Fraude e manipulação da opinião pública:
O cartel dos negócios da água em campanha autárquica
1.
Sumário
2.
Contexto
3.
A campanha da AEPSA
Propaganda corporativa
Como a AEPSA montou a fraude
4.
A doutrinação e o missionário
A pregação de uma doutrina
Argumentação o sofisma-base
A "Autoridade" para instituir o "dogma"
5.
O alegado "estudo"
O documento escondido
A capa
Os conteúdos gerais
Os dados base e os números derivados
"Happy end": a Bibliografia ... e lá se vai o castelo de cartas!
6.
O conflito de interesses
7.
Interesses, política e privatização dos serviços autárquicos
8.
As Autarquias e o direito universal à água e ao saneamento
9.
Setembro, 24 a 29 - reforços estrangeiros para boicotar a campanha autárquica
10.
Conclusões
11.
Notas e Bibliografia
1. Sumário
A
AEPSA
(associação de negociantes privados de serviços de
águas) protagonizou uma acção de propaganda fraudulenta em
prol da privatização dos serviços de águas,
veiculada por vários jornais e outros meios de
disseminação, desde fins de Julho de 2017.
Essa acção faz parte de uma clara interferência programada
na campanha das eleições autárquicas, precedendo outra
acção de maior vulto, anunciada para fim de Setembro, que
trará a Portugal e dará palavra a vários
missionários estrangeiros da privatização, com as
expectáveis sonantes divulgações nos órgãos
de informação a soldo e preenchendo completamente a última
semana da campanha autárquica.
Analisam-se e evidenciam-se os interesses e objectivos políticos destas
acções, com ênfase para o ataque à democracia,
à participação política dos cidadãos e ao
Poder Local Autárquico.
Apresentam-se alguns dados sobre o papel insubstituível das Autarquias
Locais na garantia do direito universal à água e ao saneamento em
Portugal, focando o período em que o abastecimento de água e
saneamento foi exclusivamente serviço público e competência
autárquica e comparando com a evolução posterior.
Faz-se uma breve contextualização destas iniciativas do cartel de
negócios da água, face às crescentes
manifestações da população em defesa da água
pública e da gestão pública da água e aos
múltiplos documentos que demonstram os danos públicos e
particulares dos utentes pela privatização dos serviços.
Mostra-se a "prestidigitação" da AEPSA na sua
propaganda e como "faz crer" nas suas inverdades.
Faz-se uma breve apreciação do alegado "estudo"
possuído pela AEPSA, desmontando algumas das mistificações
dele constantes.
Dá-se breve nota e alerta sobre a sequência anunciada, que
preencherá a última semana da campanha autárquica, com o
mediático evento
Porto water innovation week
[1]
, que, com grandes recursos mobilizados do estrangeiro e com apoio do Governo e
participação de detentores de cargos públicos na
Administração Central, contará com extensa
intervenção de proeminentes missionários estrangeiros da
privatização da água e tem já a propaganda
mediática garantida pela IMPRESA.
Culmina com a "
Mayors & Water Conference 2017
" (Presidentes da Câmara e Água) programada para o dia 29 de
Setembro, o dia de fecho da campanha autárquica, assegurando assim a
ausência massiva nesse encontro (e silêncio) dos autarcas
portugueses.
Sendo o tema aqui exposto demasiado amplo para tratar num artigo e estando
várias das matérias pertinentes e factos referidos profusamente
documentados, indicam-se em notas de fim várias fontes e bibliografia
que possam suprir as inevitáveis superficialidades e omissões.
2. Contexto
Em pré-campanha autárquica, quando cada Câmara e cada
candidatura está em foco para avaliação pelos
munícipes, a muito generalizada recusa dos portugueses da
privatização dos serviços de água tem peso na
opção de voto e, portanto, nos debates eleitorais.
Apesar do favorecimento de sucessivos Governos, do controlo pelo capital de
importantes meios de comunicação e do bloqueio desses
órgãos de "informação" a toda a defesa da
água pública, a informação, a
consciencialização e a repulsa dos portugueses pela
privatização dos serviços de água é muito
largamente maioritária.
São cada vez mais conhecidos, não só em Portugal e na
Europa mas por todo o Mundo, casos concretos do dano público que
advém da transformação dos serviços públicos
de água em negócios privados de alguns grupos capitalistas.
A auditoria do Tribunal de Contas em 2014 e o relatório de seguimento em
2015
[2]
() comprovam o prejuízo público das privatizações
dos serviços de águas, evidenciam o enviesamento dos contractos
de concessão para favorecimento ilegítimo dos negócios
privados às custas públicas; assinalam também as
cumplicidades do Governo e da Entidade Reguladora dos Serviços de
Águas e Resíduos (ERSAR) nesse favorecimento e na falta de
transparência dessas negociatas.
Os escândalos com a concessão do abastecimento de água a
Barcelos, a remunicipalização dos serviços de águas
de Mafra, entre tantos outros casos, não puderam deixar de ser
noticiados.
Desde que se começaram a consolidar as privatizações da
água, estes e muitíssimos outros factos, inventários,
análises comparadas e estudos, escândalos e casos de tribunal, em
Portugal e no estrangeiro, que ilustram os efeitos perversos desses
negócios, têm vindo a público e são invocados nos
debates e programas autárquicos das forças políticas
progressistas.
Curto artigo
"Privatização disfarçada sob o manto da
concessão"
[3]
(Pedro Ventura, 2015) apresenta dados relevantes sobre os volumosos encargos
públicos com algumas concessões.
Por outro lado, e para citar só um exemplo muito recente, em Julho de
2017 a DECO publicou na revista Proteste nº392 uma
"Investigação sobre tarifários de água",
que termina com a caixa
"Concessões geram tarifas mais caras:
(... ) O nosso estuda revela, mais uma vez, que a maioria dos municípios
com preços mais elevados pertencem a concessões".
(Salvo seja, digo eu, os municípios "pertencem" aos
portugueses!)
Em conexão com esse artigo, a DECO disponibilizou no portal da internet
uma infografia em que lista os "10 Municípios mais caros por ano
(10m3/mês)"
[4]
. Cruzando dados, evidencia-se que desses dez municípios, os oito
primeiros (mais caros) são privatizações do abastecimento
de águas e a recolha de águas residuais por concessões a
empresas privadas, nomeadamente: Indáqua, AGS, AQUAPOR e BEWG
[5]
; o nono é ainda uma concessão, a uma sociedade anónima
de capitais públicos e direito privado, a "Águas da
Região de Aveiro".
O Projecto de Lei "Protecção dos direitos individuais e
comuns à Água"
[6]
[7]
, proposto em 2013 à Assembleia da República por mais de 43
mil cidadãos eleitores, mostra a larga mobilização pela
propriedade e gestão pública da água, por
órgãos de direito público.
A sua tramitação na Assembleia da República
[8]
evidencia a fracturação política e ideológica
sobre este tema, que contrapõe o interesse dos trabalhadores e da
população em geral aos interesses do capital.
Este projecto de Lei transpunha para a legislação nacional o
direito à água e ao saneamento nos termos aprovados pela
Assembleia da Nações Unidas
[9]
, em 2010, e travava a privatização da água e do
domínio público hídrico, nomeadamente, proibindo novas
concessões e a renovação de concessões cessantes e
fazendo reverter para entidades de direito público as concessões
a empresas e sociedades anónimas de capitais públicos. Cumpria a
condição, obrigatória para uma iniciativa legislativa de
cidadãos, de não trazer qualquer redução de
receitas ou aumento de despesa para o orçamento público.
Foi votado o mesmo texto duas vezes na Assembleia da República, em
Outubro de 2014 e novamente, reapresentado pelo PCP e pelo BE, em Dezembro de
2016. Foi em ambas as vezes rejeitado na generalidade por maioria na
primeira vez, pelo PSD e CDS; na segunda vez, quando esses dois partidos
somados já não constituíam maioria, pelo PSD, CDS e PS,
que também votou contra, quando o seu voto foi necessário para
impedir que algum dos artigos do projecto de lei fosse aprovado.
Em Junho de 2017, o relatório de missão a Portugal do Relator
Especial das Nações Unidas sobre os direitos humanos à
água e
saneamento (Report of the Special Rapporteur on the human rights to safe
drinking water and sanitation on his mission to Portugal)
[10]
sublinha que o direito fundamental à água e ao saneamento
não está reconhecido na Lei Portuguesa e que esse importante
direito não está assegurado universalmente em Portugal. As
"conclusões e recomendações" desse
relatório centram-se inteiramente em medidas para assegurar a
universalidade do direito fundamental à água e ao saneamento, com
ênfase para a transposição desse direito para a
legislação portuguesa.
É expectável que enquanto a soma de deputados do PSD, do PS e do
CDS for maioritária na Assembleia da República, prevaleçam
os interesses do cartel dos negócios da água na
legislação portuguesa e não seja, por isso, reconhecido em
Portugal o direito fundamental à água e ao saneamento.
Mas, como são as Câmaras que têm as
atribuições e competências nos serviços de
águas, a eleição desses partidos, ou
"pseudo-independentes" ao seu serviço, é objectivo
central do cartel das águas. Muito em especial, o ataque à CDU
(PCP e PEV), cuja forte presença autárquica tem sido o maior
obstáculo aos seus negócios.
É em defesa do seu exclusivo interesse de embolso e contra o direito
universal à água e ao saneamento, contra o interesse
público e contra o interesse particular de todos e cada um dos utentes
da água. que a AEPSA vem contradizer os factos públicos e
notórios, para, com o seu ruído, enganar o povo e fazer eleger os
seus apaniguados nas eleições autárquicas.
3. A campanha da AEPSA
Propaganda corporativa
Em fins de Julho deste ano, já em plena pré-campanha de
eleições autárquicas, diversos órgãos de
comunicação, pertencentes a fortes grupos económicos que
actuam em Portugal, publicitaram propaganda falsa pela
privatização dos serviços públicos de água,
difamando os serviços públicos de águas e deturpando a
história dos serviços públicos de abastecimento de
água e saneamento em Portugal.
Trata-se de propaganda corporativa, que a Wikipédia define assim:
"Propaganda Corporativa (Corporate Propaganda) refere-se à
propaganda disseminada por uma empresa (ou empresas) com o objectivo de
manipular a opinião pública em relação a essa
empresa, e suas actividades.
O uso da propaganda corporativa pode ser frequentemente encontrado nos campos
de publicidade, "marketing", política, história e
relações públicas". [...]
[11]
O cartel de empresários dos negócios monopolistas da água
montou esta campanha de propaganda corporativa
com o objectivo de manipular a opinião pública em
relação
a esse cartel
, e suas actividades
(os negócios monopolistas privados com a água e serviços
públicos).
A campanha visa simultaneamente os cinco campos listados na Wikipédia,
manipulando a opinião pública nomeadamente: com
publicidade
enganosa e
"marketing"
dos produtos e serviços que vendem, interferência
política
na agenda de privatização da água e no processo das
eleições autárquicas, deturpação da
história
do abastecimento de água e saneamento em Portugal e
relações públicas
para tentar minimizar a contestação muito generalizada dos
portugueses à imposição das suas "actividades",
"produtos" e "serviços".
Propagandeiam a "superioridade" e "menores custos
públicos" das concessões a privados, denegrindo os
resultados positivos dos serviços públicos, a pretexto de um
misterioso estudo, alegadamente contratado ao IST, que provaria todas as
alarvices que são desbocadas pelos negociantes da água e pelos
grupos políticos que os apoiam.
Ora, o que é facto provado e documentado é que as
concessões existentes em Portugal de serviços de águas e
esgotos a privados são gravemente dolosas para o Orçamento
Público e resultam em tarifários mais elevados para os utentes,
sem nenhum benefício em qualidade de serviço.
O alegado estudo do Instituto Superior Técnico é o
"escrito" de uma pessoa só, que assume em exclusividade a sua
autoria. E, dissonância de salientar, afinal esse escrito não
mostra coisa nenhuma do apregoado.
É uma fraude protagonizada pela AEPSA (associação dos
empresários privados dos negócios da água em Portugal) e
veiculada pelos grupos económicos que controlam grandes meios de
comunicação, com a cumplicidade de alguns serviçais desses
interesses de capital que ocupam cargos públicos.
É provável que esta acção tenha pouco impacto
directo na opinião pública dos portugueses, que muito
maioritariamente e cada vez em maior número se têm oposto à
privatização dos serviços de água e que são
insultados no discurso emproado e falso dos negociantes da água e seus
missionários remunerados.
Mas esta é uma acção ainda incipiente de
pré-campanha, tendo já sido anunciada a grande
acção de campanha a "
Porto Innovation Water Week
", com o mesmo fim, de muito maior impacto mediático e com grandes
recursos mobilizados, que decorrerá no Porto de 24 a 29 de Setembro, os
últimos dias de Campanha.
Com apoio do Governo e participação de detentores de cargos
públicos na Administração Central, contará com
extensa intervenção de proeminentes missionários
estrangeiros da privatização da água, em especial da
privatização dos serviços de água: uns do
lobby
político na CE, outros com cargos sonantes no cartel dos
negócios da água. Culmina com a "
Mayors & Water Conference 2017
" (Presidentes da Câmara e Água) programada para o dia 29 de
Setembro, o dia de fecho da campanha autárquica, assegurando assim a
ausência massiva (e silêncio) dos autarcas portugueses.
Para encher os jornais e televisões, no "dia de
reflexão", de ataques às competências
autárquicas e propaganda importada em prol da privatização
e empresarialização dos serviços de água.
