"Quintal das traseiras" a ferro e fogo
por José Goulão
A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em
marcha. Independentemente dos contornos militares que vier a assumir, o
pretexto político já foi definido a suposta
"ilegitimidade" do novo mandato de Nicolás Maduro , os
encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações
belicistas também, enquanto as pressões diplomáticas se
intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de
feição para os promotores da agressão: a juntar à
disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a
Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular
do território venezuelano.
A velha doutrina de Washington sobre o domínio "do quintal das
traseiras" as Américas Central e do Sul reactivada a
partir de 2008 com uma série de golpes políticos e
diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns
atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania
à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores
representam agora postos avançados contra os que falta abater: a
"troika da tirania", definição estabelecida em
Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a
Bolívia, que aguarda novo assalto.
A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado
em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias,
absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra
contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo
objectivo a Venezuela.
A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem
referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores
às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em
Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma
política de soberania nacional.
Conspiração em Brasília e Bogotá
Viajando pelo "quintal" para abençoar a posse de Jair
Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da
CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em activas reuniões de bastidores.
Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que
será a "luta contra os regimes autoritários de Venezuela e
Cuba". Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros
tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel
principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente
e general Hamilton Mourão terá exagerado até no
entusiasmo, pelo menos em termos de "timing", oferecendo-se para
enviar "uma força de paz" com destino a Caracas.
A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de
outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o "isolamento
diplomático" da Venezuela.
Kerch reproduzido na Guiana
Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma
provocação no terreno, aliás a fazer lembrar
metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a
Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch.
Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a
expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da
Exxon Mobil, o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono,
que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido
convidados.
Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em
4 de Janeiro, como "uma provocação da Venezuela que
põe em causa a segurança colectiva", no artigo 9º da
declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima,
a etapa seguinte do périplo de Pompeo.
Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por
fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por
Washington, assumiram esta posição partindo do princípio
de que os intrometidos navios estariam em actividade em águas
territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a
Venezuela.
Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um
território florestal não habitado de 160 mil quilómetros
quadrados e que resultou do facto de os colonizadores britânicos e
espanhóis não terem estabelecido esse sector de fronteira entre
as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano.
O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015
houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra,
em 1966 até que surgiram indícios fortes da
existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais
correspondentes a essa zona por definir.
Porém, em 9 de Janeiro, o presidente da Venezuela provou, durante uma
conferência de imprensa de âmbito internacional, que os navios da
Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em
águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Maduro apresentou
várias provas: a posição exacta em que se encontravam os
navios, reveladas por um dos capitães durante conversações
com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma
autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora
derrubado na véspera através de um estranho episódio: o
deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo numa
moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se
no Canadá.
O presidente Nicolás Maduro exigiu então, na sequência da
apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o
artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos
contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do
Canadá.
Doutrina agressiva
Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a
sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a
"ilegitimidade" do novo mandato de Maduro, porque resultante de
eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54%
de abstenções, alegadamente devido a um boicote por sectores da
oposição fascista dirigida de Washington.
Ora as abstenções de 54% são comuns nas
eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como
houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de
transporte e outras situações anómalas.
E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas
eleições que entronizaram Sebastián Piñera,
discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma
ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na
eleição de Juan Hernandez nas Honduras, de tal modo que os
Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos
Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la.
E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se
realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que,
segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada?
A "ilegitimidade" de Maduro, estabelecida apesar da
coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o
combustível das acções de guerra contra a Venezuela.
Eis que se fala da Rússia
Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto
mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao colectivizarem os
objectivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a
Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem
caminhos próprios de desenvolvimento.
Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A
estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço
de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que
desencorajem a formação de governos independentes e com pouca
vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa
actividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a
reactivação da Quarta Esquadra norte-americana, os
exercícios militares gigantescos e provocatórios são
sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha.
Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à
ocupação militar das Malvinas argentinas a criação,
a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas.
Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição
política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro,
não seja desenquadrada desse objectivo de Londres e que o
Canadá tenha ajudado.
No contexto geral, porém, também é certo que os
países que apostam na soberania política e económica, como
a Venezuela, têm diversificado as suas relações com
nações e regiões de outros continentes. Pelo que os
interesses dos Estados Unidos e aliados no "quintal das traseiras" de
Washington não são os únicos no terreno. Outros foram
sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões.
As relações entre Caracas e Moscovo têm-se aprofundado, do
mesmo modo que as da Venezuela com a China. Não sendo de ignorar
também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal
interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na
Nicarágua.
Além disso, como é de conhecimento geral, a relação
de forças mundial está em mudança significativa a
própria supremacia militar é hoje muito mais repartida.
Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a
construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da
Venezuela, a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado
durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de
Estado coordenada pela administração de George W. Bush.
Uma base na qual Moscovo encara a possibilidade de estacionar bombardeiros
estratégicos, o que traz à memória as angústias
vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada
"crise dos mísseis" em Cuba, em 1962.
Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América
Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colónias
contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola
de inocentes.
16/Janeiro/2019
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=202
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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