A crise do capitalismo rentista na Venezuela
por Oscar Figuera
[*]
entrevistado por Cira Pascual Marquina
Como analisa a situação da classe trabalhadora venezuelana e do
povo em geral? Quais são as raízes da crise?
Para nós, é importante começar por caracterizar a
sociedade venezuelana. Para o Partido Comunista, o que entrou numa grave crise
na Venezuela é o modo de produção capitalista e
dependente, caracterizado por um modelo rentista de acumulação:
encontramos nesse modelo as raízes da crise catastrófica que
enfrentamos.
Devo acrescentar que estamos a pagar as consequências de erros recentes:
o modelo de acumulação não foi transformado durante o
Processo Bolivariano. Não foi transformado com o presidente
Chávez e muito menos agora, durante a presidência de Nicolas
Maduro.
Isso, por sua vez, leva-nos a outra questão: por que o PCV considera que
a Venezuela, desde a chegada de Chávez ao poder, está em processo
de libertação nacional? Para isso, diríamos que
consideramos que o programa de Chávez trouxe um dos elementos-chave para
romper com a dependência e construir um novo sistema latino-americano e
caribenho: um esforço organizado para construir um bloco unido dos povos
do nosso continente.
Essa é uma linha de trabalho que historicamente promovemos e que
é, em nossa perspectiva, fundamental, se quisermos avançar para
romper com o domínio imperialista e a longa dependência de nossa
região. Adoptamos o projecto apresentado pelo presidente Chávez
de uma perspectiva táctica e estratégica.
Na verdade, chegamos ao ponto de dizer que, do nosso ponto de vista (e dissemos
isso quando o presidente Chávez fez a proposta), o desenvolvimento
[económico] da Venezuela não está maduro o suficiente para
avançar em direcção ao socialismo. Entendemos que, quando
Chávez começou a falar em socialismo, seu chamado se encaixava
num cenário político específico, mas não
correspondia ao desenvolvimento das forças produtivas do país (o
que geralmente chamamos de condições objectivas), nem às
condições subjectivas do povo venezuelano. Assim, mais uma vez,
estamos onde estamos, porque existe uma profunda crise do modelo capitalista e
rentista dependente o qual não foi transformado nos mais de vinte anos
do Processo Bolivariano.
Outra chave para entender nosso apoio a Hugo Chávez é a
questão da soberania do petróleo. Com Chávez, o estado
venezuelano conseguiu controlar a principal fonte de riqueza do país: o
petróleo. Antes de Chávez, noventa por cento dos lucros do
petróleo eram expropriados por grandes transnacionais. Com
Chávez, parte da receita do petróleo, que tem sido a espinha
dorsal da economia da Venezuela nos últimos cem anos, foi colocada ao
serviço do atendimento das necessidades sociais, culturais e
políticas do povo.
No entanto, a Venezuela não avançou em outros aspectos essenciais
para a construção de uma nação soberana, como o
desenvolvimento das forças produtivas. Chávez iniciou uma
politização do povo, o qual se empenhou activamente. A era de
Chávez politizou o povo venezuelano e isso é, em parte, uma das
chaves para a resiliência de nosso povo hoje. Com Chávez, houve um
salto importante no entendimento de que o imperialismo dos EUA, seus aliados
europeus e as forças oligárquicas nacionais alinhadas ao capital
internacional são nossos inimigos fundamentais.
Como o PCV analisa a direcção do governo bolivariano nos
últimos anos? Alguns comemoram a liderança de Nicolas Maduro
ele derrotou golpes de Estado, venceu eleições e resistiu
ao ataque do imperialismo enquanto outros criticam suas
soluções pró-capitalistas para a crise:
privatizações, cortes nos gastos sociais,
eliminação dos direitos dos trabalhadores e assim por diante.
Desde o início de 2019, como resultado do XVII Plenário do PCV,
nossa posição tem sido de que as políticas adoptadas pelo
governo de Maduro são liberais e isso significa que o peso da crise
é suportado pelos mais pobres. Isto foi ratificado no nosso XIV
Plenário há um par de meses.
Como mencionei antes, na raiz da crise está o modelo de
acumulação combinado com a agressão imperialista.
Mas acreditamos que políticas [económicas] liberais não
vão nos tirar da crise.