Este é um exemplar caso de estudo do "modo de
operação" comum ao cartel dos grandes grupos
económicos que negoceiam coisas públicas e, neste caso, a
água.
A instalação da máquina de propaganda corporativa,
manipuladora e baseada na apresentação como "autoridade
científica" de pseudo-estudos e argumentários falseando os
factos com fortíssima componente ideológica de propaganda ao
"mercado livre" capitalista, proliferou em crescendo nas
últimas décadas do século passado e nos primeiros anos do
século XXI.
Esta matéria, em conexão com a manipulação e
corrupção política, é aprofundada e profusamente
documentada em várias obras da autora australiana Sharon Beder, em
particular nos livros publicados em 2006
"Suiting themselves How Corporations Drive The Global Agenda"
e
"Free Market Missionairies The corporate manipulation of comunity
values"
[12]
[13]
[14]
É essa faceta de actuação política dos
privatizadores da água que releva expor e desmontar.
Como a AEPSA montou a fraude
A AEPSA (associação dos empresários privados dos
negócios de serviços de águas e resíduos urbanos em
Portugal) comprou um "estudo" cujos resultados
pré-determinaram, bem como a declaração desses
"resultados" à imprensa.
"Diz" o jornal
O Público
que essa compra terá sido feita através de um contracto, cujo
teor não é conhecido, com o Instituto Superior Técnico
(IST). Nada o confirma, mas também não foi desmentido.
A instituição IST não subscreve nem avaliza o documento
produzido: nem como autor, nem como editor, nem com um "visto" de
qualquer conselho, órgão científico ou dirigente, nem
é noticiada sequer qualquer presença ou
representação institucional desse organismo na
apresentação do referido estudo.
Então, caso haja algum contracto (o que ponho em dúvida), o IST
será apenas um intermediário comercial, que cobra comissão
sobre a prestação individual de um seu assalariado, sem qualquer
envolvimento científico ou controlo de qualidade sobre essa
prestação.
O "estudo" é assinado por autor único, que é
também único a assumi-lo publicamente
Rui Domingos Ribeiro da Cunha Marques
, que lecciona no Instituto Superior Técnico algumas disciplinas que
nada têm a ver com abastecimento de água ou saneamento
[15]
.
Exerce também actividade esporádica em duas
escolas de negócios
[16]
, nos EUA e Austrália, afirma-se consultor do Banco Mundial e oferece
serviços de consultoria.
A informação sobre as áreas de qualificação
académica é muito vaga, mas as privatizações
são explícitas nas suas "áreas de interesse" e a
lista de publicações e consultorias indicia claramente a
especialização em propagandear negócios, muito
especialmente negócios privados com coisas públicas.
Claramente, exerce a rendosa "profissão" que dá o
título ao livro de Sharon Beder, "Missionário do Mercado
Livre".
O autor único produz o tal "estudo", que a AEPSA resguarda
muito bem do exame público.
Se o "estudo" de facto demonstrasse, ou contribuísse
minimamente para demonstrar, alguma vantagem pública das
privatizações da água, se, pelo menos minimamente,
contradissesse os muitos danos largamente documentados, se sustentasse, mesmo
fracamente, o argumentário privatizador, seria imediatamente afixado na
internet, propagandeado e tornado acessível ao público em grande
escala.
Assim e pelo contrário, teve uma distribuição
restritíssima, num formato muito dificilmente reprodutível. E
é uma leitura intragável. Dos selectos presenteados, para
além dos empresários da AEPSA, não se encontra nenhum que
publicamente confesse ter lido, ou sequer folheado, o "estudo".
É óbvio que, mesmo assim, é muito inconveniente para a
AEPSA "mostrar" o estudo.
A estratégia foi propagandear que "possuem um estudo do IST"
intitulado
"Análise do Desempenho dos Operadores Privados e Públicos no
Sector da Água em Portugal"
e que esse estudo "demonstra" tal e tal coisa.
Fazem uma cerimónia restrita de apresentação no Centro de
Congressos do CCB, para a qual asseguram a presença de alguns
personagens favoráveis à privatização da
água.
O Público,
órgão da SONAE, produz a peça base de propaganda para os
meios de comunicação:
-
Cita profusamente o autor do estudo, Rui Cunha Marques, pregando
ex catedra
, várias alegações não fundamentadas. uma
série de afirmações estafadas do discurso político
privatizador, debitando uma profusão de números convenientes
surgidos do nada e que remete para o
seu
"estudo"; declara que
"são vários os estudos internacionais incluindo de
prémios Nobel"
(não identificados)
que reconhecem tal e tal superioridade dos operadores privados sobre o
serviço público.
-
Cita abundantemente o director(?) da AEPSA, Francisco de Mariz Machado, que
emite as opiniões e argumentos que era de esperar dos
beneficiários dos lucrativos negócios da água.
-
Cita o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, que não
manifesta ter lido o "estudo", mas repete argumentos
favoráveis à privatização da água, que, como
é bastamente sabido, tem sido prática continuada do PS na
Assembleia da República, no Governo e nas Autarquias, contra a vontade
da maioria do seu eleitorado e é, por isso, uma pedra no sapato desse
partido nestas eleições autárquicas.
Nada de novo e que não tenha sido já profusamente rebatido e
desmentido pelos factos reais.
Pretendem impor a fábula como dogma, contra a lógica e contra os
factos, invocando "Autoridades": o alegado estudo atribuído ao
Instituto Superior Técnico, os invocados mitos de "estudos
internacionais" e "prémios Nobel" não citados nem
identificados, o discurso político enviesado do secretário de
estado.
A peça propagandística de
O Público
é publicada em 24 de Julho de 2017 com o título
"Estudo do IST diz que privados são melhores a gerir a
água"
e passa a substituir o "estudo" não divulgado. É
repercutida e amplificada nos órgãos de comunicação
ao serviço do capital e nos portais dos empresários dos
negócios da água, com espampanantes títulos tais como:
-
TVI24:
"Água: privados com melhor serviço e mais barato"
-
Jornal
Água e Ambiente
(ligado à AEPSA):
Água: privados são mais eficientes, revela estudo
-
Jornal de Negócios:
Estudo: Sector privado da água é mais eficaz e presta melhor
qualidade de serviço
O DISSE QUE DISSE
Finalmente, jornais e televisões
disseram
que
O Público
disse
que um Professor
disse
que fez um estudo que
diz
tais e tais coisas.
Neste
disse
que
disse
, e como "quem conta um conto acrescenta um ponto", cada vez
dizem
mais maravilhas dos negócios privados com a água pública.
Reacção em cadeia, que permite a cada propagandista escudar-se em
ditos
alheios para difundir as falsidades que lhes convém.
A chave desta operação é fazer o povo acreditar num
conjunto de patranhas exclusivamente
pela fé
na veracidade do missionário.
Os vendedores de remédios mágicos para todos os males, que do
alto da carroça reuniam gentes a quem citavam dezenas curas repentinas
das doenças, ex-calvos com cabeleiras exuberantes após algumas
aplicações, os furúnculos curados do Bispo tal, as feridas
saradas de cicrano, o rejuvenescimento de beltrano ... muitos números,
nomes e factos.
Em acreditando
, compra-se obviamente a mistela miraculosa.
Os "contos de vigário", em todas as suas variantes,
reinventadas e renovadas através dos tempos, são sempre
protagonizados pelo "vigarista" e um ou mais, "papalvos". O
"vigarista", com uma aparência insuspeita, conta uma
história fora do vulgar citando factos e testemunhos e o papalvo
é burlado se acredita no vigarista. Quantas vezes se queixa depois:
"mas era um senhor tão sério e bem-educado, explicou tudo
tão bem, mostrou-me documentos..."
Casos assim vemos imensas vezes nas notícias, pelos mais aberrantes
motivos.
É uma operação de manipulação da
opinião pública pelo cartel dos negociantes da água.
Com o objectivo óbvio de influenciar o voto nas eleições
autárquicas e de escudar as forças políticas que, contra a
vontade expressa das populações, têm vindo a privatizar a
água pública.
4. A doutrinação e o missionário
A pregação de uma doutrina
O cartel das empresas da água pretende impingir ao povo uma
doutrina
, com seus artigos de fé.
Nada de novo. É a doutrina do capitalismo financeiro puro e duro, o
imperialismo,
[17]
, a propaganda de imposição de uma "ordem mundial"
oligárquica, governada pelo capital financeiro
[18]
em oposição à democracia. Com os seus eufemismos de um
tal "mercado", que de facto é a acumulação e
concentração de capital e poder num grupo cada vez mais restrito
de enormes capitalistas transnacionais
[19]
.
Neste caso em concreto, focam a privatização da água e a
abolição dos serviços de água em prol da
concentração de capital no cartel dos negociantes da água.
Salientam-se as seguintes linhas doutrinárias:
-
a "deificação" do "mercado da água"
eliminando o "direito à água e ao saneamento"
-
a eliminação dos serviços de água a substituir por
"negócios rentáveis da água"
-
a subida dos tarifários e facturação da água por
imposição da Administração Central, assimilando-os
aos "mais rentáveis", a título de "igualdade"
e "prosperidade do mercado", para eliminar os efeitos das
diferenças mais óbvias de políticas autárquicas e
as diferenças evidentes entre serviço público e
negócio.
-
a transferência de capitais públicos para as empresas privadas,
"a bem do mercado".
Assinala-se ainda a insistência em repetir que "concessão
não é privatização".
Quando se fala de privatização da água trata-se geralmente
de concessão, é a forma de privatização mais
corrente.
Creio que não há dúvidas e não vale a pena
detalhar. Mas quem não estiver suficientemente esclarecido, pode
consultar, além do artigo de Pedro Ventura, 2015, já acima
mencionado, dois textos de intervenções na
"mesa redonda: Privatização e concessão da
água,
há diferença?"
organizada pela Fundação de Serralves e LPN,
[20]
; num artigo de 2002, "A Fronteira da Água"
[21]
expus já esta e outras formas menos visíveis de
privatização da água, inserindo-as na luta pelo poder das
muito grandes multinacionais.
Argumentação o sofisma-base
A AEPSA é uma associação de interesses de negociantes
privados da água. Esses interesses são contrários aos
interesses de todas as restantes pessoas, como utentes e como pagantes
da água, dos serviços de águas e de todos os outros
serviços e prestações do Estado e das Autarquias (para
além de muitos outros interesses e direitos que não vou referir
aqui).
Isto não é nenhuma teoria abstracta. É bastante evidente
por dedução, mas, estando infelizmente em prática uma
quantidade de privatizações e havendo também longa
vivência de bons serviços públicos, milhares de dados reais
e centenas de casos de estudo, em todo o mundo e em Portugal, é uma
constatação de factos que as privatizações dos
serviços de água são muito danosas para os utentes,
são ruinosas para as finanças autárquicas e gravosas para
o orçamento público. Dados, análises profundas dos casos
reais, escândalos sobre escândalos.
Assim, é cada vez mais generalizada a consciência social desses
prejuízos para a população em geral. Esta
consciencialização tem efeitos políticos, nomeadamente, e
não só, porque decisões
obviamente
contra os interesses dos eleitores têm custos eleitorais, especialmente
nas eleições autárquicas.
O conflito de interesses centra-se em "de onde para onde" corre o
dinheiro e a riqueza:
-
de um lado, as fortunas privadas dos negociantes da água;
-
do outro lado, os rendimentos particulares dos milhões de pessoas mais
os bens comuns e os dinheiros públicos que lhes pertencem colectivamente
e deviam ser equitativamente usados e postos ao serviço do bem-estar e
qualidade de vida desses milhões de pessoas.
-
a riqueza corre de lá para cá, ou de cá para lá.
São sentidos opostos.
Portanto, o que é "bom" para a cartel dos negócios da
água é "mau" para os utentes. E vice-versa.
A acção da AEPSA incide exclusivamente em confundir os eleitores
sobre este antagonismo, para que votem contra si próprios, ou para que
se abstenham de votar; e para que aceitem os políticos corruptos que
utilizam o poder concedido pelo voto para favorecer os interesses
antagónicos aos dos seus eleitores (e aos de quem votou noutros, mas
come por tabela).
Propagam para isso uma DOUTRINA absolutista, que parte de um postulado que
oblitera o antagonismo:
-
OU a privatização é MÁ
-
OU a privatização é BOA
Em absoluto, como se a transferência de riqueza de uns para outros
pudesse alguma vez ser "boa" ou "má" para ambos os
lados em simultâneo.
Daí, sempre omitindo o sujeito, desenvolvem as vantagens para o cartel
dos concessionários, ou seja, que é um negócio muito
rentável com lucros sempre garantidos muito superiores aos custos.
Mostram também que o serviço público arrecada menos lucros.
Logo, o negócio privado "é melhor".
Logo, concluem que a privatização é "boa".
Se é "boa" não pode ser "má". Logo,
é falso que seja "má" ... e por aí afora.
Este raciocínio é um sofisma
[22]
, ou refutação sofística, uma técnica de
argumentação de má fé para defender algo falso e
confundir o contraditor.
A técnica do sofisma vem sendo estudada e utilizada há dois
milénios e meio, sempre desenvolvida e apurada com requintes de
circunvoluções e repetições para confundir a
contra-argumentação.
O objectivo é induzir o contraditor menos treinado a contestar as
qualidades atribuídas à privatização, ou seja,
contestar os detalhes de que é "um excelente negócio";
e logo aí fica perdido, porque é incontestavelmente um
negócio milionário.
