A questão da água na América Latina
1- A questão geral
2- A questão da água
3- O novo discurso sobre a água
4- A água na América Latina
5- Problemas contemporâneos da água
6- Lutas populares pela água
1) A QUESTÃO GERAL
Estamos em meio a uma profunda crise civilizatória. O modelo
civilizatório ocidental, alicerçado na exploração
de seres humanos por outros seres humanos e na intensa exploração
da natureza por uma restrita elite mundial, já não tem mais
sustentação. Dos seis mil milhões de pessoas que habitam a
face do planeta, apenas 1,7 mil milhões pertence ao modo consumista e
predador da civilização contemporânea. Para sustentar os
caprichos dessa elite mundial são necessárias 1,5 Terras para
alguns, ou até seis Terras para outros. Essa elite não
está apenas no primeiro mundo, mas também tem seus nichos no
segundo, terceiro e quarto mundo. Estender esse modelo de
produção e consumo a todos os seres humanos é
impossível, pelos próprios limites desses bens em nosso planeta.
Para sustentar esse modelo o maior tempo possível para uma elite
restrita, é preciso restringir o acesso dos demais a esses bens. O
melhor mecanismo para selecionar os incluídos do modelo é aplicar
as regras do mercado a todas as dimensões da existência. Quem
puder comprar, entra. Quem não puder está posto de fora.
A consciência dos limites do planeta começou surgir a partir da
década de 60, mas aprofundou-se na década de 70 e generalizou-se
a partir da década de 80. A Cúpula Mundial do Meio Ambiente no
Rio de Janeiro consagrou a questão ambiental como fundamental para o
destino da humanidade e do planeta Terra.
Coincide com a tomada de consciência dos limites do planeta e
implantação mundial do neoliberalismo. Não foi por acaso.
A elite mundial percebeu os limites do planeta e que seu "modus
vivendi" não poderia jamais ser estendido a toda a humanidade.
Então criou um mecanismo para estabelecer um "limite natural"
aos que têm acesso aos bens e os que jamais o terão, isto
é, aprofundou e tenta estender para todas as dimensões da vida as
regras do mercado. Assim, através das regras do mercado, a elite mundial
reservou para si os bens que antes também tinha destinação
universal. Entre eles está a água.
A regra número um do mercado é transformar todos os bens em
mercadoria. Nesse sentido, o mundo passa hoje pela disputa dos últimos
bens da natureza que ainda não foram privatizados. São muito
poucos: restavam ainda a própria vida, água, sol e ar. A vida
está sendo privatizada através do patenteamento de sementes,
princípios ativos de plantas e pelo avanço da ciência na
própria genética humana. O sol e o ar ainda não
descobriram mecanismos de privatização. Mas a
privatização dos solos, da água e da biodiversidade segue
a passos largos em todo o planeta.
2) A QUESTÃO DA ÁGUA
A privatização da água não se dá ao acaso,
ou de forma dispersa. Ela passa pela elaboração de grandes
estratégias, mapeando a abundância da água nas
regiões do planeta e construindo planos que, ao longo prazo, permitam a
apropriação privada desse bem em escala mundial. Vamos citar aqui
rapidamente os planos que existem desde o Canadá até o sul do
continente latino americano, para termos uma idéia mínima do que
está sendo estrategicamente pensado. Por trás desses planos
estão sempre grandes empresas transnacionais, a
intermediação dos organismos multilaterais como Bird, Banco
Mundial e FMI, sempre em articulação com os governos e elites
locais dispostas a transferir o patrimônio público para empresas
privadas.
Normalmente esses planos visam investimentos em infra-estrutura.
Posteriormente, pelos tratados de livre comércio, seja em nível
continental como a Alca, ou tratados bilaterais (Os TLCs - Tratados de Livre
Comércio), essas infra-estruturas acabam privatizadas.
2.1 - Plano "Puebla Panamá" na América Central.
O Plano é um conjunto de grandes projetos de investimento em
infra-estrutura, transporte, comunicações, energia, turismo e
outras obras em países da América Central e nos estados do sul do
México. Abrange Puebla, Veracruz, Guerrero, Oaxaca, Chiapas, Tabasco,
Campeche, Yucatán, Quintana Rôo, Belize, Guatemala, Honduras, El
Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Vai desde Puebla,
México, até o Panamá. Através de ferrovias,
rodovias, portos, comunicações e uma rede elétrica que
permita interligar e explorar o potencial hidroelétrico de toda
região, puxando energia na direção do norte.
