O movimento trabalhista e a luta socialista na Venezuela atual
por Pedro Eusse
entrevistado por Susan Spronk e Jeffery R. Webber
[*]
Em meados de junho de 2010 entrevistamos Pedro Eusse, secretário
nacional do Partido Comunista da Venezuela (
PCV
) e membro do comitê
executivo provisório da confederação trabalhista
Unión Nacional de Trabajadores (UNT). Figuras revolucionárias do
passado nos fitavam de quadros nas paredes do escritório do PCV no
centro de Caracas. Evitando as interrupções do constante toque do
telefone, Pedro falou apaixonadamente por duas horas acerca da centralidade dos
trabalhadores organizados na luta revolucionária e sobre a necessidade
de união no movimento trabalhista. Ele exprimiu suas esperanças
na reconstrução da UNT em seu terceiro congresso, planejado para
o outono de 2010.
Qual é sua formação política?
Inicialmente eu me filiei à Juventude do Partido Comunista da Venezuela
no estado de Zulia, basicamente um estado produtor de petróleo do oeste
do país. Quando me filiei à Juventude Comunista, estava
justamente terminando a escola secundária e tinha começado a
trabalhar numa empresa de produção agrícola. Eu tinha 17
ou 18 anos, e me envolvi no sindicato. Portanto, minha iniciação
no Partido Comunista coincidiu com minha iniciação no movimento
trabalhista.
Houve um episódio revelador da política sindical na Venezuela
nesta época. Estive envolvido na organização de uma greve
em nossa empresa contra abusos nas horas excessivas de trabalho. Em
conseqüência, fui demitido. Dessa época em diante tenho me
dedicado em tempo integral ao trabalho político, e ao trabalho com o
movimento trabalhista especificamente.
Com o passar dos anos, assumi responsabilidades dentro do partido a
nível nacional, como membro da executiva da Juventude Comunista na
Venezuela. Isso foi lá pelo final dos anos 80, e eu estava em Caracas
quando as revoltas do Caracazo ocorreram.
Mais ou menos à mesma época, assumi também
responsabilidades na Central Unitaria de Trabajadores de Venezuela (CUTV),
fundada em 1963. Comecei atuando com líder da juventude nesta
confederação, a partir do final da década de 80, e mais
tarde fui eleito secretário geral. Assim, minhas atividades sindicais
estiveram muito integradas com meu trabalho político. A decisão
para que me dedicasse a um papel de liderança dentro da CUTV foi do
partido. Eu tinha experiência em luta sindical e portando era considerado
apto para a tarefa.
Na atual conjuntura, estamos no processo de construção de uma
corrente sindical chamada La Corriente Clasista de Trabajadores "Cruz
Villegas" (CCT-CV). Cruz Villegas foi um líder da CUTV, um
líder sindical comunista veterano na Venezuela, que foi torturado e
preso na ditadura de Marco Pérez Jiménez (1952-1958). Cruz
Villegas morreu há dois anos.
Então, a nova corrente está tentando manter o espírito da
luta de classes de Cruz Villegas, e a CUTV, vivos. A nova corrente, CCT-CV, foi
formada com a idéia de unir o movimento trabalhista. Para todos os
propósitos práticos, desativamos a CUTV. A CUTV foi uma central
de trabalhadores muito pequena, basicamente composta por comunistas. Foi muito
forte na década de 60, quando foi fundada, e mantida com perspectiva
pluralista, porque havia outras correntes envolvidas na corrente comunista. Mas
todas as correntes eram de esquerda. A CUTV era a central trabalhista
tradicional da esquerda do movimento trabalhista.
Entretanto, por várias razões, ela começou a encolher em
força e em número. Uma das causas foi a estratégia adotada
pelo partido da Acción Democrática (AD), que estava no poder
nesta época, juntamente com a FEDECAMARAS (a federação do
comércio), o Departamento de Estado dos EUA e as companhias
petrolíferas transnacionais, para criar uma nova espécie de
sindicato. O acordo político Punto Fijo, feito em 1958, basicamente
necessitava de uma central de trabalhadores que expressasse seus interesses, e
esta era a Confederación de Trabajadores Venezolanos (CTV). A CTV
estabeleceu seu controle sobre os trabalhadores do setor público, todas
as empresas do estado, e todas as empresas controladas pelo capital
transnacional. Esta estratégia foi bem sucedida em reduzir o
número e a força da CUTV, com o tempo.