O que tem de ser desmontado é o vício do raciocínio,
escondendo o conflito de interesses e evidenciando as "qualidades"
para um grupo de interesses, ou classe, como se fossem também
"qualidades" para o grupo antagónico, que são, no caso
presente, todas as outras classes.
Ou seja:
"Sim, a privatização da água é um
negócio muito rentável e "eficiente". Põe muito
dinheiro na
sua
conta; e quanto melhor negócio e mais rendoso é para si, mais
danoso para mim, porque é o
meu
dinheiro que abastece a
sua
conta".
É uma fraude comparar o cash-flow do concessionário com o
cash-flow da Autarquia que presta directamente os serviços.
Mesmo exclusivamente sob o ponto de vista financeiro e de
cash-flow
, o que haveria a comparar seria a vantagem ou prejuízo para as
Autarquias, que têm a atribuição e competência de
prestar os serviços de abastecimento de água, recolha e
tratamento de águas residuais e águas pluviais em
"concessionar" (privatizar) ou prestar directamente o serviço.
Está provadíssimo e todos os dias são publicitados mais
dados que o confirmam, os contractos de concessão são ruinosos
para o Municípios, financeiramente muito menos "eficientes"
que a prestação directa de um serviço melhor, mais barato
para os utentes e mais inclusivo.
Se compararmos os balanços financeiros das despesas e receitas com
abastecimento de água, águas residuais e águas pluviais
das Autarquias que privatizam com os daquelas que não privatizam,
torna-se evidente que há enorme diferença, a favor do
serviço público. E aí está o relatório do
Tribunal de Contas a documentá-lo. Haveria que somar ainda a
diferença de colecta aos utentes, pelos tarifários mais altos e
custos de outros serviços (ramais, religações,
esvaziamentos de fossas sépticas, etc); e considerar ainda, a celeridade
nos cortes de água e os custos enormes de religação.
Fazendo as contas "sérias", a conclusão é
completamente inversa do que pretende convencer-nos, fraudulentamente, o cartel
dos concessionários privados.
Mas a água é um direito de todos, não o negócio de
alguns.
Todas as "vantagens" da privatização da água
alegadas pelo cartel dos concessionários privados são como
"negócio", como "exploração de
mercadoria".
O que satisfaz os utentes da água é um serviço universal,
de qualidade, a satisfação do direito universal à
água e ao saneamento. O mais barato possível, idealmente
gratuito. Controlado democraticamente pelos utentes, transparente e universal.
Um serviço público é o contrário de um
negócio.
A transformação do serviço público prestado pela
Autarquia em negócio, pela empresarialização, passagem ao
direito privado ou concessão a privados, não só demite a
Autarquia de uma responsabilidade que é fundamental, como muda o
objectivo:
o objectivo do serviço público é a
optimização da qualidade da prestação,
da universalidade e equidade de satisfação de um direito
fundamental
, da acessibilidade económica do abastecimento de água e
saneamento, que é um direito fundamental de todas as pessoas e faz parte
do direito à vida. Uma prestação idealmente gratuita e,
que, no mínimo, tem de ser garantida a toda e qualquer pessoa, em
quantidade e qualidade adequada, mesmo que não possa pagar sem se privar
de outros direitos fundamentais e constitucionais à vida,
à habitação, à saúde, à
educação, a uma alimentação saudável, ao
ambiente...
o objectivo da empresa de direito privado é o lucro e foca a
gestão nos dinheiros, a optimização do balancete
financeiro e na facturação aos utentes, ao qual subordina a
qualidade e universalidade da distribuição de água e
saneamento de águas residuais. É a negação do
direito fundamental à água e ao saneamento, o alijamento da
obrigação autárquica de garantir esse direito, a
negação de todo e qualquer o direito só existe
troca comercial quando é vantajosa para o fornecedor, com preços
impostos e sem alternativa.
Os critérios de "eficiência" e
"eficácia" da AEPSA referem-se todos ao
negócio
e ao
cash-flow
do prestador.
Quanto mais "eficiente", nesse sentido é a entidade
prestadora, mais se afasta de um serviço público e mais se
transforma num perverso negócio de extorsão, iniquidade,
agravamento das desigualdades económicas e privação de
direitos fundamentais.
A "Autoridade" para instituir o "dogma"
A doutrina pregada é, exclusiva e cruamente, um ideário
capitalista puro e duro.
Claro que é uma "ideologia", mas uma ideologia que não
dá jeito nenhum discutir em público, nem que alguém
oiça contrapor-lhe argumentos.
Ou, talvez mais em rigor, uma "anti-ideologia": a
negação ao adversário da faculdade de pensar, da
filosofia, do pensamento político, da crítica e da
contradição.
Faz parte da propaganda apresentar a sua doutrina como
"solução única", ideologicamente neutra, produto
"científico" de "cérebros superiores". Uma
religião "única" e verdadeira.
Fogem como o diabo da cruz a todo o debate político, filosófico,
social ou ideológico, que põe a nu os seus intentos e prejudica
nas eleições os candidatos ao seu serviço.
Por isso é recorrente e atravessa toda a pregação
doutrinária a repetição da "isenção
ideológica" e "verdade científica" do que afirmam.
Pretendem impor a doutrina pela AUTORIDADE de ENTES SUPERIORES "sem
ideologia", nem "política", nem "interesses",
cuja sabedoria não é acessível aos cidadãos
eleitores a quem só resta a FÉ nos DOGMAS estabelecidos pelos
tais ENTES SUPERIORES.
E para pregar a doutrina precisam de um PROFETA em contacto e conhecimento
privilegiado das mensagens dos
entes superiores.
O melhor que conseguiram arranjar foi um funcionário do IST, fazendo
entender que, por essa posição, estava imbuído da
"sabedoria acumulada" dessa instituição e fazendo-o
passar pela voz do IST que, de forma alguma, está autorizado a
representar. Então, a autoridade de "ente superior" é
atribuída ao IST, do qual o dito cujo funcionário se apresenta
como Profeta.
Para escudar essa autoridade, alardeiam imprensa e televisões que o
discurso do Profeta reproduz "tábuas da lei" corporizadas num
"estudo do Instituto Superior Técnico".
Na cerimónia de apresentação dos "resultados do
estudo", está presente o secretário de Estado do Ambiente,
Carlos Martins; o jornal
O Público
menciona também o presidente da ERSAR, Jaime Melo Baptista e contacta,
a propósito, o ministro do Ambiente. Nenhum deles admite ter lido o
"estudo", mas prestam-se a dar-lhe credibilidade e a reforçar
a imagem de "isenção" pretendida pelo cartel dos
negócios da água.
Grande cobertura de imprensa e essas figuras públicas compõem
assim a "imagem" de "Autoridade" à mensagem do
Profeta.
Apoio de jornais e televisões que sabemos a quem pertencem e que
têm a função de pregar a doutrina do capital?
[23]
Apoio do Governo PS, que, tal como o PSD e o CDS, tem sido fidelíssimo
servidor do cartel de negócios da água?
[24]
Apoio do PS, na sua própria campanha eleitoral?
Apoio de Jaime Melo Baptista, que preserva invicto através de Governos
PS e PSD-CDS o muito bem remunerado e poderoso cargo de presidente da ERSAR,
entidade com um conselho de administração corporativo onde
têm assento as empresas privadas, que tem instrumentalizado o ataque
às competências autárquicas e a imposição de
subidas tarifárias
[25]
, que é censurada pelo próprio Tribunal de Contas por
incumprimento das recomendações de protecção do
interesse público?
[26]
Quem é enganado por esses "dogmas"?
E quem não reconhece essa doutrina?
5. O alegado "estudo"
O documento escondido
Não foi fácil obter o alegado "estudo": a
distribuição foi muito estrita e muito seleccionados os
contemplados; obtendo-se um desses poucos exemplares, foi preciso cortar a
encadernação para conseguir fazer uma cópia digitalizada e
só se consegue ler com esforço depois de impresso.
Tamanho A4, 100 páginas mais preâmbulo e capas; texto em
cinzentinho claro, títulos em azul e várias páginas a
cores, umas só para "enfeitar" e outras com quadros e
gráficos.
Gastei uns euros vários para imprimir a preto e branco ... consultando
depois a digitalização a cores em casos de dúvida.
É óbvio que a edição foi feita para "encher o
olho", mas para não ser lida nem para ser reproduzida.
Foi distribuído em conjunto com três páginas intituladas
"sumário executivo", de discurso doutrinário com as
"mensagens" que a AEPSA pretende passar.
Assinala-se que não há qualquer referência ao IST nesse
sumário.
O "estudo" cinge-se a uma escolha "conveniente" de
apontamentos e extractos salteados e pontuais, nem sempre fiéis, de:
-
Relatórios da ERSAR, essencialmente o RESARP 2016,
-
Uma publicação sobre legislação autárquica e
-
O PEAASAR 2020 (PEAASAR III);
Junta algumas manipulações de dados extraídos dessas
fontes e comentários a gosto o todo vem profusamente
"acondicionado" no discurso doutrinário já referido e
nas invectivas contra quem diga outra coisa.
Não foi feito para ser publicado ou examinado só era
preciso ter "um livro fechado", que diz tal e tal coisa ... e para
isso servia muito bem uma molhada de folhas qualquer.
Mesmo dando a cara nos eventos, sendo participantes activos e solidários
na campanha do cartel da água, Jaime Melo Baptista e Carlos Martins
tiveram todo o cuidado em recusar avalisar o "estudo", ou sequer
emitir uma vaga opinião sobre ele, mesmo quando directamente inquiridos
pelo jornal
O Público
...
Ora, ora, porque seria?
A capa
Verdadeiramente original é a capa. Digna de menção e de
ser conhecida.
Luís XIV, cognominado o "Rei Sol", disse: "L'état
c'est Moi" (O Estado sou Eu).
Rui Cunha Marques, caracterizado de "Espírito da Água",
exibe: "O Instituto Superior Técnico sou Eu".
A capa tem um grafismo em tons de azul e verde que ocupa mais de metade da
página; qualquer coisa com "ondas" que invoca o mar imenso,
muito para além do assunto do trabalho, que é a água nos
canos.
No canto superior esquerdo um pequenino símbolo do IST (ou parecido) com
a inscrição TÉCNICO LISBOA; em baixo, em maiúsculas
de corpo cerca de 5mm, o título:
ANÁLISE DO DESEMPENHO DOS OPERADORES PRIVADOS E PÚBLICOS NO
SECTOR DA ÁGUA EM PORTUGAL
(negrito) e em seguida, também maiúsculas, no mesmo tipo de
letra e tamanho, sem negrito, o nome do autor RUI CUNHA MARQUES.
Na contracapa, fundo azul, nome, nota biográfica de Rui Cunha Marques
com foto em evidência, cristalizada numa gota e abaixo, itálico, a
declaração da bondade e preço módico dos privados;
no pé de página o mesmo símbolo invocando o IST.
O capeamento prova o que já foi dito atrás sobre a autoria e
exclusiva acreditação do texto ser o indivíduo contratado
para o efeito.
Esse indivíduo usa o símbolo do IST como um emblema na lapela e
sempre associado à sua pessoa mas em lado nenhum, nem na capa nem
no interior da publicação, aparece a designação
oficial dessa entidade, nem qualquer menção que a responsabilize.
Por norma geral, na identificação de um "estudo" feito
por encomenda aparece sempre em mais evidência na capa a entidade
contratante, depois a entidade contratada, executora, e só depois,
muitas vezes só no interior do documento, os indivíduos autores
do trabalho, coordenadores e equipa técnica.
Neste caso, nem a AEPSA que assume ter encomendado o estudo nem o
Instituto Superior Técnico a quem as notícias o pretendem
atribuir assumem a "propriedade", a "autoria" nem
qualquer responsabilidade ou credibilização do que aí vai
escrito.
É óbvio que o objectivo é pôr na boca da
instituição IST as declarações encomendadas pela
AEPSA a Rui Cunha Marques, mas não se atrevem a falsificar formalmente a
autoria.
E foi isso que transmitiram os jornais: "estudo do IST" diz tal e tal
coisa.
Fraude que se desmente logo nas capas do documento propagandeado.
Os conteúdos gerais
O índice do "estudo" anuncia um
Preâmbulo
e cinco capítulos, designadamente:
1 - Introdução;
2 - Enquadramento Legal e Institucional;
3 - Setor da Água Em Portugal:
4 - Desempenho dos Setores Público e Privado
5- Conclusões e Notas
No fim, a
Bibliografia.
Todo o texto é assertivo, argumentativo e doutrinário, primando
por uma pobreza de fontes, de referências e de dados, referindo-se
amiúde a si próprio como única
"referência" de suporte às próprias
afirmações e argumentos.
É um monólogo político oco e repetitivo, insistindo na
"isenção" e "imparcialidade", para
constantemente se repetir na evocação de uma
argumentação vazia e estafada de elogio sem peias dos
negócios privados da água e na adjectivação
difamatória dos oponentes.
Baixo, presunçoso, descuidado, revelando profundo desconhecimento do
sector, da história, dos dados, das engenharias pertinentes e das outras
matérias técnicas, científicas, sociológicas,
económicas e operacionais pertinentes à análise e
diagnóstico do abastecimento de água e do saneamento
é um documento de péssima qualidade, profundamente
desagradável.
Perdoem-me a adjectivação e o desabafo mas tive de ler o
documento de fio a pavio, uma tortura imposta pela justa causa
ideológica de fazer o contraditório.