Fundamentalmente visa facilitar o acesso aos bens naturais da região,
criar facilidades para escoamento dos produtos do México e Estados
Unidos, controlar os guerrilheiros da região e controlar as
migrações.
Um dos objetos principais de cobiça é a água. Só o
estado de Chiapas, com forte presença da guerrilha, contém 40% de
toda água doce do México. Mas a América Central é
toda rica em água doce. Uma série de empresas transnacionais,
interessadas nessa água, tem se instalado na região,
principalmente cervejarias, inclusive a Ambev com uma fábrica na
Guatemala e outra na República Dominicana.
Há também um potencial hidroelétrico fantástico.
Só no México está prevista a construção de
25 novas barragens o que poderá remover cerca de oito milhões de
indígenas dos 10 milhões que habitam essas regiões.
2.2 - IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura
Regional da América do Sul).
Por hora é mais uma concepção estratégica que uma
realidade. Também se planeja corredores industriais, hidrovias, rodovias
que conectem os lugares mais recônditos de toda a América Latina,
inclusive a região amazônica, onde estariam 20% de toda
água doce do mundo.
Mas não é apenas a Amazônia que é rica em
água doce. Toda bacia do Prata é também rica em
água doce, considerada a segunda do mundo, logo depois da
Amazônica. É nessa região também que está o
Aqüífero Guarani, um mar subterrâneo de água doce. Os
principais interessados são as empresas engarrafadoras de água e
as fabricantes de bebidas que demandam muita água.
No Brasil dispensa comentários o plano estratégico no Estado
Brasileiro para a construção de barragens. É também
do conhecimento comum que hoje a construção de barragens foi
repassada para as empresas privadas, o que têm acarretado mais problemas
para os atingidos por barragens, que agora têm que negociar com
particulares e não mais com o governo.
2.3 - NAWAPA (North American Water and Power Alliance).
Esse é um plano dos americanos do Norte. Pretende desviar vastos
recursos de água do Alaska e do Oeste do Canadá para os Estados
Unidos. Esse é o plano de infra-estrutura. O plano de livre
comércio da região é o Nafta. Já existem problemas
sérios na exploração das águas canadenses pelos
Estados Unidos.
Nos dias atuais, quando toda riqueza natural do planeta já está
mapeada, os colossais interesses privados não têm dificuldades de
armar suas estratégias. Quando se trata da disponibilidade de solos,
água doce e biodiversidade, as Américas, principalmente a Central
e do Sul, estão necessariamente incluídas em qualquer grande
estratégia, exatamente pela abundância que possuem desses bens
imprescindíveis para o futuro da humanidade e da vida no planeta.
3) O NOVO DISCURSO SOBRE A ÁGUA
O discurso sobre a água mudou rapidamente nos últimos anos. O bem
abundante e sem valor, "insípido, inodoro e incolor",
rapidamente tornou-se "ouro azul, escasso, dotado de valor
econômico, objeto de cobiça, fator de guerras entre as
nações". Esse discurso não é ingênuo, e
exige um difícil discernimento para distinguir o que é realidade
e o que são os interesses daqueles que o produzem.
Em primeiro é necessária a distinção entre
água e recursos hídricos. Água é um bem da natureza
que está no planeta há mil milhões de anos. É o
ambiente onde surgiu a vida e componente de cada ser vivo. Por isso, o supremo
valor da água é o biológico. Recurso hídrico
é a parcela da água usada pelos seres humanos para alguma
atividade, principalmente econômica. Portanto, água é um
conceito muito mais amplo que recurso hídrico, embora sejam
indissociáveis.