O outro fator que contribuiu para a redução da CUTV foi a
política internacional e a situação econômica, a
liberalização do comércio, que foi impingida à
Venezuela pelo Fundo Monetário Internacional, que exigiu uma
série de políticas neoliberais. O setor têxtil, o
metal-mecânico e outros setores na economia da Venezuela praticamente
entraram em colapso. E essas eram áreas onde a CUTV havia tido
presença significativa. À medida que a indústria se
reduzia mais e mais, a CUTV acabou se vendo com quase nenhum afiliado.
Então, quando Hugo Chávez ganhou a presidência em 1998, e
iniciou a Assembléia Constituinte em 1999, e todo este processo de
mudança, todos nós na esquerda progressista e radical decidimos
colocar um esforço tremendo para destruir o poder na CTV no movimento
trabalhista. Queríamos defender os interesses dos trabalhadores e o
processo revolucionário.
Assim, decidimos que continuar a trabalhar por meio da CUTV não seria a
melhor maneira de contribuir para essa renovação do movimento
trabalhista, mas, ao invés disso, deveria ser criada uma nova corrente
sindical que operaria em espaços mais amplos. Então criamos esta
nova corrente, e desativamos, ou deixamos suspensa, a CUTV.
Isso é parte da estória de como eu me formei politicamente, Hoje,
sou membro da liderança provisória da nova
confederação trabalhista, Unión Nacional de Trabajadores
(UNT). Ainda não houve eleições.
Trabalhamos bastante para que a UNT regulasse suas funções
básicas, de modo que se tornasse uma autêntica central
trabalhista, com capacidade de luta, união e mobilização
dos trabalhadores de modo que seja independente do estado, do partido e
dos patrões.
E, juntamente com outras correntes, conseguimos alcançar algum
nível de reativação da UNT. Estamos capacitados a promover
um congresso nacional no qual finalmente transcenderemos as divisões.
É normal e inevitável que haja conflitos internos, o problema
é quando esses conflitos se tornam paralisantes, divisores e destrutivos.
No passado, este tipo de divisão destrutiva esteve claramente evidente
na UNT. Não sei o quanto você está ao par disso.
Pode nos falar sobre os acontecimentos que levaram à derrocada da UNT?
A UNT tinha o que se pode chamar de um defeito de origem. A UNT foi criada de
modo muito burocrático, com pouco debate entre os próprios
trabalhadores, e com pouca participação dos trabalhadores. Foi
basicamente criada de cima, sendo essencialmente produto da vontade de alguns
lideres.
A primeira liderança da UNT foi simplesmente determinada de cima.
Não foi produto de consultas às bases. Não havia
eleições. As posições eram simplesmente
distribuídas. Portanto, nesta primeira fase, nós [a CCT]
decidimos não participar da UNT, porque este tipo de prática
não era válida. Nossas ações tinham que acompanhar
nossas palavras. Se estávamos promovendo o sindicalismo
democrático não apenas uma democracia formal mas uma
democracia de classe se queríamos um sindicalismo que rompesse
com os esquemas burocráticos e elitistas do passado,
característicos da velha CTV, não deveríamos participar da
UNT da forma em que ela estava inicialmente se formando. Queríamos criar
um sindicalismo que acenderia uma nova esperança para os trabalhadores
venezuelanos, e isso não iria acontecer com as características
que a UNT mostrava no início.
O primeiro congresso da UNT, por exemplo, não foi um congresso
autêntico porque não haviam delegados eleitos. Não houveram
documentos preliminares submetidos ao debate. Havia basicamente um consenso de
que a primeira tentativa era problemática, então um segundo
congresso foi realizado em 2006, a fim de debater realmente o projeto, os
estatutos e os princípios da central dos trabalhadores.
O segundo congresso foi um desastre, entretanto, que acabou em golpes. O
descontentamento tinha sido alimentado por muito tempo. As diferentes
facções viam a UNT como "sua"
organização, e tratavam outras facções como
inimigos irreconciliáveis. A situação era ainda mais
lamentável dado que havia representantes internacionais do movimento
trabalhista presentes ao congresso.
Participei do congresso como convidado. Na época estávamos num
período de transição, tentando nos unir à UNT. Mas
não havia ninguém para conversarmos. Se se queria falar com a
UNT, tinha-se que falar com todas as diferentes tendências separadamente,
já que não havia liderança.
O congresso fez com que uma das correntes mais importantes, a Fuerza
Bolivariana de Trabajadores (FBT), deixasse a UNT, junto com a corrente
trotskista liderada por Orlando Chirino, e várias outras correntes,
dividindo o movimento trabalhista.