Deixo de lado o enviesamento, as distorções os erros, as
doutrinas e argumentos do autor; analiso mais abaixo o capítulo quarto
é, pressupostamente o "estudo" onde apresenta os alegados
"indicadores de desempenho" e algumas outras
"comparações numéricas" eventualmente
susceptíveis de induzir em erro ou confusões.
Os capítulos primeiro e o quinto são exclusivamente argumentativos
Os capítulos segundo e terceiro apresentam descrições
tendenciosas e orientadas para as conclusões; são essencialmente
apontamentos salteados de um livro sobre legislação e do
relatório anual do ERSAR, semeadas de
"interpretações" e comentários.
O capítulo 3, intitulado "Setor água em Portugal"
começa pelo título "Estrutura de Mercado" (cada um
vê o que quer) e depois "números do sector", onde
respiga uns poucos números e gráficos salteados que diz serem da
ERSAR.
Como há muitas publicações da ERSAR, com vários
volumes e anexos, e nunca é referenciada correctamente a fonte
(título do documento, volume, data, página ou capítulo)
ninguém consegue confirmar sequer a fonte e o enquadramento dos
números e gráficos apresentados não se pode
confirmar coisa nenhuma.
Pesquisei no RASARP 2016 a publicação mais recente com uma
"descrição geral do sector" no volume 1
encontrei um dos gráficos (com legenda diferente), mas nem rasto de
alguns dos outros números ou gráficos; e desisti da pesquisa.
Algumas afirmações são incoerentes com dados mais
robustos, por exemplo:
"De acordo com o ERSAR 96% dos alojamentos em Portugal dispõe de
serviço de abastecimento de água"
e
"desde 2011, não tem existido aumento significativo do
abastecimento de
água"
(pag 34) ora o censo de 2011, inquirindo casa a casa, encontrou 99,5% da
população residente com água no alojamento, da qual 87,9%
abastecida por rede pública. De onde vem o valor de 96%, na mesma data,
é um mistério insondável.
Apesar de várias referências a tarifários e
muitíssimas a dinheiros, a única "amostra"
tarifária que este estudo apresenta é no capítulo
terceiro.
Apresenta parcialmente os tarifários da EPAL em Lisboa, (identificando-a
erradamente como "Empresa Pública", que deixou de ser, desde
que o DL 230/91 a transformou em Sociedade Anónima de direito privado) e
em mais quatro concelhos: um com Serviços Municipalizados, outro
Serviço Municipal, outro, concessão a uma empresa de capitais
públicos (parceria Público-Público) e, finalmente,
concessão a empresa privada.
Não faz um cálculo de facturas para diversos consumos, conforme
é costume nestas comparações, só apresenta
"parte" do regulamento tarifário.
Tudo muito bem escolhidinho, consegue uma aparência geral
"parecida" entre as cinco e espera-se que as pessoas não se
vão pôr a fazer contas de cabeça.
Fazendo as contas, vê-se que a "tarifa fixa" muito mais alta da
empresa privada (mais de dupla dos serviços municipais, para água
e esgoto) tem um peso muito grande no global da factura e sobrecarrega
desproporcionadamete os pequenos consumos, anulando a vantagem do escalonamento.
Descarregando do site da ERSAR os regulamentos tarifários, verifica-se
por exemplo, que, na empresa privada, as parcelas fixas de água e esgoto
que são muito altas duplicam se o calibre do contador for
superior a 20mm; enquanto que todas as outras têm uma tarifa fixa sempre
igual para o esgoto e a tarifa fixa da água é a mínima
para contadores de calibre até 25 mm, um valor normal para uma
habitação "média-alta".
A Câmara e os SMAS sobem muito significativamente o preço da
tarifa variável por m3 no escalão mais alto, acima dos 25m3/
mês ou seja, uma capitação superior a 200 l/dia para quatro
pessoas, o que é bastante alto num incentivo a uma
moderação "razoável" da utilização
da água. A empresa privada tem preços claramente inferiores
às restantes para esse escalão consumos, o que poderia parecer
"económico" para os utentes que usam muita água. Mas,
para esses níveis de consumo, que geralmente é concentrado em
determinadas horas, terão certamente um contador de água com
calibre de, pelo menos, 25mm ... e lá se vai a economia.
Não vou daqui tirar conclusões é absurdo tirar
conclusões de uma pequeníssima amostragem nem "puxar
brasas à minha sardinha" justificando ou denegrindo qualquer das
entidades referidas.
Só quero exemplificar a má fé deste alegado estudo, que
vai "picar" casos escolhidos e deles apresenta
informação incompleta e distorcida para enganar o leitor.
Comparações de tarifários são importantes, mas
têm de se fazer com o cálculo da factura completa, para
vários níveis de utilização e correspondendo a
capitações razoáveis. Há dados fiáveis e
públicos, é muito trabalhoso, mas correcto e exequível. E,
para tirar conclusões têm de se tratar os dados do universo ou,
pelo menos, de uma amostragem muito significativa.
A DECO fez isso para o artigo e infogramas que já referimos acima: foi
buscar os tarifários todos ou quase todos, tratou-os, apresentou
resultados para determinado intervalo de consumo. Podendo-se criticar o
método, identificar imprecisões ou incorrecções no
cálculo ou discordar das conclusões, é de respeitar,
é um trabalho sério e informativo, pode ser referenciado e citado.
Ao contrário deste "estudo".
E poupo, a mim e a quem me leia, aos outros numerosíssimos exemplos
semelhantes, generosamente distribuídos em toda a extensão do
documento.
Os dados base e os números derivados
O estudo apresenta muitos "números" e "percentagens"
sobre os quais discorre o autor e nos quais diz fundamentar as suas
conclusões.
Esses números e percentagens não são mensuráveis,
são derivações e combinações de outros
números, que seriam os dados-base, medidos ou observados por
alguém, em determinadas condições.
Sem alguma espécie de garantia sobre o rigor dos dados-base (de onde
é que vem esse número? como foi obtido?) não há
qualquer credibilidade no que é construído em cima deles.
Ora aqui começa a trapalhice, porque se perdeu o rasto dos dados-base e
ao autor pouco importa se os números que "apanha", por um e
por outro lado, têm fundamento em observações fidedignas ou
são meras estimativas ou invenções de alguém,
algures, para determinado fim por exemplo, para o preenchimento de uma
ficha burocrática e obrigatória qualquer.
O autor não fez nenhuma recolha de dados-base por
observação directa, nem utiliza dados-base directamente obtidos
por uma entidade especializada e credível, nem faz qualquer
menção sobre as fontes de onde provém os dados-base que
estão por trás dos números derivados que mostra. Usa e
abusa de "valores derivados" apresentados por outrem, sem qualquer
crítica ou critério, excepto convirem ou não às
suas conclusões.
Não tem dados-base e as únicas fontes que indica para os dados
derivados são:
-
O PENSAAR 2020 (PEAASAR III), que é um documento de política,
essencialmente de projecção a prazo e não é, de
forma alguma, um estudo técnico-científico nem uma fonte de dados
fiável;
-
Os RASARP Relatórios Anuais dos Serviços de Águas e
Resíduos em Portugal continental da ERSAR (2004 a 2016) dos
quais apenas usa "alguns extractos" escolhidos a dedo e não
localizados.
Ora o PENSAAR 2020, como os PEAASAR que o antecederam, é um programa
político, um diploma legal de acção proposta pelo Governo
em política da água, não é nenhuma fonte oficial de
dados científicos. Como não são fontes de dados-base os
programas eleitorais, nem outros planos e programas são fontes
próprias para conhecer os compromissos e declaração de
intenções de quem os fez, mais coisa nenhuma.
Se há estudos sérios "prévios" aos planos ou
programas, não são publicados nos diplomas legais e seria preciso
acedê-los, nos serviços de origem, para obter os dados de base.
As publicações da ERSAR, embora apresentadas como "documento
branco", são também fortemente associadas a
propagação doutrinária e contém pouquíssimos
"dados de base"; a ERSAR não faz recolha sistemática
de dados de campo; a informação de base que recebe é das
várias entidades e, dessa, a única "autentica"
são as análises de qualidade da água e os
tarifários aprovados que não publica nos RESAAP e
só disponibiliza, uma a uma, as imagens dos documentos digitalizados.
Desses relatórios, Cunha Marques não usa nem a
informação descriminada sobre qualidade da água, nem
qualquer dado de base; faz extenso uso e abuso de "alguns" dos
designados por "indicadores de desempenho". A filosofia e conceito
desses "indicadores" acentuadamente orientada pela doutrina
capitalista de mercado, como se exemplifica adiante, com o indicador
"perdas de água"; são preenchidos pelas próprias
entidades pressupostamente "avaliadas" e o próprio guia de
aplicação admite, para muitos deles e nomeadamente para quase
todos os que são usados neste "estudo", que sejam
"estimados" pelos "avaliados".
Rui Cunha Marques, que só sabe responder ao contraditório
declarando "ex catedra" que estão imbuídos de
"preconceitos" por "ideologia" e "interesses
políticos"; que desenvolve a teoria de que as Autarquias não
podem ser competentes na prestação de serviços por serem
órgãos políticos, usa, como fontes únicas e
exclusivas de informação e credibilização, sem
qualquer crítica nem comentário, os documentos
políticos
do Governo.
A falcatrua das "perdas de água" e os indicadores de
desempenho da ERSAR
Convém aqui esclarecer um ponto que é "cavalo de
batalha" dos privatizadores a falcatrua das "perdas de
água".
O que Cunha Marques e os apaniguados da doutrina que defende denominam
"perdas de água"
é a
diferença
entre o
volume de água captada
, ou mais frequentemente, o
volume comprado ao concessionário do sistema multimunicipal
e o volume de água
facturado aos clientes
.
Esta é a "conta" que importa aos negociantes.
Acontece que as Autarquias usam água. E muita.
Mais rigorosamente os munícipes e visitantes usam muita
água que não lhes é cobrada.
-
Para fornecimento à Câmara e aos serviços
autárquicos,
-
Para chafarizes e fontanários públicos,
-
Para balneários públicos, escolas, creches, pavilhões
desportivos, bibliotecas da autarquia,
-
Para lavagem de ruas, limpeza de edifícios públicos
-
Para manutenção de jardins e espaços públicos
-
Para instalações sanitárias públicas
-
Para apoios a eventos e feiras municipais
Para uma enorme quantidade de serviços gratuitos que são
disponibilizados aos munícipes e, naturalmente, precisam de água
e saneamento.
As Câmaras não cobram a água a si próprias
umas medem, outras não medirão, o que não afecta os
serviços prestados mas, naturalmente, não cobram a si
próprias, não tem qualquer sentido emitir facturas, porque essa
água não é cobrada. As Câmaras e SMAS são
entidades de direito público
, têm por objectivo o serviço e a contabilidade é
completamente diferente das entidades de direito privado.
Da mesma forma que não tem sentido um pequeno agricultor facturar as
hortaliças, os ovos e os frutos que consome na sua própria casa
só factura o que vende formalmente no mercado e a
transacção comercial paga IVA e IRC. Claro que o
auto-abastecimento não é perda nenhuma, pelo contrário,
é uma optimização da produção. Mas é
um "pecado capital", ou um "pecado de capital" na doutrina
dos cartéis monopolistas do capital é uma
"perda" de negócio.
Os concessionários dos serviços privatizados não fornecem
nada gratuitamente cobram cada gota então, as Autarquias
pagam o uso próprio e todos os serviços gratuitos ou esses
são cortados logo que o concessionário instala o negócio,
como já aconteceu, por exemplo, com os fontanários em Tondela.
Este tem sido mais um dos aspectos das privatizações ruinosos
para as Autarquias.
Só com as cobranças às Autarquias, as
privatizações por concessão originam muito mais
facturação, naturalmente. Facturação ao
serviço público e ao serviço gratuito!
Assim, todas as privatizações formais passagem do direito
público ao direito privado se traduzem em muito mais
facturação.
Nada haveria a criticar se nos mostrassem essa comparação com a
designação correcta, nomeadamente "diferenças de
facturação" entre serviços públicos e empresas
de direito privado.
A trafulhice está em designarem essa conta por "perdas de
água", notoriamente de má fé e para denegrir a
qualidade do serviço público.
Nunca apresentam "as perdas e ganhos" de serviços,
nomeadamente de serviços gratuitos ou quase gratuitos.
Nem contabilizam para ver a quem as coisas são facturadas
as facturas pagas pela autarquia aos concessionários.
A trafulhice das "perdas de água" é apenas um dos
exemplos da manipulação de má fé que preside
à "avaliação" dos serviços pelos alegados
indicadores de desempenho ou "benchmarking" (em inglês para
parecer mais culto) apresentados nos relatórios da ERSAR e
"recondicionados" e ainda mais manipulados na tese de Rui Costa
Marques.
A BURKA NEGRA DOS INTERESSES DE CARTEL
Não cabe aqui a análise detalhada desses
"pseudo-indicadores". Mas bom é de ver que esses, sim,
são uma invenção tendenciosa e de má-fé para
manipulação da opinião pública.
Que a ERSAR apresenta em vez dos dados de base tais quais, que não faz
mesmo questão em averiguar.
Já muito longe da "nudez crua da realidade sob o manto
diáfano da fantasia" o que nos impingem é a
"ocultação total da realidade sob a opaca burka negra dos
interesses de cartel".
"Happy end": a Bibliografia ... e lá se vai o castelo de
cartas!