Dentro do partido, há um debate em curso acerca da
caracterização precisa da tendência económica do
governo. Será neoliberal? A resposta a isto ainda está pendente,
mas acreditamos que as medidas que têm sido implementadas privilegiam o
investimento capitalista, o nacional e particularmente o estrangeiro. Nesse
sentido, testemunhamos uma desregulamentação na esfera do
trabalho e uma queda espectacular no preço da força de trabalho,
despedimentos em grande escala, reformas, etc.
Tudo isto é feito, como mencionei, com um objectivo: incentivar o
investimento. Isto, no entanto, não acontecerá por uma
razão muito simples: o investimento estrangeiro só chega à
Venezuela quando o preço do petróleo é alto e vem aqui com
o único objectivo de lucrar directamente com a riqueza gerada pelas
vendas de petróleo. Os capitalistas nunca desenvolveram este
país, eles nunca investiram um centavo. E agora que os preços do
petróleo estão baixos, tudo o que podemos esperar é que
venham aqui para lucrar com o nosso ouro, coltan e outros minerais
estratégicos encontrados no nosso território.
Então, ao invés de liberalizar [a economia] e buscar
investimentos estrangeiros, o que não funcionará, o governo de
Maduro deveria concentrar-se em atender às necessidades do povo com
programas sociais, enquanto procura por uma saída revolucionária
da crise do modelo capitalista rentista.
Somos contra o caminho da conciliação de classes, o qual
privilegia e dá vantagens ao investimento estrangeiro. Tudo isto
é particularmente problemático quando esse caminho é
envolvido num discurso socialista que não tem conexão com a
realidade... Acreditamos que esse discurso socialista prejudica as massas
porque distorce a nossa realidade. Tragicamente, muitos estão a rejeitar
o socialismo porque identificam o que está a acontecer agora com o
projecto, e outros entendem que o socialismo exige um grande nível de
sacrifício. Naturalmente, é verdade que o socialismo exige
sacrifício. O socialismo exige muito sacrifício porque confronta
as forças do capital, mas o socialismo não é só
isso, também é sobre a construção de algo novo e
essa perspectiva não é encontrada em parte alguma no presente.
Além de atender às necessidades urgentes do povo, algo que o
governo deve fazer, também defendemos a centralidade da classe
trabalhadora e o papel dos camponeses e comunas na solução da
crise. Deveríamos tentar sair da crise actual junto com o capital
transnacional? Deveríamos deixar a perspectiva burocrática
prevalecer? Ou o caminho de saída da crise actual está nas
mãos de quem produz com as suas mãos? Nós optamos pelos
últimos.
Agora, alguém poderia perguntar, dadas nossas condições,
não é necessário buscar algumas alianças com
sectores do capital? Sim. Não somos inflexíveis. Entendemos que o
estado não tem recursos para alavancar a produção,
portanto algumas concessões devem ser feitas. A Venezuela precisa
procurar aliados, mas buscar alianças com transnacionais não
é o caminho a seguir. Elas não trarão investimento e
trarão juntamente interesses estrangeiros. A Venezuela, ao invés,
deveria buscar investimentos de sectores que aceitem que temos um processo de
libertação nacional e que a construção de um modelo
autónomo e independente é um dos nossos objectivos chave.
De qualquer forma, o papel da classe trabalhadora, o papel dos camponeses, o
papel das comunas deve ser postos em jogo, não em termos meramente
discursivos, mas com participação real no processo de
recuperação do aparelho produtivo. É por isso que temos de
construir uma ampla aliança anti-imperialista, com todos os sectores,
incluindo o governo do presidente Nicolas Maduro. Todos aqueles comprometidos
com a mudança social devem ser integrados, incluindo o sector
capitalista patriótico.
Afinal de contas, estamos no meio de uma disputa inter-imperialista entre
potências mundiais. Este confronto está, na verdade, no centro da
agressão contra a Venezuela. As potências mundiais não
querem que estabeleçamos alianças com a China, a Rússia e
a Índia, porque estas alianças são fundamentais para
romper com a nossa situação dependente. Temos de seguir na
direcção daquelas alianças e, paralelamente, de construir
a união dos países da América Latina e do Caribe, que
é o único meio de enfraquecer as cadeias do imperialismo.