A FBT é uma das mais importantes embora problemática
correntes no movimento trabalhista venezuelano porque foi o instrumento
sindical do Movimiento Quinta República, a organização
política de Chávez na época. Depois de sua
separação, a FBT começou o trabalho de construir uma
central de trabalhadores inteiramente nova e diferente, sobre a qual eles
queriam controle total e incondicional. Essa nova central, que eles chamaram de
Central Socialista de Trabajadores ( CST) não foi constituída na
prática.
A nova central proposta seria uma ameaça ao movimento trabalhista
independente, porque a FBT é contra qualquer confronto com o estado. O
estado venezuelano continua a ser um estado burguês, ainda que tenha se
submetido a algumas mudanças durante o período Chávez.
Eles argumentam que o movimento trabalhista não deveria confrontar o
estado porque o próprio estado ainda está em
transformação. Sua falta de independência em
relação ao estado tem sido manifestada várias vezes. Por
exemplo, durante a greve da Sidor (Siderúrgica de Orinoco C.A.), a FBT
defendeu os patrões e abandonou os trabalhadores, Fizeram isso
abertamente. Neste período, o ministro do Trabalho, Jose Ramón
Rivero, um militante da FBT, tinha relações próximas com o
governador Rangel Gómez no estado de Bolívar, onde se situa a
Sidor. Gómez é totalmente direitista apesar de ser
ostensivamente parte do processo bolivariano, como muitos outros "no
processo" ele está realmente à direita.
Então, Rivero tomou o lado da multinacional argentina
proprietária da Sidor, contra os trabalhadores. E a FBT se alinhou com
Rivero, deixando de mostrar o menor sinal de solidariedade com os trabalhadores
que foram violentamente reprimidos pela polícia e pela Guarda Nacional.
Outro exemplo é a greve que ocorreu em 2009 na fábrica da
Mitsubishi em Anzoátegui. Neste caso, houve um ataque da polícia
aos trabalhadores, que resultou em duas mortes. E o Ministério do
Trabalho deu luz verde para que a Mitsubishi demitisse 11 dos 15 líderes
sindicais na fábrica, desestabilizando o sindicato. Um número
desconhecido de trabalhadores também foi demitido. O objetivo do
Ministério do Trabalho e da Mitsubishi era destruir a capacidade de
resistência do sindicato. Ao invés de ficar ao lado dos
trabalhadores, a FBT condenou o sindicato, dizendo que ele estava cheio de
anarquistas que sabotaram a companhia. Em nenhum momento expressaram
solidariedade aos trabalhadores, ou questionaram a posição tomada
pela companhia, ou os horríveis assassinatos de trabalhadores que
aconteceram. Nem rejeitou ou condenou os disparos feitos a líderes
sindicais e outros trabalhadores.
Dados esses fatos, como deveríamos trabalhar com esta corrente sindical?
Ela deve ser derrotada. Então, com todos os problemas evidentes na UNT,
não obstante é essencial que trabalhemos em construí-la,
de modo a que ela se torne um instrumento autêntico para os
trabalhadores, com independência dos patrões, do estado e do
partido.
O Partido Comunista, e a corrente que o representa na UNT, tem feito
várias propostas, que estão em discussão com as bases,
numa tentativa de criar conscientização, entre os trabalhadores,
sobre seu papel na sociedade. Temos defendido o estabelecimento de conselhos
socialistas dos trabalhadores. Há também uma proposta de lei em
defesa desta posição, atualmente sob deliberação da
Assembléia Nacional.
O outro problema com a UNT desde o início foi a proposta para o extremo
oposto do sindicalismo horizontal, sob o qual ninguém teria
responsabilidades de liderança; todos patrocinariam igualmente a UNT.
Nós [a CCT] nunca concordamos com isso, também. E, felizmente,
desde que nos unimos à UNT combatemos esta idéia através
da luta e do debate aberto.
Não concordamos com o horizontalismo porque um movimento sindical tem
que ser um instrumento de combate, de luta. Deve ter a capacidade de responder,
e de manter a unidade. No período em que não houve qualquer
liderança, e todas as seções na UNT eram iguais, cada um
dos coordenadores falava por si mesmo como se estivessem falando pela UNT.
Assim um representante da UNT diria alguma coisa, e outro líder o
denunciaria. Isso era absurdo. Tornou impossível a
construção de um movimento sindical efetivo e de largo alcance.
Tornou-se uma situação de permanente confronto, e gerou conflitos
irreconciliáveis. A UNT acabou destruindo-se a si mesma.