A credibilidade de uma comunicação técnica ou
científica é atestada, em grande parte, pelas fontes da
informação apresentada e pelas referências
bibliográficas.
É obrigatória a identificação rigorosa e
unívoca das fontes e referências bibliográficas nos artigos
e livros científicos e técnicos, nas teses e
dissertações e para inclusão de rubricas na Wikipedia.
Em primeiro lugar, para que quem lê possa confirmar que a
informação transmitida um número, um facto
foi realmente observado, e como, que não é uma
"invenção" do autor ou a extrapolação
ilegítima de outra informação qualquer.
Complementarmente e não menos importante, a bibliografia indica aos
leitores onde podem aprofundar e complementar a matéria exposta e obter
corroboração e desenvolvimento da exposição do
autor.
E finalmente, a bibliografia exibe a profundidade e abrangência do
conhecimento do autor sobre o tema e cuidado que teve em se documentar.
Uma tese tão controversa como a apresentada por Cunha Marques, que
afronta uma multidão de defensores da tese contrária, exigiria um
fortíssimo apoio bibliográfico e informação muito
robusta para ao menos "parecer" credível. Tanto mais que
é público e notório ser uma defesa feita de encomenda e
que o autor tem uma atitude ostensivamente tendenciosa.
Pois na bibliografia que apresenta constam 22 referências, das quais:
- 13 (60%) são documentos de sua própria autoria e a maioria nem
tem nada a ver com águas;
- 1 é um documento de consulta "Regime Jurídico das empresas
municipais"
- 5 são documentos de política do Governo e
publicações da ERSAR, que indica como fontes dos dados e que
já se referiram atrás.
- As restantes 3 publicações contradizem frontalmente as teses de
Cunha Marques e são, nomeadamente:
-
O Relatório nº 03/2014 2ª Secção, do
Tribunal de Contas,
"Regulação de PPP no Sector das Águas (sistemas em
baixa)"
,
que já referimos acima, que documenta os prejuízos
públicos das concessões dos serviços de águas a
privados em Portugal.
-
Mulreany, John P. et al -
"Water privatization and public health in Latin America"
[29]
que conclui que não há nenhum benefício sanitário
da privatização e que:
"do ponto de vista da equidade e da justiça, a
privatização
(da água e saneamento)
poderá fomentar uma visão minimalista da responsabilidade social
em matéria sanitária que, por sua vez, poderá minar as
fundações do sistema de saúde a longo prazo." (sic)
-
Lobina, Emanuele
"Our Public Water Future The global experience with
remunicipalisation"
[30]
, que é apenas uma pequena actualização da versão
que está traduzida em português e disponível na internet
com o título:
"Veio para ficar a tendência global de
remunicipalização"
[31]
Este último é a pérola da bibliografia, cuja leitura
recomendo vivamente.
Foi traduzido para português com a colaboração da Campanha
"Água de Todos"
[32]
e do STAL
[33]
(Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local /CGTP IN)
e está disponível no portal da AIA de Setúbal
(Associação Intermunicipal da Água da Região de
Setúbal)
[34]
, entre outros locais.
Transcrevo a introdução:
Cada vez mais cidades, regiões e países por todo o mundo
estão a optar por fechar o livro das privatizações no
sector da água e a remunicipalizar serviços, retomando o controlo
público da gestão da água e do saneamento.
Em muitos casos, isto é uma resposta às falsas promessas dos
operadores privados e ao seu fracasso em colocar o interesse das comunidades
acima do lucro.
Este relatório vê a crescente onda de
remunicipalizações nos serviços de abastecimento de
água e saneamento como uma tendência global e apresenta a mais
completa análise de casos até à data.
Nos últimos 15 anos houve pelo menos 180 casos de
remunicipalização em 35 países, tanto do Norte como do
Sul, incluindo casos de alto perfil na Europa, Américas, Ásia e
África. Exemplo de grandes cidades que remunicipalizaram são
Accra (Ghana), Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina), Budapest (Hungria),
Kuala Lumpur (Malásia), La Paz (Bolívia), Maputo
(Moçambique) e Paris (França). Por contraste, neste mesmo
período, houve muito poucos casos de privatizações nas
grandes cidades: são disso exemplo a cidade de Nagpur (Índia),
que teve grande oposição e contestação e Jeddah
(Arábia Saudita).
Apesar de mais de três décadas de incansável propaganda a
favor das privatizações e das parcerias público-privado
(PPP), por instituições financeiras internacionais e governos,
parece agora que a remunicipalização é uma
opção política que veio para ficar. A experiência
directa com problemas comuns na gestão privada da água
desde a falta de investimento em infraestruturas, até ao aumento de
tarifas e danos ambientais persuadiu comunidades e políticos, que
o sector público está melhor habilitado a prestar um
serviço de qualidade aos cidadãos e a promover o direito humano
à água.
A remunicipalização consiste na devolução dos
serviços de água e saneamento anteriormente privatizados, ao
poder local ou, mais genericamente, ao controlo público. Tipicamente,
isto acontece após os contratos estabelecidos com as autarquias locais
terminarem, ou através da sua não renovação, mas
este processo não ocorre exclusivamente a nível local. As
autoridades regionais e nacionais têm uma considerável
influência sobre as políticas e financiamento de serviços,
e, em alguns casos, actuam directamente como operadores nos serviços de
água, portanto o processo desenvolve-se dentro de um contexto mais amplo.
Seja qual for a sua forma ou escala, a remunicipalização é
geralmente uma reacção colectiva contra a insustentabilidade da
privatização da água e das PPP.
Confrontadas com a impopularidade da privatização, as empresas
privadas utilizam o marketing e a propaganda para levar as pessoas a acreditar
que as concessões, contratos de arrendamento e outras PPP são
muito diferentes de uma privatização; não são.
De facto, todos estes termos se traduzem na transferência do controlo dos
serviços e da sua gestão para o sector privado. Os
políticos têm de estar conscientes dos elevados custos e riscos
inerentes à privatização da água, e como tal,
têm muito a aprender com a experiência das autoridades
públicas que optaram pela remunicipalização e estão
a trabalhar para desenvolver uma gestão pública da água
eficiente e democraticamente responsável.
Rui Cunha Marques não apresenta nenhuma referência
bibliográfica coadjuvante da tese que defende. Nem uma!
O único "testemunho" que invoca para se credibilizar é
ele mesmo "vejam o que eu escrevi", "já publiquei
muita coisa, sou bom".
Em contraponto, indica três publicações sérias e
solidíssimas, apoiadas em informação comprovada e
incontestável, que arrasam de alto a baixo o falacioso edifício
doutrinário que pretendeu montar.
Pois é ...
Rui Cunha Marques encheu 97 páginas a montar um castelo de cartas e
quando pôs as duas últimas, pimba! Escangalhou-se tudo.
E assim, esta fantasia hollywoodesca tem, como é da praxe e o
público gosta, "um final feliz"
Ou, na língua preferida de Cunha Marques e do cartel da água:
"HAPPY END!"
6. O conflito de interesses
Na posição oposta à da AEPSA, vinculada ao cartel dos
negócios da água, está a Associação
Água Pública, que, tal como a Campanha Água de Todos, em
cuja Comissão Permanente se integra, defende os interesses dos utentes
dos serviços de águas e a fruição universal dos
direitos individuais e comuns à água.
Este grupo de interesses engloba as pessoas com interesse comum na
fruição plena da água potável e adequado saneamento
de águas residuais (e pluviais), bem como na minimização
do que pagam por esses serviços e a maximização da
fruição de outras prestações suportadas pelos
orçamentos públicos autárquicos e centrais.
É contrária aos interesses dessa maioria a transferência de
verbas públicas e de dinheiros dos seus próprios bolsos
particulares, para financiamento de terceiros e, bem assim, é danoso que
as rendas obtidas de bens, infraestruturas e capitais públicos paguem
rendas privadas em vez de serem aplicadas em bens e serviços
públicos e na redução dos impostos sobre rendimentos do
trabalho, das reformas e das pensões.
Os interesses deste extensíssimo grupo, que abrange a quase totalidade
da população residente em Portugal, são, pois,
contrários aos do cartel representado pela AEPSA, cujos interesses
são, exclusivamente e por definição, a transferência
para as empresas do cartel de verbas públicas e de verbas particulares
dos utentes dos serviços.
As posições opostas sobre a privatização da
água são a expressão desse conflito de interesses.
Ninguém tem dúvidas que a privatização dos
serviços de água é interesse primordial dos associados da
AEPSA e há plena concordância em que as concessões desses
serviços são negócios milionários para os
empresários da água.
São esses interesses dos seus associados que a AEPSA defende; é
em prol dos seus lucros empresariais e dos contractos leoninos que proporcionam
transferências de elevadas verbas públicas para os bolsos do
cartel, que a AEPSA entra em campanha.
Os interesses dos utentes da água são afirmados e defendidos por
eles próprios nas suas próprias organizações, que,
sem excepção, se opõem à privatização.
São defendidos pelos próprios utentes nos muitos abaixo-assinados
e actos públicos que têm vindo a multiplicar-se em crescendo desde
as primeiras privatizações e dos quais se realça, pela
adesão e alcance, o Projecto de Lei de Iniciativa Legislativa de
Cidadãos para "Proteção dos direitos individuais e
comuns à Água"
[35]
, proposto por mais de 43 mil cidadãos eleitores.
Não se trata de "divergências de opinião", mas de
um conflito irredutível de interesses, que opõe o cartel dos
negócios da água à quase totalidade da
população.
7. Interesses, política e privatização dos serviços
autárquicos
Como se posiciona e actua cada partido político neste conflito de
interesses, "de que lado está", é uma questão
política de fundo e ideologicamente fracturante, a
distinção mais básica entre política de direita e
política de esquerda, entre capitalismo e socialismo.
Na Assembleia da República e no Governo, CDS, PSD e PS têm
há muito actuado em prol dos interesses do cartel dos negócios da
água; PCP, BE e PEV posicionam-se sempre em defesa dos interesses dos
utentes
. (ver historial no Comunicado da Associação Água
Pública de 27 de Maio de 2011
[36]
; ver tramitação do Projecto de Lei de
Protecção
dos direitos individuais e comuns á água" na Assembleia da
República
[37]
Essas diferenças políticas estão presentes nas Autarquias.
As políticas de abastecimento de água e saneamento das
Câmaras não são todas iguais, bem pelo contrário.
São particularmente notórias as diferenças em todo o
histórico de níveis de atendimento em abastecimento de
água e saneamento e também na qualidade de serviço,
opções de gestão, prestações aos utentes,
universalidade de acesso (incluindo acesso económico) e serviços
gratuitos. Políticas totalmente diferentes no que diz respeito
às concessões dos serviços de água, seja com
privatização directa ou pelo "meio caminho" que
é a empresarialização dos serviços.
Mas a fiscalização e controlo dos eleitores é muito mais
efectiva em relação às Autarquias Locais que em
relação aos órgãos centrais e essa
fiscalização tem correspondência muito mais directa no
sentido de voto; e as privatizações da água têm-se
revelado ruinosas para as Câmaras.
Esses factores, e sobretudo a crescente contestação dos
portugueses à privatização da água e a forte
presença autárquica da CDU, têm impedido que a
privatização dos serviços de abastecimento de água
e saneamento autárquicos tenham seguido o ritmo das
privatizações de outros sectores fundamentais apenas dependentes
da Administração Central, como a energia, a banca, as
comunicações, auto-estradas, portos, os aeroportos e os correios,
por exemplo.
Todas as privatizações dos serviços autárquicos de
águas e lixos foram feitas por executivos autárquicos dos
partidos que, na Assembleia da República e no Governo, apoiam a
privatização da água; mas muitíssimas Câmaras
desses partidos não privatizaram e vários processos de
privatização iniciados por esses executivos autárquicos
abortaram devido à forte contestação dos munícipes.
No que diz respeito à distribuição e abastecimento de
água domiciliário, desde 1994 até hoje, dos 308
municípios portugueses, 32 câmaras (10%) concessionaram o
abastecimento de água a empresas totalmente privadas e mais 6 (2%)
concessionaram a empresas de capital minoritariamente privado. Os restantes
87% dos concelhos têm serviços municipais, serviços
municipalizados ou concessões a empresas de capitais exclusivamente
públicos. A situação relativamente à drenagem de
águas residuais é semelhante.
76% destas "privatizações totais" foram feitas durante
os primeiros 10 anos e os restantes 24% nos 12 anos seguintes. Está em
curso a primeira remunicipalização.
São excessivas privatizações na perspectiva dos interesses
dos utentes e do interesse comum, e mais graves ainda porque há dois
sistemas intermunicipais concessionados a privados (pela
privatização da Aquapor, que pertencia às Águas de
Portugal) e pelos sistemas multimunicipais concessionados a empresas de
capitais públicos, dependentes maioritariamente da
Administração Central, em que prevalece a óptica
empresarial e é necessária pressão pública
constante para impedir a sua privatização.
Mas não é, de todo, o panorama ambicionado pelo cartel associado
na AEPSA.
Na sua campanha autárquica difama a prestação das
Câmaras globalmente com duplo objectivo:
-
Por um lado, porque identifica globalmente o Poder Local Democrático
como principal obstáculo à persecução dos seus
interesses.
-
Por outro lado, para obscurecer as enormes diferenças de
políticas autárquicas e demover os eleitores do voto orientado
para o melhor serviço público e melhor defesa dos interesses dos
munícipes.
