Venezuela: Treze pontos-chave para entender o que está em jogo com a reforma da Lei dos Hidrocarbonetos

André Izarra [*]

Plataforma em Maracaibo.

1. O que é a Lei dos Hidrocarbonetos Orgânicos e porque é que ela é importante?

É a lei que regula a forma como o petróleo é explorado, produzido, comercializado e distribuído na Venezuela. Define quem pode extraí-lo, em que condições, quanto resta para o país e quanto para as empresas e onde os conflitos são resolvidos.

O petróleo representa mais de 90% das exportações venezuelanas. É literalmente o único activo estratégico que o país tem para financiar a sua reconstrução. A lei que o regula determina se essa riqueza beneficia os venezuelanos ou outros.

2. O que muda com a reforma que está sendo aprovada?

As mudanças fundamentais são cinco:

a) Quem opera: Anteriormente, a PDVSA precisava ter controle operacional. Agora, o parceiro privado minoritário pode assumir completa “gestão técnica e operacional”.

b) Quem vende o petróleo: Antes, apenas a PDVSA poderia comercializar o petróleo bruto. Agora, as empresas privadas podem “realizar marketing direto” e administrar fundos em contas bancárias no exterior.

c) Quanto recebe a Venezuela: Os royalties – o que pagam aqueles que extraem petróleo pelo direito de extraí-lo – são reduzidos de 30% para 20% nos contratos de serviços e até 15% nas empresas mistas. Isso significa milhaares de milhões de dólares a menos para o país a cada ano.

d) Onde os conflitos são resolvidos: Antes, nos tribunais venezuelanos. Agora, através de “arbitragens independentes” – isto é, tribunais internacionais onde a Venezuela está subordinada às capacidades políticas de terceiros.

e) Quem aprova os contratos: Anteriormente, a Assembleia Nacional tinha que aprová-los. Agora, ela será apenas “notificada”.

3. Por que dizem que isso viola a Constituição?

Porque a Constituição de 1999 estabelece claramente:

4. Quanto dinheiro a Venezuela perde com esta reforma?

Segundo cálculos baseados na produção e nos preços atuais, a redução dos royalties significa aproximadamente 7 445 milhões de dólares a menos por ano para o tesouro venezuelano.

Para colocar isso em perspectiva:

É um dinheiro que é transferido dos cofres públicos para os lucros das empresas privadas que irão explorar os campos.

5. Por que os royalties não podem ser reduzidos como “incentivo” ao investimento?

Porque o royalty não é um imposto:

Os royalties são o pagamento que a Venezuela recebe pela posse do petróleo. É o preço do imóvel. Quando uma empresa extrai um barril, esse barril deixa de existir – é um bem esgotável que pertencia a todos os venezuelanos. Os royalties compensam essa perda permanente.

Impostos (como o ISLR) incidem sobre os lucros da empresa. Se a empresa ganha muito, paga mais; Se ganha pouco, paga menos.

Por que essa diferença é importante?

Como atrair investimentos sem mexer nos royalties? As opções são muitas:   reduzir temporariamente o imposto sobre a renda, permitir a depreciação acelerada dos investimentos, conceder créditos fiscais. Essa é uma política fiscal legítima. Mas os royalties – o preço da propriedade – devem permanecer intactos.

O Brasil extrai petróleo a 2 mil metros de profundidade sob camadas de sal e mantém seu royalty fixado em 15%, sem negociação. A Guiana, sem infra-estruturas petrolíferas anteriores, aumentou os seus royalties de 2% para 10% em 2023. Em nenhum país sério as dificuldades técnicas justificam a doação de activos nacionais.

6. A Venezuela não precisa de investimento estrangeiro para recuperar a produção de petróleo?

Sim, precisa disso. A PDVSA é destruída e a Venezuela não tem o capital nem a tecnologia para desenvolver sozinha as jazidas do Cinturão do Orinoco.

Mas existem muitas maneiras de atrair investimentos:

Modelo Investimento estrangeiro Controle estatal Jurisdição
Arábia Saudita (Aramco) Contratos de serviço 100% estatal Nacional
Noruega (Equinor) Sócios minoritários Maioria estatal Nacional
Brasil (Petrobrás) Empresas mixtas Mínimo 51% estatal Nacional
Reforma venezuelana Controle operacional privado Minoritário/nominal Internacional
Alguns dos modelos de investimento estrangeiro

A questão não é se deveria haver participação privada. A questão é se essa participação deveria significar a perda de controle, marketing, jurisdição e metade dos royalties. Outros países atraem investimento sem entregar tudo isso.

7. Não foi o “nacionalismo petrolífero” chavista que destruiu a PDVSA?

Não exatamente. Duas coisas devem ser distinguidas:

Sob Chávez (1999–2013): Apesar da greve petrolífera de 2002–2003 e do despedimento de 18 000 funcionários, a produção recuperou. Quando Chávez morreu em 2013, a Venezuela produzia quase 3 milhões de barris por dia.

