"A última lágrima" do coronel Mendieta

por Jesús Santrich [*]

Cor. Luís Mendieta. Quando voltaram vários dos políticos retidos que em Janeiro de 2008 foram unilateralmente libertados pelas FARC-EP, Gloria Polanco, uma das mulheres que estiveram cativas, trouxe consigo da selva diversas cartas enviadas pelos prisioneiros aos seus familiares.

Apesar das dificuldades que gera a confrontação, não era a primeira vez que a FARC permitiam este tipo de correspondência, pois apesar de nunca termos tido a possibilidade de subscrever qualquer tipo de documentos que regulassem a guerra, entre nossas normas e princípios está o respeito à integridade física e à dignidade daqueles que estão privados da sua liberdade em consequência da confrontação. É um compromisso em cujo cumprimento pomos todo o nosso empenho.

Obviamente, ninguém na condição de prisioneiro poderá ser atendido ou sentir-se como se estivesse em férias, e apesar de as circunstâncias da selva poderem parecer mais ou menos duras, conforme o ponto de vista de cada um, nunca serão mais adversas que as dos cárceres e vexações que o regime e o império impõe aos guerrilheiros tanto na Colômbia como nos centros penitenciários dos EUA.

De modo que todo aquele que conheça suficientemente as FARC, se não colocar no pescoço do nosso prestígio a adaga da calúnia e da propaganda adversa que recomendam os manuais de guerra psicológica do regime, não poderia deixar de surpreender-se com a publicação da mensagem que o coronel Luís Mendieta Ovalle enviou aos seus:

"É como se não valêssemos, como se não existíssimos", diz ele na carta à sua família.

Sua esposa, através dos media que se encarregaram de ampliar o impacto da nota, disse, entre tantas outras coisas, que "35 milhões de colombianos e ninguém fez nada por eles", acrescentando que "as FARC é que têm de limpar-se desse estigma de terroristas".

Seguramente a senhora María Teresa de Mendieta, quando usou essa palavra "terroristas", esmagada pelo natural sofrimento de esposa com o seu marido ausente, não tinha em mente outro significado que não fosse aquele cunhado pelos propagandistas da "Seguridad Democrática", para etiquetar com falsos estigmas de criminalidade e perversão aqueles que se rebelaram legitimamente contra as seculares injustiças impostas pela oligarquia governante às maiorias empobrecidas da Colômbia.

Ela não tem a culpa da guerra desencadeada pelo regime injusto que impera no nosso país, nem tem a culpa de Mendieta haver optado pela carreira que o pôs na actual situação de prisioneiro. Esta é apenas uma das dolorosas consequências da confrontação que, entre outras coisas, levou o hoje general de brigada, notabilizar-se por infundir pavor aos indefesos.

Luis Mendieta, este responsável por muitas das tragédias do conflito, está em poder das FARC desde 1988, época em que com o grau de coronel foi capturado em combate. E é verdadeiramente lamentável que o seu aprisionamento não se tenha produzido muito antes. Quem sabe quantas vidas se teriam podido salvar?

E digo isto porque creio que o mencionado prisioneiro de guerra, ao invés dos exageros acerca dos seus "problemas de saúde", relatados para gerar a comiseração de quem ler a sua carta feita meticulosamente para publicação, deveria aproveitar o suficiente tempo livre que costuma dispor para fazer uma retrospectiva a fim de narrar em pormenor todos os crimes que cometeu durante o seu serviço. Um exame assim, aprofundando os segredos da sua intimidade, ao menos poderia conceder-lhe tranquilidade espiritual.

Deveria também este coronel, ou brigadeiro, ou o que seja, em honra da verdade, narrar sem ficções ao mundo, se desejar, como a seguir a um combate as FARC conduzem os seus prisioneiros. Ele sabe, tem a experiência, que além disso pode contrastar com as maneiras como tratava as suas vítimas inermes na época em que dispunha daquela camioneta à qual os seus subalternos deram o nome de "La Última Lágrima", designação que faziam extensiva a própria figura do coronel sanguinário.

De qualquer forma, em algum momento será preciso trocar o coronel... Digo trocar, pois não creio que mereça qualquer consideração especial, diferente da que lhe cabe por sua condição de ser humano. E é porque estamos a falar de um genuíno esbirro do regime que só está vivo graças à extrema magnanimidade daqueles que o capturaram, e graças ao rigoroso respeito que dentro das nossas fileiras se concede a quem tenha a condição de militar rendido em combate.

Não sei se quando o coronel escreve estará a recordar as suas vítimas, pois as suas palavras não descrevem em absoluto a sua própria situação: "No início da enfermidade caminhava com um pau que fazia por vezes de bastão (...) depois tinha de caminhar com a ajuda de duas forquilhas que faziam por vezes de muletas. Que viagens tão penosas (...) Tinha de arrastar-me à retrete pelo barro para minhas necessidades unicamente com a ajuda dos meus braços porque não podia levantar-me", diz, em algumas das passagens da sua carta, sem levar em conta, seguramente, que com as suas palavras acaba por acusar os seus próprios companheiros de cativeiro de serem não solidários e desumanos. Será que porventura não havia ninguém que o pudesse ajudar? Mau cálculo o do coronel, se o que pretende é mostrar uma guerrilha que dele não se compadece. Insisto: não estavam ali os seus companheiros?