8. As Autarquias e o direito universal à água e ao saneamento
Os indicadores da universalidade do direito à água e ao
saneamento são os níveis de atendimento em abastecimento de
água e em recolha de águas residuais na residência habitual
permanente.
Essa informação só é obtenível por
inquérito casa a casa, na residência habitual de cada pessoa
o que só é feito nos recenseamentos gerais da
população, uma vez em cada década.
São os censos, e só os censos, que fornecem esses dados
[38]
.
Tem sido elogiada e bem a cobertura da população
portuguesa em abastecimento de água e drenagem de águas
residuais.
De facto, o censo de 2011 regista 99,5% das residências permanentes com
água domiciliária e 99,6% com saneamento de águas
residuais. Não é o óptimo nem o "universal" e
não considera as pessoas que nem sequer têm uma
habitação digna, mas é muito significativo.
O que pretendo demonstrar é que o esforço brutal de
transformação dos níveis de atendimento foi realizado no
período em que o abastecimento de água foi exclusivamente
público e de exclusiva competência autárquica: de 1974 a
1994.
Nem toda esta realização foi das Autarquias. Há, e houve
desde 1976, executivos camarários muito diferentes, por isso votamos,
para escolher entre as diferentes. E essas diferenças são muito
acentuadas nos serviços de águas. Mas, onde as Câmaras
não deram resposta, as pessoas, individualmente ou em pequenas
associações, bem como numerosas Juntas de Freguesia, supriram
deficiências com soluções locais e particulares.
O que é absolutamente falso é ter havido qualquer contributo das
privatizações para esta enorme realização. O enorme
salto qualitativo é entre 1974 e 1994 ANTES da primeira
privatização. Antes também dos sistemas multimunicipais.
Refiro-me aqui apenas à informação relativa a Portugal
Continental, porque são os dados que tenho compilados e trabalhados,
muitos deles durante a minha actividade profissional no INAG (Instituto da
Água), que não tinha jurisdição sobre as
Regiões Autónomas; e os dados do INAG são úteis
para complementar os censos na reconstituição do historial dos
níveis de atendimento por rede pública. E nas Regiões
Autónomas não actuam concessionários privados, pelo que
não relevam para a presente discussão.
Em 1972 o nível de atendimento por rede pública
domiciliária era de 40%; 25% da população era abastecida
por fontanário público. O acesso a redes de esgoto
públicas era de 17%.
[40]
Entre 1972 e 1994 o nível de atendimento em abastecimento de água
domiciliário por rede pública passou de 40% para 81%. No mesmo
período o nível de atendimento domiciliário por rede
pública de esgotos passou de 17% para 60%.
O quadro seguinte, extraído de um documento do INAG
[41]
(2006) mostra a evolução entre 1981 e 2001, considerando os
dados dos vários inquéritos de saneamento básico, a
recolha feita no âmbito da extensa caracterização para os
primeiros Planos de Bacia Hidrográfica consolidados para o primeiro
Plano Nacional da Água
[42]
, e os censos (1981, 1991 e 2001).
Neste quadro só é feita distinção entre
"sistema público" ligado a rede pública e
"sistema particular", que são as soluções
individuais e casos de condomínios ou muito pequenos agrupamentos com
soluções autónomas (furos ou captações
próprias; esgotos com fossas sépticas domésticas ou
descargas desconhecidas).
Os níveis de atendimento (por definição) referem-se
à percentagem da população residente servida.
Níveis de atendimento à População Residente no
Continente
[43]
:
|
ANO DE REFERÊNCIA
|
1981
|
1985
|
1991
|
1994
|
1998
|
2001
|
|
Abastecimento domiciliário por sistema público
|
50%
|
52,0%
|
75%
|
81%
|
80,6%
|
81,1%
|
|
Abastecimento por poços e fontanários públicos
|
17%
|
17,0 %
|
8,9%
|
4,8%
|
2,5%
|
0,7%
|
|
Abastecimento domiciliário por soluções particulares
|
16%
|
20.4%
|
7%
|
10,2%
|
14,5%
|
17,7%
|
|
Total, abastecimento domiciliário
|
66%
|
72,4%
|
82%
|
90,2%
|
93,8%
|
98,8%
|
|
População residente em zona infra-estruturada (ab. ag.)
|
|
|
79,6%
|
81,5%
|
|
|
|
|
|
Drenagem por sistema público
|
|
38%
|
60%
|
60,3%
|
64%
|
64%
|
|
Drenagem por soluções particulares
|
|
17%
|
4%
|
12,7%
|
24,3%
|
33%
|
|
Drenagem total
|
49%
|
55%
|
64%
|
73,9%
|
87.1%
|
97%
|
|
|
|
Tratamento de águas residuais (sistema público)
|
|
10%
|
18.1%
|
21.0%
|
42,0%
|
42%
|
|
Descarga de águas residuais em águas costeiras (sistema
público)
|
|
|
6,5%
|
6,5%
|
6,5%
|
6,5%
|
Note-se que os níveis de atendimento por rede pública de 2001,
tanto em abastecimento de água como em drenagem de águas
residuais, foram praticamente atingidos em 1994
ANTES de qualquer privatização ou empresarialização
.
Entre 1994 e 2001 há um aumento significativo do global da
população que tem em casa água corrente e drenagem de
águas residuais,
mas esse aumento deve-se ao crescimento das soluções particulares
. Há múltiplos factores e situações
específicas que só seriam identificáveis se
examinássemos os dados desagregados, com distribuição
cartográfica e com a identificação de mobilidades, Mas,
genericamente, o que aconteceu foi que, sendo as distribuições
geográficas da população muito diversificadas e os
executivos municipais não sendo todos iguais (e às vezes nem
parecidos) havia zonas com níveis de atendimento muito baixos e a
maioria das pessoas que não habitavam em zona infraestruturada,
instalaram as suas soluções particulares.
Os dados de 2001 revelam que 98,8% da população residente no
Continente tinha abastecimento de água domiciliário, dos quais
81,1% por rede pública. No censo de 2011 esses valores cresceram para
99,5% e 87,9 %, respectivamente.
O aumento do serviço por rede pública é de 6,8%,
diminuindo 6,1% as soluções particulares, e o acréscimo
global de "alojamentos servidos" foi de 0,7%.
Põem-se, no entanto, sérias dúvidas quanto ao significado
real desta vultuosa transição de soluções
particulares para rede pública.
Em 2009 foi publicado o DL 194/2009
[1]
impondo a obrigação de ligação à rede
pública, sob pena de uma coima que pode ir até 3 740 euros para
pessoas singulares e até 44 890 euros para pessoas colectivas; e foram
retiradas licenças de captação própria para
abastecimento doméstico.
Por via deste decreto haverá muitos casos de transferência de
soluções particulares para rede pública de pessoas e
instituições que estavam servidas, obrigadas por
coacção a ligar-se à rede pública ...
vários, para se tornarem clientes forçados de
concessionários da água. O Decreto Lei foi muito divulgado e
foram falados e noticiados vários casos de protestos
[44]
.
Mas esta ameaça terá também induzido muitos recenseados
com soluções particulares a declarar que estão ligados a
rede pública, por receio da coima.
Assim, é fiável a percentagem global de 99,5% alojamentos com
abastecimento de água, mas é incerta e muito duvidosa a
diferenciação entre rede pública e soluções
particulares,
A percentagem de alojamentos com drenagem de águas residuais sobe de
97%, em 2001, para 99,6% em 2011, um significativo aumento de 2,6%. Não
existem dados fiáveis sobre o nível de atendimento em
águas residuais por rede pública nem sobre a
população residente servida com tratamento, após o
primeiro Plano Nacional da Água, de 2002
[45]
.
A enorme alteração de acesso à água e ao
saneamento, da situação dramática de 1972 até ao
que hoje chamam "milagre", deve-se primordialmente aos
Serviços Públicos Autárquicos e, em segundo lugar,
à melhoria geral das condições económicas da
população e ao trabalho colectivo em muitas freguesias, que
permitiu instalar soluções particulares de abastecimento de
água e saneamento onde as Câmaras não as satisfizeram.
Naturalmente e felizmente, continuou a melhorar o abastecimento de água
e saneamento após 1994 mas o grande impulso estava realizado e a
dinâmica natural era de crescente melhoria.
É totalmente falso e abusivo atribuir qualquer mérito nesta
evolução dos níveis de atendimento aos
concessionários privados dos 12% das Câmaras que privatizaram os
serviços depois de 1994 e que, nos raros casos em que aumentaram os
níveis de atendimento por rede pública, foi à custa da
ligação coerciva das soluções particulares e da
apropriação das infraestruturas colectivas das freguesias.
A qualidade da água de abastecimento é também uma
componente relevante no direito à água. Mas, também neste
domínio, não podem os concessionários privados retirar
quaisquer méritos nem fazer comparações.
Acontece que a enorme maioria dos sistemas de tratamento de águas para
abastecimento, bem como os tratamentos de águas residuais, estão
concessionados em sistemas multimunicipais a Sociedades Anónimas de
capitais públicos. São esses concessionários que
dispõem de estacões de tratamento (ETA e ETAR) e compete-lhes
entregar a água tratada em condições, e bem assim, tratar
o esgoto e devolvê-lo com qualidade própria à natureza. As
câmaras concedentes mais não podem fazer que manter a
desinfecção da água de abastecimento na rede de
distribuição e isso é feito, e bem, em todas as
redes.
Ora, não podem os concessionários de sistemas "em
baixa" ligados a sistemas multimunicipais vangloriar-se da qualidade da
água servida. Não metem para aí prego nem estopa. Assim
como os serviços públicos ligados aos multimunicipais nada podem
fazer para melhorar a qualidade da água ou a qualidade do esgoto
rejeitado.
Como a AEPSA não se mete com a AdP nem com os sistemas "em
alta", as considerações sobre qualidade da água, de
abastecimento ou de esgoto rejeitado, não têm qualquer cabimento
no objecto do alegado "estudo".
9. Setembro, 24 a 29 reforços estrangeiros para boicotar a
campanha
autárquica
Analisou-se a acção de abertura da pré-campanha
autárquica do cartel dos negócios da água. É a
primeira investida, "doméstica", só com recursos
"nacionais".
Durante o mês de Setembro está anunciada uma série de
eventos em crescendo, preparando e agregando participantes para a grande
acção de campanha "
Porto Innovation Water Week
", de muito maior impacto mediático e com grandes recursos
mobilizados do estrangeiro.
[46]
Decorrerá no Porto de 24 a 29 de Setembro, os últimos dias de
Campanha Autárquica.
Com apoio do Governo e participação de detentores de cargos
públicos na Administração Central, contará com
extensa intervenção de proeminentes missionários
estrangeiros da privatização da água, em especial da
privatização dos serviços de água: uns do
lobby
político na CE, outros com cargos sonantes no cartel dos
negócios da água.
Culmina com a "
Mayors & Water Conference 2017
" (Presidentes da Câmara e Água) programada para o dia 29 de
Setembro, o dia de fecho da campanha autárquica, assegurando assim a
ausência massiva (e silêncio) dos autarcas portugueses.
Para encher os jornais e televisões, no "dia de
reflexão", de ataques às competências
autárquicas e propaganda importada em prol da privatização
e empresarialização dos serviços de água.
Os oradores convidados para discursar
sobre a política autárquica
da água
[47]
são o secretário de Estado de Ambiente, Carlos Martins e o
presidente da ERSAR, Jaime Melo Baptista já acima referidos pela
"simpatia" com a propaganda corporativa da AEPSA; além desses,
um candidato à Câmara do Porto, Filipe Araújo, que
não destoará no discurso.
Os temas que irão estar em debate no referido evento, são
elucidativos da campanha que têm vindo a ser desenvolvida contra a
Água Pública e a gestão pública da água,
desde logo o uso de sofismas como o uso e abuso da palavra
"inovação", procurando esconder o objectivo de
reivindicar, por parte dos grupos económicos da água,
alterações à legislação europeia, sendo
disso exemplo, o tema, "inovações para a
implementação da legislação da UE em matéria
de água". Com o mesmo propósito e intenção,
usa-se a palavra "social" associada à
"inovação" para eufemisticamente, se tratar da
"governança orientada para o mercado", e ganhar a
opinião pública para tal objectivo. Ou seja, para assegurar a
privatização da água, sendo exemplo, o tema, "O
envolvimento social, impulsionando a inovação e a
governança: para uma abordagem orientada para o mercado".
E por ultimo, lá surge novamente a "inovação"
associada aos centros de I&D e incubadoras para que, segundo eles, ajudem a
resolver os problemas da água na Europa, não deixando por fim de
forma descarada de anunciar o tema "O negócio da água",
que é o fim último, desta semana de ofensiva contra a Água
Pública, a decorrer na cidade do Porto, a que denominaram, "
Porto Innovation Water Week
", ao apresentarem o tema, "O Negócio da Agua: mercados,
oportunidades e emprego
.", fingindo envolver os presidentes dos
municípios que estão absorvidos com a campanha eleitoral para as
eleições autárquicas de 1 de Outubro.
Á cabeça dos patrocinadores do evento
[48]
o
"Sponser Gold"
(patrocinador ouro) é a Veolia
[49]
(aliás CGE, aliás ex-Vivendi ). Na lista dos patrocinadores
os que pagam o evento lá se seguem mais
corporações do cartel.
O próprio Governo, como tal, aparece na lista dos apoiantes
institucionais; a ERSAR aparece entre os patrocinadores; Águas de
Portugal, LNEC e Câmara do Porto são "hospedeiros" da
grande acção de campanha.