A questão é que o uso da água hoje é muito mais
intenso que em algumas décadas atrás. Hoje, a média
mundial é que da água doce utilizada, 70% destinam-se para
agricultura, 20% para indústria e 10% para o consumo humano. Esse uso
intenso da água, principalmente na agricultura e na indústria,
ocorre num ritmo mais acelerado que a reposição feita pelo ciclo
natural das águas. Dessa forma, muitos mananciais estão sendo
eliminados pelo sobre uso que deles se faz. Pior, ao devolver a água
para seu ciclo natural, ela vem contaminada pelos agrotóxicos da
agricultura e pela química da indústria. A falta de saneamento
ambiental, sobretudo em países pobres, colabora para a
contaminação dos mananciais. Em conseqüência, hoje no
planeta, segundo a ONU, 1,2 mil milhões de pessoas não têm
acesso à água potável e 2,4 mil milhões não
têm acesso ao saneamento. O impacto na saúde humana e no meio
ambiente é uma tragédia. Portanto, a chamada "crise da
água" é de quantidade e qualidade, não por
razões naturais, mas pelo uso irresponsável que o ser humano dela
faz. Agrava-se ainda mais essa situação quando a
ambição, visando usos futuros privados da água,
também a privatiza. A escassez produzida então passa a ser
quantitativa, ou qualitativa, ou social, ou em todos esses níveis
simultaneamente.
O crescimento populacional ajuda agravar a situação. Nesse
sentido, a crise da água é progressiva. A posição
da ONU é clara, ou se muda o modo de gestão das águas, ou
essa será pior crise que a humanidade já enfrentou em sua
história sobre o planeta.
Sem dúvida a chave da questão está no intenso uso
agrícola e industrial da água. A água ainda é usada
para navegação, pesca, geração de energia
elétrica, uso doméstico em geral, além de outros. É
o chamado "uso múltiplo da água". Porém, quando
se constata que 70% em média vai para a agricultura, é preciso se
perguntar que agricultura é essa que consome água em tamanhas
proporções que chega a desequilibrar o próprio ciclo das
águas. É uma agricultura de primeira necessidade, ou é uma
agricultura que visa produzir permanentemente bens que na verdade são
sazonais, consumidos por uma restrita elite mundial? Essa resposta é
variada e depende de país para país. Na Ásia a
produção de arroz é um bem fundamental. No Brasil, na
região do Vale do São Francisco, a água é usada
para produção de frutas para exportação, ou
até mesmo para irrigar cana para produção de álcool
e açúcar. O etanol, que move carros no Brasil e na Europa, pode
ser visto como um combustível limpo, desde que não se perceba a
água embutida em sua produção. A
Transposição do rio São Francisco para o Nordeste
Setentrional visa, sobretudo, a produção da camarões em
cativeiro e a fruticultura irrigada.
O conceito de escassez, introduzido como fundamento econômico pelos
neoclássicos, agora também é aplicado na questão da
água. Para esses pensadores, um produto tem mais valor econômico
quanto mais escasso ele for. Por conseqüência, aplicar o conceito de
"escassez" à água tem uma clara conotação
ideológica dos princípios liberais dos neoclássicos.
Entretanto, no tocante à água, sua escassez quantitativa e
qualitativa não é uma questão natural, mas produzida pela
mão humana. Portanto, pode ser evitada. A própria ONU afirma que
a crise da água é mais uma questão de gerenciamento que de
escassez.
Um dos argumentos utilizados para justificar a escassez da água é
que 97,6% das águas do planeta são salgadas e apenas 2,4%
são água doce. O quadro abaixo nos dá uma visão
detalhada da distribuição da água no planeta.
QUADRO DAS ÁGUAS
|
LOCALIZAÇÃO
|
VOLUME
(1.000 km
3
)
|
%
|
Renovação
|
|
Oceanos
|
1.464.000
|
97,6
|
37.000 anos
|
|
Massas Polares
|
31290
|
2,086
|
16.000 anos
|
|
Rochas Sedimentares
|
4371
|
0,291
|
300 anos
|
|
Lagos
|
255
|
0,017
|
1 a 1000 anos
|
|
Solo e Subsolo
|
67
|
0,004
|
280 dias
|
|
Atmosfera
|
15
|
0,001
|
9 dias
|
|
Rios
|
1,5
|
0,0001
|
6 a 20 dias
|
Entretanto, a natureza é sábia e até poucas décadas
atrás nunca faltou água para nenhuma forma de vida, sejam aquelas
que dependem da água salgada, sejam aquelas que dependem da água
doce. Mais uma vez, o problema não é da natureza, mas da
ação humana sobre ela. A água é um bem natural
renovável, e o ciclo das águas, desde que respeitado em seu
ritmo, repõe os mesmos volumes de água doce e salgada há
muitos milhões de anos. A crise da água, portanto, tem que ser
focada na sua questão chave, isto é, o modo como o ser humano vem
gerenciando a parcela de água que utiliza. Certamente um novo
gerenciamento imporá limites ao desperdício e ao luxo.
