamente indica grupos dos Llanos, Tolima e Antioquia, que tendo "no seu seio os elementos característicos das causas que os haviam feito nascer" e ainda com a "sua melhor organização em relação aos demais", tinham em comum deficiências que deviam ser resolvidas. E a elas refere-se muito em breve no capítulo mencionado. Se se prosseguir escrupulosamente a leitura dos Cuadernos de Campaña verificar-se-á que é extremamente claro que os grupos sobre os quais Marulanda faz a sua observação são os que naquele momento tinham condução liberal, mas no livro de Fidel a alusão que corresponde aos grupos dos anos cinquenta, a colá-la como citação fica a referir-se ao núcleo que já se havia tornado coeso na Conferência do Bloco Sul. Desacerto total, que consiste em confundir etapas de características substancialmente diferentes; confunde-se inclusive o que foi a Primeira Conferência Nacional do Movimento Popular de Libertação Nacional, realizada em Viotá em Agosto de 1952, com a Primeira Conferência do Bloco Sul, convocada pelo Estado Maior da resistência que se encontrava em Riochiquito, depois da morte em combate do valente guerrilheiro Isaías Pardo, ou seja, 13 anos depois.

Esta Conferência, que é uma das nove que as FARC-EP contam na sua história, a partir do que se considera a sua data simbólica de fundação, em Maio de 1964, foi realizada no fragor dos combates de 1965.

Por agora, desejaria encerrar esta primeira nota referente ao importante livro do Comandante Fidel, tentativa aceitável quanto a tratar de formular uma valoração das FARC e do conflito colombiano, declarando que estou convencido de que tem sido a falta de conhecimento do percurso histórico da nossa organização, a falta de contacto, não mediatizado, com os seus dirigentes, o que possivelmente impediu que camaradas de outras latitudes entendam com suficiência a lógica das nossas concepções e nossas acções; tal como se nota, por exemplo, no desafortunado livro Transparencia de Enmanuel, do Embaixador de Cuba na Venezuela, o apreciado Professor Germán Otero, no qual em não poucas ocasiões toma-se como fonte a Internet para recolher dados sobre assuntos cruciais, em relação aos quais não se podem estabelecer critérios se não se tiver informação de primeira mão. Tão tremenda incúria leva a produzir um documento ligeiro, vão na interpretação de uma realidade tão complexa como a colombiana...; pueril em sugestões que terminam indicando a FARC como organização desnecessariamente intransigente, e até néscio ou insensato quando esboça contextos que sugerem responsabilidade das FARC na existência do narcotráfico.

Atrever-me-ia a sugerir, àqueles que desejam conhecer esta temática, a abordar a leitura do livro de publicação recente intitulado Manuel Marulanda Vélez, el Héroe Insurgente de la Colombia de Bolívar. Em breve estará acessível no sítio web já mencionado.

Finalmente, talvez outros fossem os pontos de vista se se soubesse sem dúvidas que nós também actuamos com as mesmas convicções, por exemplo, plasmadas na Primeira e na Segunda Declarações de Havana. Que compartilhamos, inquestionavelmente, a afirmação de que "frente ao hipócrita panamericanismo que é apenas predomínio dos monopólios ianques sobre os interesses de nossos povos..." a opção é a militância no "latino-americanismo libertador que vibra em José Martí e em Benito Juárez..." e, naturalmente, nas bandeiras de Bolívar. Também "actuamos por livre e absoluta determinação própria", convencidos de que "a democracia não pode consistir só no exercício de um voto eleitoral, que quase sempre é fictício e é manejado por latifundiários e políticos profissionais". Tem pleno vigor a ideia de que "A democracia, além disso, só existirá na América quando os povos sejam realmente livres para escolher, quando os humildes não estejam reduzidos pela fome, pela desigualdade social, pelo analfabetismo e pelos sistemas jurídicos à mais ominosa impotência". Que temos atendido inteiramente e continuaremos a atender à convocatória feita "a todos os oprimidos e explorados, para que defendam, por si mesmos, seus direitos e seus destinos". E que temos bem assumido e aprendido sobre "o dever de cada povo à solidariedade com todos os povos oprimidos, colonizados, explorados ou agredidos, seja qual for o lugar do mundo em que estes se encontrem... Todos os povos do mundo são irmãos!", para além dos interesses de Estado.

