A crise do processo de acumulação venezuelano
e o empobrecimento da classe operária
[1]
por Juan C. Villegas P.
[*]
As dificuldades actuais da economia venezuelana (inflação
anualizada que ultrapassa os 50%, desabastecimento de produtos do cabaz
básico, esgotamento das reservas internacionais e sucessivas
desvalorizações), que têm uma notável
incidência negativa sobre o nível de vida da classe
operária, provocaram novamente um debate sobre o "modelo
económico venezuelano", tentando estabelecer
diferenciações entre o modelo da chamada "IV
República" e o que se tenta desenvolver no processo bolivariano. A
oposição de direita acusa o governo nacional de haver tentado
implantar um suposto modelo "socialista" e "estatizante"
que conduziu o país à crise actual, ao passo que o
vice-presidente da área económica, Rafael Ramírez,
qualifica-o como um êxito em vista dos avanços em matéria
de distribuição de rendimento e redução da pobreza.
Quer atribuindo a culpa ao "modelo socialista" ou à
"guerra económica", ambas as visões representam apenas
explicações ideológicas da situação actual,
ocultando com isso que se trata do resultado da forma específica do
processo de acumulação de capital na Venezuela. Em primeiro
lugar, há que interrogar se o actual "modelo económico"
é diferente do que caracterizou a economia venezuelana a partir da
primeira metade do século XX. Para isso é necessário
lançar uma vista de olhos ao desenvolvimento da economia nacional nas
últimas décadas e, mais especificamente, ao comportamento do
sector manufactureiro.
Aqui não há nada de novo: Acumulação baseada na
captação da renda petrolífera
Falar sobre um novo "modelo económico socialista" não
é apenas desconhecer a realidade, é também uma
operação propagandista cujo resultado é a absoluta
confusão de importantes camadas da classe trabalhadora, com
consequências políticas que tornam mais difícil qualquer
avanço rumo à superação do capitalismo. A economia
venezuelana a partir da primeira metade do século passado e até o
dia de hoje foi e é uma economia capitalista fundamentada na
captação junto ao mercado internacional da renda da terra
mineira. O
estado venezuelano, como único proprietário do recurso
petrolífero, utiliza a referida renda, através de diferentes
mecanismos de alocação e redistribução, para a
sustentação do resto dos sectores da economia
[2]
. Por isso, quando a renda é considerável tudo anda bem (na
aparência) e, pelo contrário, quando a renda se torna insuficiente
começam a manifestar-se os problemas.
Uma olhadela às exportações petrolíferas, desde
1970 até à actualidade, gera um panorama suficientemente amplo em
relação ao peso do rendimento petrolífero no total das
exportações e de como essa situação não
mudou em mais de 40 anos.
Gráfico 1: Exportações petrolíferas
1970-2012 (percentagem do total)
Não só os rendimentos petrolíferos representam mais de 90%
das exportações do país, tal como na década de
1970, como a isso acrescenta-se o facto de que as referidas
exportações na actualidade representam uma maior percentagem de
petróleo bruto. Efectivamente, até fins da década de 1980,
as exportações de produtos refinados de petróleo
ultrapassavam os 30% das exportações totais. Durante os anos
noventa começa a manifestar-se um declínio que atinge o seu ponto
mínimo em 2003 em resultado da paralisação golpista
daquele ano. Actualmente, os produtos refinados de petróleo só
atingem os 14% do total das exportações. Este facto reveste-se de
importância especial em virtude de a refinação ser uma
actividade manufactureira, o que implica agregação de valor.
A queda observada na participação do rendimento
petrolífero durante as décadas de 80 e 90 do século
passada não se deve a uma maior diversificação da economia
e sim a uma queda nos preços internacionais dos hidrocarbonetos,
situação que é revertida em princípios do presente
século, gerando com isso um novo auge rentista.