Classificação de disponibilidade da água segundo a ONU
(1997)
|
Estresse de água
|
inferior a 1.000 m
3
/hab/ano
|
|
Regular
|
1.000 a 2.000 m
3
/hab/ano
|
|
Suficiente
|
2.000 a 10.000 m
3
/hab/ano
|
|
Rico
|
10.000 a 100.000 m
3
/hab/ano
|
|
Muito rico
|
mais de 100.000 m
3
/hab/ano
|
Vale ressaltar que o Banco Mundial tem outro padrão para o estresse,
isto é, abaixo de 2.000 m³ por pessoa por ano para todos os usos.
Entretanto, especialistas acham essa referência baseada no padrão
de consumo dos Estados Unidos é insustentável. Portanto, é
lógica a opção para trabalhar com os padrões da ONU.
4) A ÁGUA NA AMÉRICA LATINA
4.1 -
Há um detalhe nessa reflexão. Mesmo havendo água
suficiente para todas as formas de vida, desde que gerenciadas com
sustentabilidade, há distribuição desigual da água
doce sobre o planeta. Os países mais pobres de água sofrem com
sua escassez particular. Na outra ponta, continentes inteiros, dentro deles
alguns países, têm abundância de água doce. É
o caso do continente latino americano, particularmente alguns países.
Para exemplificar, o Peru é um país que está situado no
parâmetro de "suficiente". Sua disponibilidade per capta de
água hoje é de aproximadamente 1.790 m³ por ano. Entretanto,
a projeção é que no ano de 2025 sua disponibilidade caia
para 980 m³ por pessoa por ano. Deixaria de estar na faixa de suficiente
para a situação de estresse.
Já países como Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela,
Argentina e Chile situam-se no parâmetro de países
"ricos", isto é, tem entre 10.000 e 100.000.000
m³/pessoa/ano. Já a Guiana Francesa situa-se na faixa dos
"muito ricos", isto é, acima de 100.000 m³/pessoa/ano.
4.2 -
Além disso, esse é um continente privilegiado no regime das
chuvas. A intensa precipitação de águas meteóricas
sobre o continente, mesmo com intensa média de evaporação,
produz um grande excedente hídrico. Mais uma vez é
necessário considerar os detalhes dentro do continente e dos
países. Por exemplo, Lima no Peru nunca chove. Entretanto, as
águas que descem dos Andes abastecem a capital peruana.
Basta compararmos o volume de nossas águas com países onde
realmente ela é escassa para termos uma noção da
abundância que temos.
|
País
|
Disponibilidade m³/hab./ano
|
|
Kuwait
|
Praticamente nula
|
|
Malta
|
40
|
|
Qatar
|
54
|
|
Gaza
|
59
|
|
Bahamas
|
75
|
|
Arábia Saudita
|
105
|
|
Líbia
|
111
|
|
Bahrein
|
185
|
|
Jordânia
|
185
|
|
Singapura
|
211
|
Texto Base "Água, Fonte de Vida"
4.3 - Precipitação nos continentes:
|
Região
|
Precipitação
mm/ano
|
km³/ano
|
Evapotranspiração
mm/ano
|
km³/ano
|
Excedente
mm/ano
|
km³/ano
|
|
Europa
|
700
|
8,290
|
507
|
5,230
|
283
|
2,970
|
|
Ásia
|
740
|
32,200
|
416
|
18,100
|
324
|
14,100
|
|
África
|
740
|
22,300
|
587
|
17,700
|
153
|
4,600
|
|
América do Norte
|
756
|
18,300
|
418
|
10,100
|
339
|
8,180
|
|
América do Sul
|
1,600
|
28,400
|
910
|
16,200
|
685
|
12,200
|
|
Austrália e Oceania
|
791
|
7,080
|
511
|
4,570
|
280
|
2,510
|
|
Antártica
|
165
|
2,310
|
0
|
0
|
165
|
2,310
|
|
Totais
|
800
|
119,000
|
485
|
72,000
|
315
|
47,000
|
4.4 -
Nossos rios também são abundantes. As Bacias
Hidrográficas tornaram-se hoje a referência fundamental para a
gestão das águas. É um modelo francês, mas que tem
pertinência. O Brasil, por exemplo, foi dividido em 12 grandes
regiões hidrográficas, cada uma delas às vezes com
várias bacias hidrográficas. A Lei Brasileira de Recursos
Hídricos (9.433/97) concebe a gestão das águas a partir
das bacias hidrográficas. Aqui estão as águas mais
acessíveis ao ser humano para todos os usos. Os rios, inclusive,
tornaram-se o destino dos dejetos industriais, hospitalares, domésticos.