Recentemente, houve um diálogo entre o governo e alguns sectores da
oposição. Essas conversaçõess ocorreram sem a
participação de quaisquer organizações chavistas,
excepto o PSUV. Além disso, e de acordo com as declarações
do seu próprio partido, o PSUV rompeu o
Acordo de Unidade PSUV-PCV para enfrentar a crise do capitalismo venezuelano
(26 de fevereiro de 2018), o qual era a base para o apoio do PCV à
candidatura de Nicolas Maduro em 2018. Considera que o PSUV é capaz de
ouvir o movimento popular e a esquerda Chavista?
O PSUV não está ouvindo diversas vozes, que incluem outras
forças patrióticas e revolucionárias. Há uma
razão simples para isso: para aqueles de nós à esquerda,
é muito difícil separar-nos da aliança com o governo e o
PSUV, porque temos um inimigo comum nosso inimigo principal que
é o imperialismo dos EUA. seus aliados europeus e a direita interna.
Diante deste facto, o governo e o PSUV pensam que não precisam discutir
nada connosco. Eles agem unilateralmente. É um erro grave, pois a
construção beneficia-se com a participação
colectiva. A classe trabalhadora, os camponeses e os comunardos, todos temos
análises e propostas que podem ajudar a tirar a Venezuela da crise.
Pode ser que o governo ou o PSUV não compartilhem as opiniões ou
propostas vindas do campo popular. Dentro do PSUV existem diferentes correntes
ideológicas, incluindo social-democratas, sociais-cristãos e
mesmo liberais. No entanto, a liderança política deveria entender
que estamos numa aliança de diversos ("unidade dentro da
diversidade") e isso exige espaços de construção
colectiva.
Além disso, as contradições que se levantam não
devem ser entendidas como um problema. Muito pelo contrário, a
contradição pode ser construtiva. O problema não é
que possa haver contradições dentro do movimento; o problema
é como lidamos com elas! Se as contradições forem mal
tratadas, isso pode provocar rupturas e, num momento como o nosso, as fracturas
enfraquecem nosso projecto colectivo.
Uma vez que o PSUV entende que não nos aliaremos à direita ou ao
imperialismo, eles fecham espaços para a construção comum.
Eles actuam de maneira arrogante que (mesmo que não leve à
ruptura) produz confrontações. É o que está a
acontecer agora.
Na nossa mais recente sessão plenária, desenvolvemos o slogan
"confrontar, separar e acumular forças para avançar rumo
à construção da força da classe trabalhadora,
camponesa, comunal e popular" ["confrontar, deslindar e acumular
forças para avançar na construção de um
força operária, camponesa, comuneira e popular"]. A ideia
é avançar em direcção a uma ampla aliança
anti-imperialista para enfrentar e derrotar a agressão externa e, ao
mesmo tempo, confrontar correntes reformistas e submissas internas as quais,
com um falso discurso revolucionário, estão a desenvolver
alianças que vão contra o processo de libertação
nacional e cuja perspectiva é a oposta da socialista.
E qual é a abordagem do PCV para os
diálogos recentes
?
Os diálogos mais recentes levaram a um acordo com um sector da
oposição. Acreditamos que [a ideia de dialogar] estava correcta e
que estes diálogos são importantes porque mostram ao mundo que a
oposição de extrema-direita não é a única em
nosso país. Contudo, este acordo foi construído sem a
participação de outros sectores [do Chavismo]. Isso levou a uma
situação em que não é fácil de navegar.
Um dos acordos era que representantes do
Polo Patriótico
seriam incorporados à Assembleia Nacional. No entanto, o Partido
Comunista decidiu não se incorporar naquele órgão. [Nossas
razões são:] primeiro, que não nos foi dada uma
explicação sobre qual seria a táctica naquele
espaço e, segundo, que a Assembleia Nacional continua a desrespeitar [a
lei] e é a ferramenta chave da agressão imperialista no nosso
país. A Assembleia Nacional é um órgão que
não reconhece outros poderes públicos, incluindo a
presidência de Maduro, e nossa participação ali levaria a
criar mais confusão entre o povo. Nossa presença legitimaria uma
ferramenta que está ao serviço da conspiração
contra-revolucionária.