É verdade que hoje na Venezuela existe uma democracia participante e
protagonista, sem dúvida, mas isso não nega a
representação seja ao nível do estado ou em
organizações sociais. Por exemplo, quando uma comunidade elege um
porta-voz para seu conselho comunitário estão elegendo um
representante que está subordinado à soberania e vontade das
decisões populares através da assembléia
comunitária. E é assim que deveria ser. Mas deve ser entendido
que esta é uma forma de representação. Em resumo,
necessitamos de representantes, mas não de representantes que usurpem o
poder da coletividade. Representantes que expressem as posições a
que o debate entre as bases chegou, através de mecanismos estabelecidos
na assembléia da UNT.
Agora que esta orientação horizontalista foi derrotada, os
debates e lutas atuais giram em torno das diferentes correntes que tentam
consolidar mais influência e liderança dentro da UNT. Isto
é normal e não deve ser visto como problemático. Só
se torna um problema quando a luta por liderança termina por destruir a
própria organização
Qual tem sido o papel do movimento trabalhista no processo?
A fraqueza mais importante do processo revolucionário na Venezuela
atualmente é a ausência de um movimento trabalhista protagonista,
com independência, com força, com propósitos, com suas
próprias exigências. Ainda se necessita construir um movimento de
trabalhadores com objetivos revolucionários sem que se renuncie
à importância das exigências por reformas.
Há revolucionários em todos os setores do movimento trabalhista,
tal como em Guayana. Há muitos sindicatos conduzidos por
reacionários ou reformistas, mas a base dos trabalhadores em Guayana tem
feito grandes avanços em sua conscientização.
Através do Plano Socialista para Guayana tem havido uma
experiência de gestão direta por trabalhadores nessas empresas,
determinando como os trabalhadores controlarão os meios de
produção.
Os trabalhadores do setor petrolífero também avançaram,
mas ainda há uma grande influência da burocracia. As correntes
revolucionárias no setor petrolífero ainda são fracas.
Muitos diriam, "sim, estamos com Chávez, estamos com o
processo", mas eles não se perguntaram qual é o papel
transformador dos trabalhadores no processo. Você está com
Chávez porque ele está aumentando seus salários e
melhorando as condições de trabalho em seu setor, ou você
está com Chávez porque vamos abolir o modo capitalista e
produção e construir o socialismo?
Ainda que haja alguns bolsões de atividade, muitos dos sindicatos atuais
na Venezuela se descrevem como bolivarianos, revolucionários e mesmo
socialistas, mas são reformistas na prática. Esses sindicatos,
portanto, não vêm seu papel na sociedade como transformadores da
mesma e dos meios de produção, mas simplesmente como obtenedores
de melhorias econômicas pouco significativas para os trabalhadores,
melhores salários e contratos coletivos para seus membros. Eles
não vêm seu papel como lutadores pela transformação.
Este é um grande problema de temos que enfrentar, já que a
ausência de um movimento como este [sindicato revolucionário]
permitiu que outros setores sociais, outras classes sociais tivessem
influência no processo revolucionário. Estes setores têm
conflitos específicos com o imperialismo norte-americano, com as
transnacionais, mas também se opõem ao socialismo. A burguesia
nunca será favorável ao socialismo, assim como a pequena
burguesia. Há, naturalmente, indivíduos da burguesia ou pequena
burguesia que apoiarão os objetivos de construir o socialismo, mas eles
são exceção. Como classes, como instrumentos sociais,
essas classes irão defender seus interesses suas
posições e privilégios e esses interesses
são evidentemente contraditórios com os interesses da classe
trabalhadora.
A pequena burguesia capturou o controle da maior parte da
administração pública e das empresas estatais. E assim
temos essas camadas controlando a administração pública,
sem qualquer tipo de controle social ou trabalhista e da comunidade, na
indústria petroquímica, as empresas estatais em Guayana, e assim
por diante. E eles agem no seu próprio interesse, através de
mecanismos de corrupção, acumulando riquezas e recursos
econômicos. Obviamente, este setor não promoverá a
submissão dessas empresas ao controle social, no qual só teriam a
perder.
O Presidente Chávez, especialmente nos últimos dois anos, tentou
mudar a economia, o modo de produção e a forma de estado. Mas o
problema é que se esses objetivos não forem assumidos com
força, paixão e inteligência pelos próprios
trabalhadores, a burocracia na administração pública
a pequena burguesia que tem controle sobre partes importantes do estado
venezuelano impedirá a consecução desses objetivos.