Toda a conferência é exclusivamente em inglês; a propaganda
digerida em português é assegurada pela IMPRESA, com a SIC
Notícias e o
Expresso
na primeira linha dos
"Media Partners"
[50]
.
Temos por certo um ruído estrondoso nos "media" para abafar e
se sobrepor â discussão política na Campanha
Autárquica. A culminar no "dia de reflexão" e no
próprio dia das eleições, com o excelente pretexto de o
dia 1 de Outubro ser o Dia Nacional da Água.
Mas todo este estendal é uma mostra de "quem está ao lado de
quem" e que interesses defende.
Olhando com olhos de ver, proporciona "uma separação das
águas".
Bem necessária para reduzir os enganos quando se vai votar para a
transmissão de poderes de decisão por um quadriénio.
10. Conclusões
O cartel das corporações de negócios privados da
água entrou em força em campanha eleitoral autárquica
sincronizada com o calendário eleitoral, investindo pesados recursos na
manipulação fraudulenta da opinião pública, para
influenciar o sentido de votação e abrir caminho a novas
privatizações no próximo quadriénio.
Participam e financiam em força essa campanha as
corporações monopolistas nacionais e estrangeiras, do cartel dos
negócios da água e não só, sendo a propaganda feita
pelos jornais, revistas e televisões a soldo do grande capital.
Pelos promotores e pelo discurso, é claramente identificável como
acometida política, ideológica e doutrinária do capital
monopolista transnacional, na sua luta pelo poder hegemónico contra a
democracia
conscientemente exercida pelos cidadãos.
O calendário evidencia que esse ataque político visa a
manipulação da opinião dos eleitores
e gerar
ruído que esconda o debate político
na campanha eleitoral,
com o único objectivo de influenciar a seu favor os resultados das
eleições autárquicas.
O enfoque desta retumbante inventiva
mostra a centralidade política que atribuem à
privatização dos serviços de água.
O discurso torna-se furioso no ataque à "ideologia", designada
em geral, e às Autarquias eleitas. Identificando
como principais adversários os eleitores pensantes e politicamente
esclarecidos e o Poder Local Democrático.
O apoio ostensivo e explícito a esta campanha pelo Governo e por
várias instituições dependentes da
Administração Central, assim como da Câmara do Porto,
mostram uma ponta do iceberg da intrusão dos cartéis monopolistas
no poder político em Portugal.
PSD, CDS e PS servem há décadas, na Assembleia da
República e no Governo, os interesses do cartel dos negócios da
água. E esses partidos estão ao mesmo serviço em muitas
autarquias, a par de vários autodenominados "independentes"
que, como é próprio dos mercenários, fazem as guerras
alheias
independentemente
de bandeira ou ideologia.
A actual composição da Assembleia da República e a
dependência da conservação do Governo PS da
aprovação à esquerda dos seus orçamentos e,
nomeadamente a necessidade do PCP e do PEV para a manutenção
desse estado de coisas, põe algumas baias ao PS na
prestação de serviços ao imperialismo monopolista. Mas o
PS não mudou, só se comporta um nadinha menos pior quando
é obrigado; e aqui se apresenta, prestando vassalagem ao cartel dos
negócios da água, ombro com ombro no ataque aos serviços
públicos, às competências autárquicas e a boicotar o
debate político indispensável a eleições
democráticas e conscientes.
Esta acção, mais em força do que em jeito, do capital
monopolista internacional e do cartel dos negócios da água, vindo
a público em suas próprias identidades e nomes, ao invés
de se esconderem, como é hábito, atrás de
mercenários contratados para o efeito, traz à luz vários
pontos de reflexão e debate fundamentais:
Evidencia a verdadeira e mais profunda divisão, não só
nas eleições autárquicas, mas em todas as
eleições e em toda a luta pelo poder político:
ou nós,
homens e mulheres todos, em democracia
ou eles,
através dos mercenários que ajudam a eleger, em oligarquia
Mostra os alinhamentos,
que grupos políticos estão de um lado, quais estão do
outro;
e isso deveria facilitar muito as escolhas.
Põe em evidência a
importância crucial do Poder Local na Democracia.
E finalmente,
identifica a privatização da água como uma questão
central de mobilização e luta da democracia contra a oligarquia.
E é uma questão central, porque
provoca debate ideológico, claro e participado.
Nós outros, os que já tomámos há muito
posição clara e irredutível neste confronto,
Nós outros, os que frontalmente e com alegria somos livres defendendo
uma ideologia e içando a bandeira,
Nós outros, que somos o principal alvo desta investida sem que
pronunciem o nosso nome,
Nós outros, olhando bem e mostrando a todos o que vemos,
Saberemos converter esta acometida do inimigo num ricochete contra ele
próprio.
23/Setembro/2017
11. Notas e Bibliografia
1. Porto water innovation week 2017
http://portowaterinnovationweek.eu/
https://web.archive.org/web/20170618103735/http://portowaterinnovationweek.eu/
Mayors and Water Conference 2017: URBAN WATER AGENDA (2030) 29 de setembro,
web.archive.org/...
http://www.portowaterinnovationweek.eu/mayors-water/datebook
2. Tribunal de Contas, relatório de auditoria n.º 03/2014
2.ª Secção - Regulação de PPP no Sector das
Águas (sistemas em baixa)
www.tcontas.pt/pt/actos/rel_auditoria/2014/2s/audit-dgtc-rel003-2014-2s.shtm
e Tribunal de Contas,
Relatório nº 2/2015 - 2ª Secção
., Auditoria de seguimento
www.tcontas.pt/pt/actos/rel_auditoria/2015/2s/audit-dgtc-rel002-2015-2s.shtm
3. Pedro Ventura,
"Privatização disfarçada sob o manto da
concessão"
, revista
Poder Local,
Julho de 2015.
revistapoderlocal.pt/...
4.
www.deco.proteste.pt/...
5. BEWG - Beijing Enterprises Water Group - que comprou em 2013 à
Veolia/CGE, por 95 milhões de euros, o trespasse das concessões
que essa multinacional detinha
6. Lançamento e apresentação da Iniciativa, em Outubro de
2011,
resistir.info/agua/lei_prot_agua.html
7. Texto do Projecto de Lei e exposição de motivos;
web.archive.org/...
Re-apresentação na AR em 2016 pelo PCP e pelo BE:
app.parlamento.pt/...
e
app.parlamento.pt/...
8. Tramitação na Assembleia da República e
votações:
app.parlamento.pt/...
app.parlamento.pt/...
app.parlamento.pt/...
notícias:
www.aguadetodos.com
www.aguadetodos.com/iniciativa-legislativa-de-cidadaos/
;
www.aguadetodos.com/...
9. Ver notícia e documentos divulgados, à data, pela
Associação Água Pública em:
web.archive.org/...
10. United Nations General Assembly Human Rights Council "
Report of the Special Rapporteur on the human rights to safe drinking water and
sanitation on his mission to Portugal"
[A/HRC/36/45/Add.1] Distr General: 10 July 2017 - Original: English
www.ecoi.net/file_upload/1930_1503494624_g1718647.pdf
11. Definição na Wikipedia:
Corporate propaganda
refers to propaganda disseminated by a corporation (or corporations), for the
purpose of manipulating public opinion concerning to that corporation, and its
activities. The use of corporate propaganda can be commonly found in the fields
of advertising, marketing, politics, history, and public relations. There is
debate as to whether corporate propaganda should be legal, with corporations
claiming that advertising is an inherent right for any entity in a free market
economy trying to sell a product or service, while modern leftists, social
liberals and social rights activists argue that corporate propaganda is
tantamount to brainwashing,
https://en.wikipedia.org/wiki/Corporate_propaganda
12. Entre os estudos sérios e documentados sobre estas máquinas de
propaganda, contam-se dois excelentes livros da autora australiana Sharon
Beder, publicados em 2006 com os sugestivos títulos:
"Suiting themselves How Corporations Drive The Global Agenda"
e
"Free Market Missionairies The corporate manipulation of comunity
values"
13. Ver: Sharon Beder, 2004 "Moulding and Manipulating the News" -
artigo completo em
http://www.herinst.org/sbeder/#PR
14. O caso da privatização da energia, muito semelhante ao da
água. é tratado por Sharon Beder em:
Power Play The Fight for control of the world electricity
, 2003; tradução espanhola -
Energía y poder: la lucha por el control de la electricidad en el mundo
2005; resenha, por José Alberto Delgado Barco,
in
Revista de Economía & Administración, vol. 3 no.1. enero - junio
de 2006,
www.google.pt/...
Ver também:
www.uow.edu.au/~sharonb/about.html
e
http://www.herinst.org/sbeder/#PR
15. Ver página no portal do IST:
fenix.tecnico.ulisboa.pt/homepage/ist24618
;
16 ver página pessoal
www.ruicunhamarques.com/
; investigador (...), da Public Utility Research Center (PURC) na
Universidade da Florida ver página "Warrington College of
Business" (
http://warrington.ufl.edu/centers/purc/
); (Colégio de negócios)
e do Centro of Local Government (CLG) na Universidade de New England na
Austrália, universidade onde é Professor Convidado da
Business School
; (escola de negócios)
17. Ver: Rui Namorado Rosa, 2004, "Imperialismo: seus limites e
alternativas":
resistir.info/rui/rui_n_rosa_20set04.html
ver: V.I. Lenine, "O Imperialismo, fase superior do Capitalismo":
www.editorial-avante.pcp.pt...
e Carlos Aboim Inglês, sobre "O Imperialismo, fase superior do
Capitalismo":
www.pcp.pt/publica/militant/247/p27.html
18. Ver
Rui Namorado Rosa, 2013 "A nova ordem mundial"
www.odiario.info/a-nova-ordem-mundial/
Rui Namorado Rosa, 2016, "O bem estar das corporações
multinacionais"
https://www.odiario.info/o-bem-estar-das-corporacoes-multinacionais/
Rui Namorado Rosa, 2012, "Factores e Função de
Produção Revisitados: Crítica e Alternativa ao Dogma
Económico Oficial"
www.odiario.info/b2-img/FactoreseFunodeProduoRevisitadospaper_19052012.pdf
19. Ver; Rui Namorado Rosa, 2010,
"On the performance of big companies in the crisis period 2005- 2010, in:
"Perspectives in Econophysics II"
em:
www.researchgate.net/...
e slides em:
www.researchgate.net/...
20. LPN e Fundação de Serralves: "CONVERSAS SOBRE O AMBIENTE
2012-2013" MESA REDONDA: PRIVATIZAÇÃO E CONCESSÃO DA
ÁGUA, HÁ DIFERENÇA? PORTO, 16 DE MAIO DE 2013:
"A PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA POR CONCESSÃO"
Texto de apoio à intervenção de Luisa Tovar, em
representação da Associação Água
Pública,
web.archive.org/...
"PRIVATIZAÇÃO E CONCESSÃO DA ÁGUA, HÁ
DIFERENÇA?"
Texto de apoio à intervenção de João Bau,
web.archive.org/...
21. Luisa Tovar,
"A Fronteira da Água",
Revista Poder Local
nº 141, Jul-Dez 2002, pag 12-26,
revistapoderlocal.pt/...
22.
Sofisma
ou sofismo (do grego antigo, derivado de
"fazer raciocínios capciosos") em filosofia,
é um raciocínio [...], mediante os quais se quer defender algo
falso e confundir o contraditor. Não devemos confundir os sofismas com
os paralogismos: os primeiros procedem da má fé, os segundos, da
ignorância. (wikipedia:
pt.wikipedia.org/wiki/Sofisma
)
23. Ver: Andrew Gavin Marshal, 2011, "Verdade, Propaganda e
Manipulação dos Media" em
www.odiario.info/verdade-propaganda-e-manipulacao-dos-media/
John Pilger, 2014, A guerra pelos media e o triunfo da propaganda
www.odiario.info/a-guerra-pelos-media-e-o-triunfo-da-propaganda/
24. Ver: Comunicado da Associação Água Pública de 27
de Maio de 2011, sobre o programa conjunto do PSD, PS e CDS para
privatização da água,
web.archive.org/...
Ver: "Iniciativa legislativa de cidadãos rejeitada no
Parlamento", no portal "água de todos",
www.aguadetodos.com/...
25. Ver: Nota de Imprensa da Associação Água Pública
e do STAL, 18/3/2011 "A Factura da água" e comunicado da
Associação Água Pública, Agosto de 2010, "O
tarifário da ERSAR: subida brutal do tarifário da água e
do saneamento" em
web.archive.org/...
Ver:
"Sobre as propostas de lei do Governo para favorecimento dos
monopólios privados da água",
Associação Água Pública, 27 de Março
de 2013, Texto-base da intervenção inicial da
Associação Água Pública na Audição
pela Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder
Local da Assembleia da República, em 27/3/2013, sobre as propostas de
Lei 123/XII e 125/XII,
web.archive.org/...
Extracto: Sobre a
Proposta de Lei 125/XII
, estatutos da ERSAR:
Este novo estatuto torna a ERSAR uma entidade poderosíssima,
nomeadamente na definição e imposição de
tarifários de águas, esgotos e resíduos.
Tarifários esses que são englobados na factura da água e
indexados à utilização da água e o corte de
água garante a cobrança. É de facto uma taxa imposta,
muito semelhante a um imposto e um imposto pela fruição de um
direito fundamental que faz parte do direito à vida. Ora só os
órgãos eleitos, a Assembleia da República e as Autarquias,
têm competência para estabelecer impostos e taxas. O Governo, que
não é eleito, não tem essa competência. Como pode
uma entidade dependente do Governo, que nem sequer é da
administração pública, ter competências que a
Constituição Portuguesa reserva a órgãos eleitos?