O Brasil, que tem o maior volume de água doce do planeta e uma imensa
malha de rios, tem 70% de seus rios poluídos. Portanto, prova que
não basta abundância, é preciso um cuidado especial para se
ter água em quantidade e qualidade.
Aqui mais uma vez a América Latina aparece de forma destacada no
cenário mundial. As duas maiores bacias hidrográficas do planeta
estão em território latino-americano, isto é, a
Amazônica e a do Prata. São as duas maiores vazões
hidrográficas da face da Terra. A vazão média da bacia
Amazônica é de 212.000 m³/s, enquanto a do Prata é de
42.400 m³/s. O Brasil, com a água da Amazônia Internacional,
detêm 53% das águas da América do Sul e 13,8 do total
mundial.
Estas duas bacias hidrográficas, além de oferecer água
doce em abundância, integram os países latino-americanos. Se forem
sabiamente manejadas e preservadas, garantem tranquilamente o futuro de nossos
povos.
4.5 - Aqüífero Guarani:
A América Latina foi ainda abençoada com o maior lençol
freático de água do planeta, com 1,2 milhões de km².
Atinge 7 estados brasileiros (Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul,
S. Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul) e parte da
Argentina, Paraguai e Uruguai. Estende-se pelo Brasil (840.000 km²),
Paraguai (58.500 km²), Uruguai (58.500 km²) e Argentina, (255.000
km²). Tem água para abastecer 360 milhões de pessoas
indefinidamente desde que bem gerenciado. É a população de
toda América Latina.
Toda essa água, praticamente ainda inexplorada, é objeto de
cobiça nacional e internacional. Somente agora há um
esforço conjunto dos países banhados pelo aqüífero
Guarani para o estabelecimento de uma série de medidas que facilitem a
gestão e preservação comum do manancial. Entretanto, a
abundância de água do aqüífero também traz
ambições. As grandes transnacionais da água já
buscam colocar-se no espaço do aqüífero e reservar seu
quinhão em vista do futuro.
4.6 - Pantanais e Alagados:
Nosso continente tem ainda uma série pantanais e de áreas
alagadas, fundamentais para a dinâmica das águas e para a
biodiversidade. O Pantanal Mato-grossense, que atinge também a
Bolívia e o Paraguai é um caso exemplar. Com uma
fantástica biodiversidade animal e vegetal, situa-se no
coração da América do Sul. Sua biodiversidade inclui mais
de 650 espécies diferentes de aves, 262 espécies de peixe, 1.100
espécies de borboletas, 80 espécies de mamíferos e 50 de
répteis. Além disso, o Pantanal conta com 1.700 espécies
de plantas. É também uma área ambicionada por sua riqueza.
A Igreja do Reverendo Moon comprou nessa região uma área de 10
milhões de hectares de terra. O tamanho da propriedade causou problemas
no Brasil, onde por muita gente é considerada até uma
questão de segurança nacional.