Se uma empresa é nacionalizada e depois gerida da mesma forma que uma
empresa privada antes dela, os trabalhadores não sentirão que
este é um projeto deles. Acontece freqüentemente que os chefes nas
empresas públicas cometem contra os trabalhadores tantos abusos quando
os chefes privados. Obviamente, esta situação não é
automaticamente resolvida pela nacionalização. Somos
favoráveis à continuidade das nacionalizações que
têm ocorrido, e que continue esse processo de
expropriações, mas as contradições têm que
ser admitidas.
Por exemplo, apoiamos o movimento do governo de expropriar alguns dos
monopólios que atualmente controlam a produção de
alimentos no país, como a Polar. Mas o problema é que as empresas
do estado que foram criadas para produção e
distribuição de alimentos atingem apenas uma pequena
proporção das necessidades nacionais. Não superamos a
extrema dependência de importação de alimentos,
Então há ainda um pequeno grupo de empresas que controlam
aproximadamente 80% do alimento produzido no país, assim como o do
alimento importado.
A única maneira pela qual o governo pode assegurar que esses pequenos
grupos não usem seu poder para especular, e para se engajar
politicamente de maneira contra-revolucionária, é através
da expropriação.
Estamos propondo a nacionalização dos bancos, de modo a que os
interesses privados não controlem o acesso aos recursos financeiros, e
de modo a que esses recursos possam ser usados para fortalecer os setores
produtivos fundamentais da economia.
Estamos ainda pedindo por nacionalizações mais profundas e de
maior alcance, que incluam novas formas de gestão, envolvendo controle
coletivo sobre a tomada de decisões. Precisamos nos mover além da
estatização e em direção à
socialização dos meios de produção. O problema
é que os setores que eu mencionei a burguesia e a pequena
burguesia que o controlam resistem a esta transição. Eles
dizem "Certo, vamos nacionalizar as empresas, mas nós
próprios as controlaremos".
Esta é a contradição fundamental num nível geral
que não será resolvida em favor dos trabalhadores, numa
direção socialista revolucionária, sem um movimento
trabalhista como o que eu sugeri que exigíssemos. É por isso que
propusemos coisas como conselhos socialistas dos trabalhadores, e
construímos um movimento de trabalhadores com orientação
revolucionária, um movimento de trabalhadores que incorpore
trabalhadores de setores públicos, privados e mistos da economia, e um
movimento que incorpore todas as correntes que estão no processo
revolucionário.
Qual é a relação entre os conselhos comunitários,
de um lado, e o movimento trabalhista, de outro?
Há muito pouco relacionamento entre os dois. O movimento trabalhista
é muito fraco para estabelecer relacionamento com as comunidades, que
são parte importante do processo bolivariano.
Há entretanto exemplos isolados. Algumas comunas começaram a
construir residências, por exemplo, e tentaram estabelecer
relações com sindicatos da construção. Mas
freqüentemente é um relacionamento muito complicado e conflituoso,
porque os sindicatos da construção na Venezuela estão
muito deteriorados. Alguns deles mal podem ser chamados de sindicatos, e seriam
melhor descritos como máfias que controlam o acesso ao trabalho. Muitas
vezes, os sindicatos tentam estabelecer controle sobre a comuna para determinar
quem trabalha nos projetos de construção. Isso ocorreu quando as
comunidades tentaram construir suas próprias escolas, clínicas
médicas, centros esportivos e assim por diante. E criou-se uma
dinâmica na qual as comunas tentam evitar relações com os
sindicatos da construção. Porque, muitas vezes, os sindicatos da
construção não atenderam os interesses nem dos
trabalhadores nem da comunidade, mas apenas dos líderes sindicais.
Nossa posição, que expressamos a camaradas nos conselhos comunais
e a trabalhadores da construção, é que os sindicatos
existentes precisam se transformar para que possam trabalhar efetivamente com
as comunas. Só o fato de os sindicatos serem hoje controlados por uma
máfia não justifica uma perspectiva de oposição
à sindicalização da indústria da
construção em geral. Ter sindicatos é importante porque
freqüentemente a infra-estrutura e a construção de moradias
nas comunas é contratada fora seja pela própria comuna
seja pelo Ministério de Obras Públicas e Moradia de
empresas privadas. Então essas empresas privadas que possuem a
maquinaria, tecnologia e recursos necessários tentam empregar
trabalhadores ao menor custo possível a fim de lucrar o máximo
possível, mesmo que isso signifique violação dos direitos
dos trabalhadores. As comunas deveriam usar o trabalho sindicalizado, mas
não há nenhum relacionamento planejado, organizado e
político entre as comunas e o movimento trabalhista, o que é uma
enorme fraqueza.