Todos os dirigentes da ERSAR são nomeados pelo Governo e os Directores
de entidades sob tutela do Governo preenchem uma parte muito significativa dos
diversos conselhos.
É evidente, não só pela actuação anterior
como por todo o articulado desta proposta de lei, que a função da
ERSAR não tem qualquer relação com os sistemas
físicos de águas esgotos ou lixos, com a qualidade técnica
e sanitária das soluções nem com os níveis de
atendimento, nem com qualquer outra melhoria no interesse dos cidadãos
utilizadores da água (que são todos os seres humanos).
A ERSAR centra-se no circuito do dinheiro, não da água nem dos
resíduos, visando o "bom funcionamento das empresas".
Bastos indicadores, entre eles a composição dos vários
conselhos onde têm assento os empresários da água, mostram
que o "bom funcionamento" tem a acepção de cumprimento
do objectivo 2 e que a canalização de mais dinheiro dos utentes
da água para as empresas do sector, através da subida da
facturação, será uma das suas funções
relevantes.
Aponto, em contraste com a importância atribuída à
criação desta ERSAR, o descuro total com a
regulamentação de segurança, concepção e
projecto, com a ausência de observação e controlo, com a
total desresponsabilização do dono da obra e do projectista dos
sistemas físicos de águas e esgotos, com ênfase para as
ETAR e ETA e as próprias soluções de princípio dos
projectos de engenharia adoptados.
Aponto, em contraste, a desorçamentação e
destruição continuada dos Laboratórios de Estado, em
particular o LNEC, que tinha as atribuições de
regulamentação, nomeadamente de segurança, de
construções e obras públicas.
Aponto, em contraste, o descuro das origens de água, para o
incumprimento dos planos de recuperação e mesmo da
monitorização completa, da competência de serviços
da administração central extintos e esvaziados.
Termino aqui, esperando ter contribuído, se não para a
instrução do processo de decisão de V. Ex.cias, pelo menos
para facilitar aos vossos eleitores a compreensão dos motivos das
diferentes decisões que cada um dos Senhores Deputados entender tomar.
26. Tribunal de Contas, "Regulação de PPP no Sector das
Águas (sistemas em baixa). Auditoria de seguimento" (2015),
www.tcontas.pt/...
e
Relatório nº 2/2015 - 2ª Secção
Esta Auditoria de Seguimento regista o incumprimento pelo ERSAR das seguintes
recomendações:
1.A ERSAR deverá promover todos os esforços no sentido de que,
quer em sede de revisão, quer de negociação contratual, as
partes envolvidas acordem a redução das TIR acionistas,
especialmente, quando estas sejam superiores a 10%.
2.A ERSAR deverá promover a implementação de mecanismos de
partilha de benefícios, com os utentes e/ou os concedentes, em especial,
os resultantes da descida programada, para os próximos anos, em sede de
IRC.
3.A ERSAR deverá promover a eliminação progressiva de
cláusulas contratuais que implicam a transferência de riscos
operacionais, financeiros e de procura para o concedente.
4.A ERSAR deverá promover a adoção de pressupostos
económicos, financeiros e técnicos prudentes, no âmbito do
lançamento de novas concessões, no sentido de garantir a
sustentabilidade económico-financeira das concessões, evitando,
igualmente, potenciais reequilíbrios com repercussões negativas
ao nível do tarifário a aplicar aos utentes.
27. Sobre o PEAASAR II fiz uma análise detalhada e crítica dos
dados apresentados no artigo: O PEAASAR II «Plano estratégico para
o sector das águas» - Revista Poder Local, Nº 146
Dezembro de 2006, p. 9-27,
revistapoderlocal.pt/...
O PENSAAR 2020 - Plano Estratégico de Abastecimento de Água e
Saneamento de Águas Residuais 2020-
é um documento da mesma índole
, política e estratégica, que pode ser muito conveniente à
exposição política da AEPSA, mas de forma alguma é
uma fonte de dados fidedigna.
A apresentação oficial e links para os documentos estão
aqui:
www.apambiente.pt/index.php?ref=16&subref=7&sub2ref=9&sub3ref=1098
28. O RASARP 2016 (relativo a 2015) pode ser encontrado em:
www.ersar.pt/...
A única parte usada no "estudo" de Cunha Marques são
uns poucos gráficos de volume 1 e
alguns extractos
(escolhidos) da folha de cálculo "relatório de dados
indicadores", que são também apresentados graficamente nos
anexos i a iv ao RASAP. As folhas de cálculo de 2011 a 2015
encontram-se em
www.ersar.pt/pt/setor/factos-e-numeros/dados-de-base
;
As instruções de preenchimento e cálculo dos indicadores
estão no "Guia Técnico 19 - Guia de avaliação
da qualidade dos serviços de águas e resíduos prestados
aos utilizadores - 2.ª geração do sistema de
avaliação 2.ª edição revista e
atualizada"
www.ersar.pt/pt/publicacoes/publicacoes-tecnicas/guias
;
www.ersar.pt/_layouts/mpp/file-download.aspx?fileId=675098
29. John P. Mulreany; Sule Calikoglu; Sonia Ruiz; Jason W. Sapsin -
Water privatization and public health in Latin America/ La privatización
del abastecimiento de agua y la salud pública en América Latina,
www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1020-49892006000100004
Extracto do sumário:
"CONCLUSIONES: Nuestros resultados indican que no hay argumentos
convincentes de tipo sanitario que respalden la privatización del
abastecimiento de agua. Desde el punto de vista de la equidad y la justicia,
dicha privatización podría fomentar una visión minimalista
de la responsabilidad social en materia sanitaria que a su vez podría
menoscabar las funciones del sector de la salud en el largo plazo."
30. Lobina, Emanuele
"Our Public Water Future The global experience with
remunicipalisation"
; APRIL 2015; Published by Transnational Institute (TNI), Public Services
International Research Unit (PSIRU), Multinationals Observatory, Municipal
Services Project (MSP) and the European Federation of Public Service Unions
(EPSU),
www.psiru.org/sites/default/files/2015-04-W-OurPublicWaterFutureFINAL.pdf
31. Emanuele Lobina, Satoko Kishimoto, Olivier Petitjean,
"Veio para ficar a tendência global de
remunicipalização",
2015, Publicado pela Unidade Internacional de Pesquisa de
Serviços Públicos (PSIRU), Instituto Transnacional (TNI) e
Observatório Multinacional. Edição portuguesa
Colaboração com: Água de todos e STAL
www.aia-regiaosetubal.pt/sites/default/files/HereToStay-PT.pdf
;
Um resumo por Jorge Fael, 2015, "A remunicipalização dos
serviços de água" na
Revista Poder Local,
www.revistapoderlocal.pt/
32.
http://www.aguadetodos.com
33.
www.stal.pt/...
e
www.stal.pt/
34.
www.aia-regiaosetubal.pt/
,
www.aia-regiaosetubal.pt...
35. Texto do Projecto de Lei e exposição de motivos;
web.archive.org/...
Projeto de Lei Nº 368/XII, "Protecção dos direitos
individuais e comuns à água" - Audição na
Comissão Parlamentar do Ambiente, Ordenamento do Território e
Poder Local 4/7/2013
Intervenção inicial de Francisco Brás, da comissão
permanente da Campanha Água de Todos, em representação dos
Proponentes da Lei,
web.archive.org/web/
Re-apresentação na AR em 2016 pelo PCP e pelo BE:
app.parlamento.pt/...
e
app.parlamento.pt
36. Ver: Comunicado da Associação Água Pública de 27
de Maio de 2011, sobre o programa conjunto do PSD, PS e CDS para
privatização da água,
web.archive.org/web/...
37.
Tramitação na Assembleia da República e
votações:
www.parlamento.pt/...
www.parlamento.pt/...
www.parlamento.pt/...
notícias:
www.aguadetodos.com
www.aguadetodos.com/iniciativa-legislativa-de-cidadaos/
;
/www.aguadetodos.com/...
38. Outros inquéritos e inventários, nacionais, regionais ou
locais, fornecem outras informações muito úteis de mais
detalhe sobre as redes públicas e são relevantes para
interpretações e interpolações dos dados dos
censos, que só se realizam de 10 em 10 anos.
Esses estudos, quando muito, se sérios e bem feitos, proporcionam a
"proporção de população residente em zona
servida por rede pública" e muitas dessas pessoas
poderão não estar ligadas à rede; outras pessoas residem
em zonas sem rede pública, mas estão perfeitamente servidas por
soluções individuais ou pequenas redes colectivas particulares.
Na caracterização geral dos níveis de atendimento por
abastecimento de água e saneamento, esses estudos sérios
complementam os dados dos censos sobretudo na diferenciação entre
o serviço por rede pública e as soluções
particulares diferenciação que não é
rigorosa nos censos, por imprecisão dos inquiridores e dos inquiridos.
Para além dos estudos sérios, são muito frequentemente
divulgados valores completamente falsos de níveis de atendimento em
abastecimento de água, drenagem de águas residuais e tratamentos
de águas, por inépcia ou por vigarice oportunista.
39. com a excepção da EPAL Empresa Pública de
Águas de Lisboa - empresa pública de direito público mas
com intervenção da Administração Central
40. Lencastre, A. (2003). «Hidráulica Urbana e Industrial», in
Memórias Técnicas, Vol. II. Lisboa: LNEC, p. 568; citado por
João Howell Pato, "História das políticas
públicas de abastecimento e saneamento de águas em
Portugal", Lisboa, Outubro de 2011, pg 100
repositorio.ul.pt/bitstream/10451/20099/1/ICS_JPato_Historias_LAN.pdf
41. INAG, DSP/DPP, 2006,
"Resumo da evolução da drenagem e tratamento das águas
residuais domésticas em Portugal, de 1985 a 2001 - dados compilados para
efeitos da avaliação das emissões de metano provenientes
das águas residuais domésticas nos anos de 1990, 1994 e 1998"
42. O livro
"Poluição e Qualidade da Água"
Tema tratado no âmbito do Plano Nacional da Água
, INAG (Instituto da Água) Direcção de
Serviços de Planeamento, Lisboa, 2002, ISBN 972-9412-61-8 apresenta uma
extensa caracterização, quadros, cartografia análise e
diagnóstico da drenagem e tratamento das águas residuais
domésticas no Continente, apresentando os níveis de atendimento,
bem como das cargas poluentes geradas, cargas removidas pelos tratamentos e
cargas poluentes afluentes ao meio hídrico. É a única
publicação completa que foi feita sobre este tema, e refere-se
à situação no período 1998-2001.
43. INAG, DSP/DPP, 2006,
"Resumo da evolução da drenagem e tratamento das águas
residuais domésticas em Portugal, de 1985 a 2001 - dados compilados para
efeitos da avaliação das emissões de metano provenientes
das águas residuais domésticas nos anos de 1990, 1994 e 1998"
Os números a negrito são obtidos dos Censos ou dos
inventários do INAG; os números a azul, itálico,
são interpolações de forma a manter a coerência.
44. Algumas notícias; Paços de Ferreira
www.ambientemagazine.com/...
; Barcelos
www.netconsumo.com/2009/03/acop-reitera-que-nao-ha-obrigatoriedade.html
e
barcelos-popular.pt/?zona=ntc&tema=8&id=537
45. Após o levantamento detalhado das redes públicas de
abastecimento de água e de saneamento de águas residuais
efectuado no período 1998-1999, no âmbito dos Planos de Bacia
Hidrográfica, o INAG manteve ainda recolhas de dados sobre esses temas
até cerca de 2008 no âmbito do projecto "INSAR", mas a
forma de recolha e organização dos dados, por falta de
interligações e de suporte geográfico, não permitia
calcular os níveis de atendimento; o INAG foi extinto em 2012.
46. Porto water innovation week 2017
portowaterinnovationweek.eu/
Mayors and Water Conference 2017: URBAN WATER AGENDA (2030) 29 de setembro,
web.archive.org/...
www.portowaterinnovationweek.eu/mayors-water/datebook
47. Mayors and Water Speakers :
portowaterinnovationweek.eu/mayors-water/speakers
48. Ver "Sponsores & partners" em
portowaterinnovationweek.eu/eip/sponsors#sponsors_partners
49. A Veolia, alias CGE, ex-Vivendi, de origem francesa, é a maior,
mais antiga e mais politicamente intrusiva multinacional da água;
Juntamente com a Suez, alias Lyonnaise des Eaux, também de origem
francesa, tem a liderança do cartel das transnacionais dos
negócios da água, acumulando os seus mandatários
vários cargos nos órgão internacionais de
definição e imposição de política
capitalista da água, incluindo através do "Conselho Mundial
da Água" e lobbying com enorme influência na CE.
Procurando no "google" "Veolia" e "privatization"
aparecem 45 800 resultados ... 27300 resultados para a pesquisa em
português em espanhol e francês é mais utilizado o
"alias" CGE, o mais antigo e que ainda permanece.
O livro
"L'empire de l'eau Suez, Bouygues et Vivendi Argent, politique et gout du secret"
, Yves Stefanovitch, Editions Ramsay, Paris, 2005, 535 pgs, conta a
promiscuidade do poder político francês com esses negociantes da
água desde Napoleão III (meados do século 19) até
ao início deste milénio.
50.
Media Partners,
portowaterinnovationweek.eu/eip/media#media-partners-all
[*]
Engenheira
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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