A ilusão de uma burguesia nacional
A abundante quantidade de renda captada em relação à
dimensão da economia permitiu a importação de bens de
capital com a intenção de industrializar o país mediante a
política de substituição de importações. Uma
taxa de câmbio sobrevalorizada, financiamento a baixo custo proveniente
do estado, uma política comercial proteccionista e a concessão de
subsídios foram as formas concretas pelas quais o estado venezuelano
transferiu uma importante fracção da renda petrolífera ao
empresariado nacional e ao capital estrangeiro localizado na Venezuela. Da
ideologia da superação da dependência desprende-se a
política de subsidiar a burguesia local com a promessa de que a mesma
desenvolveria economicamente o país. O resultado, pelo contrário,
é um sector privado nacional de produtividade muito baixa que portanto
é incapaz de inserir-se com êxito na economia mundial. Tal
ilusão susteve-se enquanto a renda petrolífera era abundante, mas
mal iniciada a década de 1980, um queda nos preços do
petróleo e a manifestação da crise da dívida,
ficariam evidentes as limitações do processo de
acumulação de capital na Venezuela.
Uma revisão das taxas de crescimento manufactureiro, desde 1950
até o ano passado, revela quando realmente começa a
"destruição do aparelho produtivo nacional", do qual
tanto se queixa a burguesia nativa.
Gráfico 2: Taxa de crescimento do PIB, sector manufactureiro, 1950-2013
As elevadas taxas de crescimento observadas durante as décadas de 50 e
60 devem-se a uma mudança estrutural na economia venezuelana (de
agrária para petrolífera). O desenvolvimento de actividades
conexas à exploração de petróleo (infraestrutura,
refinação, transporte, etc) e a crescente
urbanização impulsionaram o crescimento do sector industrial,
facto que se consolida a partir da adopção da política de
industrialização por substituição de
importações. Segue-se a década de 70, caracterizada por um
aumento nos preços internacionais dos hidrocarbonetos e por um crescente
endividamento externo, o qual permitiu o desenvolvimento de um importante
componente da indústria básica e, em menor medida, o
financiamento à pequena e média indústria. A festa
rentista termina com uma queda nos preços internacionais dos
hidrocarbonetos e, a partir de 1983, a crise assume forma específica com
a desvalorização da moeda e a crise da dívida.
Assim chega-se ao ano de 1989, com a adopção de políticas
de liberalização da economia. Depois de décadas de
proteccionismo e dada a escassa escala de acumulação da economia
venezuelana, o resultado não podia ser senão a inviabilidade da
inserção do sector industrial venezuelano na economia mundial,
facto que se manifesta com o estancamento do PIB do referido sector durante
toda a década de 1990. Com excepção do que aconteceu
durante a paralisação golpista de 2002-2003, a volatilidade
observada a partir de 2000 é resultado o auge rentista do início
do século, com picos nos anos de maior rendimento rentista e quedas
precisamente nos períodos em que diminui o preço internacional
dos hidrocarbonetos (2008-2009).
É importante destacar que se trata de uma crise inerente ao processo de
acumulação, que começa a entrar em colapso no
princípio dos anos oitenta e que se agrava à medida que passam os
anos. Não se trata de uma ou outra política errada ou
situação conjuntural, como se verifica pelo facto de que em
matéria de política cambial desde 1983 até à data
foi tentado quase tudo: desvalorização com controle de
câmbios, taxas de câmbio duais, controle de câmbios com
controle de divisas, livre flutuação,
desvalorizações sucessivas
(crawling peg)
e flutuação entre bandos. O resultado é o mesmo: perda de
poder aquisitivo da moeda, redução do salário real, fuga
de capitais, altos níveis de inflação e uma progressiva
desindustrialização com a resultante importante expulsão
de mão-de-obra.
A "grande viragem" rumo à desindustrialização
Tal como indica L. Vera (2009)
[3]
, outro indício da inflexão desindustrializadora que sofreu a
economia venezuelana é constituída pela
participação do sector manufactureiro no PIB total do
país. Tal situação é ilustrada pelo seguinte
gráfico.
Gráfico 3: Participação (%) do Sector
Manufactureiro no PIB, 1950-2013
Apesar de uma diminuição progressiva das taxas de crescimento do
PIB sectorial, este continua seu ritmo ascendente se for comparado com o total
do PIB até fins da década de 1980, período no qual
alcança seu ponto máximo, para a seguir entrar num processo de
declínio que data de mais de 25 anos. O processo de
industrialização impulsionado pela disponibilidade de renda
reverte-se na medida em que esta se torna cada vez mais insuficiente para o
funcionamento da economia. Trunca-se desta forma a possibilidade de o capital
industrial valorizar-se e acumular-se no âmbito nacional. A abertura
económica a partir de 1989 encontra um sector industrial venezuelano
pequeno, fraccionado, ineficiente e incapaz de competir no mercado mundial.