Sob Maduro (2013–2025): A produção caiu para menos de 400 000 barris no seu pior momento. Hoje mal ultrapassa 900 000.

O que aconteceu? Maduro não deu continuidade ao modelo chavista. O que ele fez foi distribuir a PDVSA como saque entre as diferentes facções que competiam pelo poder:   os militares, a ala de Cabello, a ala de Rodríguez, redes de “embutidos”. Cada grupo “ordenhou” sua parte sem reinvestir. Além disso, ele prendeu centenas de trabalhadores do petróleo em expurgos políticos.

O colapso não foi por causa do “nacionalismo”. Foi para transformar a PDVSA num sistema de extração de renda para as facções no poder.

8. Quem beneficia com a reforma?

Os beneficiários são previsíveis:

Quem não se beneficia? O povo venezuelano, que ainda está ausente da equação.

9. O que os Estados Unidos têm a ver com esta reforma?

Bastante. A reforma ocorre semanas após a captura de Maduro numa operação dos EUA e sob um governo (Delcy Rodríguez) que funciona como protetorado de Washington.

O próprio Trump falou publicamente sobre os negócios petrolíferos. O chefe da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, justificou a reforma dizendo que “o petróleo debaixo da terra não serve para nada” – o mesmo argumento usado pelos promotores da abertura dos anos 90.

A reforma não é uma decisão soberana da Venezuela. Faz parte do preço da “transição” negociada:   o regime entrega o petróleo em troca de Washington permitir-lhe permanecer no poder sob outro formato.

10. Isto não é melhor que o desastre de Maduro?

É uma falsa dicotomia. As opções não são “Maduro ou protetorado”.

O madurismo destruiu a PDVSA através da corrupção, da tribalização e da repressão. Mas a solução para este desastre não é entregar o recurso a outros em condições piores do que as da abertura dos anos 90.

É como se alguém administrasse tão mal a sua casa que ela ficasse em ruínas, e a “solução” fosse vendê-la por uma fração do seu valor a quem vai alugá-la de volta para você. Certamente, já não é gerida por quem a destruiu. Mas também não é sua.

A verdadeira alternativa é:   recuperar as instituições democráticas, estabelecer controlos transparentes, atrair investimentos em condições que mantenham o controlo nacional. Isso requer um governo legítimo, não um protetorado.

11. O que diz a Constituição sobre como o petróleo deve ser gerido?

A Constituição de 1999 – aprovada por referendo popular – é clara:

Artigo 302.º: “O Estado reserva-se, através da respetiva lei orgânica (…) a atividade petrolífera e outras indústrias, explorações, serviços e bens de interesse público e de natureza estratégica”. Artigo 303: “Por razões de soberania económica, política e de estratégia nacional, o Estado reterá a totalidade das ações da Petróleos de Venezuela, SA”

A Constituição não proíbe a participação privada. O que se exige é que o Estado mantenha a reserva sobre a atividade e o controle da PDVSA. A reforma inverte essa relação: mantém a palavra “reserva”, mas esvazia o seu conteúdo.

12. Houve debate público sobre esta reforma?

Não. A reforma foi aprovada na primeira discussão com “celeridade complacente”, segundo seus próprios críticos. Não houve:

Os Contratos de Participação Produtiva (CPP) legalizados pela reforma foram assinados secretamente no âmbito da Lei Antibloqueio. Ninguém sabe quem são os beneficiários, que áreas foram entregues, em que termos.

O futuro do principal recurso do país está a ser decidido a portas fechadas.

13. O que podemos fazer?

Primeiro, informe-se e informe. Esta reforma afecta todos os venezuelanos, mas a maioria não conhece o seu conteúdo nem as suas implicações.

Em segundo lugar, exigir transparência. Quem são os beneficiários dos contratos? Quais áreas foram entregues? Em que condições? O povo tem o direito de saber.

Terceiro, recusar a falsa dicotomia. Não é “Maduro ou protetorado”. Não é “estatismo corrupto ou privatização entreguista”. Existem alternativas que combinam o investimento estrangeiro com o controlo nacional, como demonstram outros países produtores de petróleo.

Quarto, defender o princípio básico: o petróleo pertence aos venezuelanos. Qualquer governo – de qualquer tipo – que o implemente sem o consentimento do povo está a trair a nação.

O consenso de quase um século de pensamento petrolífero venezuelano – dos conservadores aos socialistas – foi que o petróleo deve servir a Venezuela. Esse consenso está a ser demolido em semanas, sem debate, sem consulta, sem legitimidade.

Não podemos permitir isso em silêncio.

28/Janeiro/2026

Ver também:
  • A reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos da Venezuela
  • [*] Analista, venezuelano.

    O original encontra-se em www.aporrea.org/energia/a349232.html

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    30/Jan/26

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