Para fins de esclarecimento, em sua perspectiva quais são as
forças sociais mais importantes no processo bolivariano?
Há diversas forças sociais atuantes no processo bolivariano, como
sugeri antes. A pequena burguesia tem a maior parte da influência no
processo, setores progressistas da pequena burguesia na maioria dos casos,
Esses setores foram radicalizados pela sua experiência com o
neoliberalismo nos anos 80 e 90, quando setores da burguesia, a pequena
burguesia e as classes médias foram jogadas em condições
sociais de miséria, à medida em que eram substituídas por
frações mais poderosas da burguesia.
Esta dinâmica foi o que ajudou a criar uma base muito grande para a
oposição contra as políticas da AD e COPEI. E
Chávez portanto recebeu um nível impressionante de apoio, e
não apenas dos setores mais empobrecidos da população
camponeses, trabalhadores e o lumpen-proletariat mas
também camadas da classe média e da pequena burguesia.
Então, quando as discussões giram sobre a necessidade de que esse
processo transite para o socialismo, as contradições sobem
à superfície. Essas camadas da classe média, a pequena
burguesia, e parte da burguesia nacional somente querem se fortalecer frente a
fazer alianças com as transnacionais com apoio do estado venezuelano. E
elas receberam esse apoio através das rendas do petróleo,
Então quando forças populares exigem a socialização
das rendas do petróleo, dos meios de produção e do
processo político, esses setores armam uma oposição
séria. Essa dinâmica cria uma situação
contraditória.
No geral, quando olhamos o processo bolivariano, o setor com mais
influência tem sido a pequena burguesia, tanto em seus componentes civis
como militares. Há muitos oficiais comprometidos com a defesa do
Presidente Chávez que são profissionais da classe média.
Alguns deles constituem parte da pequena burguesia porque possuem alguma terra,
e possuem propriedades.
A principal coisa a confrontar é que se não há qualquer
comprometimento real com um novo modo de administração
pública, um novo modo de gestão econômica, que é
participativo e democrático e subordinado à vontade dos
trabalhadores e das comunidades, essas contradições objetivas
serão expressas.
Mas se não há posição clara sobre o papel do
estado, as instituições e as empresas públicas, para
revolucionar a forma de gestão e liderança, as
contradições objetivas da situação
continuarão a evitar o aprofundamento do processo revolucionário.
O que pode resolver esta situação? Um movimento trabalhista
forte, em aliança com as comunas, pode levar o processo a uma
direção revolucionária. Um dos obstáculos é
que muitas das pessoas trabalhando com as comunas não partilham desta
perspectiva. Elas vêem a formação dos conselhos
comunitários meramente como um modo de atender exigências
imediatas e de muito curto prazo das suas comunidades. Elas não
vêem seu papel como transcendendo essas questões, como
transformadoras da estrutura total da sociedade.
Os conselhos comunitários, os trabalhadores e os camponeses precisam
confrontar os monopólios que ainda controlam grandes setores dos meios
de produção, assim como a burocracia na
administração pública. Se os conselhos comunitários
são formados apenas para receber dinheiro do estado e para suprir
necessidades básicas de suas comunidades, não
desempenharão papel revolucionário.
Também é o caso de haver pessoas que trabalham através de
conselhos comunitários para se apropriar do dinheiro que está
vindo do estado e é destinado à comunidade. Isso explica porque
em algumas comunidades há intensas lutas internas sobre quem
controlará os recursos provenientes do estado. Esses conflitos
são expressão de valores capitalistas residuais, e em particular
de valores associados com um capitalismo passado que foi extremamente
dependente do estado e da renda do petróleo. Essa tradição
de luta por rendas petrolíferas gerou esses tipos de
deformações e valores, que vão contra a
produção, e gravitam, ao contrário, somente para capturar
os recursos do estado.
Mudando de assunto por um momento, quais são os pontos fortes e fracos
do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) como partido?
Começando com os pontos fortes, certamente há o caso de que
Chávez e a revolução precisaram e ainda precisam de uma
maneira de unificar indivíduos e correntes políticas que
apóiam Chávez, e que não estão inclinadas a se
unirem ao Partido Comunista da Venezuela (PCV) ou outros partidos existentes
à esquerda.