Este processo continua com o início do século, no qual o auge
rentista serviu para retomar a política de financiamento ao pequeno
capital, mas desta vez com um revestimento ideológico cujo objectivo
seria a suposta superação do modo de produção
capitalista através de fórmulas como o cooperativismo, o
"desenvolvimento endógeno", a economia "popular" e
um longo e pitoresco etcétera.
[4]
Gráfico 4: Emprego sectorial, como percentagem do total
empregado, 1975-2013
[5]
"Quando o que está a morrer não termina de morrer..."
O resultado de tudo isto é próprio da dinâmica da
acumulação capitalista, na qual o capital mais ineficiente tende
a desaparecer devido à competição e com isso expulsa um
importante da classe operária, facto que se torna evidente nos
números do emprego sectorial. No gráfico nº 3 é
claramente visível como o emprego no sector manufactureiro não
deixou de diminuir especialmente a partir de finais dos anos oitenta,
até representar no ano passado pouco mais de 10% do total da
população ocupada. No sector do comércio, pelo
contrário, o crescimento é mais que evidente, a ponto de se
constituir no sector de actividade económica com maior
participação no emprego.
Existem duas formas pelas quais este processo pode ser explicado: em primeiro
lugar, a competição capitalista obriga a introduzir melhorias
tecnológicas que reduzem a existência de postos de trabalho no
sector manufactureiro; em segundo lugar, a mesma competição
desloca os capitais mais pequenos e ineficientes obrigando-os a encerrar e
despedir trabalhadores
[6]
. A crença de que a pequena e média indústria pode
constituir um sector manufactureiro capaz de atender as necessidades de consumo
nacional choca-se irremediavelmente com o processo de acumulação
capitalista em que só aqueles capitais que consigam uma escala
suficiente de concentração conseguem sobreviver.
O pequeno capital que antes era destinado à manufactura agora é
destinado a actividades onde efectivamente possa valorizar-se, isto é,
actividades de comércio e serviços. Desta forma desaparecem
empresas de manufacturas quer por encerramento quer por fusão com outras
maiores e onde antes havia uma importante actividade no ramo têxtil agora
florescem gigantescos centros comerciais
[7]
, a fábrica de calçados desaparece e dá lugar a uma
importadora do mesmo ramos, a indústria metalúrgica é
substituída pela importação de bugigangas, o pequeno
industrial químico converte-se em proprietário de uma destilaria
e o pavilhão industrial encerra-se para inaugurar um hotel-casino.
Finalmente, toda actividade produtiva é fulminada diante da
expressão máxima do rentismo parasitário: a fraude cambial.
A depauperação da classe operária
Este processo leva a que importantes camadas da população
operária sejam deslocadas para sectores onde sua subjectividade
produtiva é degradada, empregando-se em actividades de baixa
produtividade. Além do sector informal da economia, que representa cerca
de 40% da população ocupada segundo o Instituto Nacional de
Estadística (INE), a Comissão Económica para a
América Latina (CEPAL) indica que mais de 50% da população
ocupada na Venezuela está em empregos de baixa produtividade
(comércio a retalho, serviços, restaurantes, hotéis, etc).
Este processo teve o seu auge durante a década de 1990 e actualmente
permanece estável como indica o gráfico nº 5.
Gráfico 5: Empregos de baixa produtividade em % do total, 1990-2012
Sectores cada vez mais numerosos da classe operária convertem-se em
População Operária Sobrante (POS), o que significa que
é população que sobra para o capital
[8]
. Neste caso, o capital localizado na Venezuela não necessita desta
camada da classe operária, por isso expulsa-a obrigando-a na maior parte
dos casos a inserir-se na economia informal, nas actividades por conta
própria e alguma forma específicas de emprego público. Tal
como ocorre com o resto da economia venezuelana, as referidas actividades
sustentam-se graças à redistribuição da renda.