Entretanto, as áreas alagadas da América Latina são muito
mais amplas que o Pantanal Mato-grossense. Uma pequena listagem nos dá a
visão mais completa da abundância de pantanais e alagados de nosso
continente.
|
País
|
Total de áreas
|
Extensão (hectares)
|
|
Brasil
|
38
|
59.789.733
|
|
Venezuela
|
29
|
14.447.155
|
|
Chile
|
49
|
9.188.713
|
|
Argentina
|
57
|
5.797.930
|
|
Paraguai
|
5
|
5.723.528
|
|
Bolívia
|
18
|
4.017.920
|
|
México
|
40
|
3.377.900
|
|
Nicarágua
|
17
|
2.111.349
|
|
Colômbia
|
36
|
1.928.389
|
|
Uruguai
|
12
|
773.500
|
5) PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS DA ÁGUA
5.1 - O uso múltiplo da água:
o grande problema da água está na equação mais
justa de seu uso múltiplo. O padrão mundial adotado de se
utilizar 70% da água doce em agricultura indica ser sem
sustentação. O uso da água na agricultura precisará
ser redefinido. Esse embate já existe, por exemplo, no Brasil. É
correto usar a pouca água disponível no Nordeste Brasileiro para
irrigar cana de açúcar? É correto usar 80% da água
do rio São Francisco, também no Nordeste Brasileiro, para gerar
energia, enquanto milhões de pessoas espalhadas pela região
não têm um copo de água potável para beber?
Portanto, o uso múltiplo da água exige critérios
éticos, não apenas técnicos ou econômicos. Por isso,
além de falarmos do "uso múltiplo" das águas,
é necessário falar também de seus "valores
múltiplos". Portanto, é necessário falar do valor
biológico, social e ambiental da água. Além desses, a
água tem valor simbólico, religioso, cultural,
paisagístico, turístico. A água ainda tem dimensões
econômicas, políticas e de poder. Controlar a água é
ter poder sobre os demais seres humanos e os demais seres vivos.
5.2 - Privatização e mercantilização:
a privatização e a mercantilização da água
é o grande desafio para a água no mundo contemporâneo. A
estratégia das grandes multinacionais da água é
transformá-la numa mercadoria comum. Entretanto a água é
um bem imprescindível e insubstituível. Nenhum ser vivo sobrevive
sem a água. Controlar a água é controlar a vida. Por isso,
em nível mundial também surgem resistências a toda
tentativa de privatizar e mercantilizar a água. Na América Latina
temos resistências na Bolívia, Argentina, Brasil, Peru, Chile,
Uruguai e outros. Entretanto, na América Central os serviços de
água já estão sendo privatizados. Há também
privatização da água na Índia, Filipinas,
países africanos e Europa.
5.3 - Poluição:
outra questão fundamental é a degradação
qualitativa das águas. A civilização humana fez dos rios
seus caminhos, depois sua moradia, depois seu esgoto. Há vários
rios no mundo, principalmente aqueles que cortam os grandes centros urbanos e
agrícolas, praticamente imprestáveis em sua
utilização para consumo humano. No Peru a poluição
vem principalmente das mineradoras ao longo dos rios que abastecem Lima. Os
dados do saneamento dos países mais pobres são estarrecedores. O
Brasil, por exemplo, tem 20% de sua população sem acesso à
água potável, 50% de seus domicílios sem coleta de esgoto
e 80% do esgoto coletado são jogados diretamente nos rios sem nenhum
tipo de tratamento. Isso faz com que 70% dos rios brasileiros estejam
poluídos. Porém, há situações ainda piores,
como é o caso do Haiti, onde mesmo em Porto Príncipe, os esgotos
correm a céu aberto pelo centro da cidade.
5.4 -
A
perda de qualidade
das águas é um dos grandes dilemas da humanidade. Hoje se fala
em contaminação fina, à base de hormônios,
antibióticos e metais pesados. Normalmente esses elementos não
são detectáveis nos tratamentos mais comuns das águas para
consumo humano. Portanto, a qualidade da água consumida nos dias de hoje
não oferece segurança total. No Brasil estima-se que 40% das
águas das torneiras não têm potabilidade confiável.
5.5 - Desflorestamento das matas ciliares:
agrava ainda mais a situação das águas o
desflorestamento. Há uma íntima correlação entre
cobertura vegetal, armazenamento de água nos lençóis
subterrâneos e a preservação dos mananciais de
superfície. Onde há cobertura vegetal a água das chuvas
tende a infiltrar-se mais nos solos, elevando o nível dos
lençóis subterrâneos. Onde a terra está nua, a
tendência da água é escorrer para o leito dos rios, com
pouco processo de infiltração. Além disso, a cobertura
vegetal das margens dos rios - as matas ciliares - protege os leitos do
assoreamento provocado por materiais sólidos carreados pelas enxurradas.