Quando confrontados com este dilema, decidimos não nos incorporarmos
à Assembleia Nacional, embora isto seja uma questão ainda em cima
da mesa e será debatida em breve na XV sessão Plenária [do
nosso partido]. Francamente, nosso entendimento é que a Assembleia
Nacional Constituinte deveria ter tomado uma acção contundente
quando Juan Guaido, presidente da Assembleia Nacional, auto-proclamou-se
presidente. A Assembleia Nacional faz parte de uma conspiração e
deveria ser dissolvida.
Agora, se o PSUV nos explicar que existe um caminho para superar o
carácter conspirativo da Assembleia Nacional, então é
possível que possamos nos reincorporemos naquele espaço,
após um debate interno.
Houve novas formas de protesto nos últimos anos: protestos que
não buscam mudanças de regime, mas soluções para
reivindicações concretas diante de problemas graves. Elas
vão desde pessoas que protestam por gás e água até
camponeses que exigem justiça e protecção em
relação aos proprietários de terras. Como entende este
novo fenómeno?
Proveniente do movimento popular e patriótico e dos sectores
comprometidos com a transformação da sociedade venezuelana,
há uma tendência crescente de organizar protestos
legítimos. Estes protestos não vêm mais da direita, mas ao
invés do movimento revolucionário popular, da força que
passou a ser conhecida como chavismo. Eles apresentam
reivindicações, mas também propostas que têm a ver
com políticas trabalhistas, políticas agrárias e
camponesas e assim por diante. Estes protestos compartilham uma
preocupação: a rota do processo bolivariano e as
condições de vida do povo.
O Partido Comunista acredita que é importante reunir queixas
legítimas, criar uma frente nacional que se manterá firme quando
confrontada com o imperialismo mas que também enfrentará a
promoção de políticas liberais do governo.
Este é o nosso objectivo na promoção da Frente Nacional de
Luta da Classe Trabalhadora [Frente Nacional de Lucha de la Clase Trabajadora].
Esta frente não é um apêndice do Partido Comunista.
Nós somos apenas um factor dentro dela. Há sectores trotskistas
ali e há sectores das bases do PSUV. Na verdade, eles são a
maioria.
Também promovemos o trabalho da Corrente Camponesa Classista Nicomedes
Abreu, tentando trabalhar com diversos actores comunitários, entre eles
a Comuna El Maizal e outras comunas que têm um trabalho realmente
importante, mas não estão sob a liderança do PCV.
Acreditamos que precisamos nos juntar num bloco com estas
organizações comunais, porque são instâncias de
auto-governo que questionam a concepção burocrática do
poder.
Finalmente, diante das agressões imperialistas e da deriva do governo em
direcção à posição "reformista" ou
mesmo "liberal", qual é o papel da solidariedade
internacionalista com o Processo Bolivariano?
O Partido Comunista tem uma linha de trabalho de promoção da
solidariedade, e fazemos isso com a apresentação completa do que
está a acontecer aqui quando viajamos para o exterior. Às
forças de esquerda, aos partidos comunistas e outras
organizações, não escondemos as contradições
que estamos a enfrentar as complexidades do processo e as
tendências que se confrontam , mas sempre deixando claro que o
nosso principal inimigo é o imperialismo. Lutamos dentro do processo,
mas, quando confrontados com o imperialismo, estamos unificados e
disciplinados. Assim, explicamos [as complexidades do que está a
acontecendo aqui dentro], mas também pedimos solidariedade.
Se o imperialismo estado-unidense, seus aliados europeus e a direita
continental puserem as mãos sobre a Venezuela, a situação
se parecerá com a do final da década de 1980, com a queda da
União Soviética e do bloco oriental. Aquele foi um golpe muito
duro para as forças revolucionárias em todo o mundo. Embora os
problemas que enfrentamos aqui sejam enormes, a Venezuela continua a ser a nau
capitania na luta anti-imperialista. Precisamos de uma Venezuela que possa
manter-se no seu terreno enquanto lutamos aqui dentro.
10/Outubro/2019
[*]
Secretário-geral do Partido Comunista Venezuelano.
O original encontra-se em
venezuelanalysis.com/analysis/14687
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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