A queda da actividade manufactureira e o depauperamento da classe
operária são resultados da especificidade do processo de
acumulação de capital na Venezuela, processo que já vem
mostrando sintomas claros de esgotamento desde há várias
décadas, com períodos nos quais uma alta nos preços
internacionais dos hidrocarbonetos atenua a tendência geral. O
crescimento do consumo interno combinado com um rendimento petrolífero
cada vez mais insuficiente impulsiona novamente o surgimento da crise e, com
ela, os programas de ajuste que aceleram o processo de empobrecimento
generalizado dos trabalhadores.
É precisamente nesta etapa crítica que se faz mais
necessária a organização e mobilização da
população trabalhadora, em primeiro lugar para travar qualquer
tentativa da direita filo-fascista de aproveitar o agravamento da
situação para aceder ao poder cavalgando o descontentamento das
massas. Em segundo lugar, requer-se a elaboração e
discussão ampla por parte do movimento operário organizado de um
programa político próprio, cujo objectivo imediato seja acabar
com a velha receita de entregar a renda petrolífera aos capitalistas,
enquanto um ajuste brutal é descarregado sobre os trabalhadores.
A classe operária, ao contrário, não só deve
impulsionar uma política integral cujo norte seja a
utilização da renda petrolífera para a
concentração de capital em áreas estratégicas da
economia (indústria, produção alimentar,
construção habitacional, banca e comércio exterior) como
deve colocar-se a tomada do poder político e, com isso, administrar a
renda em função dos interesses da classe operária. Renda
que foi exaurida pela burguesia com a cumplicidade de todos os governos.
Valencia, 29 de Abril de 2014
Notas:
[1] Este artigo faz parte de um esforço muito mais ambicioso dos
integrantes do Centro de Investigación y Formación Obrera (CIFO)
e da Asociación Latinoamericana de Economía Marxista (ALEM) de
compreender o processo de acumulação de capital na Venezuela. Por
isso alguns aspectos exigem um nível de profundidade que transcendem o
presente escrito.
[2] Diversos autores estudaram esta temática, dentre os quais
destacam-se Baptista, Asdrúbal. (2007). Teoría Económica
del Capitalismo Rentístico, (2da edición). Caracas, Ediciones
BCV.
[3] Vera, L. (2009).
Cambio estructural, desindustrialización y pérdidas de productividad: evidencia para Venezuela
. Cuadernos del CENDES, 26(71). Este autor realiza, sob o enfoque da
mudança estrutural,
um estudo interessante sobre o processo de desindustrialização na
Venezuela, no qual se destaca o cálculo da produtividade laboral tanto
sectorial como para o conjunto da economia.
[4] Exemplo disso constitui as " "Unidades de Producción
Socialista" da já quebrada Corporación Venezolana Agraria
(CVA), nas quais minúsculas unidades de produção de
farinha pré cozida de milho não conseguem produzir nem sequer 5%
do que produz uma só unidade de
empresas polar
.
[5] Consideram-se unicamente os sectores de manufactura e comércio que
incluem restaurantes e hotéis.
[6] Não só Marx em O Capital como Engels em "A
situação da classe operária na Inglaterra" (1845)
explicam de maneira minuciosa este processo, em vigor hoje em dia.
[7] O exemplo mais patente disso é constituído pelo grupo MANTEX
(Manufacturas Textiles SA) que antes era uma empresa têxtil importante na
cidade de Valencia e agora dedica-se à construção de
centros comerciais (Metrópolis Shopping). Para conhecer parte da sua
história ver
www.mantexmetropolis.com/mantex/quienes_somos.html
[8] Sobre este aspecto foi de muita utilidade a leitura do artigo de Marina
Kabat (2009).
La sobrepoblación relativa. El aspecto menos conocido de la concepción marxista de la clase obrera
. Anuario CEICS, 3, 113-134.
Ver também:
Estatizar el comercio exterior es frenar las importaciones fraudulentas, la inflación y la próxima devaluación
Crise au Vénézuela après la lettre critique de l'ex-ministre Jorge Giordani: pour les communistes, l'occasion d'ouvrir le débat pour approfondir la révolution socialiste
[*]
Do
Centro de Investigación y Formación Obrera (CIFO) / Asociación Latinoamericana de Economía Política Marxista (ALEM)
O original encontra-se em
alemcifo.org/ArticulosHTML/crisisacumulacion.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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