Na sua mesma nota em que relata as circunstâncias de crueldade em que os seus captores o mantém, explica que vários sequestrados, entre eles Ingrid Betancourt, tiveram que ser trasladados em maca durante longas caminhadas pela selva. Que "desumanidade" a desses guerrilheiros que os deitam em macas carregando-os nos seus próprios ombros! Não é verdade?

Al pan, pan y al vino vino, senhores. Há muito choramingo e farsa, por vezes, da parte daqueles que recebem o melhor tratamento possível nas condições de cativeiro. As FARC-EP não têm nem terão no desenvolvimento da resistência e luta de emancipação o historial de crueldade quanto ao trato de prisioneiros que pretendem estabelecer os seus inimigos. O que realmente existem são evidências da forma como se manipula informação falsa para desprestigiar a insurgência neste campo. É o caso concreto, por exemplo, de dona Ingrid Betancur, aquela mulher histriónica que estava a ponto de morrer de hepatite C e de inanição na "selva hostil" em que a mantinha a guerrilha. No momento da sua liberdade o mundo inteiro pode observar que estava mais sã que qualquer pessoa do nosso faminto povo sofrido.

Mas Mendieta, nas suas palavras, diz: "Não á dor física o que me detém, nem as cadeias na minha garganta o que me atormenta, é sim a agonia mental, a maldade do mau e a indiferença do bom".

Nunca os elementos que se utilizam para transferir eventualmente um prisioneiro têm maior rigor do que os que se utilizam para custodiar um guerrilheiro preso, como ocorre por exemplo com o digno Simón Trinidad, a quem mantém 24 horas por dia num caixão de betão, com as luzes acesas, com vista nada diferente do que as quatro paredes da gaveta em que costuma estar encadeado de pés e mãos.

E sobre "a maldade do mau", haveria que perguntar se o coronel estará a referir-se a si próprio, pois as suas palavras não se ajustam à guerrilha que lhe permite, por exemplo, "receber visita e integrar-se com o doutor Alan e outros prisioneiros", ou ver "os livrinhos que lhe levou Marlen...", ou "o folheto que lhe enviou Johannita..." e, por fim, assistir às suas "aulas durante uma hora diária" (imagino que fazia isso cheio do lodo que recolhia depois de arrastar-se rumo à retrete sem a ajuda dos seus "companheiros não solidários"). E o que pensar do maldoso guerrilheiro que lhe carregava a suas coisas durante "a viacrucis da sua enfermidade"? Pergunto-me de onde saíram todas as coisas que presentearam a Mendieta os seus companheiros quando diz haver perdido tudo em alguma viagem? Onde, por exemplo, o doutor Alan comprou o papel higiénico que presenteou ao coronel, e onde o desodorizante com que fizeram massagens na atormentada vítima? Onde teria as cadeias em cada um desses momentos?

Apesar de ter quem lhe escreva, está muito mal o "sofrido coronel". Diz que tem "uma picada no seu coração". Deve ser, certamente, o aguilhoar das recordações das pessoas que fez subir para sacrificar em "La Última Lágrima", sua tenebrosa camioneta.

Pobre coronel, condenado à tortura de aprender uma hora de russo diariamente; pobre senhor, condenado a estudar inglês no meio da selva com "tantos neurónios perdidos pelas enfermidades do seu cativeiro", pobre militar, tendo que sacrificar parte da sua vida em horas que dedica a jogar cartas compradas na primeira árvore da esquina, quando poderia estar a fazer esquartejamentos de horror em La Última Lágrima; pobre "mártir" sacrificado no jogo de dominó que tinha de praticar para queimar algo do seu tempo. Pobre, pobre..., com o horrendo antecedente, além disso, de haver tido que receber as cartas e objectos que lhe enviaram seus amigos, e haver tido que comer um enlatado de polvo, além de haver tido que suportar ser atendido com injecções anti-tetânicas e penicilina para aliviar seus males do corpo, porque os da sua alma acanalhada parecem incuráveis.

Ninguém foi solidário, porque – segundo ele diz – ninguém lhe quis dar pasta de dentes. Suas terríveis penas foram aguentadas com esse outro sacrifício que foi ter de dedicar-se à natação numa quebrada para poder recuperar-se enquanto também consumia cardio-aspirinas e voltarén [1] que certamente, como o maná bíblico, caiu do céu.

Pobre coronel, pobre Mendieta, assassino de quatro costados, a quem, repito, nos seus tempos de super-polícia era chamado "A última lágrima"; sim, como a sua camioneta, porque tudo o que caia nas suas mãos devia chorar pela última vez antes de ser assassinado e lançado numa lixeira, irremediavelmente.

Seria bom que aproveitasse para fazer as suas memórias de contrição enquanto espera a hora de se concretizar a troca que lhe dê a possibilidade de desfrutar da "merecida promoção" a brigadeiro-general feita pelo Estado Maior da Guerra Suja.

05/Fevereiro/2009

[1] Voltaren: anti-inflamatório e analgésico.

[*] Integrante do Estado Maior Central das FARC-EP

O original encontra-se em
www.abpnoticias.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1482&Itemid=1


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10/Fev/09