Por fim, fiéis aos nossos sentimentos Martianos, chegamos à absoluta disposição de estar todos os dias em perigo de dar as nossas vidas por nosso país e por nosso dever..., sempre em função da América Nossa e dos pobres da terra, junto aos quais queremos lançar a nossa sorte.

É-nos impensável, então, deixar de alentar a libertação e a tomada do poder político para os oprimidos, tal como o fazia a Segunda Declaração de Havana; é-nos impensável não continuar a olhar através do prisma da Mensagem à Tricontinental.

Sabemos por todos esses ensinamentos que nossos adversários usarão "as piores armas da repressão e da calúnia" contra nós.

Pensamos, inelutavelmente, que "As condições subjectivas de cada país, ou seja, o factor consciência, organização, direcção, podem acelerar ou atrasar a revolução segundo o seu maior ou menor grau de desenvolvimento, mas tarde ou cedo, em cada época histórica, quando as condições objectivas amadureçam, a consciência se adquire, a organização se consegue, a direcção surge e a revolução se produz". Nada nem ninguém nos convencerá do contrário; sobretudo porque a nossa maior persuasão é que "O dever de todo revolucionário é fazer a revolução". E se esse é o dever, pois faremos o que corresponder, que não é precisamente "sentar-se à porta da sua casa para ver passar o cadáver do imperialismo..."

Com este espírito, Camarada Fidel, é que estabelecemos nossas relações fraternas com o movimento revolucionário de todas as partes, respeitando e sendo compreensivos com quem tenhamos divergências não antagónicas, dispostos em todo caso a dar a vida por nossa causa, e convencidos de que se morrermos como os de Cuba, os de Play Girón..., os de Marquetalia, Palestina..., ou os de qualquer latitude do mundo, o faremos por nossa única, verdadeira, irrenunciável independência.

Contudo, ainda que sem importar que com muitos dos nossos camaradas no continente não tenhamos o mesmo sentido da "transparência", jamais nos ocorreria revelar voluntariamente o que nos confiem nossos irmãos de causa; ainda que sem importar que não compartilhemos algumas das soluções sui generis que de boa fé costumam recomendar-nos argumentando com a tese de que até "uma vitória seria muito difícil de sustentar", jamais quebraríamos nosso juramento de solidária amizade leal. Claro está que não admitiremos nunca como "solução decorosa" uma saída imbuída de derrotismo. "É nosso caminho, também, o de pátria ou morte!

Como nosso Che Guevara permaneceremos, dizendo que "não se trata de desejar êxitos ao agredido; há que correr a sua mesma sorte; acompanhá-lo à vitória ou à morte". E com Roque Dalton, com optimismo e eterno compromisso de internacionalismo e solidariedade insubornáveis, poderíamos manifestar a muitos:

. Habéis despreciado mi amor
Os reísteis de su pequeño regalo ruboroso
Sin querer entender los laberintos de mi ternura
Ahora es la hora de mi turno
El turno del ofendido por años de silencios
A pesar de los gritos
Callad
Callad
Oíd.

Do mesmo autor em resistir.info: "A última lágrima" do coronel Mendieta

Para descarregar:
  • Número 37 de Resistencia (PDF, 13353 kB)
  • Livro Cuadernos de campaña (PDF, 322 kB)
  • Livro La paz en Colombia (PDF, 6959 kB)

    [*] Comandante das FARC-EP

    O original encontra-se na revista Resistencia , nº 37, Junho/2009


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 17/Nov/09