Antes do PSUV, havia o Movimiento Quinta República (MVR), mas este
não teve características de um partido. Foi fundamentalmente um
instrumento eleitoral. Além disso, havia muitos movimentos fora do MVR
que apoiavam o processo mas estavam isolados, e que estão agora
integrados ao PSUV. Estes são desenvolvimentos positivos que permitiram,
entre outras coisas, importantes vitórias eleitorais e políticas.
Mas as fraquezas do PSUV, do nosso ponto de vista, têm a ver com o fato
de que é um partido policlassista que tenta juntar interesses de classe
irreconciliáveis. Há indivíduos e setores dentro do
partido afiliados a frações da burguesia urbana, assim como
à classe de proprietários rurais, e fazendeiros. Há dentro
do partido proprietários de pequenos, médios e até mesmo
grandes empresas privadas. Esses setores coexistem com camponeses sem terra,
trabalhadores, setores super-explorados da população, setores
progressivos da classe média e intelectuais revolucionários.
Há portanto setores no partido cujos interesses os conduzem à
necessidade de revolução e socialismo, e outros cujos interesses
estão em manter o capitalismo, ainda que um capitalismo reformado. Todos
esses interesses coexistem dentro do PSUV. Da mesma forma, há um
nível similar de diversidade ideológica no partido.
Esta tensão interna e essas contradições permanentes
tornam muito difícil para o partido organizar os setores populares e
construir o socialismo.
Essas contradições internas se expressam em diferentes momentos,
incluindo por exemplo os períodos eleitorais. Então temos
representantes do PSUV que conquistaram prefeituras e governos que estão
claramente alinhados com frações da burguesia e da pequena
burguesia. E uma vez que conquistaram essas posições, eles usam
seu poder institucional para realçar as contradições
internas do partido. Isto é o que está acontecendo agora.
Quando efectuaram eleições internas, procederam precisamente como
qualquer partido burguês faria. Cada candidato defende sua
posição contra os outros, e quem quer que tenha mais dinheiro
para promover suas causas através de propaganda e outros, ganha dos
candidatos que não têm esses recursos. A ideologia do partido
é também confusa devido aos interesses e correntes que competem,
e assim por diante. Harmonizar e construir uma ideologia hegemônica
dentro do partido é praticamente impossível.
Somos aliados do PSUV a despeito dessas fraquezas, desde que o partido tenha o
apoio das massas, o que lhe permite vencer eleições. Ao
nível eleitoral o PSUV conseguiu um patamar importante de
eficiência. No momento atual, isso é uma necessidade.
Mas olhando além da conjuntura imediata em direção ao
futuro, as fraquezas internas do PSUV podem muito bem colocar o processo
revolucionário em risco.
Podemos ver que há uma nova contraofensiva do imperialismo que
está sendo lançada na América Latina, com o golpe em
Honduras, as novas bases militares dos EUA na Colômbia, a
eleição do direitista Sebastian Piñera no Chile, as
campanhas de desestabilização na Bolívia e no Equador, e
assim por diante. Qual é a estratégia imperialista em
relação ao processo bolivariano na Venezuela?
É evidente que há uma estratégia imperialista
multifacetada contra a Venezuela. De um lado há uma estratégia
para distorcer a opinião pública contra o processo
revolucionário através da mídia privada mundial e dento do
país. Os instrumentos de dominação ideológica
são armas mortais, não somente contra a revolução
venezuelana mas contra os processos revolucionários da América
Latina. Eles estão continuamente gerando uma falsa imagem do processo
que Chávez é um ditador, que quer uma ditadura, que viola
direitos humanos, etc, etc.
Nos últimos anos tem havido uma campanha de propaganda que diz que o
Presidente Chávez apóia o terrorismo, e que o processo
revolucionário está conectado ao tráfico de drogas.
É o mesmo conjunto de instrumentos usado no passado contra outros
processos revolucionários.
Este aspecto da estratégia imperialista não tem tido tanto
êxito quanto se esperava dados os esforços nela investidos.
Chávez provou ser muito ágil em construir relações
internacionais diretas e de amplo alcance, o que tem ajudado imensamente o
processo. Então esta campanha imperialista para manipular a
opinião pública internacional está colidindo diretamente
com a orientação internacional da liderança do processo
bolivariano.
