As caras do golpe de Estado em preparação na Venezuela
"É hora de liquidar Maduro, o resto cairá pelo seu
próprio peso"
por Thierry Derone
"É preciso limpar esta porcaria, a começar pela
cabeça, aproveitar o clima mundial com a Ucrânia e agora com a
Tailândia", assim se exprime a ex-deputada Maria Corina Machado,
herdeira de um grande grupo privado venezuelano e dirigente da extrema-direita,
num dos emails trocados em Maio com o político Diego Arria, o advogado
Gustavo Tarre e funcionários estado-unidenses, inclusive o embaixador
Kevin Whitaker, colocado em Bogotá. "É a hora de fazer
esforços, de proceder aos apelos necessários e obter o
financiamento para liquidar Maduro, o resto cairá pelos seu
próprio peso", acrescenta Corina Machado na sua carta.
Outro destinatário destes correios: o governador do estado de Carabobo,
o empresário milionário Henrique Salas Römer: "Caro
amigo, minha recepção no Canadá foi maravilhosa e o apoio
mais ainda, lá pelo menos não senadora brasileira chavista"
lê-se neste correio de 12 de Maio de 2014. "Avancei alguns passos
que outros não ousaram dar".
Estes intercâmbios de correspondência fazem parte de uma nova
série de provas apresentadas quarta-feira numa conferência de
imprensa de Jorge Rodriguez, o responsável da municipalidade de Caracas
e dirigente político da Revolução Bolivariana, a
propósito de um plano de magnicídio contra o presidente Nicolas
Maduro, no qual estão implicados agentes nacionais e estrangeiros. Desde
Junho de 2013, uma conversação telefónica que Maria Corina
Machado admitiu a autenticidade revelava seus contactos com o governo dos
Estados Unidos. Ouve-se Corina Machado insistir na necessidade de organizar
um novo golpe de Estado
antecedido de
"confrontações não dialogantes"
(sic).
Incapaz de ganhar eleições validadas pelos observadores
internacionais, a direita radical desde há vários anos tem
tentado derrubar o governo pela violência. Este plano experimentou
várias etapas como o golpe de Estado de Abril de 2002 contra Hugo Chavez
ou mais recentemente os focos de violência
("guarimbas")
e a tentativa de promover um magnicídio
[1]
com o apoio do paramilitarismo de Álvaro Uribe
[2]
. Face ao desgaste dos focos de violência e a recusa da grande maioria da
população a neles participar, Diego Arria consultou Pedro Mario
Burelli, ex-director da Petróleos de Venezuela na época em que
esta empresa estava nas mãos da elite (renacionalizada posteriormente
pela revolução bolivariana), que qualificou de correcta a
posição assumida por Corina Machado. "É isso que
é preciso fazer" responde Burelli a Arria na sua conta
pedro@burelli.com.
Rodriguez fez parte de uma outra mensagem enviada por Corina Machado ao
advogado Gustavo Tarre Briceño, na qual é revelado que a direita
dispõe actualmente de "um livro de cheques maior que o regime para
romper a cadeia de segurança internacional (do governo)".
Finalmente, no correio enviado através da sua conta 77gaia@gmail.com,
Corina Machado confirma a participação do governo dos Estados
Unidos, por intermédio do seu novo embaixador na Colômbia, Kevin
Whitaker, nas violências desencadeadas em Fevereiro último e que
fizeram 42 mortos e mais de 800 feridos. "Eu já decidi, esta luta
prosseguirá até que o regime se vá e que nós
respeitemos nossos amigos no mundo. Sim, eu fui a San Cristobal e assumi riscos
na OEA (Organização dos Estados Americanos), não tenho
medo de ninguém, Kevin Whitaker já me reconfirmou seu apoio e
indicou os novos passos a dar", escreve Corina Machado.
Na lista dos financiadores do golpe de Estado e do plano de magnicídio
aparece igualmente Eligio Cedeño, um banqueiro que fugiu do país
na sequência de vários casos de trapaça. "Eligio
é claro no que o afecta e transmitiu-me uma mensagem de absoluta
confiança na nossa capacidade para organizar as outras fases nas quais
vamos entrar para lutar pela nossa querida Venezuela. Assim sendo, avancemos e
continuemos a avançar, com estes esforços, a
agitação de todos os jovens e, em particular, dos
estudantes" escreve Corina Machado por via electrónica, a 1º
de Maio último, a Henrique Salas Römer que figura também
como financeiro por intermédio da organização de
extrema-direita Juventud Activa Venezuela Unida (JAVU). Corina Machado enviou
esta mensagem a Salas Römer depois de ter visitado o Parlamento Europeu e
o Senado norte-americano, no quadro das suas viagens para promover uma
intervenção estrangeiras na Venezuela e a aprovação
de sanções por Washington.
As mensagens electrónicas trocadas pelos membros da extrema-direita
venezuelana revelam que os planos para perpetrar um magnicídio contra o
presidente Maduro datam de antes de 8 de Dezembro de 2013, data das
eleições municipais na Venezuela. "Eles haviam preparado
tudo, é por isso que a 8 de Dezembro queriam apelar ao plebiscito",
disse Jorge Rodriguez na conferência de imprensa. "Quero dizer que
haviam preparado tudo para instalar as "guarimbas", os cabos
esticados para cometer assassinatos, queimar as unidades do metro, queimar as
cabines, assediar San Cristobal (estado de Tachira) e San Diego (estado de
Carabobo)" acrescentou, recordando que foi graças à vontade
da maioria dos eleitores de apoiar as candidaturas bolivarianas na maioria das
municipalidade em 8 de Dezembro último
[3]
que se pôde travar o plano de desestabilização. "Em
23 de Janeiro deste ano, eles reactivaram o plano e a 12 de Fevereiro
desencadearam a fase das violências de rua. Que fique bem claro que
não são protestos espontâneos", observou.
Para memória: apesar de a grande maioria da população
venezuelana ter rejeitado esta campanha de violências e de assassinatos,
apesar de unicamente 7% das pessoas presas por assassínios ou
violências serem estudantes e de que as manifestações
não tiveram como base senão os bairros ricos ou a zona
próxima da Colômbia, a maior parte dos jornalistas europeus
transmitiu cegamente a versão da direita e dos media privados
venezuelanos de uma "revolta estudantil contra a vida cara" e do
Estado venezuelano como "Estado repressivo", estando presente Maria
Corina Machado como uma musa inspiradora da "luta pela democracia".