Portanto, o processo contínuo de desflorestamento influi diretamente na
disponibilidade hídrica dos mananciais de superfície e
subterrâneos.
5.6 - Pobres sem água:
a exclusão de grande parte da humanidade da "segurança
hídrica" já é uma realidade mundial. Repetindo os
dados iniciais, no mundo contemporâneo 1,2 mil milhões de pessoas
não têm água de qualidade para beber e 2,4 mil
milhões não têm acesso ao saneamento básico. Essa
realidade, segundo a ONU, tende a se agravar com o crescimento da
população mundial. Não é um problema de escassez,
mas de cuidado, gerenciamento e justiça social.
5.7 -
Hoje em vários lugares do Brasil começa se instalar o
"cartão pré-pago"
de água, como na telefonia celular. Evidente que ai está uma
flagrante violação do direito humano à água. As
populações mais pobres não podem estar sujeitas a essas
regras do mercado. Muitos pobres não têm como comprar sua
água, mas como todo ser vivo têm direito a ela. O surgimento dos
"sem-água" é uma das mais aberrantes tragédias
que poderiam assolar a humanidade.
6) LUTAS POPULARES PELA ÁGUA
6.1 - Água como bem público, direito humano, patrimônio de
todos os seres vivos:
Como reação ao processo de privatização,
mercantilização e degradação das águas,
surgiu a consciência do "cuidado", da
"preservação", da água como "bem
público, universal, patrimônio da humanidade e de todos os seres
vivos". Essas articulações prosperam em todo o mundo,
através de ONGs, defensores de direitos humanos, Igrejas e especialistas
que tem uma visão ampla da água, não apenas mercantilista.
No Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre, fortaleceu-se a
"RED VIDA", como uma articulação de entidades que lutam
em defesa da água seguindo uma série de dez princípios,
todos na direção da água como um bem público.
6.2 -
Da parte das Igrejas e das entidades defensoras dos direitos humanos, cresce a
consciência e a defesa da água como um "direito humano".
Porém, há resistências dos governos locais e das
transnacionais da água. A tendência é admitir a água
apenas como uma "necessidade", não como o direito. É a
mesma postura que se tem em relação ao "direito humano
à alimentação". Se a água for reconhecida como
direito humano, assim como a alimentação, então é
obrigação do estado perante seus cidadãos. Sob a
direção dos verbos "proteger, promover e prover", o
Estado está obrigado a garantir a todos seus cidadãos a
alimentação e a água necessária para sua
segurança hídrica. Portanto, muda a relação
mercantil com os alimentos e a água que as transnacionais querem aplicar
a esses bens fundamentais para a vida.
Assim, as transnacionais da água estabelecem uma ruptura entre o direito
natural e o direito positivo. O direito natural não é mais
reconhecido automaticamente como um direito positivo e até é
posto em subalternidade em relação a esse.
Embora o reconhecimento da água como direito humano não garanta
sua execução prática, é muito importante para a
luta dos mais pobres. Importante também é a luta das Igrejas e
das entidades dos direitos humanos para que a água seja definitivamente
reconhecida como direito humano.
6.3 -
Muitos esforços concretos existem em todo território latino
americano para que as populações mais pobres tenham acesso
à água em quantidade, qualidade e regularidade. Cresce
também o esforço para a água na produção de
alimentos. Um exemplo é o que acontece no semi-árido brasileiro,
onde oitocentas entidades estão articuladas para construir um
milhão de cisternas para um milhão de famílias da
região. Até hoje já foram construídas
aproximadamente 150 mil. Embora esteja longe de alcançar seu objetivo,
praticamente 900 mil pessoas hoje têm água de qualidade ao menos
para beber. Sem esse tipo de iniciativa, deixando apenas para as iniciativas do
Estado, essas famílias não teriam sua água para consumo
garantida. Esse é o tipo de prática que contempla as necessidades
dos mais deserdados, garantido-lhes o acesso à água a qual
têm direito.
13/setembro/2005
[*]
Membro da Coordenação Nacional da
Comissão Pastoral da Terra
, Brasil.
Em relação a Portugal ver também
Lei da Água gravemente danosa prestes a ser aprovada à revelia dos cidadãos
, da
Associação Água Pública
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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