A outra possibilidade, além da campanha mediática para satanizar
Chávez, é o ataque militar direto. Não podemos nunca
excluir a possibilidade da ofensiva militar contra a Venezuela. Esta
possibilidade está clara na construção de forças
militares que praticamente cercam a Venezuela na Colômbia
há sete bases com presença militar estadunidense, eles mantiveram
presença no Peru e Paraguai, e no Caribe com a reativação
da Quarta Frota. Isso deve continuar a aumentar, porque não há
nenhuma descontinuidade nos negócios externos do estado norte-americano
ente Bush e Obama talvez haja diferenças nas formas de diplomacia
política, mas há uma profunda continuidade nos níveis de
estratégias militares e econômicas.
Nunca tivemos ilusões de que a política externa de Obama seria
diferente. O presidente dos Estados Unidos é um empregado do
imperialismo, seja ele preto ou branco.
Além da estratégia da mídia e da elevação da
presença militar norte-americana na América Latina, cercando a
Venezuela, há ainda a estratégia de mover paramilitares da
Colômbia para a Venezuela. O estado colombiano é um operador
político contra os processos revolucionários na América
Latina; foi ativado para este propósito. E, além do movimento dos
paramilitares, há uma provocação política aberta
contra a Venezuela, que pode se tornar uma provocação militar. A
liderança colombiana sob a presidência de Juan Manuel Santos
é uma ameaça porque ele pode provocar um conflito militar com a
Venezuela a fim de justificar uma intervenção imperialista. Isto
é perfeitamente possível.
Há também a estratégia da intromissão imperialista
nas contradições internas do processo, por exemplo entre os
militares da Venezuela. Os militares venezuelanos foram criados com a
visão imperialista de que seu papel era policiar o país contra
ameaças internas; há oficiais que se opõem ao processo e
que ainda compartilham dessa visão. Naturalmente, eles foram
substancialmente enfraquecidos, porque Chávez construiu as forças
revolucionárias com os militares. Mas alguns oficiais dizem que
estão com o processo mas estão esperando o momento oportuno para
se reativarem. Esta é uma possibilidade muito real. Já tivemos a
experiência da tentativa de golpe de abril de 2002. Pessoal militar que
parecia estar ao lado do presidente foram os operadores por trás do
golpe de estado. Então esta pode ser uma das linhas de
ação das quais o imperialismo tenta tirar vantagem.
E, naturalmente, o imperialismo usa as forças internas de
oposição na Venezuela para fomentar instabilidade de
desestabilização econômica, para se envolver em
especulações, e assim por diante. Sabemos que há
contra-revolucionários ocupando posições no estado. Eles
podem ser ativados em momentos oportunos, Os problemas que têm ocorrido
na indústria alimentícia são provavelmente não o
resultado de mera irresponsabilidade e corrupção, mas sim
sabotagem intencional.
Todos esses componentes fazem parte de um conjunto de linhas de
ação que objetivam enfraquecer o processo interno e fomentar um
golpe de fora do processo.
Por estas razões é importante fortalecer a
revolução. O papel do PSUV, a despeito de todas as suas
fraquezas, será importante. Que o PSUV possa ativar massas populares
nestes momentos será importante, para destruir quaisquer iniciativas
contra-revolucionárias.
Temos argumentado, todavia, que a revolução pode se proteger por
meio de uma união coletiva com sua liderança. Então
Chávez pode se alinhar ao PSUV, mas também ao PCV.
É importante construirmos um tipo de frente abrangente, com
liderança coletiva, de forma que Chávez possa liderar junto com o
PSUV, o PCV e outros fatores da revolução que podem ser pequenos
mas têm uma natureza revolucionária. Podemos estabelecer uma
frente politico-social, para transformar o estado e neutralizar a
contraofensiva dos inimigos deste processo.
Até o momento, não nos unimos nesta frente. Há unidade
quando há eleições, mas não durante o resto do
tempo. Esta é uma grande fraqueza do processo.
[*]
Susan Spronk leciona na School of International Development and Global Studies
na Universidade de Ottawa. É pesquisadora associada do Projeto de
Serviços Municipais e publicou diversos artigos sobre
formação e classes e política de águas na
Bolívia.
Jeffery R. Webber ensina política na Universidade de Regina. É
autor de Red October: Left-Indigenous Struggles in Modern Bolivia (Outubro
vermelho: As lutas da esquerda indígena na Bolívia moderna -
Brill, 2010), e Rebellion to Reform in Bolivia: Class Struggle, Indigenous
Liberation and the Politics of Evo Morales (Rebelião para reformas na
Bolívia: A luta de classes, a liberação ondígena e
a política de Evo Morales - Haymarket, 2011).
O original encontra-se em
http://www.socialistproject.ca/bullet/394.php
. Tradução de RMP.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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